Braga é uma cidade que respira história e fé por todos os lados. Fundada pelos romanos há dois mil anos como Bracara Augusta, é uma das cidades mais antigas de Portugal e sua capital religiosa: sede da arquidiocese mais antiga do país, com uma catedral milenar e um patrimônio de igrejas, conventos e palácios barrocos tão abundante que lhe rendeu o apelido de 'Roma portuguesa'. Passear pelo centro histórico é percorrer vinte séculos de história entre fachadas brancas, jardins floridos, praças com arcadas e o badalar constante dos sinos.
Mas Braga não é só solenidade antiga. Nos arredores fica um dos monumentos mais impressionantes de Portugal: o santuário do Bom Jesus do Monte, com sua monumental escadaria barroca em zigue-zague que sobe a encosta entre fontes, estátuas e capelas, coroada por uma igreja e vistas magníficas. É Patrimônio Mundial da Unesco e uma das imagens mais reconhecíveis do país. E, ao mesmo tempo, Braga hoje é uma cidade jovem, universitária e vibrante, com uma das populações mais jovens de Portugal, vida noturna animada e um ar moderno que convive com seu passado milenar.
Este guia percorre o essencial de Braga com um olhar prático e acolhedor: como visitar a catedral e o centro histórico, como subir ao Bom Jesus do Monte (incluindo o encantador funicular movido a água), quais igrejas e praças não perder, quando ir para viver a famosa Semana Santa ou as festas de São João, onde comer a saborosa cozinha do Minho e como combinar a visita com a vizinha Guimarães. Braga é o coração espiritual do norte de Portugal e merece muito mais do que uma visita corrida.
Braga é uma das cidades mais antigas de Portugal e uma das mais antigas do cristianismo na península. Foi fundada pelo imperador Augusto por volta de 16 a.C. com o nome de Bracara Augusta e se tornou uma próspera capital do noroeste hispânico (a Gallaecia), cruzamento de estradas romanas. Com a queda de Roma, no século V passou a ser capital do Reino Suevo, um dos primeiros reinos germânicos cristãos da Europa Ocidental, e muito cedo foi uma importante sede episcopal. Depois dos períodos visigodo e muçulmano, a diocese de Braga foi restaurada no século XI e sua arquidiocese reivindicou o título de 'Primaz das Espanhas', numa disputa de prestígio com Toledo. Durante a Idade Média, os arcebispos de Braga foram senhores da cidade e figuras de enorme poder. A grande transformação veio no Renascimento e, sobretudo, no século XVIII: o arcebispo Dom Diogo de Sousa renovou a cidade no início do século XVI, e depois o barroco a encheu de igrejas, palácios e fontes, dando-lhe a fisionomia atual de 'Roma portuguesa'. Dessa época, de meados do século XVIII em diante, data o santuário do Bom Jesus do Monte, com sua escadaria sagrada, expressão máxima do barroco religioso e da devoção bracarense, hoje Patrimônio Mundial da Unesco (2019). Capital religiosa de Portugal durante séculos, Braga viveu sua Semana Santa e suas tradições com intensidade e, no século XX, se modernizou e se tornou, com sua universidade, uma cidade jovem e dinâmica. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The cradle of the nation: Guimarães, where "Portugal was born", Braga, city of archbishops and religious capital, and Porto, the city on the Douro whose wine conquered the world with the help of English merchants.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Braga é uma das cidades mais antigas de Portugal e de toda a Península Ibérica, com uma história urbana ininterrupta de mais de dois mil anos. Sua origem está na fundação romana: por volta do ano 16 a.C., na época do imperador Augusto, foi estabelecida a cidade de Bracara Augusta, em homenagem ao próprio imperador e à tribo local dos brácaros, que habitava a região. A nova cidade nasceu como um centro administrativo planejado, com traçado regular de ruas, fórum, templos, termas e toda a infraestrutura de uma cidade romana.
Bracara Augusta alcançou grande importância. Chegou a ser capital de uma das divisões administrativas do noroeste hispânico, o Conventus Bracaraugustanus, e, mais tarde, da província da Gallaecia, criada no Baixo Império. Era um entroncamento de estradas romanas que ligavam o noroeste da península, um centro econômico e administrativo de primeira linha. Sua prosperidade se reflete nos vestígios que se conservam até hoje: as termas do Alto da Cividade, com seu teatro, a singular Fonte do Ídolo (um monumento-fonte com relevos de divindades) e inúmeros achados reunidos no Museu D. Diogo de Sousa.
Essa condição de capital provincial deu a Braga, desde a Antiguidade, um peso institucional e religioso que ela manteria ao longo dos séculos. Quando o cristianismo se espalhou pela península, Bracara Augusta foi uma das primeiras e mais importantes sedes episcopais do ocidente hispânico, o que lançaria as bases de seu futuro papel como capital religiosa de Portugal.
Com a crise e o desmoronamento do Império Romano do Ocidente no século V, os povos germânicos entraram na Península Ibérica. No noroeste se estabeleceu um povo germânico, os suevos, que fundaram um reino próprio: o Reino Suevo, com capital justamente em Braga (a antiga Bracara Augusta). Esse reino, surgido por volta do ano 410, foi um dos primeiros reinos germânicos da Europa Ocidental e ocupa um lugar especial na história: seus reis se converteram ao cristianismo, o que faz do Reino Suevo um dos primeiros estados germânicos cristãos do continente.
Durante o período suevo (século V e boa parte do VI), Braga reforçou seu papel como centro político e, sobretudo, religioso. Foi sede de importantes concílios da Igreja: os Concílios de Braga, que definiram aspectos da disciplina eclesiástica e combateram heresias como o priscilianismo. Figuras como São Martinho de Dume (São Martinho de Braga), um bispo de grande influência, deixaram uma marca profunda na cristianização da região e na organização da Igreja do noroeste. A diocese de Braga adquiriu assim um prestígio e uma antiguidade que reivindicaria ao longo de toda a sua história.
No ano 585, o Reino Suevo foi absorvido pelo Reino Visigodo de Toledo, e Braga passou a fazer parte da monarquia visigoda, mantendo sua importância como sede episcopal. Essa longa continuidade como centro eclesiástico, desde a época romana e sueva, é a raiz da condição de Braga como uma das sedes cristãs mais antigas e veneráveis da península, e explica sua posterior aspiração ao título de 'Primaz das Espanhas'.
Depois dos séculos de domínio muçulmano que se seguiram à invasão de 711, e com o avanço da reconquista cristã, a diocese de Braga foi restaurada no século XI (por volta de 1070), recuperando seu antigo esplendor eclesiástico. A partir de então, Braga se firmou como a grande sede religiosa do noroeste da península e, mais tarde, do reino de Portugal. A reconstrução de sua catedral (a Sé), iniciada entre os séculos XI e XII, foi o símbolo desse renascimento.
O arcebispado de Braga reivindicou para si um título de enorme prestígio: o de 'Primaz das Espanhas', ou seja, a primazia sobre as demais sedes da Península Ibérica. Isso o colocou numa longa e famosa disputa com o arcebispado de Toledo, que reclamava a mesma honra. A rivalidade entre Braga e Toledo pela primazia foi um tema recorrente na política eclesiástica medieval. Embora a questão nunca tenha sido resolvida de forma totalmente conclusiva, Braga manteve, e mantém até hoje, o título de Primaz, símbolo de sua antiguidade e de seu peso dentro da Igreja.
Durante a Idade Média, os arcebispos de Braga não eram apenas autoridades religiosas: exerciam também um poder senhorial quase principesco sobre a cidade e seu território. Eram os senhores de Braga, com jurisdição civil, e moravam no imponente Paço Arquiepiscopal. A cidade cresceu à sua sombra, marcada pela religião, pelas peregrinações e pela vida eclesiástica. Segundo a tradição, na catedral repousam os restos de Henrique de Borgonha e Teresa de Leão, pais de Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, o que liga Braga às próprias origens da nacionalidade portuguesa.
Braga passou por uma grande transformação no início do século XVI graças à figura do arcebispo Dom Diogo de Sousa (arcebispo entre 1505 e 1532), um verdadeiro renovador urbano. Inspirado pelas ideias do Renascimento, Dom Diogo reorganizou a cidade: abriu e alargou ruas, criou praças, ergueu fontes, melhorou a catedral e deu a Braga uma imagem mais monumental e ordenada. Sua marca é comparável à de um grande mecenas urbano, e muitas das vias e espaços do centro histórico atual datam da sua época.
Mas o auge artístico de Braga chegou com o barroco, nos séculos XVII e XVIII. Movidos pelo espírito da Contrarreforma e pela riqueza da Igreja, os arcebispos e as ordens religiosas encheram a cidade de igrejas, conventos, palácios, fontes e escadarias de decoração barroca exuberante. As fachadas lavradas em granito, os interiores cobertos de talha dourada, os azulejos e os retábulos transformaram Braga numa vitrine do barroco português. Foi então que a cidade ganhou seu famoso apelido de 'Roma portuguesa', pela densidade e riqueza de seu patrimônio religioso, comparável, guardadas as proporções, ao da capital da cristandade.
A essa época, e às décadas centrais do século XVIII em diante, pertence a grande obra que hoje simboliza Braga: o Santuário do Bom Jesus do Monte, com sua monumental escadaria sacra em zigue-zague. Essa via-sacra monumental, com suas fontes alegóricas, capelas e estátuas, é o ápice do barroco religioso português e a expressão mais acabada da profunda religiosidade da cidade. Sua construção se estendeu por muito tempo, e o conjunto foi concluído e embelezado nos séculos seguintes.
O Santuário do Bom Jesus do Monte merece um capítulo à parte na história de Braga, porque é seu monumento mais emblemático e um caso excepcional da arte sacra europeia. Localizado numa colina arborizada nos arredores da cidade, seu elemento mais famoso é a escadaria barroca em zigue-zague que sobe a encosta ao longo de mais de meio quilômetro, conduzindo o peregrino, degrau a degrau, até a igreja que coroa o topo.
A escadaria foi concebida como uma via sacra, um caminho de meditação e ascensão espiritual. Ela se organiza em lances carregados de simbolismo: a escadaria dos Cinco Sentidos, com fontes que representam a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato; e a escadaria das Três Virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade). Ao longo do percurso se distribuem capelas com cenas da Paixão de Cristo, estátuas de personagens bíblicos e profetas, fontes e um refinado jogo de geometria e perspectiva barroca em branco e granito. É uma obra-prima da integração entre arquitetura, escultura, água e paisagem. Em 1882 foi inaugurado o funicular do Bom Jesus, o mais antigo do mundo movido por contrapeso de água, que até hoje leva os visitantes até o alto.
Em 2019, a Unesco inscreveu o Santuário do Bom Jesus do Monte na lista do Patrimônio Mundial, reconhecendo seu valor universal excepcional como exemplo notável de um 'Sacro Monte' (monte sagrado) barroco, a tradição europeia de recriar lugares santos em paisagens naturais para a devoção e a peregrinação. O santuário consagrou de vez Braga como um grande centro de peregrinação, junto com o vizinho santuário do Sameiro, o segundo mais importante de devoção mariana em Portugal, depois de Fátima.
Durante os séculos XIX e XX, Braga manteve seu caráter de capital religiosa de Portugal e de centro de um fervor popular que se manifestava, e ainda se manifesta, em suas grandes celebrações. A Semana Santa de Braga é uma das mais antigas, solenes e espetaculares da Península Ibérica, com procissões que percorrem as ruas do centro num clima de profundo recolhimento. E as festas de São João, no fim de junho, são vividas com enorme intensidade em toda a região do Minho, com Braga como um de seus epicentros, misturando devoção, tradição e festa popular.
Na segunda metade do século XX, Braga passou por uma transformação notável que a modernizou profundamente. A criação da Universidade do Minho em 1973, com seu grande campus na cidade, atraiu milhares de estudantes e mudou completamente seu perfil demográfico: Braga passou a ser uma das cidades mais jovens de Portugal e da Europa, com uma população estudantil numerosa que lhe deu uma energia nova, uma vida noturna animada e um dinamismo cultural e tecnológico crescente. Hoje a cidade combina indústria, serviços e um setor de tecnologia em expansão.
Assim, a Braga atual é uma cidade de contrastes fascinantes: de um lado, a milenar capital religiosa, a 'Roma portuguesa' de igrejas barrocas, catedral primaz e santuários; de outro, uma cidade jovem, universitária, moderna e vibrante. Esse diálogo entre o peso de vinte séculos de história e a vitalidade de sua população jovem é, talvez, o que melhor define Braga, uma das grandes joias do norte de Portugal e do vale do Minho.