Se Cracóvia é a alma histórica da Polônia, Zakopane é a sua alma montanhesa. Ao pé dos Tatras —a única cordilheira de tipo alpino do país, com picos que passam dos 2.400 metros—, esta cidade é o grande destino de natureza e aventura da Polônia: a base para caminhar por vales de conto de fadas, subir a cumes com vistas de tirar o fôlego, esquiar no inverno e descobrir uma cultura própria, a dos 'górale', os montanheses dos Cárpatos, com sua música, sua arquitetura de madeira e sua gastronomia inconfundível.
Zakopane tem duas faces que se complementam. De um lado, a cidade: a movimentada rua de pedestres Krupówki, cheia de barracas, restaurantes e música, as igrejas e casarões de madeira no característico 'estilo Zakopane' criado pelo artista Stanisław Witkiewicz, o funicular até o morro de Gubałówka com seu panorama dos Tatras. Do outro, a montanha: o teleférico até Kasprowy Wierch, a caminhada até o belíssimo lago glacial Morskie Oko ('o Olho do Mar') e dezenas de trilhas pelos vales do Parque Nacional dos Tatras.
Este guia ajuda você a organizar a visita: como chegar a partir de Cracóvia, como ir até as trilhas com os micro-ônibus locais, quais caminhadas e mirantes escolher de acordo com o seu nível, quanto custam os teleféricos e a entrada do parque, onde provar o queijo defumado 'oscypek' e por que vale a pena, se puder, dormir na montanha para sair cedo. Uma mudança de ares perfeita depois das cidades, e uma das regiões naturais mais bonitas da Europa Central.
Zakopane era, até o século XIX, uma modesta aldeia de pastores e mineiros de ferro no extremo sul da Polônia, habitada pelos 'górale', os montanheses dos Cárpatos, com sua cultura, dialeto e tradições próprias. No fim do século XIX, médicos, artistas e intelectuais poloneses 'descobriram' o lugar: o ar da montanha era recomendado contra a tuberculose, e Zakopane virou estação climática e um vibrante centro cultural e artístico, sobretudo sob o domínio austríaco da região da Galícia, quando a cidade era um refúgio do espírito nacional polonês. O pintor e arquiteto Stanisław Witkiewicz criou ali o 'estilo Zakopane', inspirado na arquitetura de madeira montanhesa. No século XX, consolidou-se como capital dos esportes de inverno e do montanhismo polonês. Hoje é o principal destino de montanha do país. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Historic Poland at its purest: Kraków, the royal capital for centuries, with Wawel, the university of 1364 and the Jewish quarter of Kazimierz; the salt of Wieliczka; the Auschwitz-Birkenau extermination camp; and the mountains of the góral people at Zakopane.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de virar destino turístico, Zakopane era uma aldeia remota e pobre no extremo sul da Polônia, ao pé dos Tatras, habitada pelos 'górale' (literalmente, 'os da montanha'), os montanheses dos Cárpatos. Esses moradores, cujos primeiros assentamentos estáveis na região datam dos séculos XVI e XVII, viviam da criação de ovelhas, do pastoreio nos prados altos, da exploração de pequenas jazidas de ferro e do que conseguiam arrancar de uma terra difícil e de um clima duro.
Isolados entre montanhas, os górale desenvolveram uma cultura própria, forte e muito característica, que até hoje define a identidade de Zakopane: um dialeto próprio (a 'gwara góralska'), uma música e danças inconfundíveis, trajes tradicionais ricamente bordados, uma arquitetura de madeira adaptada à neve e uma gastronomia baseada no cordeiro, na batata, no chucrute e, sobretudo, nos queijos de ovelha defumados, como o famoso 'oscypek'. Também cultivaram um forte senso de comunidade, de orgulho e de independência.
Durante séculos, esse mundo montanhês ficou à margem da história 'oficial' do país. Depois das partilhas da Polônia, a região passou a pertencer ao Império Austro-Húngaro (dentro da Galícia), mas, na prática, os górale continuavam vivendo segundo suas tradições ancestrais. Ninguém imaginava, na época, que aquela aldeia de pastores estava prestes a se tornar um dos lugares mais queridos de toda a Polônia.
A grande virada na história de Zakopane veio na segunda metade do século XIX, quando médicos, cientistas e viajantes poloneses 'descobriram' as virtudes do lugar. Uma figura-chave foi o médico Tytus Chałubiński, de Varsóvia, que a partir da década de 1870 promoveu Zakopane como estância climática: o ar puro e seco da montanha era considerado benéfico no tratamento de doenças respiratórias, sobretudo a tuberculose, na época uma praga sem cura.
Logo começaram a chegar pacientes em busca de saúde, mas também, e principalmente, artistas, escritores, intelectuais e patriotas poloneses que encontraram em Zakopane algo mais do que um balneário. Numa época em que a Polônia não existia como Estado —estava dividida entre Rússia, Prússia e Áustria—, a zona austríaca da Galícia tinha mais liberdade cultural, e Zakopane virou um refúgio do espírito nacional polonês, um lugar onde a cultura, a arte e a identidade do país podiam florescer longe da censura dos outros impérios.
A aldeia de pastores se transformou rapidamente num centro cultural e de veraneio cheio de vida. Foram construídas vilas, pensões e hotéis; a ferrovia chegou em 1899, ligando Zakopane a Cracóvia e ao resto do país; e a cidade passou a atrair a nata da cultura polonesa. Escritores, pintores, compositores e cientistas fizeram de Zakopane seu lugar de inspiração e de encontro, lançando as bases da sua fama.
Entre as muitas personalidades que chegaram a Zakopane no fim do século XIX, uma deixou uma marca arquitetônica inapagável: o pintor, arquiteto e teórico da arte Stanisław Witkiewicz. Fascinado pela arquitetura tradicional de madeira dos górale —com seus telhados íngremes, seus beirais entalhados e sua decoração típica—, Witkiewicz teve uma ideia ambiciosa: transformar essa arte popular montanhesa num verdadeiro estilo nacional polonês, num momento em que o país buscava afirmar sua identidade diante das potências que o ocupavam.
Assim nasceu, na década de 1890, o 'estilo Zakopane' (styl zakopiański), que Witkiewicz materializou em vilas de madeira projetadas por ele, como a célebre Villa Koliba (1892-1893, hoje museu desse estilo) e a Villa Pod Jedlami. O estilo combinava as formas e a ornamentação das cabanas góral com as necessidades das residências burguesas modernas, e pretendia ser aplicado não só às casas, mas também aos móveis, aos objetos e até às igrejas. Foi um verdadeiro movimento estético e patriótico.
O 'estilo Zakopane' definiu para sempre a imagem da cidade e ajudou a preservar e valorizar a cultura material dos górale. Até hoje, passear por Zakopane é admirar essas vilas de madeira, as igrejas tradicionais e o antigo cemitério de Pęksowy Brzyzek, com suas lápides entalhadas, onde descansam artistas e personalidades ligadas à cidade. Foi também nesse ambiente que cresceria, décadas depois, o excêntrico artista e escritor Stanisław Ignacy Witkiewicz ('Witkacy'), filho de Stanisław, uma das figuras mais singulares da cultura polonesa do século XX.
Ao longo do século XX, Zakopane consolidou sua dupla identidade: a de grande centro cultural e a de capital polonesa da montanha e dos esportes de inverno. O montanhismo e o esqui se desenvolveram com força; foram construídos os primeiros teleféricos e funiculares —o famoso teleférico para Kasprowy Wierch foi inaugurado em 1936, e o funicular para Gubałówka pouco depois—, e a cidade virou sede de competições esportivas de nível internacional, incluindo campeonatos mundiais de esqui. A rampa de salto de esqui da Wielka Krokiew se tornou um símbolo da cidade.
A Segunda Guerra Mundial também trouxe para cá a ocupação nazista (1939-1945). Por sua posição de fronteira, Zakopane teve um papel particular: foi ponto de passagem de rotas clandestinas de mensageiros e fugitivos rumo à Hungria pelas montanhas e, ao mesmo tempo, palco de repressão. Os górale foram alvo de tentativas nazistas de manipulação (o fracassado projeto de criar uma suposta 'nação Goralenvolk' separada da Polônia), que em sua grande maioria rejeitaram, mantendo-se leais à causa polonesa.
Depois da guerra, sob o regime comunista, Zakopane continuou crescendo como destino de turismo de massa e capital dos esportes de inverno da Polônia, muito popular entre os trabalhadores do bloco oriental. O montanhismo polonês viveu uma era de ouro, e dos Tatras e de Zakopane saíram alguns dos melhores alpinistas do mundo, que protagonizariam as grandes conquistas do Himalaia nas décadas de 1970 e 1980. Apesar da massificação, a cidade manteve sua forte identidade góral.
O fluxo crescente de visitantes e o desenvolvimento turístico deixaram claro, já no século XX, que era preciso proteger a natureza extraordinária dos Tatras. Em 1954 foi criado o Parque Nacional dos Tatras (Tatrzański Park Narodowy, TPN), que protege o setor polonês da cordilheira —seu irmão gêmeo, o TANAP, protege o lado eslovaco—. O parque preserva uma paisagem de alta montanha única na Polônia: picos com mais de 2.400 metros, lagos glaciais como o Morskie Oko, vales, florestas e uma fauna que inclui camurças, marmotas, linces e ursos-pardos. Em 1992, a Unesco reconheceu a reserva da biosfera dos Tatras, que abrange os dois lados da fronteira.
Essa proteção convive, não sem tensões, com o turismo de massa. Zakopane é hoje, de longe, o principal destino de montanha da Polônia: recebe milhões de visitantes por ano, atraídos pelas trilhas no verão, pelo esqui no inverno, pelas termas, pela gastronomia góral e pelo clima da rua Krupówki. A popularidade tem seu lado B: na alta temporada, trilhas como a do Morskie Oko e ruas como a Krupówki ficam lotadas, e o equilíbrio entre desenvolvimento e conservação é um debate permanente.
Mesmo assim, Zakopane conserva sua magia e sua personalidade forte. A cultura góral continua bem viva —na música, nos trajes, na comida, nas 'karczmy' de madeira com folclore ao vivo—, a arquitetura do estilo Zakopane segue de pé, e basta se afastar um pouco das áreas mais movimentadas para ficar a sós com a grandiosidade dos Tatras. Continua sendo, como há mais de um século, o lugar aonde os poloneses vão para respirar ar de montanha, caminhar entre picos e se reencontrar com uma das expressões mais autênticas da sua cultura.