Lublin é a grande cidade do leste da Polônia, aquela parte do país que muitos viajantes deixam de lado e que guarda alguns de seus tesouros mais autênticos. No meio do caminho entre Varsóvia e a fronteira com a Ucrânia, é uma cidade universitária com o centro histórico intacto — nada de reconstruções do pós-guerra: aqui as ruas medievais são de verdade —, com uma história riquíssima de encontro entre poloneses, judeus, rutenos e lituanos. Foi aqui que nasceu, em 1569, com a União de Lublin, a grande Comunidade Polaco-Lituana.
Sua joia escondida é a Capela da Santíssima Trindade, dentro do Castelo: um espaço católico totalmente coberto por afrescos bizantino-rutenos do século XV, uma fusão de Oriente e Ocidente que não tem igual na Polônia. Somam-se a isso uma praça velha cheia de vida, o Tribunal da Coroa, o Portão de Cracóvia, uma rota subterrânea que percorre os porões da cidade e vistas lindas do alto da Torre da Trindade.
Mas Lublin também carrega uma das memórias mais duras da Europa: foi um grande centro da cultura judaica — a 'Jerusalém do Reino da Polônia' — e, durante a ocupação nazista, o quartel-general da máquina de extermínio; nos arredores fica o antigo campo de concentração e extermínio de Majdanek, hoje museu e memorial. Este guia conta como se locomover, quanto custam os ingressos, o que ver em um par de dias e como se aproximar dessa memória com respeito, numa cidade tão bonita quanto comovente.
Lublin cresceu desde a Idade Média como praça comercial e militar na fronteira oriental da Polônia, na rota para a Rutênia e a Lituânia. Recebeu os direitos de cidade em 1317 e prosperou com as feiras e o comércio. Seu auge chegou em 1569, quando no castelo foi assinada a União de Lublin, que uniu os reinos da Polônia e da Lituânia em uma só Comunidade, uma das maiores potências da Europa da época. Lublin também foi um grande centro da cultura e da religião judaicas, com uma célebre yeshivá, a ponto de ser chamada de 'a Jerusalém do Reino da Polônia'. Depois das partilhas, ficou sob domínio austríaco e depois russo. Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista fez de Lublin um centro da 'Operação Reinhard' de extermínio e ergueu nos arredores o campo de Majdanek. Libertada em 1944, foi por pouco tempo a primeira sede do governo comunista polonês. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The frontier, multi-ethnic Poland of the old Kresy: Lublin, where the Union of Lublin was signed in 1569 and next to which stood the Majdanek camp, and the primeval forest of Białowieża, the last refuge of Europe's wild bison.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Lublin nasceu numa encruzilhada. Localizada no leste da atual Polônia, sobre as colinas junto ao rio Bystrzyca, a região foi habitada desde tempos remotos por tribos eslavas e, desde cedo, foi um ponto de contato — e de atrito — entre o mundo polonês, o da Rus (os antepassados de ucranianos e bielorrussos) e, mais tarde, o lituano. Já na Alta Idade Média existia aqui um assentamento fortificado na colina onde hoje fica o castelo, na fronteira oriental das terras polonesas.
Essa posição de fronteira foi uma bênção e uma maldição. Lublin se beneficiou do comércio que circulava entre o Ocidente e o Oriente, entre o Báltico e o mar Negro, e se tornou um mercado importante. Mas também sofreu repetidas invasões: nos séculos XIII e XIV, tártaros, rutenos e lituanos atacaram a cidade várias vezes, obrigando a fortificá-la de novo e de novo.
O reconhecimento da sua importância chegou em 1317, quando o rei Ladislau I, o Breve, concedeu a Lublin os direitos de cidade segundo o modelo de Magdeburgo. A partir daí, a cidade se organizou em torno de uma praça principal, se cercou de muralhas com portões monumentais — como o Portão de Cracóvia, que continua de pé — e cresceu como centro comercial e administrativo. O rei Casimiro III, o Grande, reforçou suas defesas e construiu o castelo em pedra. Lublin se firmava como o grande bastião polonês do leste.
O momento mais glorioso da história de Lublin chegou em 1569. Naquele ano, no castelo da cidade, os parlamentos (sejms) da Polônia e do Grão-Ducado da Lituânia se reuniram para selar um acordo histórico: a União de Lublin, que fundiu os dois Estados numa única entidade política, a Comunidade ou República das Duas Nações (Rzeczpospolita Obojga Narodów). Nascia assim uma das maiores e mais singulares potências da Europa da época: um vasto Estado que ia do Báltico quase até o mar Negro, com um sistema político de 'democracia nobiliária' e uma notável tolerância religiosa para o seu tempo.
A escolha de Lublin como sede desse acontecimento não foi por acaso: a cidade ficava justamente no meio do caminho entre os corações da Polônia e da Lituânia, e seu caráter de fronteira fazia dela o lugar simbólico perfeito para a união. O acontecimento é lembrado hoje com um monumento na praça Litewski (Praça Lituana) da cidade.
Os séculos XV e XVI foram a era de ouro de Lublin. Como sede de importantes feiras comerciais que atraíam mercadores de toda a Europa e do Oriente, a cidade prosperou enormemente. Tornou-se também sede do Tribunal da Coroa (Trybunał Koronny), o tribunal supremo de justiça da parte polonesa da Comunidade, o que lhe deu grande peso político e jurídico. Foram erguidas igrejas, palácios e casas de mercadores, muitos dos quais ainda se conservam no centro histórico. E, sob o mecenato real, artistas rutenos pintaram os extraordinários afrescos bizantinos da Capela da Santíssima Trindade, símbolo perfeito do encontro de culturas desta cidade de fronteira.
Durante séculos, Lublin foi um dos centros mais importantes da vida e da cultura judaicas de toda a Europa. Os judeus se estabeleceram na cidade na Idade Média, atraídos pela sua prosperidade comercial e pela relativa tolerância da Comunidade Polaco-Lituana, e com o tempo formaram uma comunidade numerosa e de enorme peso cultural e religioso, concentrada sobretudo no bairro ao redor do castelo.
Lublin chegou a ser um farol do judaísmo asquenaze. Aqui funcionaram célebres academias talmúdicas e viveram rabinos e sábios de renome; no século XVI foi instalada inclusive uma das primeiras gráficas hebraicas da Europa. A cidade foi sede do 'Conselho das Quatro Terras' (Va'ad Arba' Aratzot), uma espécie de parlamento autônomo das comunidades judaicas da Comunidade. Era tamanho o seu prestígio religioso e intelectual que Lublin ganhou o apelido de 'Jerusalém do Reino da Polônia'. Em 1930 foi inaugurada a Yeshivá dos Sábios de Lublin (Jeszywas Chachmej Lublin), uma monumental academia rabínica que foi, na época, a maior do mundo.
A comunidade judaica chegou a representar cerca de um terço da população da cidade, com suas sinagogas, escolas, cemitérios, comércios e um cotidiano riquíssimo. Essa presença de muitos séculos foi parte essencial da identidade de Lublin durante centenas de anos. Todo esse mundo, porém, seria aniquilado em apenas alguns anos durante a Segunda Guerra Mundial, numa das páginas mais sombrias da história europeia.
A era de ouro de Lublin não durou para sempre. Em meados do século XVII, a Comunidade Polaco-Lituana entrou numa longa crise, e Lublin sofreu especialmente por causa da sua posição oriental. As guerras contra a Suécia (o chamado 'Dilúvio'), os cossacos e outros inimigos, somadas a incêndios, epidemias e saques, atingiram duramente a cidade, que perdeu população e importância. O comércio e as feiras entraram em declínio, e a Lublin próspera do Renascimento se apagou.
O golpe definitivo na independência veio com as partilhas da Polônia no final do século XVIII, que apagaram o país do mapa. Lublin ficou primeiro sob domínio austríaco (Habsburgo) e, depois do parêntese napoleônico do Ducado de Varsóvia, passou a fazer parte do chamado 'Reino da Polônia' do Congresso, um Estado fantoche sob controle do Império Russo. Por mais de um século, a cidade viveu sob domínio estrangeiro e participou das sucessivas insurreições polonesas contra a Rússia (como os levantes de 1830 e 1863), que foram reprimidas.
Apesar de tudo, o século XIX também trouxe modernização. A chegada da ferrovia em 1877 reativou a economia, indústrias se instalaram e a cidade cresceu além das suas muralhas medievais. Lublin recuperou parte da sua vitalidade como centro regional do leste, embora sempre à sombra das grandes capitais. Quando a Polônia recuperou a independência em 1918, Lublin — onde chegou a ser proclamado brevemente um governo provisório — voltou a ser uma cidade polonesa livre, com sua rica mistura de população polonesa e judaica intacta. Faltavam pouco mais de duas décadas para a catástrofe.
A Segunda Guerra Mundial transformou Lublin num cenário central do maior crime da história europeia. Depois da invasão alemã de 1939, a cidade ficou dentro do 'Governo Geral', a zona da Polônia ocupada administrada diretamente pelos nazistas. Os ocupantes escolheram Lublin como um dos centros nevrálgicos da sua política de terror e extermínio no leste.
De Lublin foi coordenada a 'Operação Reinhard' (Aktion Reinhard), o plano sistemático de assassinato dos judeus do Governo Geral, executado nos campos de extermínio de Bełżec, Sobibór e Treblinka, todos na região. A numerosa comunidade judaica de Lublin, a 'Jerusalém do Reino', foi confinada num gueto, deportada e assassinada quase por completo; o antigo bairro judeu ao redor do castelo foi arrasado e, com ele, séculos de vida e cultura. A monumental yeshivá foi saqueada e fechada.
Nos arredores da cidade, os nazistas construíram o campo de concentração e extermínio de Majdanek (KL Lublin), em funcionamento entre 1941 e 1944. Ali morreram dezenas de milhares de pessoas — em sua maioria judeus, além de prisioneiros de guerra soviéticos, poloneses e outros — assassinadas nas câmaras de gás ou vítimas da fome, de doenças e do trabalho escravo. Majdanek foi libertado pelo Exército Vermelho em julho de 1944, tão rápido que os alemães mal conseguiram destruí-lo: por isso seus barracões, câmaras de gás e crematório se conservam, e hoje ele é um dos memoriais do Holocausto mais bem preservados e mais impactantes da Europa.
A libertação de Lublin no verão de 1944 teve um peso simbólico e político enorme. Por ter sido uma das primeiras cidades polonesas importantes a se livrar do domínio nazista, Lublin se tornou brevemente a capital provisória da nova Polônia: aqui se instalou, em julho de 1944, o Comitê Polonês de Libertação Nacional (o chamado 'Comitê de Lublin'), um governo provisório apoiado pela União Soviética que seria o embrião do regime comunista. Durante alguns meses, até a libertação de Varsóvia, Lublin foi de fato a sede do poder na Polônia.
No pós-guerra, a cidade foi reconstruída e cresceu como centro administrativo, industrial e, sobretudo, universitário do leste da Polônia. Foi fundada a Universidade Marie Curie-Skłodowska (UMCS) e manteve-se a histórica Universidade Católica de Lublin (KUL), a única universidade católica do bloco soviético, que foi um importante foco de pensamento livre; nela lecionou, entre outros, o futuro papa João Paulo II. Lublin conservou seu centro histórico medieval, que felizmente não sofreu a destruição em massa de outras cidades polonesas.
Desde a queda do comunismo em 1989, Lublin se consolidou como uma cidade dinâmica, jovem e cada vez mais atraente para o turismo cultural. Resgatou a memória do seu passado multicultural, especialmente o da sua comunidade judaica, por meio de instituições como o centro Brama Grodzka – Teatr NN, e revitalizou seu centro histórico com festivais, arte e gastronomia. Hoje, a 'cidade da fronteira' se apresenta como uma ponte entre a Europa ocidental e a oriental: orgulhosa da União de Lublin e da sua era de ouro, consciente da tragédia de Majdanek e do desaparecimento do seu mundo judaico, e aberta ao futuro como um dos destinos mais autênticos e emocionantes da Polônia.