Auschwitz-Birkenau não é um destino turístico como os outros, e este guia não o trata como tal. É o lugar onde a Alemanha nazista realizou o maior assassinato em massa da história: aqui, entre 1940 e 1945, foram assassinadas cerca de 1,1 milhão de pessoas, quase um milhão delas judias, além de ciganos (roma), prisioneiros de guerra soviéticos, poloneses e outras vítimas. Visitar o Memorial é um ato de memória e de respeito a essas vítimas, e uma forma de entender de perto até onde o ser humano pode chegar quando o ódio e o racismo se tornam política de Estado.
O Memorial e Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, na cidade polonesa de Oświęcim, preserva os dois setores principais do complexo: Auschwitz I, o campo original com seus prédios de tijolo e a tristemente célebre inscrição 'Arbeit macht frei' no portão, e Auschwitz II-Birkenau, o imenso campo de extermínio com seus barracões, os trilhos de trem que entravam nele e as ruínas das câmaras de gás e dos crematórios que os nazistas tentaram destruir antes de fugir. Desde 1979 é Patrimônio Mundial da Unesco, e 27 de janeiro — dia da sua libertação, em 1945 — é hoje o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Este guia reúne informações práticas e sóbrias para visitá-lo com a seriedade que ele merece: como chegar desde Cracóvia, por que a entrada é gratuita mas a reserva do passe é obrigatória, o que se vê em cada setor, quanto dura a visita e algumas recomendações de comportamento. É uma visita dura, mas para muitos indispensável: como lembrou a escritora e sobrevivente, esquecer seria dar razão aos carrascos.
O campo de Auschwitz foi criado pela Alemanha nazista em 1940 na cidade polonesa ocupada de Oświęcim, inicialmente para prisioneiros políticos poloneses. Em 1941-1942 foi ampliado com o gigantesco campo de Auschwitz II-Birkenau, concebido como centro de extermínio no âmbito da 'Solução Final', o plano nazista para assassinar os judeus da Europa. A Auschwitz chegaram de trem, vindos de toda a Europa, centenas de milhares de judeus, além de ciganos, prisioneiros soviéticos e poloneses. A maioria era assassinada nas câmaras de gás logo na chegada; outros morriam pelo trabalho escravo, pela fome, pelas doenças e pelos experimentos. Estima-se que ali tenham sido assassinadas cerca de 1,1 milhão de pessoas. O campo foi libertado pelo Exército Vermelho soviético em 27 de janeiro de 1945. Em 1947, a Polônia criou o Museu Estatal para preservar o local como memorial. É Patrimônio Mundial da Unesco desde 1979. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de se tornar sinônimo do maior crime da história, Auschwitz era simplesmente Oświęcim, uma cidade tranquila do sul da Polônia com séculos de história. Fundada na Idade Média, num cruzamento de estradas e ferrovias, Oświęcim tinha no começo do século XX uma população mista, com uma comunidade judaica antiga e numerosa, que representava mais da metade dos habitantes e convivia com a maioria católica polonesa. Era uma cidade comum, com seu mercado, suas sinagogas e suas igrejas.
Tudo mudou com a invasão alemã da Polônia em 1º de setembro de 1939, que deu início à Segunda Guerra Mundial. A Alemanha nazista ocupou o país e anexou essa região diretamente ao Reich, germanizando os nomes: Oświęcim passou a se chamar Auschwitz. A população polonesa e judaica ficou submetida ao terror da ocupação.
Os nazistas escolheram esse lugar para instalar um campo de concentração por razões muito concretas e frias: Oświęcim tinha boa ligação ferroviária com o resto da Europa ocupada, o que permitiria transportar prisioneiros de longe; havia quartéis militares poloneses vazios que serviam de base inicial; e a área era relativamente isolada. Essa combinação de fatores logísticos transformaria uma pacata cidade polonesa no centro da máquina de extermínio nazista.
O campo de concentração de Auschwitz foi criado por ordem da SS na primavera (europeia) de 1940, aproveitando os antigos quartéis do exército polonês nos arredores de Oświęcim. Seu primeiro comandante foi Rudolf Höss. No início, ele não foi concebido como campo de extermínio, mas como um campo de concentração destinado sobretudo a prisioneiros políticos poloneses: intelectuais, membros da resistência, padres, opositores e cidadãos considerados perigosos pelo regime nazista.
O primeiro grande transporte de prisioneiros chegou em junho de 1940: eram, em sua maioria, poloneses. Sobre o portão de entrada, os nazistas colocaram a inscrição de ferro 'Arbeit macht frei' ('O trabalho liberta'), um lema cínico que escondia uma realidade de trabalhos forçados, fome, humilhação e morte. As condições eram atrozes: os prisioneiros morriam de exaustão, espancamentos, doenças, fome e execuções.
Nesses primeiros anos, Auschwitz foi antes de tudo um lugar de terror contra a nação polonesa. Milhares de poloneses foram fuzilados no 'Muro da Morte' do Bloco 11 ou assassinados de outras formas. Entre os prisioneiros dessa fase estava o padre Maximiliano Kolbe, que em 1941 se ofereceu voluntariamente para morrer de fome no lugar de outro prisioneiro, pai de família, e que mais tarde foi canonizado pela Igreja Católica. Também foi aqui, no porão do Bloco 11, que os nazistas fizeram em 1941 os primeiros testes de assassinato com o gás Zyklon B, um passo que anunciava o horror ainda maior que estava por vir.
Em 1941, os nazistas começaram a construir um segundo campo, muito maior, a cerca de 3 km do original, num lugar chamado Brzezinka (em alemão, Birkenau): era Auschwitz II-Birkenau. Esse campo enorme — de quase 2 km² — se tornaria o centro do extermínio em massa. Sua construção coincidiu com a decisão nazista de levar adiante a 'Solução Final da questão judaica' (Endlösung), ou seja, o assassinato sistemático de todos os judeus da Europa, coordenado a partir da Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942.
A partir de 1942, Auschwitz-Birkenau se transformou no maior matadouro da história. De toda a Europa ocupada — Polônia, Hungria, França, Países Baixos, Grécia, Itália, Eslováquia e muitos outros países — partiam trens lotados de pessoas amontoadas em vagões de gado, em viagens de dias sem água nem comida. Ao chegar à 'rampa' de Birkenau, os oficiais da SS faziam a 'seleção': a maioria dos recém-chegados — idosos, crianças, doentes, mães com seus filhos — era enviada diretamente às câmaras de gás, disfarçadas de chuveiros, onde eram assassinados com Zyklon B. Seus corpos eram incinerados nos crematórios. Só uma minoria, considerada apta para o trabalho escravo, era registrada e internada, para morrer depois de exaustão, fome ou doença.
O complexo se completava com um terceiro campo, Auschwitz III-Monowitz, de trabalhos forçados ligado à indústria química alemã (IG Farben), e com dezenas de subcampos. Em Auschwitz, além disso, o médico da SS Josef Mengele e outros realizaram experimentos cruéis com prisioneiros, inclusive crianças e gêmeos. Calcula-se que, no total, cerca de 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas no complexo de Auschwitz, perto de um milhão delas judias; as demais eram, em sua maioria, ciganos (roma e sinti), prisioneiros de guerra soviéticos e poloneses.
Apesar do terror absoluto, dentro de Auschwitz houve formas de resistência. Existia uma organização clandestina de prisioneiros que documentava em segredo os crimes e conseguiu fazer chegar informações e fotografias ao exterior. Em outubro de 1944, um grupo do Sonderkommando — os prisioneiros judeus obrigados a trabalhar nos crematórios — liderou uma revolta desesperada e conseguiu destruir parcialmente um dos crematórios antes de ser aniquilado. Houve também fugas que serviram para alertar o mundo, como a do eslovaco Rudolf Vrba e de Alfréd Wetzler, cujo relatório descreveu o funcionamento do campo.
No fim de 1944, diante do avanço do Exército Vermelho soviético pelo leste, a SS começou a apagar os vestígios de seus crimes: dinamitou as câmaras de gás e os crematórios de Birkenau, queimou documentos e, em janeiro de 1945, evacuou dezenas de milhares de prisioneiros nas tristemente célebres 'marchas da morte', obrigando-os a caminhar em pleno inverno rumo ao interior da Alemanha; muitos morreram de frio, de exaustão ou fuzilados pelo caminho.
Em 27 de janeiro de 1945, as tropas soviéticas do Exército Vermelho chegaram a Auschwitz e libertaram os aproximadamente 7.000 prisioneiros que restavam no campo, a maioria doentes e moribundos, fracos demais para terem sido evacuados. O que os soldados encontraram — os barracões, as montanhas de objetos das vítimas, os corpos, os sobreviventes esqueléticos — revelou ao mundo a dimensão do horror. Desde 2005, a Assembleia Geral da ONU celebra o 27 de janeiro como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Depois da libertação, os sobreviventes e o Estado polonês quiseram que o mundo não esquecesse o que aconteceu. Em 1947, o Parlamento polonês criou o Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau nos terrenos de Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau, com a missão de preservar o lugar, conservar os objetos e as instalações, pesquisar e, acima de tudo, educar. O Memorial não busca o espetáculo: seu tom é sóbrio e rigoroso, porque seu objetivo é a memória e a transmissão de um alerta às gerações futuras.
Em 1979, a Unesco inscreveu o local na lista do Patrimônio Mundial. Seu nome oficial é deliberadamente preciso: 'Auschwitz Birkenau, campo de concentração e extermínio nazista alemão (1940-1945)'. Essa formulação — que enfatiza que foi 'nazista alemão' — é importante: o campo foi construído e operado pela Alemanha nazista em território da Polônia ocupada, e as autoridades polonesas insistem em rejeitar a expressão equivocada 'campos de extermínio poloneses'. O local consta da lista como testemunho único de um dos maiores crimes da humanidade.
Por que visitar? Porque, como os sobreviventes repetiram tantas vezes, ver com os próprios olhos os trilhos, os barracões, os objetos das vítimas e as ruínas das câmaras de gás transmite uma compreensão que nenhum livro consegue dar, e porque a memória é uma forma de responsabilidade. Num mundo onde o antissemitismo, o racismo e a negação do Holocausto não desapareceram, manter viva a memória de Auschwitz é um compromisso ético. A visita se faz em silêncio e com respeito, não como turista, mas como testemunha: para lembrar quem foi assassinado e para que algo assim nunca mais volte a acontecer.