O Nevado Pastoruri é uma das poucas geleiras da Cordilheira Branca que podem ser alcançadas a pé, sem equipamento de montanhismo, o que durante décadas o transformou em um dos passeios mais populares a partir de Huaraz. Situado no setor sul do Parque Nacional Huascarán, a mais de 5.000 metros de altitude, oferece a oportunidade de tocar o gelo, ver cavernas e paredões glaciares e, em outros tempos, até praticar esqui e snowboard na neve.
Hoje o Pastoruri é também um símbolo da mudança climática. A geleira recuou drasticamente nas últimas décadas e a antiga prática de esportes na neve ficou para trás. Por isso, as autoridades transformaram o destino na 'Rota da Mudança Climática', um percurso pensado para que o visitante observe em primeira mão o impacto do aquecimento global sobre as geleiras tropicais.
Este guia explica como chegar ao Pastoruri a partir de Huaraz, o que se vê pelo caminho — incluindo os famosos bosques de puya de Raimondi e as nascentes de água mineral com gás —, os cuidados indispensáveis com a altitude (a caminhada final passa dos 5.000 m) e por que esta geleira acessível continua sendo uma das experiências mais impactantes da Cordilheira Branca.
O Pastoruri foi por muito tempo a geleira 'turística' da Cordilheira Branca, onde se esquiava e se ensinava montanhismo. O recuo acelerado do gelo, atribuído ao aquecimento global, obrigou a suspender os esportes na neve e a repensar o destino como a 'Rota da Mudança Climática', dentro do Parque Nacional Huascarán, criado em 1975 e declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Ler a história completa ↓The region of the snow-capped summits: between the Cordillera Blanca —the highest in the tropics— and the Callejón de Huaylas, home to Huascarán, to the temple of Chavín, to the avalanche that buried Yungay and to turquoise lakes.
Ler a história de Áncash →Saem de Huaraz, a 42 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Durante boa parte do século XX, o Nevado Pastoruri foi a geleira mais visitada e querida da Cordilheira Branca. Sua particularidade o tornava único entre os gigantes de gelo do Parque Nacional Huascarán: embora esteja a mais de 5.000 metros de altitude, era possível chegar à sua base com uma caminhada curta, sem precisar de cordas, grampos de gelo nem experiência de montanhismo. Essa acessibilidade o transformou no destino ideal para quem queria tocar o gelo de uma geleira tropical sem ser alpinista.
Nos seus melhores anos, o Pastoruri funcionou até como uma pequena estação de esportes de neve. Em suas encostas congeladas se praticavam esqui e snowboard, e ali muitos montanhistas peruanos davam seus primeiros passos no aprendizado do andinismo e das técnicas sobre gelo. A geleira recebia famílias, estudantes e turistas de todas as partes, e se tornou um dos ícones do turismo de aventura de Áncash e uma imagem recorrente da Cordilheira Branca.
A presença próxima dos bosques de puya Raimondi em Pumapampa e das fontes de água mineral gaseificada completava um roteiro que combinava geleira, flora endêmica e curiosidades geológicas. O Pastoruri era, em suma, a face mais popular e acessível de um parque que, em suas zonas mais altas, exige técnica e resistência de alta montanha.
A partir do final do século XX, a geleira Pastoruri começou a recuar em um ritmo alarmante. As medições mostraram uma perda acelerada de massa de gelo, parte de um fenômeno geral que afeta as geleiras tropicais dos Andes, especialmente vulneráveis ao aumento da temperatura global. A geleira se fragmentou, sua frente se afastou e a superfície de neve firme foi diminuindo ano após ano, até tornar impossível a prática de esqui e snowboard.
Diante dessa deterioração, as autoridades do Parque Nacional Huascarán e do SERNANP tomaram uma decisão incomum e didática: em vez de fechar o destino ou disfarçar o problema, o transformaram na 'Rota da Mudança Climática'. O percurso foi equipado com painéis interpretativos e fotografias que mostram até onde chegava o gelo em décadas anteriores, para que o visitante possa comprovar com os próprios olhos o quanto a geleira encolheu e entender as causas e consequências do aquecimento global.
O Pastoruri se transformou assim em um raro caso de atração turística pensada como alerta. Quem sobe hoje até sua base não apenas contempla uma geleira tropical, mas assiste a uma lição viva sobre a fragilidade das reservas de água doce dos Andes, das quais dependem milhões de pessoas. O destino conserva sua beleza, mas agora fala também do futuro incerto das montanhas geladas do Peru.
O Nevado Pastoruri faz parte do Parque Nacional Huascarán, criado em 1975 para proteger a Cordilheira Branca, a cadeia montanhosa tropical mais alta do mundo. O parque abriga dezenas de nevados que superam os 5.000 e 6.000 metros, centenas de lagoas glaciais de águas turquesa e ecossistemas de altitude únicos, entre eles os bosques de queñua (Polylepis) e os bosques de puya Raimondi, a planta de inflorescência maior do planeta, que cresce justamente no setor sul do parque, no caminho para o Pastoruri.
A importância ecológica e paisagística da região lhe rendeu reconhecimento internacional: em 1977 foi declarado Reserva da Biosfera e em 1985 Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. O parque abriga fauna emblemática dos Andes, como o condor-andino, a vicunha, a taruca e o urso-de-óculos, e constitui uma das principais reservas de água do país, já que o degelo de suas geleiras alimenta rios dos quais dependem a agricultura e as cidades da costa e da serra.
A administração do parque fica a cargo do SERNANP, que regula o acesso, cobra o ingresso e promove um turismo responsável. No caso do Pastoruri, essa gestão inclui a reconversão do destino com foco ambiental e o manejo de um fluxo importante de visitantes em um ambiente frágil. Cuidar das trilhas, não deixar lixo e respeitar a flora e a fauna são condições para que este setor do parque continue aberto às gerações futuras.
A história do Pastoruri não se esgota em sua geleira: o caminho que leva até ele, pelo setor sul do Parque Nacional Huascarán, atravessa uma das paisagens botânicas mais singulares do planeta. Na região de Pumapampa crescem os bosques de puya Raimondi (Puya raimondii), a planta com a inflorescência maior do mundo. Descrita para a ciência pelo naturalista italiano Antonio Raimondi no século XIX — daí seu nome —, essa bromélia gigante vive várias décadas acumulando energia em uma roseta de folhas espinhosas e, uma única vez na vida, dispara um colossal talo floral que pode superar dez metros e conter milhares de flores, para morrer pouco depois de florescer.
Esse ciclo extraordinário faz de cada floração um acontecimento: vê-la em flor é questão de sorte e de estação, mas mesmo sem flor os bosques de puya, recortados contra a puna e os nevados, são uma imagem inesquecível. Junto às puyas, o trajeto passa pelas fontes de água mineral gaseificada de Pumapampa, onde a água brota com bolhas de dióxido de carbono que sobem do subsolo, e pela ampla quebrada Pachacoto, forrada de ichu e percorrida por rebanhos de alpacas e lhamas.
Essa combinação de geleira acessível, flora endêmica única e curiosidades geológicas explica por que o Pastoruri se consolidou como o passeio estrela a partir de Huaraz, e por que, mesmo com a geleira em recuo, continua sendo um dos passeios mais completos da Cordilheira Branca: em um único dia se percorre desde a puna até o gelo, com lições de biologia, geologia e mudança climática pelo caminho.
A deterioração do Pastoruri não é uma impressão subjetiva de quem o visitou décadas atrás: está documentada com precisão científica. Segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisa em Geleiras e Ecossistemas de Montanha (INAIGEM), entre 1995 e 2016 a geleira perdeu cerca de 60% de sua massa, e sua frente recuou aproximadamente 651 metros nas últimas décadas. Pesquisas de campo registraram recuos de até três ou quatro metros em um único mês durante certas temporadas, uma velocidade de perda que surpreendeu até os próprios glaciólogos.
Este caso não é isolado: faz parte de um fenômeno que afeta toda a Cordilheira Branca e as geleiras tropicais do Peru em geral. Segundo o estudo 'As Cordilheiras Glaciares do Peru' do INAIGEM, entre 1962 e 2016 o país perdeu 1.284 km² de superfície glacial, equivalentes a mais da metade (53,56%) da cobertura de gelo que tinha em meados do século XX, com uma taxa de recuo recente de aproximadamente 4,97 km² por ano no conjunto das cordilheiras peruanas.
Um efeito secundário menos conhecido do recuo é o surgimento de 'águas ácidas': ao derreter o gelo que antes cobria certas rochas, ficam expostos minerais que, ao reagir com a água e o oxigênio, geram uma drenagem ácida que altera a qualidade da água dos riachos próximos ao Pastoruri, um fenômeno que os cientistas do INAIGEM estudam ativamente. Esses dados são a base técnica sobre a qual foi construída a 'Rota da Mudança Climática': não é uma metáfora turística, mas a tradução divulgativa de medições reais sobre uma das geleiras mais monitoradas do país.