Puerto Maldonado é a porta de entrada para a selva sul do Peru, capital da região de Madre de Dios e base para visitar algumas das áreas de maior biodiversidade do planeta: a Reserva Nacional Tambopata, o Parque Nacional do Manu e a zona do rio Madre de Dios. Fica em plena Amazônia, perto da fronteira com a Bolívia e o Brasil, na confluência dos rios Madre de Dios e Tambopata, e é muito fácil chegar de avião a partir de Cusco ou Lima.
A cidade em si é quente, tranquila e com ar de fronteira, com sua Plaza de Armas, sua torre-mirante e o burburinho dos mototáxis. Mas o verdadeiro atrativo está no que a rodeia: a poucas horas de barco pelo rio chega-se a lodges de selva, ao lindo Lago Sandoval -uma cocha cercada de palmeiras onde vivem lontras-gigantes e jacarés- e às famosas collpas ou 'clay licks', paredões de argila onde toda manhã centenas de araras e papagaios se reúnem para comer barro rico em minerais, em um dos espetáculos naturais mais coloridos da Amazônia.
A maioria dos viajantes usa Puerto Maldonado só como ponto de partida para Tambopata, mas vale a pena dedicar um pouco de tempo à cidade. O habitual é chegar de avião, deixar a bagagem extra na cidade e partir de barco para um lodge, passando duas ou três noites em plena selva. Vale levar roupa leve de secagem rápida, repelente forte, capa de chuva, lanterna e binóculos, e se informar sobre vacinas e prevenção de doenças tropicais antes de viajar.
Puerto Maldonado foi fundada no começo do século XX, em pleno auge da borracha e da exploração da selva sul, na confluência dos rios Madre de Dios e Tambopata. Leva o nome do explorador Faustino Maldonado. Cresceu como porto fluvial e centro de extração de recursos (borracha, castanha, ouro, madeira) e hoje é a capital de Madre de Dios e a principal porta de entrada do turismo de natureza para Tambopata e o Manu. Mais detalhes na página de história.
Ler a história completa ↓The 'biodiversity capital of Peru': southern rainforest of rivers, oxbow lakes and clay licks, home to Manu and Tambopata, two of the richest wildlife sanctuaries in the world, today threatened by gold mining.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome de Puerto Maldonado homenageia Faustino Maldonado, um explorador que, em dezembro de 1860, partiu de Paucartambo, em Cusco, junto com doze companheiros, com o objetivo de navegar pela primeira vez todo o curso do rio Madre de Dios. Foi uma expedição extraordinária para a época: durante meses enfrentaram fome, doenças e os perigos de uma selva praticamente desconhecida para os ocidentais, até se tornarem os primeiros a percorrer por inteiro esse grande rio amazônico.
A aventura, porém, terminou em tragédia. Em 18 de março de 1861, enquanto a expedição navegava pelo rio Madeira (já em território brasileiro-boliviano), a embarcação de Maldonado virou em uma perigosa corredeira conhecida como 'Caldeirão do Inferno', ignorando os avisos dos indígenas caripunas da região. Maldonado e vários de seus companheiros morreram afogados, selando com a própria vida o feito de ter explorado um território que ninguém mais havia cartografado.
Essa façanha, paga com a vida do explorador, ficou gravada na memória da região: quatro décadas depois, quando a cidade foi fundada na confluência dos rios Tambopata e Madre de Dios, decidiu-se homenageá-lo dando seu nome ao novo porto.
Puerto Maldonado nasceu formalmente em 10 de julho de 1902, quando o explorador Juan Villalta, no comando de uma expedição que havia partido da província de Sandia seguindo o curso do rio Tambopata, estabeleceu um posto no ponto exato onde o Tambopata deságua no Madre de Dios. Villalta batizou o novo povoado de Puerto Maldonado, em homenagem ao explorador que quatro décadas antes havia morrido explorando essas mesmas águas.
Essa expedição fazia parte de um esforço mais amplo do Estado peruano para explorar, mapear e ocupar a remota selva de Madre de Dios, uma região que até então era praticamente terra incognita para o resto do país. A posição do novo porto, na confluência de dois grandes rios navegáveis, o transformava em um ponto estratégico ideal para o controle do território e para o comércio fluvial que logo começaria a se desenvolver.
Desde os primeiros anos, a vida de Puerto Maldonado foi marcada pelo rio e pela extração das riquezas da selva. Coincidindo quase com sua fundação, a região viveu o auge da borracha, que atraiu colonos, comerciantes e aventureiros para essa fronteira amazônica, lançando as bases de uma economia extrativista que marcaria o restante do século.
Durante boa parte do século XX, a economia de Puerto Maldonado e de Madre de Dios girou em torno da extração de recursos. Depois do auge da borracha vieram a exploração da madeira, a coleta da castanha-do-brasil — que se tornou um dos símbolos produtivos da região — e, sobretudo, a mineração de ouro, que atraiu milhares de pessoas e transformou a paisagem e a sociedade local.
Essa história tem uma sombra importante: a mineração de ouro, em grande parte informal e ilegal, causou graves problemas de desmatamento e contaminação por mercúrio em algumas áreas de Madre de Dios, um desafio ambiental sério que convive com os esforços de conservação. A região vive, assim, uma tensão permanente entre a exploração de seus recursos e a proteção de sua extraordinária biodiversidade.
Nas últimas décadas, porém, surgiu uma alternativa poderosa: o turismo de natureza. Puerto Maldonado se consolidou como a porta de entrada para a Reserva Nacional Tambopata e para o Parque Nacional do Manu, dois dos lugares mais biodiversos do planeta. Lodges na selva, observação de fauna, as colpas de araras e o Lago Sandoval atraem viajantes do mundo todo e oferecem um futuro mais sustentável, em que a selva vale mais em pé do que derrubada.
O grande ponto de virada recente na história da cidade foi a construção da Rodovia Interoceânica Sul, que liga a costa peruana ao Brasil atravessando Madre de Dios. Embora já existisse um acordo de interconexão viária entre os dois países desde 1981 e uma estrada de terra entre Iñapari e Puerto Maldonado desde o fim dos anos setenta, foi só na década de 2000, com o impulso definitivo dos governos do Peru, do Brasil e da Bolívia, que a obra foi concluída e totalmente asfaltada.
O impacto foi imediato e profundo: estudos sobre a transformação da paisagem urbana de Puerto Maldonado entre 2009 e 2011 documentaram como o traçado da rodovia alterou o cotidiano e a fisionomia da cidade, que passou de um povoado fluvial isolado a um nó de conexão terrestre entre dois países. Junto com a melhoria do Aeroporto Internacional Padre Aldamiz, a Interoceânica disparou o crescimento populacional e a chegada de novos negócios, mas também gerou pressão sobre os serviços básicos e acelerou fenômenos como a mineração informal e o desmatamento.
Hoje Puerto Maldonado combina esse passado de porto de fronteira e economia extrativista com seu papel atual de capital turística da Amazônia do sul: a cidade que Villalta fundou em 1902 em homenagem a um explorador afogado nas corredeiras do Madeira é, mais de um século depois, a porta de entrada para uma das regiões com maior biodiversidade do planeta.