Pucallpa é a grande cidade da região de Ucayali e um dos principais portos da Amazônia peruana, às margens do rio Ucayali. Movimentada, comercial e mestiça, é a porta de entrada para a lagoa Yarinacocha, seu atrativo turístico mais conhecido, e para o mundo do povo shipibo-conibo, célebre por sua arte kené, seus desenhos geométricos e sua cosmovisão amazônica. Diferentemente de Iquitos, Pucallpa é sim conectada por estrada com o resto do país, o que a transformou em um ponto-chave da selva.
A lagoa Yarinacocha, a uns 6 quilômetros da praça de armas, é uma cocha (lago em forma de ferradura) de águas calmas, onde dá para fazer passeios de barco, observar aves e, com sorte, botos de rio, além de visitar comunidades nativas. Do Puerto Callao saem as embarcações para comunidades shipibo-conibo como San Francisco e Santa Clara, onde se conhecem suas danças, sua gastronomia e, sobretudo, seu artesanato: tecidos e cerâmicas decorados com os característicos desenhos kené.
Visitar Pucallpa e Yarinacocha é mergulhar em uma Amazônia diferente da dos grandes lodges: mais urbana, mais viva e muito ligada à cultura shipibo-conibo. Vale se locomover de mototáxi, contratar passeios de barco no Puerto Callao, levar repelente forte, protetor solar e boné, e se hidratar bem por causa do calor. A festa de São João, em junho, é um dos momentos mais animados do ano às margens da lagoa.
Pucallpa cresceu como porto fluvial no rio Ucayali e se consolidou no século XX, sobretudo depois da ligação por estrada com a serra e a costa, que a transformou em um importante centro comercial e madeireiro da Amazônia. A região é o território ancestral do povo shipibo-conibo, uma das culturas amazônicas mais numerosas e reconhecidas do Peru, célebre por sua arte kené. A lagoa Yarinacocha é seu grande símbolo turístico. Mais detalhes na página de história.
Ler a história completa ↓The Amazonian region of the great Ucayali river: land of the Shipibo-Conibo people and their kené art, with Pucallpa and the Yarinacocha lagoon as the heart of the central-eastern jungle.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Às margens do rio Ucayali, na selva centro-oriental do Peru, Pucallpa cresceu como um dos grandes portos fluviais da Amazônia. Seu nome, de origem quéchua-amazônica, costuma ser associado à ideia de 'terra vermelha', pela cor de seus solos. Durante boa parte do século XX, a cidade se transformou em um centro comercial e madeireiro fundamental da região de Ucayali, impulsionada pela exploração dos recursos da floresta e por seu papel como ponto de conexão entre a selva e o restante do país.
O que distingue Pucallpa de outras grandes cidades amazônicas, como Iquitos, é a ligação por estrada com a serra e a costa. A abertura da rodovia que a une a Tingo María, Huánuco e, por fim, Lima definiu seu destino: transformou Pucallpa em uma cidade de passagem obrigatória, dinâmica e movimentada, onde se cruzam o comércio fluvial e o terrestre.
Esse caráter de encruzilhada dá a Pucallpa uma identidade própria: é uma Amazônia urbana, mestiça e vibrante, muito diferente da imagem do lodge isolado no meio da selva. E, em seus arredores, guarda dois grandes tesouros: a laguna Yarinacocha e a cultura do povo shipibo-conibo.
Antes de existir como cidade, a área onde hoje fica Pucallpa já tinha atividade econômica: em dezembro de 1867, o prefeito de Loreto, Benito Arana, registrou que um certo José Gordon juntava lenha no local, e um censo de 1862 contou apenas 65 habitantes dispersos na região. A verdadeira transformação veio com o boom da borracha do fim do século XIX, quando colonos e comerciantes -entre eles Águila Tello, Cauper Videira e Maya de Brito- se estabeleceram na área atraídos pela demanda internacional de borracha.
A data de fundação de Pucallpa como povoado situa-se por volta de 1883 ou 1888, segundo as fontes, em pleno auge da borracha. Em 1897, uma expedição ao Ucayali contabilizou cerca de 200 habitantes já instalados em torno do que viria a ser a cidade. A borracha, e depois a madeira, foram os motores econômicos que transformaram um pequeno povoado ribeirinho em um centro urbano em expansão: em 1933, a área urbana de Pucallpa já cobria vários quarteirões à beira do rio.
Essa origem ligada à borracha marcou Pucallpa com uma identidade de cidade de fronteira e de extração de recursos, muito ligada ao rio Ucayali como via de comércio, um padrão que se repetiria décadas depois com a exploração madeireira e, mais recentemente, com a agricultura e o turismo.
A região de Pucallpa e Yarinacocha é o coração do território do povo shipibo-conibo, uma das culturas amazônicas mais numerosas, vivas e reconhecidas do Peru. Estabelecidos desde tempos ancestrais ao longo do rio Ucayali e de suas lagoas, muito antes da chegada dos colonos seringueiros, os shipibo-conibo mantêm uma identidade cultural forte, com sua língua, sua organização social e, sobretudo, uma expressão artística que os tornou famosos no mundo inteiro: o kené.
O kené é um sistema de desenho geométrico que decora tecidos, cerâmicas e pinturas corporais. Longe de ser um simples enfeite, cada padrão é uma espécie de mapa espiritual: representa rios, plantas, caminhos e visões ligadas à cosmovisão do povo e às suas práticas xamânicas, associadas a plantas sagradas como a ayahuasca. As mulheres shipibo-conibo são as grandes guardiãs e criadoras dessa arte, que transmitem de geração em geração.
Nas comunidades da laguna Yarinacocha, como San Francisco -a maior- e Santa Clara, a arte kené também é uma forma de vida e de sustento. O turismo vivencial permite aos visitantes conhecer suas danças, sua gastronomia e suas técnicas artesanais, e comprar peças diretamente de suas criadoras. Apoiar essa arte de maneira respeitosa é contribuir para que uma das grandes culturas da Amazônia continue viva e orgulhosa de sua identidade.
O grande salto de Pucallpa no século XX veio com a construção da rodovia Federico Basadre, a via que a conecta com Aguaytía, Tingo María, Huánuco e, por fim, Lima. Antes dessa obra, a cidade dependia quase exclusivamente do transporte fluvial e aéreo; com a rodovia concluída, Pucallpa se tornou a única grande cidade amazônica do Peru com acesso direto por terra a partir da capital, o que acelerou seu crescimento comercial, madeireiro e demográfico nas décadas seguintes.
Essa conexão terrestre transformou Pucallpa na porta de entrada mais acessível à selva central e em um polo de atração para migrantes da serra e de outras regiões, que encontraram no comércio, na madeira e na agricultura novas oportunidades. Hoje é a cidade mais populosa da região de Ucayali e a segunda da Amazônia peruana, depois de Iquitos, com uma economia baseada no comércio, na indústria madeireira, na agricultura, na pesca e, cada vez mais, no turismo.
Nesse contexto, a laguna Yarinacocha e as comunidades shipibo-conibo se consolidaram como o grande atrativo turístico da região: um contraponto natural e cultural à vida urbana e comercial de uma cidade que nunca deixou de crescer desde seus tempos de povoado seringueiro à beira do rio.