Căușeni não aparece nos guias mais conhecidos, mas guarda um dos monumentos mais impressionantes da Moldávia: uma igreja medieval afundada na terra, com o telhado quase rente ao chão e as paredes cobertas de afrescos com mais de dois séculos e meio. A igreja da Assunção da Virgem (Adormirea Maicii Domnului) é um caso único em toda a região entre o Prut e o Dniestre, e sua história está intimamente ligada à época em que essas terras estavam sob domínio otomano e tártaro.
A cidade, no sudeste do país, junto ao rio Botna e a um passo da fronteira com a Transnístria, é pequena e tranquila, mais rural do que turística. Mas sua igreja, semienterrada segundo a lenda para não ser mais alta que um cavaleiro com sua lança — uma condição imposta pelos ocupantes muçulmanos para permitir a construção —, e principalmente seus afrescos pintados em 1763, fazem dela uma parada fascinante para quem quer entender a Moldávia histórica além de Chișinău e das vinícolas. Depois de anos de abandono e de uma grande restauração internacional, a igreja reabriu em 2024.
Este guia prático conta o que ver em Căușeni, como é essa igreja extraordinária e seus afrescos, como chegar saindo de Chișinău de rutiera ou em passeio organizado, e como combinar a visita com outros pontos do sudeste moldavo. É um passeio para viajantes curiosos, apaixonados por história e arte religiosa, dispostos a sair dos roteiros mais batidos.
Căușeni é uma localidade de história antiga no sudeste da atual Moldávia. Acredita-se que em algum momento tenha sido um centro de certa importância na região da Bessarábia meridional, uma terra de fronteira disputada durante séculos entre o Principado da Moldávia, os tártaros do Canato da Crimeia e o Império Otomano, que exerceram controle direto sobre boa parte do sul. Seu grande tesouro, a igreja da Assunção da Virgem, é considerada um dos exemplos mais bem conservados de igreja medieval do sul da Bessarábia: acredita-se que seu núcleo original possa ter sido erguido no século XV, e ela foi profundamente reconstruída entre 1763 e 1767, na época do metropolita Daniel de Proilavia e do príncipe moldavo Grigore Callimachi. Sua característica mais marcante, estar parcialmente afundada abaixo do nível do solo, se explica pela época otomana: segundo a tradição, os ocupantes muçulmanos só permitiram construir o templo com a condição de que não fosse mais alto que um soldado a cavalo com a lança erguida, para que não competisse com as mesquitas; por isso ele foi escavado e afundado na terra. No interior se conservam afrescos originais de 1763, obra dos pintores Radu e Voicul, com cenas bíblicas, santos e figuras históricas, de influência bizantina tardia e balcânica, únicos na região entre o Prut e o Dniestre. Depois de séculos de altos e baixos, do abandono soviético (chegou a ser usada como depósito) e da deterioração, a igreja passou por uma grande restauração entre 2017 e 2023, com mais de um milhão de dólares de financiamento com apoio da Embaixada dos Estados Unidos e do Governo moldavo, e reabriu ao público em 2024. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The heart of the country: the capital, Chișinău, surrounded by the Codru forests, ancient monasteries and villages whose churches hold centuries of history.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Há lugares cuja história se lê na pedra, e Căușeni é um deles. Esta pequena cidade do sudeste da atual Moldávia, às margens do rio Botna e a um passo do Dniestre, fica numa das terras mais disputadas da Europa Oriental: a Bessarábia meridional, a faixa que durante séculos foi uma fronteira móvel entre o mundo cristão ortodoxo e o mundo muçulmano otomano e tártaro. Entender Căușeni é entender essa condição de fronteira.
Desde a Idade Média, o Principado da Moldávia se estendia por estas terras, mas o sul — a região conhecida mais tarde como Bugeac ou Budjak — logo ficou sob o controle direto dos tártaros do canato da Crimeia, vassalos do Império Otomano, e da própria administração turca. Diferentemente do centro do principado, onde os voivodas mantinham certa autonomia sob suserania otomana, aqui o poder muçulmano era mais presente e direto, com guarnições, fortalezas e uma população mista.
Nesse contexto, Căușeni chegou a ter certa importância: algumas fontes chegam a ligá-la à residência dos cãs tártaros da região em determinados períodos. Fosse qual fosse seu papel exato, o certo é que a cidade ficou marcada por essa convivência tensa entre uma população cristã ortodoxa, majoritariamente de língua romena, e governantes muçulmanos. Essa tensão, e a maneira engenhosa com que a comunidade cristã conseguiu construir seu templo apesar das restrições, deu origem ao monumento mais extraordinário da cidade.
O grande tesouro de Căușeni é a igreja da Assunção da Virgem (Adormirea Maicii Domnului), e sua história está inseparavelmente ligada à condição dos cristãos sob domínio otomano. Os historiadores acreditam que um templo pode ter existido no local já no século XV, na época do Principado da Moldávia, embora o edifício tal como se conserva seja fruto de uma reconstrução profunda realizada entre 1763 e 1767, sob o metropolita Daniel de Proilavia e o príncipe moldavo Grigore Callimachi.
O que torna esta igreja única é a sua forma: ela está parcialmente afundada na terra, com o telhado a pouquíssima altura do chão. A explicação tradicional é uma condição imposta pelos ocupantes muçulmanos: só se autorizava erguer o templo se ele não ultrapassasse em altura um soldado a cavalo com a lança erguida, para que não rivalizasse com as mesquitas nem ofendesse o poder islâmico. Para cumprir a exigência sem abrir mão de um espaço digno para o culto, os construtores escavaram o terreno e afundaram a igreja, conseguindo um interior de altura razoável que por fora mal se destaca.
Essa solução, além da lenda, reflete uma realidade histórica bem concreta: a de comunidades cristãs que, sob domínio otomano nos Bálcãs e nestas terras de fronteira, precisavam negociar cada gesto de fé visível. A igreja de Căușeni se tornou assim um símbolo silencioso de resistência e de engenhosidade: um templo que se esconde na terra para poder existir, e que hoje é considerado um dos exemplos mais bem conservados de igreja medieval do sul da Bessarábia.
Se a arquitetura da igreja impressiona por fora, o interior guarda uma joia ainda maior: os afrescos originais pintados em 1763, no contexto da grande reconstrução do templo. A obra é atribuída a dois mestres, Radu e Voicul, cujos nomes chegaram até nós, algo pouco comum para pintores desta região e desta época. Seus murais cobrem paredes e abóbadas com um programa iconográfico ortodoxo completo.
Nas paredes se desdobram cenas bíblicas, passagens da vida de Cristo e da Virgem, fileiras de santos e hierarcas da Igreja, e também figuras históricas ligadas ao momento da reconstrução, como os doadores e as autoridades religiosas que impulsionaram a obra. O estilo revela a influência da arte bizantina tardia e da tradição pictórica balcânica, com seus rostos alongados e solenes, seus fundos dourados e sua rica simbologia religiosa — uma arte que unia estas terras ao grande espaço cultural da ortodoxia do sudeste europeu.
O verdadeiramente excepcional é que este conjunto de pintura mural do século XVIII tenha se conservado numa região onde quase não restam exemplos comparáveis. Por isso os especialistas consideram os afrescos de Căușeni únicos no território situado entre os rios Prut e Dniestre. São um testemunho insubstituível da arte, da fé e da cultura da Moldávia otomana, uma janela para um mundo que em grande parte desapareceu e que aqui, na penumbra de um templo afundado na terra, continua vivo nas imagens de suas paredes.
Em 1812, após a guerra russo-turca, o Império Otomano cedeu à Rússia a metade oriental do Principado da Moldávia, a Bessarábia, que incluía o sul onde fica Căușeni. O fim do domínio otomano direto mudou o quadro político da região: a cidade passou a fazer parte do Império Russo e, com o despovoamento e o repovoamento do Budjak depois das guerras, foi perdendo o peso que tivera nos tempos tártaros. A igreja semienterrada, no entanto, permaneceu como testemunha daquela outra época.
O século XX trouxe as grandes reviravoltas que marcaram toda a Bessarábia: a união com a Romênia após a Primeira Guerra Mundial (1918), a ocupação soviética de 1940, a Segunda Guerra Mundial e, por fim, a integração à República Socialista Soviética da Moldávia. O regime soviético, ateu e hostil à religião, não teve nenhuma consideração pelo valor histórico e artístico do templo: como tantas igrejas, a de Căușeni foi afastada do culto e chegou a ser usada, segundo as fontes, como simples depósito ou armazém.
Durante décadas, o monumento sofreu com o abandono, a umidade e a deterioração. Seus afrescos únicos corriam o risco de se perder, e o edifício, semienterrado e frágil, se degradava lentamente. A igreja que havia resistido a séculos de domínio otomano e tártaro esteve a ponto de sucumbir ao esquecimento do século XX. Se hoje podemos admirá-la, é graças a um esforço de recuperação bem mais recente.
O resgate da igreja da Assunção chegou já no século XXI. Entre 2017 e 2023 foi realizada uma ambiciosa campanha de restauração, com um investimento que superou um milhão de dólares, graças ao apoio da Embaixada dos Estados Unidos na Moldávia — por meio de programas de preservação do patrimônio cultural — e do governo moldavo. Os trabalhos incluíram reparos estruturais do frágil edifício semienterrado, a conservação cuidadosa dos afrescos do século XVIII e melhorias no entorno e na infraestrutura de acesso.
Em 2024, depois de anos de obras, a igreja foi reaberta ao público e incorporada oficialmente à rede turística nacional da Moldávia, apresentada como um monumento único no espaço situado entre o Prut e o Dniestre. Depois de quase se perder, o templo voltou a estar disponível para os fiéis e para os viajantes, recuperando seu papel como um dos grandes testemunhos históricos e artísticos do país.
Hoje, Căușeni é uma parada para viajantes curiosos que procuram a Moldávia menos conhecida. Longe das rotas mais movimentadas de Chișinău e das vinícolas, oferece a oportunidade de contemplar uma igreja extraordinária e afrescos únicos, e de espiar a história de uma terra de fronteira entre impérios e religiões. A pequena cidade, às margens do Botna e perto da linha com a Transnístria, conserva um ar provinciano e tranquilo, e costuma ser visitada junto com a fortaleza de Bender/Tighina ou com a região da Transnístria. Na sua igreja afundada na terra, Căușeni guarda um daqueles segredos que fazem valer a pena sair dos caminhos mais batidos.