Nida é o grande tesouro do litoral lituano. Uma vila de pescadores com casas de madeira pintadas, chaminés decoradas e jardins bem cuidados, debruçada sobre a tranquila laguna da Curlândia e protegida por dunas de areia gigantescas que parecem um deserto plantado no meio do Báltico. Fica no coração do Istmo da Curlândia, essa faixa de areia de quase cem quilômetros (compartilhada com a Rússia) cujas paisagens de dunas, florestas de pinheiros e mar a UNESCO declarou Patrimônio da Humanidade. Não existe na Lituânia lugar mais singular nem mais fotogênico.
O istmo é uma paisagem quase milagrosa: durante séculos, as dunas móveis avançaram e soterraram aldeias inteiras, até que um enorme esforço de reflorestamento conseguiu fixá-las em parte. Hoje, a grande duna de Parnidis, ao lado de Nida, com seu relógio de sol no alto e vistas para a laguna, o mar e a fronteira com a Rússia, é uma das imagens mais impressionantes do país. Escritores e artistas se renderam a este lugar: o prêmio Nobel Thomas Mann construiu aqui uma casa de veraneio, que hoje virou museu.
Este guia percorre Nida com olhar prático: como chegar atravessando de balsa a partir de Klaipėda, como circular pelo istmo de bike ou de ônibus, o que ver (as dunas, o farol, a casa de Thomas Mann, o porto, as praias) e o que levar em conta (a taxa local de Neringa, as regras do parque nacional, a temporada). É um destino de natureza e tranquilidade, ideal para desconectar, caminhar entre dunas e florestas e descobrir um dos cantos mais bonitos e frágeis de todo o Báltico.
Habitado desde a Antiguidade pelos curônios, o istmo foi durante séculos terra de pescadores da laguna. O nome de Nida está ligado à luta contra as dunas móveis: a antiga aldeia teve que mudar de lugar várias vezes ao ser soterrada pela areia, até que, no século XIX, uma gigantesca campanha de reflorestamento conseguiu fixar parte das dunas e salvar o povoado. Parte da Prússia Oriental e da Alemanha, Nida foi no começo do século XX uma célebre colônia de artistas, e entre 1930 e 1932 o escritor Thomas Mann passou aqui os verões, na casa que mandou construir. Depois da Segunda Guerra Mundial, ficou na Lituânia soviética, em zona de fronteira restrita. Em 2000, o Istmo da Curlândia foi declarado Patrimônio da Humanidade. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Lithuanian Baltic and Lithuania Minor with its German roots: the port of Klaipėda (the former Memel), the dunes of the Curonian Spit that Thomas Mann loved, the beaches and amber of Palanga, and wooded Samogitia.
Ler a história de The coast: Klaipėda, Nida and Palanga →Saem de Klaipeda, a 45 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O Istmo da Curlândia deve seu nome aos curônios (curlandeses ou kuršiai), um povo báltico que habitou estas costas muito antes da chegada dos cruzados. Durante séculos, o istmo — essa estreita língua de areia de quase cem quilômetros entre o mar Báltico e a lagoa — foi terra de pescadores. A lagoa, rica em peixes, e o mar aberto marcavam o ritmo da vida de pequenas aldeias espalhadas, entre elas a antiga Nida, cujos habitantes viviam da pesca, sobretudo da enguia, da lucioperca e de outros peixes da lagoa.
Essas comunidades desenvolveram uma cultura própria, adaptada a um ambiente tão bonito quanto duro. Construíam barcos de fundo chato especialmente projetados para a lagoa rasa, os kurėnai, e os identificavam com cata-ventos de madeira entalhados e pintados (vėtrungės), cujos símbolos e cores indicavam a aldeia e a família de cada pescador. Essa arte, junto com as casas de madeira pintada e as chaminés decoradas, forma o patrimônio cultural do istmo que ainda hoje se conserva.
Com a conquista cruzada do Báltico, entre os séculos XIII e XV, o istmo ficou sob o domínio da Ordem Teutônica e, mais tarde, foi integrado à Prússia. A população foi se germanizando em parte, embora tenha conservado por muito tempo elementos da velha cultura curônia e da língua báltica. O istmo se tornou assim uma fronteira cultural entre o mundo germânico prussiano e o báltico, marcada sempre pelo mar, pela areia e pela pesca.
A história de Nida é, em grande parte, a história de uma luta contra a areia. O Istmo da Curlândia é formado por dunas, algumas das mais altas da Europa, e durante séculos essas dunas foram móveis: o vento as empurrava lentamente em direção à lagoa, avançando metro a metro e soterrando tudo pelo caminho. O desmatamento das florestas do istmo — derrubadas para lenha, construção naval e outros usos, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII — desencadeou uma catástrofe ambiental: sem árvores para segurá-las, as dunas começaram a se mover.
O avanço da areia foi devastador. Várias aldeias do istmo ficaram literalmente enterradas sob as dunas, e seus moradores tiveram que se mudar. A própria Nida mudou de lugar mais de uma vez para fugir da areia: a velha aldeia foi soterrada, e o povoado foi reconstruído num local mais seguro, o atual, às margens da lagoa. É um dos exemplos mais dramáticos de desastre ambiental provocado pelo homem na história europeia.
A solução veio no século XIX. Engenheiros e guardas florestais prussianos lançaram uma gigantesca campanha de fixação das dunas: plantaram milhões de pinheiros e gramíneas resistentes, construíram paliçadas e projetaram um sistema de dunas de proteção ao longo da costa. Esse enorme esforço, mantido por décadas, conseguiu fixar boa parte das dunas e salvar os povoados do istmo. Graças a ele existe a paisagem atual de florestas de pinheiros e dunas parcialmente estabilizadas; mas a duna de Parnidis, ao lado de Nida, continua lembrando, viva e móvel, aquela ameaça.
Sob o domínio prussiano e depois alemão, já salva da areia, Nida viveu uma transformação inesperada: de aldeia de pescadores passou a refúgio de artistas e destino de veraneio. No fim do século XIX e começo do XX, a beleza singular do istmo — suas dunas, sua luz, suas florestas, sua solidão — atraiu pintores, sobretudo do expressionismo alemão. Formou-se uma célebre colônia de artistas em Nida, que se hospedavam na pousada do povoado e retratavam em suas telas as dunas e a vida dos pescadores. Nida ficou famosa nos círculos culturais da Alemanha.
O episódio mais famoso dessa fase é o de Thomas Mann, o grande escritor alemão, Prêmio Nobel de Literatura em 1929. Encantado pelo istmo, Mann mandou construir uma casa de veraneio em Nida, numa colina com vista para a lagoa, onde passou os verões de 1930, 1931 e 1932 com a família. No seu 'ninho' — como chamava a casa — escreveu parte de sua obra e aproveitou a calma do istmo. A chegada de Hitler ao poder em 1933 e o exílio de Mann puseram fim abruptamente àqueles verões. Sua casa, hoje museu, é um dos grandes símbolos culturais de Nida.
Naquela época, Nida era uma cidadezinha alemã da Prússia Oriental, plenamente integrada à cultura germânica, com sua igreja protestante, sua escola e sua vida de veraneio. Nada indicava que, poucos anos depois, a guerra e suas consequências mudariam radicalmente o destino do istmo e o separariam para sempre do mundo alemão ao qual havia pertencido durante séculos.
A Segunda Guerra Mundial partiu ao meio a história do istmo. Após a derrota alemã em 1945, a velha Prússia Oriental desapareceu do mapa: sua parte norte, em torno de Königsberg, foi anexada pela União Soviética como o óblast de Kaliningrado (hoje Rússia), e a metade sul do Istmo da Curlândia ficou dentro desse território russo. A metade norte, com Nida e Juodkrantė, passou a fazer parte da República Socialista Soviética da Lituânia. A antiga população alemã do istmo fugiu ou foi expulsa, e os povoados foram repovoados com lituanos.
Durante o período soviético, o istmo se tornou uma zona de fronteira sensível e restrita. Por fazer divisa com o território russo de Kaliningrado — uma região fortemente militarizada — e ficar na costa do Báltico, o acesso a Nida era controlado, e o dia a dia ficou marcado pela presença de guardas de fronteira e pelas limitações próprias de uma zona de segurança. Ao mesmo tempo, o regime soviético valorizou o istmo como lugar de descanso: Nida também se desenvolveu como centro de férias para artistas, escritores e trabalhadores, com casas de repouso e colônias de férias.
Essa dupla condição — zona de fronteira vigiada e refúgio de natureza e descanso — marcou a Nida soviética. A paisagem de dunas e florestas e a arquitetura tradicional foram conservadas em boa medida, em parte porque a condição protegida e fronteiriça limitou o desenvolvimento descontrolado. Quando chegasse a independência, esse patrimônio natural e cultural, milagrosamente preservado, seria a base da fama internacional do istmo.
Com a recuperação da independência da Lituânia em 1990, o Istmo da Curlândia começou uma nova fase. Livre das restrições de fronteira soviéticas, abriu-se totalmente ao turismo, e sua combinação única de paisagem natural extraordinária e patrimônio cultural bem conservado logo ganhou reconhecimento internacional. No ano 2000, o Istmo da Curlândia foi inscrito na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, como paisagem cultural, numa candidatura conjunta da Lituânia e da Rússia (que divide a metade sul do istmo).
O reconhecimento da UNESCO consagrou o que torna o istmo único: uma paisagem moldada pela natureza e pelo ser humano, onde as gigantescas dunas, as florestas de pinheiros plantadas para fixá-las, os povoados de pescadores com sua arquitetura tradicional e a memória da luta contra a areia andam de mãos dadas. Nida, o principal povoado do istmo lituano, virou o grande destino da costa do país, cuidadosamente protegido para preservar seu caráter.
Hoje, Nida é ao mesmo tempo uma área de natureza protegida e um destino turístico de primeira linha, que atrai visitantes de toda a Europa por suas dunas, suas praias, a casa de Thomas Mann e seu clima tranquilo e refinado. O município de Neringa administra o equilíbrio, sempre delicado, entre turismo e conservação, com regras rígidas, taxas de entrada e limites ao desenvolvimento. Para o viajante brasileiro, percorrer Nida é descobrir uma das paisagens mais frágeis e bonitas do Báltico, e uma história extraordinária: a de um povoado de pescadores que sobreviveu às dunas, atraiu artistas e hoje guarda um tesouro reconhecido pelo mundo inteiro.