Poucas cidades do mundo concentram tanta história, arte e vida cotidiana quanto Roma. A 'Città Eterna' é um museu a céu aberto onde, ao virar qualquer esquina, você pode dar de cara com um templo romano de dois mil anos, uma igreja barroca com um Caravaggio lá dentro ou uma fonte monumental cercada de gente tomando sorvete. Aqui nasceu um dos maiores impérios da história, ergueu-se o coração do cristianismo e floresceram o Renascimento e o Barroco. Caminhar por Roma é viajar por vinte e cinco séculos em poucos quarteirões.
Mas Roma não é só ruínas e museus: é uma cidade intensamente viva. É o ritual do café no balcão de um bar, a massa cacio e pepe ou a carbonara numa trattoria do Trastevere, o passeio ao entardecer por ruelas de paralelepípedo, a luz dourada caindo sobre os muros cor de ocre e o burburinho das piazzas. O romano vive na rua, com um humor debochado e um orgulho enorme da sua cidade, e contagia com esse jeito relaxado e prazeroso de estar no mundo, o famoso 'dolce far niente'.
Este guia percorre o essencial de Roma com um olhar prático e acolhedor: como organizar as visitas ao Coliseu e ao Vaticano, o que ver no centro histórico, onde comer bem sem cair em armadilhas para turistas, como se locomover e como aproveitar ao máximo cada dia. Roma é grande, caótica e avassaladora no começo, mas com um pouco de planejamento oferece alguns dos dias mais memoráveis de qualquer viagem pela Europa.
Segundo a lenda, Roma foi fundada em 21 de abril de 753 a.C. por Rômulo, que junto com o irmão Remo havia sido amamentado por uma loba. De aldeia de pastores sobre as sete colinas às margens do Tibre, Roma passou por uma fase de reis, depois pela República (a partir de 509 a.C.) e, por fim, pelo Império, que sob Augusto e seus sucessores chegou a dominar todo o Mediterrâneo e boa parte da Europa, do norte da África e do Oriente Médio. Em seu auge, no século II d.C., a capital do Império tinha cerca de um milhão de habitantes. Com a crise do Império Romano do Ocidente e sua queda em 476 d.C., a cidade se esvaziou, mas ganhou um novo papel: como sede do bispo de Roma —o Papa—, tornou-se o centro da cristandade ocidental. Durante a Idade Média foi capital dos Estados Pontifícios. O Renascimento e o Barroco (séculos XV a XVII) a transformaram num cenário monumental pelas mãos de papas mecenas e de gênios como Michelangelo, Rafael, Bramante e Bernini, que deixaram São Pedro, a Capela Sistina e dezenas de igrejas, palácios e fontes. Em 1870, após a unificação da Itália, Roma foi tomada do Papa e proclamada capital do novo Reino da Itália; o Vaticano só se tornou um Estado independente em 1929. A história completa, com seus mitos e imperadores, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Italy: Rome and Lazio, cradle of the Empire and seat of the papacy; the Tuscany of the Etruscans, the communal republics of Siena and Pisa, and Florence, the city that gave the world the Renaissance.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucas cidades carregam um mito fundador tão poderoso quanto Roma. Segundo a lenda, a cidade foi fundada em 21 de abril de 753 a.C. por Rômulo, um dos gêmeos filhos do deus Marte e da princesa Reia Sílvia, que por sua vez descendia do herói troiano Eneias. Abandonados num cesto nas águas do rio Tibre, Rômulo e Remo teriam sido amamentados por uma loba (a famosa 'Lupa Capitolina') e depois criados por um pastor. Já adultos, decidiram fundar uma cidade nas colinas onde tinham sido salvos; depois de uma disputa sobre qual dos montes escolher e quem governaria, Rômulo matou Remo e deu seu nome à cidade: Roma.
Para além do mito, a arqueologia confirma que nas colinas junto ao Tibre —o Palatino, o Capitolino, o Quirinal e as demais das célebres 'sete colinas'— existiam aldeias de pastores latinos e sabinos desde pelo menos o século VIII a.C. A localização era privilegiada: um vau do Tibre que permitia atravessar o rio, colinas fáceis de defender e uma posição estratégica entre a Etrúria, ao norte, e a Magna Grécia, ao sul. Da fusão dessas aldeias nasceu, com o tempo, a cidade.
A tradição conta que depois de Rômulo governaram sete reis, entre latinos, sabinos e etruscos, até que em 509 a.C. o último deles, Tarquínio, o Soberbo, foi expulso e a República foi proclamada. A essa fase monárquica são atribuídos as primeiras instituições, os primeiros templos e o traçado original da cidade. A loba amamentando os gêmeos continua sendo, até hoje, o emblema de Roma.
Depois da queda da monarquia em 509 a.C., Roma se constituiu como República, um sistema em que o poder era dividido entre magistrados eleitos (sobretudo os dois cônsules anuais), o Senado —uma assembleia de aristocratas que concentrava a autoridade moral e política— e as assembleias populares. Durante séculos, a vida política romana foi marcada pela tensão entre os patrícios (a velha aristocracia) e os plebeus (o resto do povo), que foram conquistando direitos até conseguir seus próprios magistrados, os tribunos da plebe.
A República foi, acima de tudo, uma formidável máquina de expansão. Primeiro submeteu seus vizinhos latinos e etruscos, depois os samnitas e as cidades gregas do sul da Itália. O grande salto veio com as Guerras Púnicas contra Cartago (264-146 a.C.), a grande potência do Mediterrâneo ocidental: depois de três guerras, e apesar do desafio do general cartaginês Aníbal —que atravessou os Alpes com elefantes e esteve a ponto de derrotar Roma—, os romanos destruíram Cartago e se tornaram a potência dominante do Mediterrâneo. Depois vieram a Grécia, a Hispânia, as Gálias (conquistadas por Júlio César) e boa parte do Oriente.
Mas a expansão trouxe crises. A enorme entrada de riquezas e escravizados, a concentração de terras e as lutas entre generais com exércitos leais à sua pessoa dilaceraram a República no século I a.C. As guerras civis entre Mário e Sila, entre César e Pompeu e, finalmente, entre Otávio e Marco Antônio marcaram o fim do sistema republicano. O assassinato de Júlio César em 44 a.C. foi um dos episódios decisivos desse colapso.
Em 27 a.C., Otávio —sobrinho e herdeiro de Júlio César— recebeu do Senado o título de Augusto e se tornou o primeiro imperador romano. Sem abolir formalmente as instituições republicanas, concentrou em suas mãos o poder real e inaugurou o Império. Com Augusto começou a 'Pax Romana', dois séculos de relativa estabilidade e prosperidade em que Roma atingiu sua máxima extensão, indo da Britânia ao Egito e da Hispânia à Mesopotâmia, com o Mediterrâneo transformado num 'lago romano' (o 'Mare Nostrum').
Foi a época dos grandes monumentos que ainda hoje definem Roma: o Coliseu, inaugurado em 80 d.C. sob a dinastia Flávia; os fóruns imperiais; o Panteão reconstruído por Adriano; as termas, os aquedutos e as grandes estradas que conectavam o império. A cidade de Roma chegou a ter cerca de um milhão de habitantes, um número que nenhuma cidade europeia voltaria a alcançar até o século XIX. O latim, o direito romano e a organização administrativa deixaram uma marca que perdura até hoje em boa parte do mundo ocidental.
A partir do século III, porém, o Império entrou em crise: pressões dos povos nas fronteiras, instabilidade política, problemas econômicos e epidemias. O imperador Constantino legalizou o cristianismo em 313 e transferiu a capital para Constantinopla em 330. Em 395 o Império se dividiu em duas metades. A parte ocidental, enfraquecida e pressionada pelas invasões germânicas (Roma foi saqueada em 410 e em 455), desmoronou até que, em 476, o último imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, foi deposto: uma data que tradicionalmente marca o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média.
Depois da queda do Império do Ocidente, Roma perdeu população e poder político, mas ganhou uma nova grandeza: a religiosa. A cidade, onde segundo a tradição os apóstolos Pedro e Paulo tinham sido martirizados, tornou-se o centro do cristianismo ocidental e a sede do bispo de Roma, o Papa. Sobre o túmulo de São Pedro, no Vaticano, seria erguida com o tempo a maior igreja da cristandade. Ao longo da Idade Média, o papado se afirmou não só como autoridade espiritual, mas também como poder temporal: os Estados Pontifícios, um território governado pelos papas que abrangia boa parte do centro da Itália.
Durante séculos, Roma foi uma cidade relativamente modesta em comparação com seu passado imperial, marcada pelas disputas entre famílias nobres, pelos conflitos com o Sacro Império e por episódios traumáticos como a transferência do papado para Avignon no século XIV. Mas a partir do Renascimento os papas decidiram transformar a cidade numa vitrine do esplendor da Igreja. Entre os séculos XV e XVII, Roma viveu uma renovação artística extraordinária: papas como Júlio II e Leão X chamaram gênios como Michelangelo, Rafael e Bramante, que pintaram a Capela Sistina, projetaram a nova Basílica de São Pedro e encheram a cidade de palácios, praças e fontes.
O Barroco, nos séculos XVII e XVIII, deu a Roma boa parte de sua imagem atual, pelas mãos de artistas como Bernini —autor da colunata de São Pedro e de fontes como a dos Quatro Rios, na Piazza Navona— e Borromini. A Fontana di Trevi, a Praça da Espanha com sua escadaria e tantas outras maravilhas barrocas transformaram Roma em destino obrigatório dos viajantes do 'Grand Tour' europeu.
Durante o longo processo de unificação italiana do século XIX (o 'Risorgimento'), Roma ocupou um lugar simbólico central: era impensável uma Itália unida sem Roma como capital. Mas a cidade continuava sendo o coração dos Estados Pontifícios, defendida pelas tropas do papa e, durante anos, por uma guarnição francesa. O desfecho veio em 20 de setembro de 1870: aproveitando a retirada das tropas francesas por causa da guerra franco-prussiana, o exército italiano abriu uma brecha na muralha na altura da Porta Pia e entrou em Roma. Os Estados Pontifícios desapareceram e o papa Pio IX se recolheu no Vaticano, declarando-se 'prisioneiro'.
Em 1871, Roma foi proclamada capital do recém-unificado Reino da Itália, papel que mantém até hoje. A cidade, que durante séculos tinha sido uma cidade papal de tamanho modesto, transformou-se numa capital moderna: abriram-se grandes avenidas, construíram-se ministérios e o imponente monumento a Vítor Emanuel II (o 'Altare della Patria'), e a população cresceu rapidamente. A 'questão romana' —o conflito entre o Estado italiano e o papado— só seria resolvida em 1929 com os Pactos de Latrão, que criaram o Estado da Cidade do Vaticano como entidade soberana independente.
O século XX trouxe o regime fascista de Mussolini, que usou a grandeza da Roma antiga como propaganda e abriu avenidas como a Via dei Fori Imperiali; a Segunda Guerra Mundial, durante a qual Roma foi ocupada e depois libertada em 1944; e, depois da guerra, uma época de renascimento cultural —a 'Dolce Vita' do cinema de Fellini— e de crescimento. Hoje Roma é a capital da Itália, sede do governo, cidade de quase três milhões de habitantes e um dos maiores destinos turísticos do planeta, com seu centro histórico declarado Patrimônio Mundial pela Unesco.
Desde a Antiguidade, Roma é chamada de 'Cidade Eterna' ('Urbs Aeterna'), uma expressão que poetas romanos como Tibulo já usavam e que expressava a convicção de que Roma duraria para sempre. A passagem dos séculos só confirmou a força desse apelido: poucas cidades do mundo concentram, num mesmo espaço, quase três mil anos de história contínua, das ruínas da Roma antiga à arte renascentista e barroca, passando por igrejas medievais e palácios modernos.
Em 1980, o centro histórico de Roma foi inscrito pela Unesco na lista de Patrimônio da Humanidade, uma declaração que mais tarde foi ampliada para incluir também as propriedades da Santa Sé na cidade e a Basílica de São Paulo Extramuros. O reconhecimento abrange o conjunto extraordinário de monumentos —o Coliseu, os fóruns, o Panteão, as praças barrocas, as fontes, as basílicas— que fazem de Roma um museu a céu aberto único no mundo.
A cultura romana se irradiou pelo mundo inteiro: o direito romano é a base dos sistemas jurídicos de boa parte do planeta, inclusive o do Brasil; o latim deu origem às línguas românicas (entre elas o português); e a arquitetura, a engenharia e a arte romanas continuam inspirando até hoje. A essa herança antiga somam-se a tradição católica, a gastronomia (a cozinha romana da massa cacio e pepe, da carbonara, da amatriciana e da pizza al taglio), o cinema e um estilo de vida que mistura a grandeza monumental com o clima de bairro. Roma continua sendo, como diz o velho ditado, a cidade para onde 'todos os caminhos levam'.