Poucas cidades transportam ao passado como Siena. Empoleirada sobre suas colinas no coração da Toscana, ela preserva um dos centros medievais mais íntegros e bonitos da Europa: um labirinto de vielas de tijolo avermelhado, palácios góticos, brasões de pedra e praças que parecem paradas no século XIV. Caminhar por Siena é mergulhar de cabeça na Idade Média, quando ela era uma das cidades mais ricas e poderosas da Itália, rival temida da vizinha Florença.
Seu coração é a Piazza del Campo, uma das praças mais extraordinárias do mundo: uma enorme concha de tijolo inclinada, dividida em nove setores, dominada pela esguia Torre del Mangia e pelo Palazzo Pubblico. É o palco do Palio, a vibrante corrida de cavalos em que as contradas — os bairros históricos da cidade, com suas bandeiras, cores e rivalidades centenárias — competem duas vezes por ano numa explosão de paixão que define a identidade de Siena. E a poucos passos se ergue o Duomo, uma sinfonia de mármore branco e preto, com sua fachada esculpida, seu piso de mosaicos e a deslumbrante biblioteca Piccolomini.
Este guia percorre o essencial de Siena com um olhar prático e caloroso: como subir na torre, o que ver na catedral, como entender o Palio e as contradas, onde comer os pici e os doces típicos, e como usar a cidade como base para descobrir a incomparável paisagem toscana de vinhedos, ciprestes e vilarejos de conto de fadas que a cerca. Siena é uma daquelas cidades que ficam para sempre na memória.
Segundo a lenda, Siena foi fundada por Sênio e Áscio, filhos de Remo (o irmão de Rômulo, fundador de Roma); por isso a loba romana amamentando os gêmeos também é símbolo da cidade. Para além do mito, houve um assentamento etrusco e depois a colônia romana de Saena Iulia. Mas o grande momento de Siena foi a Idade Média: entre os séculos XII e XIV ela se tornou uma próspera república independente, potência bancária (aqui funciona o Monte dei Paschi di Siena, considerado o banco mais antigo do mundo ainda em atividade, fundado em 1472) e rival comercial de Florença. Em 1260, os sieneses conquistaram uma vitória retumbante sobre os florentinos na batalha de Montaperti. O esplendor se consolidou no chamado Governo dos Nove (1287-1355), que deu à cidade seu urbanismo harmonioso, a Piazza del Campo, o Palazzo Pubblico e um florescimento artístico extraordinário, com mestres do gótico sienês como Duccio di Buoninsegna, Simone Martini e os irmãos Lorenzetti. A peste negra de 1348 foi um golpe devastador do qual a cidade nunca se recuperou totalmente. Depois de séculos de declínio e conflitos, Siena finalmente caiu diante de Florença e do Império em 1555 e foi incorporada ao Grão-Ducado da Toscana dos Médici. Essa derrota, paradoxalmente, congelou a cidade em sua forma medieval, que chegou quase intacta até hoje. Em 1995, o centro histórico foi declarado Patrimônio Mundial da Unesco. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Italy: Rome and Lazio, cradle of the Empire and seat of the papacy; the Tuscany of the Etruscans, the communal republics of Siena and Pisa, and Florence, the city that gave the world the Renaissance.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Como muitas cidades italianas, Siena tem uma lenda de fundação que a liga a Roma. Segundo o mito, a cidade teria sido fundada por Senio e Aschio, os filhos de Remo, irmão de Rômulo (o fundador de Roma). Fugindo do tio Rômulo, os jovens teriam chegado a estas colinas montados em um cavalo branco e outro preto e fundado ali a cidade, levando consigo a estátua da loba capitolina que amamentou o pai deles. Por isso o símbolo de Siena é, assim como o de Roma, a loba amamentando os gêmeos, uma imagem que se repete em colunas e fontes por toda a cidade. A tradição também atribui a origem do nome a 'Senio', e as cores branca e preta do brasão e do Duomo àqueles dois cavalos.
Além da lenda, a arqueologia indica que houve assentamentos na região desde a época etrusca, aproveitando a posição elevada e fácil de defender das colinas. Sob domínio romano existiu aqui a colônia de 'Saena Iulia', fundada provavelmente na época do imperador Augusto, embora tenha sido um núcleo de importância menor em comparação com outras cidades da Etrúria romana.
A verdadeira grandeza de Siena não estaria na Antiguidade, mas na Idade Média. A cidade se beneficiou de sua localização sobre a Via Francigena, a grande rota de peregrinação que ligava o norte da Europa a Roma e que atravessava a Toscana. A passagem constante de peregrinos, comerciantes e viajantes transformou Siena em um ponto estratégico de comércio, hospedagem e finanças, lançando as bases de seu esplendor posterior.
Entre os séculos XII e XIV, Siena viveu sua era de ouro como república independente, uma das cidades-estado mais prósperas e poderosas da Itália. Sua riqueza se apoiava em dois pilares: o comércio, graças à sua posição na Via Francigena, e sobretudo as finanças. Os banqueiros sieneses estavam entre os mais importantes da Europa e administravam as finanças do Papado; a família Bonsignori, com sua 'Gran Tavola', chegou a ser uma das maiores companhias bancárias do continente. Séculos depois, em 1472, seria fundado o Monte dei Paschi di Siena, que continua ativo e é considerado o banco mais antigo do mundo ainda em funcionamento.
Essa potência econômica se chocou inevitavelmente com a de sua vizinha Florença, a apenas algumas dezenas de quilômetros. As duas cidades foram rivais ferrenhas durante séculos, opostas também no grande conflito da época: Siena costumava se alinhar com os gibelinos (partidários do Imperador), enquanto Florença era guelfa (partidária do Papa). A rivalidade atingiu seu ponto mais glorioso para Siena em 4 de setembro de 1260, na batalha de Montaperti, quando o exército sienês, com apoio gibelino, impôs uma derrota esmagadora aos florentinos. Aquela vitória, lembrada com orgulho durante séculos (mencionada até por Dante na 'Divina Comédia'), marcou o auge do poderio militar sienês.
A rivalidade não era só política e militar, mas também artística e urbanística: as duas cidades competiam para ter a catedral maior, a torre mais alta, os artistas mais brilhantes. Essa emulação constante foi um dos motores do extraordinário florescimento cultural que as duas cidades viveriam nos séculos seguintes.
O período mais brilhante de Siena coincidiu com o chamado Governo dos Nove (il Governo dei Nove), um regime oligárquico-mercantil que dirigiu a república entre 1287 e 1355. Formado por nove magistrados eleitos entre a burguesia comercial e bancária (excluindo a velha nobreza e o povo comum), esse governo trouxe décadas de relativa estabilidade e prosperidade, e levou adiante um programa urbanístico e artístico que deu a Siena a forma que ela conserva até hoje.
Aos Nove se deve boa parte do esplendor visível da cidade: o desenho da Piazza del Campo, com sua característica forma de concha dividida em nove setores (em lembrança do próprio governo), a construção do Palazzo Pubblico e da Torre del Mangia, as normas urbanísticas que exigiam harmonia entre as fachadas e o ambicioso projeto do 'Duomo Nuovo', a catedral gigantesca que pretendia superar todas as outras. Foi uma época em que o orgulho cívico e a ideia do 'bom governo' ganharam forma em pedra e em pintura.
Nesse clima floresceu a escola de pintura sienesa, um dos ápices do gótico europeu. Duccio di Buoninsegna renovou a pintura com sua monumental 'Maestà'; Simone Martini deslumbrou com sua elegância refinada; e os irmãos Pietro e Ambrogio Lorenzetti levaram a pintura a novos patamares de realismo e narrativa. O ciclo da 'Alegoria do Bom e do Mau Governo' que Ambrogio Lorenzetti pintou no Palazzo Pubblico é o manifesto visual daquele ideal político: uma das primeiras grandes obras de tema laico da pintura ocidental, que mostra os frutos de governar com justiça diante dos desastres da tirania.
O esplendor de Siena se rompeu de repente em 1348, quando a peste negra, a pandemia mais devastadora da história da Europa, assolou a cidade. Estima-se que Siena perdeu em poucos meses uma proporção enorme de sua população — segundo as fontes, mais da metade dos habitantes —, uma catástrofe demográfica e econômica da qual a república nunca chegou a se recuperar totalmente. A epidemia não só matou uma parte imensa da população, como também desorganizou o comércio, os bancos e a vida social, e interrompeu projetos como o do descomunal Duomo Nuovo, cuja obra ficou parada para sempre (daí a fachada inacabada do 'Facciatone').
Um dos grandes cronistas da peste em Siena foi Agnolo di Tura, apelidado 'o Gordo', que deixou um testemunho arrepiante: contou como enterrou com as próprias mãos seus cinco filhos e descreveu valas comuns e um silêncio de fim do mundo. O golpe também contribuiu para a queda do Governo dos Nove, que desmoronou em 1355, abrindo caminho para décadas de instabilidade política, lutas internas entre facções e governos sucessivos que já não recuperariam o vigor anterior.
A partir de então, Siena entrou em um longo declínio relativo diante de Florença, que foi se impondo como a grande potência da Toscana. A cidade manteve sua independência e seu orgulho por mais dois séculos, mas sua época de maior poder tinha ficado para trás. Essa interrupção do crescimento teve, porém, uma consequência inesperada e feliz: com o desenvolvimento estagnado, Siena conservou quase intacta sua fisionomia medieval, sem as grandes transformações renascentistas e barrocas que refizeram outras cidades.
O fim da independência sienesa chegou no século XVI, em meio às grandes guerras entre a Espanha imperial de Carlos V e Filipe II e o Reino da França, que transformaram a Itália em um campo de batalha. Siena, que tinha buscado o apoio francês para resistir, foi sitiada pelas tropas imperiais e florentinas. Depois de um cerco longo e duríssimo, a cidade capitulou em 1555, exausta pela fome. Um grupo de irredutíveis ainda resistiu alguns anos em Montalcino (a 'República de Siena refugiada em Montalcino'), mas a causa estava perdida.
Em 1559, pelo tratado de Cateau-Cambrésis e acordos posteriores, o território de Siena passou para as mãos de Cosimo I de' Medici, duque de Florença, e foi integrado ao que pouco depois seria o Grão-Ducado da Toscana. Assim, a velha rival finalmente caiu sob o domínio de Florença, encerrando séculos de rivalidade. Sob os Médici e, mais tarde, os Habsburgo-Lorena, Siena se tornou uma cidade provinciana, tranquila e um tanto à margem dos grandes acontecimentos.
Paradoxalmente, essa perda de protagonismo foi sua grande sorte patrimonial. Ao deixar de ser uma capital pujante, Siena quase não passou pelas grandes reformas urbanas que transformaram outras cidades nos séculos seguintes; ficou, de certo modo, congelada em sua forma medieval do século XIV. Por isso hoje é um dos conjuntos urbanos góticos mais bem conservados da Europa. Essa autenticidade excepcional foi reconhecida em 1995, quando a Unesco inscreveu o centro histórico de Siena na lista do Patrimônio Mundial, valorizando-o como uma obra de arte urbana que se manteve fiel ao seu aspecto dos séculos XII a XV. Hoje, a vida medieval também sobrevive nas contradas e no Palio, que mantêm vivo o espírito da antiga república.
A identidade de Siena não se entende sem as contradas e o Palio, uma tradição viva com raízes na Idade Média e que continua marcando o pulso da cidade. As contradas são os bairros históricos de Siena: hoje são dezessete, cada um com seu nome, seu símbolo (um animal ou uma figura: o Ganso, a Torre, a Onda, o Caracol, a Águia, a Pantera...), suas cores, sua igreja, seu museu, sua própria pia batismal e um fortíssimo sentimento de pertencimento que passa de geração em geração. Originalmente eram agrupamentos que organizavam a defesa, as festas e, segundo a tradição, as antigas companhias militares da república.
O Palio, a corrida de cavalos que coloca as contradas frente a frente na Piazza del Campo, tem antecedentes que remontam a jogos e competições medievais e renascentistas; em sua forma moderna, com cavalos dando voltas na praça, se consolidou por volta do século XVII. É disputado duas vezes por ano, em 2 de julho (Palio di Provenzano) e em 16 de agosto (Palio dell'Assunta, dedicado a Nossa Senhora da Assunção, padroeira da cidade). Dez contradas competem em cada corrida, em uma prova curta e vertiginosa que é, no entanto, o ponto alto de um ano inteiro de preparativos, rivalidades, alianças e rituais.
O extraordinário do Palio é que ele não é uma encenação para turistas, mas uma paixão autêntica dos sieneses, que vivem o pertencimento à sua contrada como algo quase sagrado. Batizados na fonte da contrada, jantares enormes nas ruas, bandeiras giradas com destreza, cantos e lágrimas: tudo isso mantém viva uma forma de comunidade herdada da Siena medieval. Por isso visitar Siena é, em muitos sentidos, espiar uma Idade Média que não foi embora de vez, mas que ainda pulsa em suas ruas, suas praças e sua gente.