A Sicília não é simplesmente 'uma ilha da Itália': é um mundo à parte, um cruzamento de civilizações no meio do Mediterrâneo onde gregos, romanos, árabes, normandos e espanhóis deixaram sua marca, camada sobre camada. Em poucos quilômetros você passa de um templo dórico grego mais bem conservado que muitos da Grécia para uma catedral normanda coberta de mosaicos dourados feitos por artesãos bizantinos, e daí para uma feira de rua que tem o cheiro e o barulho de um souk árabe. Tudo isso à sombra do Etna, o vulcão ativo mais alto da Europa, que solta fumaça sobre a paisagem e de vez em quando tinge a noite de vermelho.
Mas a Sicília também é intensamente sensorial e prazerosa: é a granita com brioche no café da manhã, o arancino quente comido em pé, os cannoli recheados na hora, o peixe fresco nos mercados de Palermo, o vinho do Etna e aquela conversa longa depois do almoço. É o barroco dourado de Noto e Siracusa, as praias azul-turquesa, as cidadezinhas penduradas em falésias como Taormina e Cefalù, e um povo caloroso, orgulhoso e com um senso de humor único. Viajar pela Sicília é se deixar levar por esse ritmo mediterrâneo, um pouco caótico e absolutamente encantador.
Este guia percorre o essencial da ilha com um olhar prático: Palermo e seus tesouros árabe-normandos, Monreale, Taormina e a Isola Bella, a subida ao Etna, o Vale dos Templos de Agrigento, Siracusa e Ortigia, Cefalù e a Villa Romana del Casale. Contamos como chegar e se locomover (spoiler: vale a pena alugar carro), quanto custam os ingressos verificados, quando ir e o que comer. A Sicília pede tempo e um pouco de logística, mas devolve uma das viagens mais completas e memoráveis de toda a Europa.
A história da Sicília é a do Mediterrâneo inteiro. Habitada por sicanos, sículos e élimos, foi colonizada pelos gregos a partir do século VIII a.C., que a transformaram no coração da Magna Grécia: Siracusa chegou a rivalizar com Atenas, e Agrigento foi uma das cidades mais ricas do mundo antigo. Depois das Guerras Púnicas, passou a Roma em 241 a.C. e virou o 'celeiro' do Império. Em 827 foi conquistada pelos árabes, que governaram por dois séculos e meio e transformaram a agricultura, a língua e as cidades; em 1091 os normandos, liderados por Rogério I e depois por Rogério II, criaram um reino brilhante e tolerante onde conviviam as culturas latina, grega e árabe. Vieram depois os suábios, os angevinos (expulsos nas Vésperas Sicilianas de 1282), os aragoneses e os Bourbon, sob o Reino das Duas Sicílias. Em 1860, Giuseppe Garibaldi desembarcou em Marsala com seus 'Mil' e incorporou a ilha à Itália unificada. Em 1943, os Aliados desembarcaram na Sicília para iniciar a libertação da Europa. O século XX também foi marcado pela máfia e pela luta antimáfia, com episódios como os assassinatos dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino em 1992. Toda essa história, com suas datas e protagonistas, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The two great islands of the Mediterranean: Sicily, a crossroads of Greeks, Arabs and Normans, from the Vespers to Garibaldi and from the drama of the mafia to the courage of the anti-mafia movement; and Sardinia, land of the nuraghi, the judicates, Aragon and the House of Savoy.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de Roma existir, a Sicília já era um território disputado. Seus primeiros habitantes conhecidos foram três povos: os sicanos, que a tradição situava no centro e no oeste; os sículos, vindos da península itálica, que deram nome à ilha; e os élimos do noroeste, em torno de Segesta e Érice. Depois deles chegaram os fenícios, que fundaram entrepostos comerciais no ocidente (Mózia, Palermo, Solunto), e sobretudo os gregos, que a partir do século VIII a.C. iniciaram uma colonização intensa que transformaria a ilha no coração da Magna Grécia.
Em 734 a.C., colonos de Cálcis fundaram Naxos, e pouco depois os coríntios fundaram Siracusa (733 a.C.), que viria a ser a cidade grega mais poderosa do Ocidente. Vieram em seguida Gela, Selinunte, Messina, Catânia e, em 582 a.C., Akragas (a futura Agrigento), que o poeta Píndaro chamou de 'a mais bela das cidades dos mortais'. Essas pólis ergueram templos dóricos colossais — os mesmos que hoje impressionam no Vale dos Templos, em Selinunte e em Segesta — e produziram filósofos, tiranos e matemáticos. Siracusa foi a terra natal de Arquimedes, um dos maiores gênios da Antiguidade.
O poder de Siracusa ficou evidente em 413 a.C., quando ela destruiu a grande expedição militar que Atenas havia enviado para conquistá-la durante a Guerra do Peloponeso: foi um dos maiores desastres da história ateniense, e milhares de prisioneiros acabaram trabalhando nas pedreiras da cidade, as 'latomias'. Sob tiranos como Gelão, Dionísio I e Hierão II, Siracusa dominou boa parte da ilha e enfrentou repetidas vezes Cartago, a potência fenícia do norte da África, que controlava o ocidente siciliano. Durante séculos, a Sicília foi um tabuleiro onde gregos e cartagineses disputaram o Mediterrâneo central.
A rivalidade entre Roma e Cartago arrastou a Sicília junto. A Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.) foi travada em grande parte na ilha e em suas águas, e terminou com a vitória romana: em 241 a.C., a Sicília se tornou a primeira província de Roma fora da península itálica. Siracusa ainda resistiu alguns anos como aliada de Cartago, até ser tomada após um longo cerco em 212 a.C., durante o qual — segundo a tradição — Arquimedes morreu pelas mãos de um soldado romano.
Sob Roma, a Sicília virou o 'celeiro' da República e do Império: seus enormes latifúndios, trabalhados por multidões de escravizados, abasteciam a capital de trigo. Essa exploração provocou duas grandes rebeliões de escravos, as Guerras Servis (século II a.C.), e episódios célebres de corrupção, como o governo do pretor Verres, denunciado por Cícero. Da Sicília romana tardia resta um testemunho deslumbrante: a Villa Romana del Casale, perto de Piazza Armerina, com a maior coleção de mosaicos romanos preservada no mundo.
Após a queda do Império Romano do Ocidente, a ilha passou pelas mãos de vândalos, ostrogodos e, sobretudo, bizantinos: por um breve período, no século VII, Siracusa chegou a ser capital do Império Bizantino. Mas a mudança mais profunda veio em 827, quando começou a conquista árabe. Os muçulmanos levaram décadas para dominar a ilha — Palermo caiu em 831, Siracusa só em 878 — e governaram por mais de dois séculos. A Sicília islâmica foi próspera e refinada: os árabes introduziram novos cultivos (cítricos, cana-de-açúcar, algodão, pistache), sistemas de irrigação, técnicas e palavras que ainda sobrevivem no dialeto e na cozinha sicilianos. Palermo se tornou uma das maiores e mais brilhantes cidades do Mediterrâneo, com centenas de mesquitas e um comércio intenso.
Em meados do século XI, aventureiros normandos vindos do norte da França — a mesma linhagem que conquistou a Inglaterra em 1066 — voltaram os olhos para a Sicília. Liderados por Roberto Guiscardo e seu irmão Rogério de Hauteville (Rogério I), iniciaram em 1061 uma conquista que culminou em 1091 com o domínio de toda a ilha. Em vez de arrasar a cultura árabe que encontraram, os normandos fizeram algo excepcional para a época: eles a integraram. O reino que fundaram foi um dos estados mais avançados e tolerantes da Europa medieval.
O grande arquiteto desse projeto foi Rogério II, coroado rei da Sicília em 1130. Sua corte em Palermo foi um cruzamento único das culturas latina, grega bizantina e árabe: falavam-se várias línguas, cunhavam-se moedas com inscrições em árabe, trabalhavam ali geógrafos muçulmanos como al-Idrisi — autor de um célebre mapa-múndi feito para o rei — e conviviam cristãos, muçulmanos e judeus. Dessa fusão nasceu o estilo árabe-normando, uma das expressões artísticas mais originais da Idade Média: a Capela Palatina, com seus mosaicos bizantinos e seu teto de muqarnas islâmicas; as catedrais de Cefalù e Monreale, cobertas de ouro; igrejas com cúpulas vermelhas de ar oriental. Esse conjunto é hoje Patrimônio Mundial da Unesco.
Depois, por via matrimonial, a coroa passou à dinastia suábia dos Hohenstaufen. Sua figura mais notável foi Frederico II (1194-1250), rei da Sicília e imperador do Sacro Império, apelidado de 'stupor mundi' (o assombro do mundo) por sua cultura, sua curiosidade científica e sua corte poliglota, onde floresceram a poesia em língua siciliana — berço do italiano literário — e o saber de três religiões. Com sua morte, porém, começou a decadência: o papado e as potências europeias disputaram a rica ilha, que foi perdendo aos poucos sua independência e seu papel central.
Depois dos Hohenstaufen, o papa entregou a Sicília a Carlos de Anjou, irmão do rei da França. O domínio angevino foi duro e impopular, e explodiu numa revolta que ficou gravada na memória da ilha: as Vésperas Sicilianas. Na segunda-feira de Páscoa de 1282, em Palermo, um incidente — segundo a tradição, o assédio de um soldado francês a uma mulher siciliana na hora das vésperas — desencadeou uma insurreição geral em que milhares de franceses foram massacrados. A rebelião expulsou os angevinos e ofereceu a coroa a Pedro III de Aragão, casado com uma herdeira dos Hohenstaufen.
Assim começou uma longa fase sob a Coroa de Aragão e depois sob os reis da Espanha. Durante séculos, a Sicília foi governada por vice-reis em nome de uma monarquia distante. Foi uma época de relativa marginalização: a ilha, antes centro do Mediterrâneo, ficou na periferia dos grandes impérios, com uma economia dominada pelos latifúndios e uma nobreza poderosa. O terremoto de 1693 devastou o sudeste e deu início à reconstrução de cidades inteiras — Noto, Ragusa, Modica, Catânia — num esplêndido estilo barroco tardio, hoje também Patrimônio da Unesco.
No século XVIII, depois de várias trocas de mãos, a Sicília ficou unida a Nápoles sob a dinastia dos Bourbon, formando o Reino das Duas Sicílias, o maior estado da Itália pré-unificação. Os Bourbon governavam a partir de Nápoles, e a Sicília voltou a se sentir deixada de lado e explorada, com um campesinato empobrecido diante de uma aristocracia latifundiária. Esse mal-estar social e o atraso econômico seriam o pano de fundo das grandes mudanças do século XIX.
Em 1860, a Sicília se tornou o palco decisivo da unificação italiana. Em 11 de maio, Giuseppe Garibaldi desembarcou em Marsala com pouco mais de mil voluntários, os célebres 'Mille' de camisa vermelha. Apoiado por camponeses sicilianos cansados do governo bourbônico, derrotou as tropas reais em Calatafimi e em Palermo e, em poucos meses, conquistou a ilha inteira e o sul da península. A expedição precipitou o fim do Reino das Duas Sicílias e a incorporação do sul à nova Itália unificada, proclamada reino em 1861.
A unificação, no entanto, não trouxe a prosperidade esperada. O novo Estado, centralizado no norte, não resolveu o atraso do sul; os impostos, o serviço militar obrigatório e a persistência do latifúndio alimentaram o descontentamento e episódios de banditismo. No fim do século XIX e no começo do XX, a pobreza empurrou centenas de milhares de sicilianos a emigrar, sobretudo para as Américas: comunidades inteiras nos Estados Unidos, na Argentina e também no Brasil têm raízes sicilianas. Romances como 'O Leopardo', de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, retrataram com lucidez essa transição e a famosa frase 'é preciso que tudo mude para que tudo continue como está'.
Na Segunda Guerra Mundial, a Sicília voltou a ser um ponto-chave. Em julho de 1943, os Aliados lançaram a Operação Husky, o desembarque anglo-americano nas praias do sul da ilha, a maior operação anfíbia da guerra até aquele momento. Em pouco mais de um mês conquistaram a Sicília, o que precipitou a queda de Mussolini e abriu caminho para a campanha da Itália. A ilha, ocupada e bombardeada, ficou devastada; o pós-guerra foi de reconstrução, reforma agrária parcial e, em 1946, da concessão de um estatuto de autonomia especial que a Sicília mantém até hoje.
Nenhum olhar honesto sobre a Sicília contemporânea pode ignorar o fenômeno da máfia, a Cosa Nostra, surgida no século XIX no vácuo de poder entre o latifúndio e o Estado. Durante décadas, organizações criminosas controlaram, por meio da extorsão, da violência e da cumplicidade política, amplos setores da economia e da vida pública. Nas décadas de 1970 e 1980, a guerra entre clãs e a ofensiva contra o Estado deixaram centenas de mortos, entre eles magistrados, policiais, jornalistas e políticos.
A resposta veio da própria sociedade siciliana e de um grupo de juízes corajosos. O chamado 'pool antimáfia' de Palermo, liderado por Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, conduziu em meados dos anos 1980 o 'maxiprocesso', um julgamento histórico que, em parte graças ao depoimento do arrependido Tommaso Buscetta, levou à condenação de centenas de mafiosos e demonstrou pela primeira vez nos tribunais a existência e a estrutura da Cosa Nostra. Foi um golpe sem precedentes.
A vingança foi brutal. Em 23 de maio de 1992, Giovanni Falcone, sua esposa Francesca Morvillo e três agentes da escolta morreram quando uma carga de explosivos foi detonada sob a rodovia de Capaci, perto de Palermo. Apenas dois meses depois, em 19 de julho, Paolo Borsellino e cinco agentes de sua escolta foram assassinados com um carro-bomba na via D'Amelio, em Palermo. Os atentados chocaram a Itália e provocaram uma reação popular e estatal decisiva contra a máfia. Hoje, Falcone e Borsellino dão nome ao aeroporto de Palermo e a árvores, escolas e praças de toda a ilha; o movimento antimáfia, a cultura do 'não pago o pizzo' (não pago a extorsão) e uma sociedade civil ativa transformaram a imagem e a realidade da Sicília. Lembrar essa história com sobriedade, sem romantizá-la, faz parte de conhecer de verdade a ilha.