Visitar a Cidade do Vaticano é, em poucos metros quadrados, mergulhar em dois mil anos de fé, arte e poder. É o menor Estado do mundo, mas abriga alguns dos tesouros artísticos mais extraordinários da humanidade: a Basílica de São Pedro, a maior igreja da cristandade, erguida sobre o túmulo do apóstolo; a Capela Sistina, com os afrescos de Michelangelo que deixam qualquer um sem fôlego; e os Museus Vaticanos, uma das coleções de arte mais ricas do planeta.
O Vaticano é o coração espiritual de mais de um bilhão de católicos no mundo todo e a residência do Papa, mas também um destino que emociona qualquer viajante, religioso ou não, pela grandiosidade da sua arte e da sua história. A Praça de São Pedro, abraçada pela majestosa colunata de Bernini, é um dos espaços mais impressionantes já projetados, pensada para receber multidões de peregrinos.
Este guia percorre o essencial do Vaticano com um olhar prático e acolhedor: como entrar na basílica e subir à cúpula, como organizar a visita aos Museus e à Capela Sistina para evitar as longas filas, quais eventos religiosos viver e como combinar o Vaticano com o restante de Roma. Uma dica de ouro: reserve os ingressos com antecedência e vista-se com respeito (ombros e joelhos cobertos), porque é um local de culto.
O Vaticano deve sua importância a um fato fundador do cristianismo: segundo a tradição, na colina vaticana, nos jardins e no circo do imperador Nero, o apóstolo São Pedro, considerado o primeiro Papa, foi martirizado e sepultado por volta do ano 64 ou 67 d.C. Sobre o seu túmulo, o imperador Constantino mandou construir no século IV uma primeira grande basílica. Durante a Idade Média e o Renascimento, os papas fizeram do Vaticano o centro da Igreja e dos Estados Pontifícios, o território que governaram no centro da Itália até 1870. A antiga basílica de Constantino foi demolida e substituída, entre os séculos XVI e XVII, pela atual Basílica de São Pedro, em cuja construção e decoração trabalharam Bramante, Michelangelo (autor da cúpula e da Pietà), Rafael, Maderno e Bernini. Quando, em 1870, o Reino da Itália tomou Roma e dissolveu os Estados Pontifícios, o papa se considerou 'prisioneiro' no Vaticano, dando início à chamada 'questão romana'. O conflito foi resolvido em 1929 com os Pactos de Latrão, assinados entre a Santa Sé e o Estado italiano de Mussolini, que criaram o Estado da Cidade do Vaticano como entidade soberana e independente. Desde então, o Vaticano é uma cidade-Estado governada pelo Papa, com bandeira, selos, guarda (a pitoresca Guarda Suíça) e administração próprios. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Italy: Rome and Lazio, cradle of the Empire and seat of the papacy; the Tuscany of the Etruscans, the communal republics of Siena and Pisa, and Florence, the city that gave the world the Renaissance.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A origem da importância do Vaticano remonta à Roma imperial do século I. A região, na margem direita do Tibre, era então uma área suburbana chamada 'Ager Vaticanus' (o campo vaticano), pouco povoada e com fama de insalubre. Ali, o imperador Calígula e depois Nero construíram um circo — o Circo de Nero — para corridas de carros e espetáculos. Ao lado do circo, como era costume romano, se estendia uma necrópole, um cemitério com mausoléus ao longo de um caminho.
Foi justamente nesse lugar que, segundo a tradição cristã, o apóstolo São Pedro foi martirizado. Ele é considerado pela Igreja Católica o primeiro Papa, e morreu durante a perseguição aos cristãos desencadeada por Nero após o grande incêndio de Roma, no ano 64. Segundo o relato, Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo por humildade, por não se considerar digno de morrer como Cristo. Seu corpo foi sepultado na necrópole próxima, em um túmulo modesto que os primeiros cristãos começaram a venerar.
Nas décadas e séculos seguintes, esse túmulo virou um lugar de peregrinação clandestina para os cristãos, que o marcaram com um pequeno monumento. A memória de que ali repousava São Pedro nunca se perdeu. Muito tempo depois, as escavações do século XX trouxeram à luz a antiga necrópole sob a basílica e identificaram a área do suposto túmulo do apóstolo: o ponto exato sobre o qual, ao longo dos séculos, seriam erguidas primeiro a basílica de Constantino e depois a atual Basílica de São Pedro. Toda a geografia sagrada do Vaticano gira em torno desse ponto.
O grande salto na história do Vaticano veio com o imperador Constantino, o primeiro a favorecer o cristianismo depois do Édito de Milão, do ano 313, que pôs fim às perseguições. Por volta de 320-330, Constantino mandou construir sobre o túmulo de São Pedro uma grande basílica, conhecida como 'basílica constantiniana' ou 'antiga São Pedro'. Para erguê-la naquele terreno inclinado da colina, foi preciso fazer enormes movimentações de terra, que soterraram a antiga necrópole romana e, sem querer, a preservaram para a posteridade.
Durante mais de mil anos, essa primeira basílica foi o principal santuário da cristandade ocidental e um destino de peregrinação que atraía fiéis de toda a Europa. Ao seu redor foi crescendo um bairro de hospedarias, capelas e edifícios para os peregrinos e o clero. O Vaticano, porém, ainda não era a residência habitual dos papas, que durante grande parte da Idade Média viveram no palácio de Latrão, do outro lado de Roma.
A Idade Média foi uma época turbulenta para Roma e para o papado. A cidade sofreu saques e decadência, os papas se envolveram em conflitos com imperadores e famílias nobres, e no início do século XIV a sede papal chegou a ser transferida para Avignon, na França, por quase setenta anos (o chamado 'exílio de Avignon'). Quando o papado voltou definitivamente a Roma, no fim do século XIV, os pontífices passaram a fixar residência ao lado de São Pedro, no Vaticano, que aos poucos se tornou o centro do poder papal. A velha basílica de Constantino, já muito deteriorada depois de mil anos de uso, seria o palco da grande transformação renascentista.
Entre os séculos XV e XVII, os papas transformaram o Vaticano na maior vitrine artística da cristandade, chamando os gênios do Renascimento e do Barroco. O papa Sisto IV mandou construir, entre 1473 e 1481, a Capela Sistina (que leva o seu nome), cujas paredes foram pintadas por mestres do Quattrocento como Botticelli, Perugino e Ghirlandaio. Mas a transformação mais radical foi impulsionada pelo papa Júlio II, no início do século XVI.
Júlio II tomou a decisão ousada de demolir a milenar basílica de Constantino, que ameaçava desabar, e construir no lugar uma igreja totalmente nova, a maior e mais magnífica do mundo. A pedra fundamental foi lançada em 1506, segundo um projeto de Bramante. A obra se estendeu por mais de um século e reuniu, um após o outro, os maiores arquitetos e artistas da época: depois de Bramante vieram Rafael, Sangallo e, sobretudo, Michelangelo, que a partir de 1547 dirigiu a obra e projetou a grandiosa cúpula. A fachada e a nave foram concluídas por Maderno, e a basílica foi consagrada em 1626.
Foi também Júlio II quem encomendou a Michelangelo a pintura da abóbada da Capela Sistina (1508-1512), um dos ápices absolutos da arte universal, e a Rafael a decoração dos aposentos do Palácio Apostólico (as 'Salas de Rafael', com a célebre 'Escola de Atenas'). Décadas depois, Michelangelo acrescentaria o monumental 'Juízo Final' na parede do altar da Sistina. No século XVII, o gênio do Barroco, Gian Lorenzo Bernini, deu forma ao interior da basílica e projetou a majestosa Praça de São Pedro com sua colunata. Assim nasceu o Vaticano artístico que conhecemos hoje, um tesouro irrepetível reunido ao longo de gerações.
Durante mais de mil anos, os papas não foram apenas líderes espirituais, mas também soberanos de um Estado: os Estados Pontifícios, um território que, em sua extensão máxima, abrangia boa parte do centro da Itália, do Lácio até a Romanha, com Roma como capital. Esse poder temporal do papado, que remontava aproximadamente ao século VIII, dava aos pontífices independência política diante de outros monarcas, mas também os envolvia em guerras, alianças e conflitos territoriais como qualquer outro príncipe europeu.
Tudo entrou em crise no século XIX com o processo de unificação da Itália (o 'Risorgimento'). O novo Reino da Itália, proclamado em 1861, queria Roma como capital, mas a cidade continuava sendo o coração dos Estados Pontifícios, defendida pelas tropas do papa e, durante anos, por uma guarnição francesa enviada por Napoleão III. O desfecho veio em 20 de setembro de 1870: com as tropas francesas retiradas por causa da Guerra Franco-Prussiana, o exército italiano abriu uma brecha na muralha na altura da Porta Pia e entrou em Roma. Os Estados Pontifícios deixaram de existir.
O papa Pio IX se recusou a reconhecer a anexação, recolheu-se no Vaticano e se declarou 'prisioneiro', negando-se a sair do recinto. Assim começou a chamada 'questão romana': um conflito de quase sessenta anos entre a Santa Sé e o Estado italiano, durante o qual os papas não reconheceram a legitimidade do novo reino sobre Roma e permaneceram, simbolicamente, trancados no Vaticano. A situação ficou num limbo jurídico: o papado tinha perdido seu Estado, mas mantinha um enorme peso espiritual e diplomático no mundo todo.
A 'questão romana', que opunha a Santa Sé ao Estado italiano desde 1870, foi finalmente resolvida em 11 de fevereiro de 1929 com a assinatura dos Pactos de Latrão (Patti Lateranensi), entre o cardeal Pietro Gasparri, em nome do papa Pio XI, e Benito Mussolini, em nome do rei da Itália. Esses acordos puseram fim a quase seis décadas de conflito e redesenharam a relação entre a Itália e o papado.
Os Pactos criaram um novo sujeito de direito internacional: o Estado da Cidade do Vaticano, um território minúsculo — apenas 0,44 km² — sobre o qual o papa exerceria plena soberania. Desse modo, a Santa Sé recuperava a independência territorial necessária para garantir sua liberdade espiritual, mas numa escala mínima, sem as pretensões dos antigos Estados Pontifícios. Os acordos incluíam ainda uma concordata que regulava as relações entre a Igreja Católica e o Estado italiano, além de uma compensação financeira pela perda dos antigos territórios.
Desde 1929, a Cidade do Vaticano é o menor Estado independente do mundo, governado pelo Papa como monarca absoluto e chefe de Estado. Tem bandeira própria (amarela e branca, com as chaves de São Pedro), hino, selos, agência de correios, jornal ('L'Osservatore Romano'), rádio e, de forma célebre, sua própria força de segurança: a Guarda Suíça Pontifícia, com seus pitorescos uniformes de inspiração renascentista. O Vaticano não faz parte da Itália, embora esteja completamente cercado por Roma e compartilhe com ela vários serviços.
Hoje a Cidade do Vaticano é, ao mesmo tempo, o menor Estado do mundo e um dos lugares mais influentes do planeta. É a sede da Igreja Católica e a residência do Papa, que exerce sua autoridade espiritual sobre mais de um bilhão de fiéis no mundo todo e mantém relações diplomáticas com a maioria dos países. A Santa Sé, distinta do Estado vaticano mas ligada a ele, participa de organismos internacionais e tem um papel relevante na diplomacia mundial.
Em 1984, a Unesco inscreveu a Cidade do Vaticano em sua lista de Patrimônio da Humanidade, com uma particularidade: é o único Estado do mundo declarado Patrimônio Mundial em sua totalidade. O reconhecimento abrange o conjunto extraordinário formado pela Basílica de São Pedro, a Praça de São Pedro, os palácios, os Museus Vaticanos, a Capela Sistina e os jardins: um compêndio único de arte, arquitetura e espiritualidade acumulado ao longo dos séculos.
O Vaticano recebe todos os anos milhões de visitantes e peregrinos, que vêm admirar seus tesouros artísticos, assistir às audiências e celebrações papais ou viver momentos especiais como os Anos Santos ou Jubileus, que multiplicam o movimento. Seu funcionamento cotidiano combina o antigo e o moderno: a Guarda Suíça, com seus uniformes renascentistas, convive com a tecnologia dos museus, dos arquivos e da comunicação da Santa Sé. Apesar do tamanho minúsculo, o Vaticano continua sendo um farol espiritual, cultural e artístico que concentra, em menos de meio quilômetro quadrado, uma parte essencial da história da humanidade.