Verona é uma daquelas cidades italianas que têm de tudo num tamanho fácil de percorrer: uma Arena romana de dois mil anos bem no centro, praças medievais lindíssimas, palácios renascentistas, um rio que a abraça numa grande curva e, de quebra, o rótulo romântico de ser 'a cidade de Romeu e Julieta'. Ela é tão bem localizada — entre Milão e Veneza, a um passo do lago de Garda — que muita gente a vê de passagem em um dia, mas Verona merece mais: é uma das cidades mais bonitas e gostosas do norte da Itália, com uma vida de praças, cafés e aperitivos que vicia.
Seu grande símbolo é a Arena, o anfiteatro romano onde há vinte séculos lutavam os gladiadores e onde hoje, todo verão, acontece um dos festivais de ópera ao ar livre mais famosos do mundo: ouvir 'Aida' ou 'La Traviata' sob as estrelas, sentado nas mesmas arquibancadas de pedra que os romanos usavam, é uma experiência única. Mas Verona é muito mais que a sua Arena: é a Piazza delle Erbe sobre o antigo fórum romano, os túmulos góticos dos Escalígeros, o castelo de Castelvecchio e suas igrejas cheias de arte.
Este guia conta o essencial com um olhar prático e honesto: o que ver e quanto custa cada entrada verificada, como funciona a temporada de ópera com suas datas e preços reais, como se locomover e — sim — o que há de verdade na famosa Casa de Julieta, que contamos com toda a sinceridade. Porque Verona é maravilhosa de verdade, sem precisar acreditar totalmente na lenda que a deixou famosa.
Verona nasceu como colônia romana no século I a.C., numa curva do rio Ádige, e prosperou graças à sua posição estratégica nos caminhos do norte da Itália; dessa época guarda sua joia, a Arena, um anfiteatro do século I d.C. Após a queda de Roma, passou pelas mãos de ostrogodos e lombardos, e na Idade Média viveu seu segundo grande momento sob o senhorio da família Della Scala (os Escalígeros), que entre os séculos XIII e XIV a transformou numa corte poderosa e refinada — para lá foi, exilado, o poeta Dante. Em 1405 Verona se entregou à República de Veneza, sob cujo domínio permaneceu quase quatro séculos, até que Napoleão acabou com a Sereníssima em 1797. Depois foi austríaca até 1866, quando se uniu ao Reino da Itália. Sua fama universal, porém, veio da literatura: foi aqui que Shakespeare ambientou 'Romeu e Julieta', e essa história de amor transformou Verona num destino romântico para o mundo inteiro. A história completa, com a Roma imperial, os Escalígeros, Veneza e Shakespeare, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Italy of trade and industry: Venice and its thousand-year maritime republic, the Milan of the Visconti and the Sforza, the Genoa of the navigators, learned Bologna and the economic engine that turned Italy into an industrial power.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
São poucas as cidades onde você pode se sentar nas mesmas arquibancadas de pedra que os romanos ocupavam há vinte séculos e, de quebra, assistir a uma ópera. Verona é uma delas, e essa continuidade — dois mil anos de vida sem interrupção — é a chave da sua história.
A cidade nasceu num lugar estratégico: uma curva do rio Ádige (Adige), o mais importante do norte da Itália depois do Pó, no ponto em que o rio sai dos Alpes rumo à planície. Esse meandro oferecia defesa natural por três lados e um vau para atravessar, e por ali passavam as grandes estradas que ligavam Roma ao norte da Europa: a Via Postumia e a Via Claudia Augusta. Verona virou município romano em 49 a.C., sob Júlio César, e prosperou rapidamente como entroncamento de estradas e praça militar.
Daquela Verona romana restam marcas pela cidade inteira. A mais espetacular é a Arena, o grande anfiteatro construído por volta de meados do século I d.C., com capacidade para cerca de 30.000 espectadores, que iam assistir a combates de gladiadores e caçadas de feras. É um dos anfiteatros romanos mais bem conservados do mundo: embora os terremotos tenham derrubado quase todo o anel externo de pedra rosa (do qual sobrevive só um fragmento, a 'Ala'), as arquibancadas internas continuam praticamente inteiras, o que permitiu usá-lo sem pausa durante séculos. Mas não é o único vestígio: também se conservam o Teatro Romano, apoiado na encosta da colina de San Pietro, do outro lado do rio; os arcos de pedra que foram portas das muralhas, como a Porta Borsari e a Porta Leoni; e o traçado do fórum, que continua vivo sob a atual Piazza delle Erbe, até hoje o coração da cidade. Verona não é uma cidade com ruínas romanas: é uma cidade romana que nunca deixou de ser habitada.
Depois da queda do Império Romano do Ocidente, Verona viveu os séculos turbulentos das invasões. Foi capital do rei ostrogodo Teodorico, o Grande, no início do século VI — a lenda germânica o lembraria como 'Dietrich von Bern', ou seja, 'de Verona' —, e depois passou pelas mãos dos lombardos e dos francos de Carlos Magno. Durante a Idade Média tornou-se uma comuna livre, uma cidade-Estado governada pelos próprios cidadãos, envolvida, como toda a Itália, nas lutas entre guelfos (partidários do papa) e gibelinos (partidários do imperador).
O grande momento de Verona chegou com a família Della Scala, conhecida como os Escalígeros por causa da escada ('scala') do seu brasão. Entre 1262 e 1387 eles governaram a cidade como senhores (uma 'signoria'), e sob o seu comando Verona alcançou um esplendor político, militar e cultural que a colocou entre as cortes mais brilhantes da Itália. Chegaram a dominar um amplo território no norte, que no auge incluía cidades como Vicenza, Pádua, Treviso, Lucca e até Parma.
A figura mais célebre da dinastia foi Cangrande I della Scala ('o Grande Cão'), que governou entre 1308 e 1329 e transformou sua corte num refúgio de artistas e poetas. Entre eles, nada menos que Dante Alighieri, que, depois de ser banido de Florença, passou anos exilado em Verona sob a proteção de Cangrande, a quem dedicou parte da sua 'Divina Comédia' (o 'Paraíso'). Ainda hoje há uma estátua de Dante na Piazza dei Signori, no coração do poder escalígero. O legado material dessa época é enorme: o castelo de Castelvecchio e sua ponte fortificada sobre o Ádige, construídos por volta de 1354-1356; as torres e os palácios das praças centrais; e, sobretudo, as Arche Scaligere, os espetaculares mausoléus góticos onde os senhores foram sepultados sob estátuas equestres, um dos conjuntos funerários medievais mais impressionantes da Europa. Foi nessa Verona de famílias rivais e disputas de poder que, dois séculos depois, um dramaturgo inglês ambientaria a história de amor mais famosa de todos os tempos.
O poder dos Escalígeros se apagou no fim do século XIV, entre brigas internas e a pressão de vizinhos mais fortes. Depois de um breve domínio dos Visconti de Milão, em 1405 Verona se entregou à República de Veneza, a Sereníssima, e passou a fazer parte dos seus domínios em terra firme (o 'Stato da Terra'). Começava uma etapa nova e longa, que duraria quase quatro séculos.
Os séculos venezianos foram, em geral, de paz e estabilidade, embora a cidade tenha sofrido episódios duríssimos, como a peste de 1630, a mesma que devastou boa parte do norte da Itália e levou uma parcela importante da população. Veneza governou Verona por meio dos seus 'rettori' e a fortificou como praça-chave na defesa ocidental dos seus territórios: até hoje o leão alado de São Marcos, símbolo da Sereníssima, coroa uma coluna na Piazza delle Erbe e aparece esculpido em muros e portas pela cidade toda, lembrança daqueles séculos. Verona floresceu como centro comercial e artístico e adotou o gosto e as modas da refinada cultura vêneta.
Essa longa estabilidade acabou de repente com a irrupção da história europeia. Em 1797, durante suas campanhas na Itália, o general Napoleão Bonaparte pôs fim à milenar República de Veneza. Verona viveu naquele ano uma violenta revolta popular contra a ocupação francesa, as chamadas 'Pasque Veronesi' (Páscoas Veronesas), que foi esmagada. Pelo Tratado de Campoformio, Napoleão dividiu o território, e, após a queda definitiva do império napoleônico, o Congresso de Viena (1815) entregou Verona e todo o Vêneto ao Império Austríaco. Os austríacos transformaram a cidade numa das quatro grandes fortalezas do 'Quadrilátero', seu sistema defensivo na Itália, e a encheram de muralhas e baluartes militares. Verona ficou sob domínio austríaco até 1866, quando, depois da terceira guerra de independência italiana, finalmente se uniu ao Reino da Itália junto com o resto do Vêneto.
Se Verona hoje é um destino romântico conhecido no planeta inteiro, não é por causa dos imperadores romanos nem dos Escalígeros, mas de uma peça de teatro escrita por um inglês que nunca pôs os pés na Itália. Por volta de 1595, William Shakespeare escreveu 'Romeu e Julieta', a tragédia de dois jovens amantes de famílias inimigas — os Montéquio e os Capuleto — que ele ambientou explicitamente em Verona ('Na bela Verona, onde se passa a nossa história…').
Vale deixar claro o que é história e o que é literatura. Romeu e Julieta são personagens de ficção: não existiram. Shakespeare não inventou o enredo; ele o tirou de relatos italianos anteriores, sobretudo de uma novela do veronês Luigi da Porto do início do século XVI, que já situava a história em Verona na época dos Escalígeros e falava das famílias rivais; esses relatos, por sua vez, bebiam de tradições ainda mais antigas. A ambientação veronesa fazia sentido literário: a Verona medieval das signorias e das lutas entre facções era o cenário perfeito para uma tragédia de ódios familiares.
Com o tempo, a fama mundial da peça criou uma demanda turística que a cidade soube aproveitar. Assim nasceram os 'lugares' de Romeu e Julieta, que na verdade são criações bem recentes. A 'Casa de Julieta', na Via Cappello, é um edifício medieval que pertenceu à família Dal Cappello — um sobrenome parecido com 'Capuleto' —; a prefeitura o comprou e, nas décadas de 1930 e 1940, acrescentou a famosa sacada, montada com fragmentos de um sarcófago de mármore do século XIV que estavam guardados no museu de Castelvecchio, para oferecer aos visitantes o cenário que eles procuravam. Existe também um suposto 'Túmulo de Julieta' num antigo convento e uma 'Casa de Romeu'. Nada disso tem base histórica, mas isso não tirou a força do mito: todo ano chegam multidões para deixar cartas de amor, tocar a estátua de bronze de Julieta ou prender cadeados. O interessante é que a lenda se apoia numa Verona bem real: a dos palácios medievais, das praças e das famílias que disputavam o poder, que dá para percorrer a pé e que dá ao mito o seu cenário verdadeiro.
A Verona moderna, já italiana, seguiu o destino do país. Cresceu como cidade industrial e, sobretudo, como grande entroncamento de transportes: pela sua posição, no cruzamento da linha ferroviária que liga Milão a Veneza com a que sobe rumo ao Brennero e ao norte da Europa, tornou-se um dos principais pontos de conexão do país, papel que mantém hoje com o trem de alta velocidade.
O século XX deixou cicatrizes. Durante a Segunda Guerra Mundial, depois da queda de Mussolini e da ocupação alemã, Verona foi palco de acontecimentos dramáticos: em 1944 aconteceu aqui o 'processo de Verona', em que o regime fascista da República de Salò julgou e condenou à morte vários dos seus próprios dirigentes que tinham votado pela destituição de Mussolini, entre eles o genro dele, Galeazzo Ciano. A cidade sofreu bombardeios aliados e, nos últimos dias da guerra, em 1945, os alemães em retirada explodiram todas as pontes históricas sobre o Ádige, incluindo a romana Ponte Pietra e a medieval Ponte Scaligero de Castelvecchio. As duas foram reconstruídas com paciência no pós-guerra, recuperando do leito do rio as pedras e os tijolos originais: é por isso que hoje podemos atravessá-las de novo.
Em 2000, a Unesco declarou o centro histórico de Verona Patrimônio Mundial, reconhecendo-a como um exemplo excepcional de cidade que conservou ao longo de mais de dois mil anos, de forma contínua, testemunhos de todas as suas épocas: a romana, a medieval dos Escalígeros, a veneziana e a moderna. Hoje Verona vive do turismo, do comércio e do vinho — é a capital de uma das regiões vinícolas mais prestigiadas da Itália, a do Valpolicella e do Amarone, e sede da Vinitaly, a maior feira de vinhos do país. E segue viva a sua vocação de palco: todo verão, a Arena romana se transforma no maior teatro de ópera ao ar livre do mundo, e toda noite, nas suas arquibancadas milenares, milhares de pessoas acendem uma velinha antes de a música começar. Poucas cidades encarnam tão bem a ideia de que, na Itália, o passado não é um museu, mas um lugar onde ainda se vive.