Milão é a Itália que você não espera: não a das ruínas e dos templos, mas a do design, da moda, das finanças e do aperitivo ao entardecer. É uma cidade elegante e de ritmo acelerado, capital mundial da moda ao lado de Paris, Nova York e Londres, sede das grandes casas de alta-costura e do Salone del Mobile, a feira de design mais importante do planeta. Mas, por trás dessa fachada moderna, guarda tesouros de primeiríssima linha: uma das maiores catedrais góticas do mundo, a Última Ceia de Leonardo da Vinci e séculos de história que vão da Roma imperial aos Sforza do Renascimento.
O coração da cidade é o Duomo, essa montanha de mármore branco eriçada de agulhas e estátuas, cujos terraços podem ser percorridos para caminhar entre as agulhas com os Alpes ao fundo. Ao lado, a Galeria Vittorio Emanuele II — a 'sala de estar' de Milão, com seus mosaicos e sua cúpula de ferro e vidro — leva à Piazza della Scala e ao teatro de ópera mais famoso do mundo. Ali perto ficam o imponente Castello Sforzesco, a requintada Pinacoteca de Brera e o Quadrilatero della Moda, onde desfilam as vitrines de Prada, Armani, Versace e Dolce & Gabbana.
Este guia percorre Milão com um olhar prático e realista: como reservar com meses de antecedência a Última Ceia (a informação mais importante de todas), como subir ao Duomo, como se locomover com o transporte por aproximação, onde tomar o clássico aperitivo milanês nos Navigli e como usar a cidade como trampolim para conhecer o Lago de Como. Milão se aproveita de um jeito diferente das outras cidades italianas: menos cartão-postal e mais vida real, com classe e com estilo.
Milão nasceu como Mediolanum, uma cidade celta conquistada por Roma em 222 a.C. que chegou a ser capital do Império Romano do Ocidente: foi aqui, no ano 313, que o imperador Constantino firmou o célebre Édito de Milão, que deu liberdade de culto aos cristãos. Depois de séculos turbulentos, na Baixa Idade Média e no Renascimento a cidade brilhou sob duas dinastias, os Visconti e os Sforza, que ergueram o Duomo e o castelo e convidaram Leonardo da Vinci, que pintou aqui a Última Ceia. Depois vieram os domínios espanhol e austríaco, o Risorgimento com as heroicas Cinco Jornadas de 1848 contra os austríacos, os bombardeios de 1943 e, no pós-guerra, o 'milagre econômico' que a transformou na capital industrial e financeira da Itália. Toda essa história, com nomes e datas, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Italy of trade and industry: Venice and its thousand-year maritime republic, the Milan of the Visconti and the Sforza, the Genoa of the navigators, learned Bologna and the economic engine that turned Italy into an industrial power.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser a capital italiana da moda e das finanças, Milão foi Mediolanum e, antes disso, um povoado da tribo celta dos ínsubres, fundado por volta do século VI ou V a.C. no centro da planície do Pó. O nome latino, Mediolanum, costuma ser interpretado como 'a terra do meio' ou 'o que fica no meio da planície', uma referência à sua posição estratégica no cruzamento de caminhos do norte da Itália. Essa centralidade geográfica marcaria todo o seu destino: Milão nunca foi uma cidade de mar nem de grande rio navegável, mas sim um nó de rotas por onde passava de tudo.
No ano 222 a.C., as legiões romanas conquistaram a cidade e a incorporaram à República. Com o tempo, Mediolanum cresceu até se tornar uma das cidades mais importantes do Império e, em 286 d.C., o imperador Diocleciano a escolheu como capital do Império Romano do Ocidente, posto que manteve por mais de um século. Foi nessa época, no ano 313, que aconteceu aqui um dos fatos que mudaram a história do Ocidente: o imperador Constantino e seu coimperador Licínio firmaram o chamado Édito de Milão, que concedia liberdade de culto em todo o Império e punha fim às perseguições contra os cristãos. Embora o texto tenha sido promulgado formalmente em outra cidade, o acordo foi selado em Milão, e por isso leva o seu nome.
Milão foi também a cidade de Santo Ambrósio (Ambrogio), bispo entre 374 e 397, uma das grandes figuras da Igreja primitiva, que batizou aqui Santo Agostinho e que até hoje é o padroeiro da cidade: sua festa, em 7 de dezembro, marca a abertura da temporada do La Scala. Com as invasões germânicas e a queda do Império do Ocidente em 476, Mediolanum sofreu saques e destruições, mas sua posição central permitiu que ressurgisse várias e várias vezes.
Durante a Idade Média, Milão ressurgiu como uma poderosa comuna livre, uma cidade-estado com governo próprio. No século XII, enfrentou o imperador germânico Frederico I Barbarossa, que a sitiou e a arrasou em 1162; mas Milão liderou a Liga Lombarda, uma aliança de cidades do norte que derrotou o imperador na batalha de Legnano (1176), episódio que séculos depois se tornaria símbolo do orgulho lombardo e italiano.
A partir do século XIII, o poder foi se concentrando nas mãos de uma família: os Visconti, que governaram Milão primeiro como senhores e depois, a partir de 1395, como duques, quando Gian Galeazzo Visconti comprou o título ducal do imperador. Sob os Visconti, o ducado de Milão se tornou um dos estados mais poderosos da Itália, e foi Gian Galeazzo quem, em 1386, lançou a pedra fundamental da obra que definiria para sempre a silhueta da cidade: o Duomo, a catedral gótica de mármore que levaria quase seis séculos para ficar pronta.
Em 1450, depois de um breve interlúdio republicano, o poder passou aos Sforza, uma dinastia de condottieri (chefes militares mercenários) que chegou ao trono ducal por uma mistura de força militar e habilidade política: Francesco Sforza, casado com a herdeira dos Visconti, se proclamou duque e mandou construir o imponente Castello Sforzesco. Com seu filho e sucessores, e sobretudo sob Ludovico Sforza, apelidado de 'il Moro', Milão viveu seu auge renascentista e sua corte se tornou uma das mais brilhantes da Europa. Foi Ludovico quem chamou a Milão um artista e engenheiro florentino que trabalharia aqui por quase vinte anos: Leonardo da Vinci.
Leonardo da Vinci chegou a Milão por volta de 1482, com pouco mais de trinta anos, e encontrou na corte de Ludovico il Moro o mecenas que procurava. Durante quase duas décadas trabalhou para os Sforza nos ofícios mais variados: pintor, escultor, engenheiro militar, organizador de festas da corte, urbanista e inventor. Estudou o sistema de canais da cidade — os Navigli —, aperfeiçoou suas eclusas para torná-los navegáveis, projetou máquinas de guerra e planejou uma colossal estátua equestre de bronze em homenagem a Francesco Sforza que nunca chegou a ser fundida (o bronze acabou sendo usado para fabricar canhões quando os franceses ameaçaram o ducado).
Mas a obra que o imortalizou em Milão foi uma encomenda religiosa: entre 1495 e 1498, Leonardo pintou A Última Ceia (Il Cenacolo) na parede do refeitório do convento dominicano de Santa Maria delle Grazie. Em vez da técnica tradicional do afresco, que obrigava a pintar rápido sobre o gesso úmido, Leonardo experimentou uma mistura de têmpera e óleo sobre parede seca, que lhe permitia trabalhar devagar e com todos os detalhes, mas que se revelou desastrosa para a conservação: a pintura começou a se deteriorar ainda em vida do próprio artista. Apesar disso, a obra revolucionou a pintura pela composição e pela maneira magistral de captar o instante psicológico em que Jesus anuncia a traição e cada apóstolo reage.
A queda de Ludovico il Moro diante dos franceses, em 1499-1500, marcou o fim do grande período dos Sforza e também a partida de Leonardo, que deixou Milão. A partir daí, a cidade ficou disputada entre as grandes potências da época, e sua sorte dependeria cada vez mais de reis e imperadores estrangeiros.
Durante as Guerras Italianas do século XVI, o ducado de Milão foi um dos grandes prêmios disputados pela França e pela Espanha. Em 1535, após a morte do último duque Sforza sem herdeiros, Milão passou para as mãos da Coroa espanhola dos Habsburgo e, durante quase dois séculos (até 1706), foi governada como uma possessão espanhola. Foi uma época de peso econômico e também de tragédias: a cidade sofreu a terrível peste de 1630, a mesma que Alessandro Manzoni retrataria dois séculos depois em seu grande romance 'Os noivos' (I promessi sposi), com as cenas dos 'untori', acusados de espalhar o contágio, e do cardeal Federico Borromeo.
Em 1706, durante a Guerra de Sucessão Espanhola, Milão passou aos Habsburgo da Áustria, e o domínio austríaco (com um breve parêntese) se estenderia até meados do século XIX. A Milão austríaca do século XVIII viveu uma fase de reformas iluministas sob a imperatriz Maria Teresa e seu filho José II: a administração foi modernizada, instituições culturais foram fundadas e, em 1778, foi inaugurado o Teatro alla Scala, construído no terreno de uma igreja demolida. Foi também a época do Iluminismo lombardo, com figuras como o jurista Cesare Beccaria, autor de 'Dos delitos e das penas', obra pioneira contra a tortura e a pena de morte.
Entre 1796 e 1814, a chegada de Napoleão mudou o mapa: Milão virou capital da República Cisalpina e depois do Reino da Itália napoleônico, e foi nesses anos que finalmente se concluiu, por ordem de Napoleão, a fachada do Duomo. Após a queda do imperador, o Congresso de Viena (1815) devolveu Milão à Áustria, agora como capital do Reino Lombardo-Vêneto. Mas o espírito de liberdade já tinha se acendido.
No século XIX, Milão se tornou um dos corações do Risorgimento, o movimento pela unificação e pela independência da Itália diante do domínio estrangeiro, sobretudo o austríaco. O descontentamento contra a Áustria foi crescendo entre a burguesia e o povo milanês e explodiu com força em março de 1848, dentro da onda revolucionária que sacudiu toda a Europa naquele ano.
Entre 18 e 22 de março de 1848, a cidade protagonizou uma insurreição heroica que entrou para a história como os Cinco Dias de Milão (le Cinque Giornate). Durante cinco dias, milaneses de todas as condições — artesãos, estudantes, comerciantes, mulheres, padres — ergueram barricadas nas ruas e, armados com o que tinham, enfrentaram a poderosa guarnição austríaca do marechal Radetzky. Contra todas as previsões, a insurreição triunfou: o exército austríaco teve que se retirar da cidade. Foi um dos episódios mais gloriosos e celebrados de todo o Risorgimento.
O triunfo, porém, durou pouco: poucos meses depois, após a derrota do exército piemontês, os austríacos reconquistaram Milão e a repressão foi dura. Seria preciso esperar a Segunda Guerra de Independência Italiana: em 1859, as tropas franco-piemontesas derrotaram a Áustria nas batalhas de Magenta e Solferino, e Milão e toda a Lombardia foram incorporadas ao reino que, em 1861, seria proclamado Reino da Itália. A memória dos Cinco Dias ficou gravada no nome de uma das grandes praças da cidade e no monumento que a recorda.
Transformada na capital industrial e financeira da Itália unificada, Milão cresceu de forma vertiginosa no fim do século XIX e no começo do XX, com fábricas, ferrovias, editoras e bancos. Foi também um caldeirão político: aqui nasceram movimentos operários e socialistas, e aqui Benito Mussolini fundou, em 1919, na Piazza San Sepolcro, os primeiros Fasci di Combattimento, embrião do fascismo que governaria a Itália por duas décadas.
A Segunda Guerra Mundial atingiu Milão com dureza. Em agosto de 1943, os bombardeios aliados devastaram boa parte do centro histórico: caíram bombas sobre o Teatro alla Scala, que ficou semidestruído, e sobre o complexo de Santa Maria delle Grazie, onde o refeitório com a Última Ceia de Leonardo foi atingido e perdeu uma parede inteira; a pintura se salvou por milagre porque tinha sido protegida com sacos de areia e andaimes. Após a queda do regime e a ocupação alemã, Milão foi um centro-chave da Resistência partisan. A cidade foi libertada em 25 de abril de 1945, data que a Itália celebra como seu Dia da Libertação; poucos dias depois, o corpo de Mussolini, capturado e fuzilado perto do Lago de Como, foi exposto na Piazzale Loreto, em Milão, no mesmo lugar onde meses antes os ocupantes haviam fuzilado quinze partisans.
No pós-guerra, Milão renasceu com uma energia extraordinária. Foi o motor do chamado 'milagre econômico' italiano das décadas de 1950 e 1960, com sua indústria, seu design, sua publicidade e seu mercado editorial. Em 1946, o Scala reconstruído reabriu as portas com um concerto memorável regido por Arturo Toscanini. Nas décadas seguintes, a cidade se consolidou como capital mundial da moda e do design, sede da Semana de Moda e do Salone del Mobile, e como coração financeiro da Itália, com a Bolsa e os grandes bancos. Hoje, com seu horizonte renovado de arranha-céus em Porta Nuova e CityLife, Milão é a mais europeia e moderna das grandes cidades italianas, sem deixar de guardar o sorriso eterno da Última Ceia e a silhueta branca do seu Duomo.