A Costa Amalfitana é um daqueles lugares que parecem inventados: vilarejos de casas brancas, rosadas e ocre empilhadas sobre penhascos que despencam num mar de um azul intensíssimo, limoeiros em terraços impossíveis, campanários cobertos de maiólica e uma estrada cheia de curvas pendurada entre o céu e a água. Entre Positano e Vietri sul Mare se sucedem Praiano, Amalfi, Atrani, Ravello, Minori, Maiori e Cetara, cada um com sua personalidade. A Unesco a declarou Patrimônio Mundial em 1997 como paisagem cultural, e basta chegar a um mirante para entender o porquê.
Mas é bom dizer sem rodeios: a Costa Amalfitana é cara e está saturada. Em julho e agosto, Positano e Amalfi ficam lotadas até a borda, a SS163 trava, os ônibus vão abarrotados e os preços disparam. As praias, além disso, são quase todas de pedra ou de seixos (não de areia fina), então leve sapatilha de água e esqueça a fantasia de Caribe. Nada disso a torna menos linda: ela só pede planejamento, escolher bem a época e baixar a expectativa de 'paraíso vazio'.
Este guia conta como se locomover de verdade pela costa (spoiler: não tem trem, e o barco costuma ganhar do ônibus), o que ver em cada vilarejo, como funcionam as 'targhe alterne' que limitam o carro no verão, quanto custam os ingressos da Villa Rufolo e da Villa Cimbrone e como fazer o famoso Caminho dos Deuses. Com um pouco de estratégia, a Costiera oferece dias de uma beleza que compensa cada degrau subido debaixo do sol.
A Costa Amalfitana deve seu nome e sua fama a Amalfi, capital de uma das quatro repúblicas marítimas italianas (ao lado de Veneza, Gênova e Pisa). Entre os séculos IX e XI, Amalfi foi uma potência comercial do Mediterrâneo, com colônias e armazéns no Oriente, moeda própria (o 'tarì') e uma marinha temida; aos amalfitanos é atribuído o mais antigo estatuto marítimo italiano, as Tavole Amalfitane (Tabula de Amalpha), usado em todo o Mediterrâneo até o século XVI. A conquista normanda no século XI e sobretudo o catastrófico maremoto de 25 de novembro de 1343 — que engoliu boa parte do porto e da cidade baixa — marcaram sua decadência. A costa então se voltou para seus limões, seu papel artesanal (as 'cartiere' de Amalfi) e a pesca, até que nos séculos XIX e XX os viajantes do Grand Tour, os pintores e depois o jet set a 'redescobriram' como um paraíso romântico. Em 1997 foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco. A história completa, com a república, as Tavole e o maremoto, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The south of Magna Graecia and Vesuvius: Naples, capital of the Kingdom of the Two Sicilies; Pompeii, buried by the volcano; Amalfi, a maritime republic; Capri and a legendary coast, in the region marked by the southern question.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
É difícil acreditar hoje, olhando para este povoado espremido entre a rocha e a água, mas houve um tempo em que Amalfi rivalizava com Veneza, Gênova e Pisa pelo domínio dos mares. Foi uma das quatro repúblicas marítimas da Itália (as quatro que ainda aparecem no brasão da bandeira da Marinha italiana) e, durante os séculos IX, X e XI, a mais antiga e, por um tempo, a mais rica e poderosa de todas.
O território tinha feito parte do Império Romano e depois ficou na órbita do Império Bizantino, dentro do Ducado de Nápoles. A tradição fixa em 1º de setembro de 839 (o 'Capodanno bizantino', o ano-novo bizantino) o momento em que Amalfi se separou administrativamente de Nápoles e se proclamou ducado independente, governado por duques eleitos. Encurralada entre montanhas escarpadas e quase sem terra fértil, Amalfi fez do mar sua única saída e sua fortuna: seus navios comerciavam por todo o Mediterrâneo, de Constantinopla e do Egito até o norte da África e a Espanha, trazendo especiarias, sedas, ouro e conhecimentos do Oriente.
Os amalfitanos tinham colônias, igrejas e armazéns ('fondaci') nos grandes portos do Levante, cunhavam sua própria moeda de ouro, o 'tarì', e eram tão respeitados que fundaram em Jerusalém o hospital que deu origem à Ordem dos Cavaleiros de São João (os futuros Hospitalários, depois Ordem de Malta). Os cronistas da época descreviam Amalfi como uma cidade 'opulenta e populosa, rica em ouro, prata e tecidos de todo tipo'. No seu auge, pode ter tido dezenas de milhares de habitantes amontoados nas encostas, muito mais do que hoje.
O maior legado daquela talassocracia não foi um palácio nem uma catedral, e sim um livro de leis. Aos amalfitanos é atribuída a redação do mais antigo estatuto marítimo da Itália: a 'Tabula de Amalpha', conhecida como Tavole Amalfitane (Tábuas Amalfitanas). É um código de direito comercial e marítimo que regulava a vida a bordo, os contratos entre armadores e marinheiros, a divisão dos lucros e as responsabilidades em caso de naufrágio ou avaria.
O texto que se conserva é formado por 66 capítulos: os primeiros 21, escritos em latim, são a parte mais antiga e datam por volta do século XI; os 45 restantes, em italiano vulgar, foram acrescentados mais tarde, em torno do século XIII. Foi tão sólido e prático que vigorou em boa parte do Mediterrâneo até o século XVI, muito depois de Amalfi ter perdido todo o poder político. É, de certa forma, um antepassado das leis de navegação modernas e do direito mercantil.
Outra façanha que a tradição local liga a Amalfi é a difusão da bússola: a lenda popular atribui seu aperfeiçoamento a um tal Flavio Gioia, personagem provavelmente lendário, mas que resume bem o papel dos navegantes amalfitanos na introdução da bússola magnética na navegação europeia. Verdadeira ou não, a história mostra até que ponto esses marinheiros estavam na vanguarda técnica da sua época. Todo esse conhecimento (náutico, comercial, jurídico) convivia em uma cidade minúscula pendurada na montanha, prova de que a grandeza não se mede em quilômetros quadrados.
Nenhuma talassocracia dura para sempre. Em 1073, os normandos de Roberto Guiscardo tomaram Amalfi e integraram o antigo ducado ao nascente reino normando do sul da Itália. A cidade manteve por um tempo sua vitalidade comercial, mas já não era dona do próprio destino. Em 1135 e 1137, além disso, a rival Pisa saqueou Amalfi no contexto de suas guerras mediterrâneas, um golpe do qual seu prestígio nunca se recuperou totalmente. O comércio de longa distância foi ficando nas mãos de Gênova, Pisa e, sobretudo, Veneza.
O golpe definitivo, porém, não veio de um exército, e sim do mar. Na noite de 24 para 25 de novembro de 1343, uma violentíssima tempestade de libeccio (vento do sudoeste) atingiu os golfos de Nápoles e Salerno e provocou um maremoto que devastou a costa. Acredita-se que o fenômeno esteve associado a um enorme deslizamento submarino: estudos recentes o relacionam a um colapso de mais de um quilômetro cúbico na região do Stromboli. O resultado foi catastrófico: boa parte do porto e da cidade baixa de Amalfi, com seus arsenais, cais e armazéns, foi engolida pelo mar. Diz-se que cerca de um terço da cidade desapareceu sob as águas.
O desastre teve tanta repercussão que foi relatado pelo próprio Francesco Petrarca, que por acaso estava em Nápoles naqueles dias e descreveu, horrorizado, a fúria do mar e os barcos destroçados. Amalfi, já enfraquecida, não conseguiu reconstruir seu antigo poderio marítimo. A república que havia desafiado Veneza ficou reduzida a um punhado de vilas de pescadores e camponeses, e o grande capítulo mediterrâneo da costa se encerrou para sempre.
Perdido o mar, a costa se voltou para si mesma e sobreviveu graças à terra e à engenhosidade. Nas encostas impossíveis, geração após geração, os camponeses ergueram esse prodígio de arquitetura agrícola que ainda define a paisagem: quilômetros de terraços ('macere') sustentados por muros de pedra seca, onde plantaram videiras, oliveiras e, sobretudo, limoeiros. Assim nasceu o 'Sfusato Amalfitano', o limão grande, alongado e perfumado que hoje tem Indicação Geográfica Protegida e que deu origem ao limoncello, às geleias e aos perfumes da costa.
Amalfi também desenvolveu uma indústria singular: a do papel feito à mão. Aprendida provavelmente com os árabes durante os séculos de comércio com o Oriente, a arte de fabricar papel de trapo (a 'carta bambagina') transformou o Valle dei Mulini, atrás da cidade, numa sequência de moinhos hidráulicos ('cartiere') que funcionaram durante séculos. Ainda é possível visitar o Museo della Carta, instalado numa antiga fábrica, para entender como se produzia um dos melhores papéis da Europa.
Durante boa parte da Idade Moderna, a Costa Amalfitana foi um canto pobre e isolado do reino de Nápoles, difícil de alcançar por terra, quase esquecido. Esse isolamento, paradoxalmente, a preservou: sem grandes obras nem industrialização, os vilarejos mantiveram seu traçado medieval, suas igrejas, seus terraços e esse ar suspenso no tempo que, séculos depois, se tornaria seu maior tesouro. A miséria de então é, em parte, a beleza intacta de agora.
A Costa Amalfitana voltou ao mapa do mundo não pelo comércio, mas pela beleza. A partir do século XVIII, com o auge do Grand Tour (a viagem de formação que aristocratas, artistas e escritores do norte da Europa faziam pela Itália), o sul do país entrou na moda. A vizinha Nápoles, Pompeia e Herculano recém-escavadas, Paestum e seus templos gregos atraíam viajantes cultos, e muitos deles se aventuravam pelas trilhas de mulas até Amalfi e Ravello.
O que encontravam os deixava sem fôlego: vilarejos pendurados no penhasco, jardins suspensos sobre o mar, luz mediterrânea e ruínas românticas. Pintores de paisagem, poetas e músicos transformaram a costa em mito. Ravello, em especial, seduziu personagens como Richard Wagner, que em 1880 visitou os jardins da Villa Rufolo e acreditou reconhecer ali o 'jardim mágico de Klingsor' de sua ópera Parsifal; desde então, esses jardins ficaram associados à sua música e, muito depois, deram origem ao Ravello Festival. Escritores como André Gide, D. H. Lawrence, Gore Vidal e Graham Greene também se renderam à costa.
A abertura, no século XIX, da estrada costeira (a atual Strada Statale 163 'Amalfitana', talhada no penhasco) foi decisiva: pela primeira vez era possível percorrer a costa de carro, de vilarejo em vilarejo, debruçado sobre o vazio. Essa fita de asfalto vertiginosa, com suas curvas impossíveis e suas vistas de tirar o fôlego, virou ela mesma uma atração e um símbolo da Costiera. O isolamento de séculos começava a terminar e, com ele, nascia o turismo.
O século XX consagrou a Costa Amalfitana como um dos destinos mais elegantes do mundo. Positano, até então um humilde vilarejo de pescadores de onde muitos tinham emigrado para a América, entrou na moda em meados do século, quando artistas, escritores e intelectuais o escolheram como refúgio. O escritor John Steinbeck lhe dedicou em 1953 um célebre artigo na revista Harper's Bazaar, que o descrevia como um lugar 'que não parece real enquanto você está lá e que se torna intensamente real depois que você vai embora'. Nasceu então a 'moda Positano', aquelas roupas de linho leves e coloridas, e o vilarejo se encheu de butiques e hotéis glamorosos.
A partir dos anos 1950 e 1960, a costa inteira virou cenário do cinema, da moda e do jet set internacional: estrelas de Hollywood, magnatas e celebridades transformaram Ravello, Positano e Amalfi em sinônimo de dolce vita mediterrânea. Essa fama, mantida durante décadas, disparou ainda mais com a chegada das redes sociais, que multiplicaram os cartões-postais de casas coloridas e terraços sobre o mar.
Em 1997, a Unesco declarou a Costa Amalfitana Patrimônio Mundial da Humanidade, não só por seus monumentos, mas como 'paisagem cultural' de valor excepcional: o resultado do diálogo milenar entre uma topografia dramática e o trabalho humano, com seus terraços, seus vilarejos e seu equilíbrio entre natureza e cultura. Esse mesmo prestígio é hoje o seu desafio. A costa vive um problema sério de overtourism: nos meses de verão, Positano e Amalfi ficam saturadas, a SS163 trava e os preços disparam, a ponto de as autoridades imporem o rodízio de circulação por placa e debaterem como proteger um lugar que milhões de pessoas querem ver. A mesma beleza que a salvou do esquecimento ameaça hoje transbordá-la: esse é o preço, e o privilégio, de ser um dos trechos de litoral mais bonitos do planeta.