Florença é, possivelmente, a cidade com a maior concentração de arte por metro quadrado do mundo. Berço do Renascimento, foi aqui que, entre os séculos XV e XVI, uma explosão de gênios — Brunelleschi, Donatello, Botticelli, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael — e o mecenato da poderosa família Médici transformaram para sempre a arte, a arquitetura e o pensamento ocidental. Caminhar por suas ruas é espiar o próprio coração dessa revolução cultural.
A cidade se estende às margens do Arno, coroada pela inconfundível cúpula de tijolo vermelho do Duomo, uma façanha de engenharia de Brunelleschi que domina todo o horizonte. Em seus museus e palácios estão guardadas algumas das obras mais célebres da história da arte: o Davi de Michelangelo, O Nascimento de Vênus de Botticelli, a Anunciação de Leonardo. E tudo isso num centro histórico compacto, que dá para percorrer a pé, onde cada praça e cada igreja escondem um tesouro.
Este guia percorre o essencial de Florença com um olhar prático e caloroso: como organizar as visitas aos grandes museus para evitar as filas, o que ver no Duomo e como subir à cúpula, onde encontrar as melhores vistas, como atravessar para o Oltrarno mais autêntico e como usar Florença como base para descobrir a Toscana. Uma dica de ouro: reserve com antecedência os ingressos para os Uffizi e para a Academia, porque são os que geram as filas mais longas.
Florença nasceu como colônia romana, 'Florentia', fundada por volta de 59 a.C. por veteranos do exército, num cruzamento de caminhos junto ao Arno. Depois de séculos de relativa modéstia na Idade Média, a cidade floresceu a partir dos séculos XII e XIII graças ao comércio e, sobretudo, aos bancos: os banqueiros florentinos chegaram a emprestar dinheiro a reis e papas de toda a Europa, e o florim de ouro florentino tornou-se uma das moedas mais fortes do continente. Essa riqueza financiou um extraordinário desenvolvimento cultural. No século XV, a família Médici, enriquecida com os bancos, assumiu o poder de fato da cidade e se tornou a grande mecenas do Renascimento: sob o impulso de figuras como Cosme, o Velho, e Lourenço, o Magnífico, Florença atraiu e financiou os maiores artistas e humanistas da época. Daqui saíram Dante (pai da língua italiana), Maquiavel, Brunelleschi, Donatello, Botticelli, Leonardo e Michelangelo. Os Médici governaram, com interrupções, durante séculos, primeiro como senhores de fato e depois como duques e grão-duques da Toscana, até sua extinção no século XVIII. Florença chegou a ser, brevemente, capital do recém-unificado Reino da Itália entre 1865 e 1871. Hoje seu legado renascentista, reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco, faz dela um dos grandes destinos culturais do planeta. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Italy: Rome and Lazio, cradle of the Empire and seat of the papacy; the Tuscany of the Etruscans, the communal republics of Siena and Pisa, and Florence, the city that gave the world the Renaissance.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Florença nasceu como uma colônia romana fundada por volta de 59 a.C., na época de Júlio César, para assentar veteranos das legiões às margens do rio Arno. Os romanos a chamaram de 'Florentia', um nome que costuma ser interpretado como 'a florescente' ou 'destinada a florescer', e que alguns relacionam às festas florais (Ludi Florales) ou a um bom presságio de prosperidade. A cidade foi traçada com o quadriculado típico dos acampamentos romanos (o castrum), com suas duas ruas principais, o cardo e o decúmano, cruzando-se onde hoje fica a Piazza della Repubblica.
A localização não era por acaso: ficava no cruzamento da via Cassia, a estrada que ligava Roma ao norte da Itália, e num ponto onde o Arno podia ser atravessado a vau com facilidade. Esse papel de passagem obrigatória entre o norte e o centro da península marcaria sua história comercial durante séculos. Depois da queda do Império Romano, Florença atravessou os séculos sombrios das invasões (godos, bizantinos, lombardos) como uma cidade menor, ofuscada por outras da região.
O renascimento veio na Baixa Idade Média. Entre os séculos XI e XII, Florença se constituiu como comuna livre, um governo cidadão autônomo que pouco a pouco foi se desvinculando do poder feudal e do Sacro Império. Esse espírito de autogoverno, de cidadãos-mercadores organizados em corporações de ofício (as 'Arti'), foi a semente da potência econômica e cultural que a cidade viria a ser. Como tantas cidades italianas, viveu as guerras entre guelfos (partidários do Papa) e gibelinos (partidários do Imperador), conflitos que dividiram suas famílias e marcaram até a vida de seu filho mais ilustre, Dante Alighieri.
O que transformou Florença numa das cidades mais ricas e poderosas da Europa medieval não foram suas armas, mas seu dinheiro. No século XIII, a cidade cunhou uma moeda de ouro que mudaria a história financeira do continente: o florim ('fiorino d'oro'), emitido pela primeira vez em 1252. Pelo teor constante de ouro e pela confiabilidade, o florim virou uma moeda de referência internacional, aceita em toda a Europa, uma espécie de 'dólar' medieval que deu a Florença um enorme prestígio comercial.
A base dessa riqueza era dupla. De um lado, a indústria têxtil: as corporações da lã ('Arte della Lana') e dos tintureiros importavam tecido bruto, refinavam e tingiam com técnicas avançadas, e o reexportavam como tecido de luxo por todo o Mediterrâneo. De outro, os bancos: as grandes famílias florentinas desenvolveram técnicas financeiras sofisticadas —letras de câmbio, contabilidade de partidas dobradas, empréstimos a reis e papas— que as transformaram em banqueiras de meia Europa. Famílias como os Bardi e os Peruzzi, e mais tarde os Médici, administravam fortunas colossais.
Essa prosperidade sustentou um crescimento urbano espetacular. Florença se encheu de palácios, igrejas e obras públicas, e iniciou a construção de sua catedral, Santa Maria del Fiore, um empreendimento monumental que levaria mais de um século. A grande peste negra de 1348, que dizimou a população (descrita por Boccaccio no 'Decamerão', ambientado nos arredores de Florença), foi um golpe terrível, mas a cidade se recuperou e entrou no século XV em condições de protagonizar o maior renascimento cultural da história do Ocidente.
Nenhuma família está tão ligada a Florença quanto os Médici. Vindos do ramo bancário no começo do século XV, com Giovanni di Bicci de' Medici acumularam uma das maiores fortunas da Europa ao se tornarem banqueiros do Papado. Seu filho Cosimo de' Medici, chamado 'o Velho' (Pater Patriae), assumiu de fato as rédeas da cidade por volta de 1434, governando nos bastidores sem ocupar cargos formalmente, numa república que, em teoria, continuava livre.
O esplendor veio com seu neto, Lorenzo de' Medici, 'o Magnífico' (1449-1492), figura central do Renascimento florentino. Sob a proteção dele e de sua família floresceram artistas e pensadores que mudaram a história da arte: Botticelli, o jovem Michelangelo, Leonardo da Vinci, além de filósofos humanistas como Marsilio Ficino e Pico della Mirandola. Os Médici financiaram igrejas, bibliotecas, esculturas e pinturas, e transformaram Florença na capital cultural da Europa. O mecenato não era só amor à arte: era também prestígio, propaganda e poder.
A família teve altos e baixos —foi expulsa da cidade mais de uma vez, como depois da morte de Lorenzo e do episódio do frei Savonarola—, mas sempre voltou, e com o tempo deu dois papas (Leão X e Clemente VII) e rainhas da França. Em 1569 os Médici se tornaram Grão-Duques da Toscana, transformando a velha república num principado hereditário. Governaram a Toscana até a extinção da dinastia, em 1737. Sua marca é indelével: grande parte das obras-primas que hoje se admiram nos Uffizi, no Palazzo Pitti e nos jardins de Boboli vem de suas coleções, legadas à cidade pela última Médici, Anna Maria Luisa.
Florença é, por direito próprio, o berço do Renascimento, o movimento cultural que entre os séculos XV e XVI redescobriu o legado da Antiguidade clássica e colocou o ser humano no centro do olhar. Na arquitetura, o marco fundador foi a cúpula da catedral de Santa Maria del Fiore, erguida por Filippo Brunelleschi entre 1420 e 1436: uma proeza de engenharia sem cimbramento, a maior cúpula de alvenaria do mundo, que coroou o Duomo e se tornou símbolo da cidade e de toda uma época.
Na escultura e na pintura, a lista de gênios florentinos é impressionante. Donatello renovou a escultura com seu 'Davi' de bronze; Masaccio revolucionou a pintura com a perspectiva e o volume nos afrescos da Capela Brancacci; Botticelli pintou 'A Primavera' e 'O Nascimento de Vênus'. E acima de todos, dois titãs universais: Leonardo da Vinci, formado em ateliês florentinos, e Michelangelo Buonarroti, que esculpiu aqui seu 'Davi' (1501-1504), a estátua de mármore mais famosa do mundo, hoje na Galeria da Academia.
Esse florescimento não foi por acaso. Apoiou-se na riqueza dos bancos e das corporações, no mecenato dos Médici e de outras famílias, na competição entre ateliês e no humanismo, uma corrente de pensamento que recuperou os textos clássicos e exaltou a dignidade e as capacidades do homem. Florença concentrou em poucas gerações uma densidade de talento difícil de igualar na história. O resultado está guardado hoje na Galeria Uffizi —uma das pinacotecas mais importantes do mundo—, no Bargello, nos palácios e nas igrejas de uma cidade que é, ela mesma, um museu a céu aberto.
Depois de séculos de governo dos Médici e, após sua extinção, da dinastia dos Habsburgo-Lorena, Florença se integrou ao processo de unificação italiana (o Risorgimento) no século XIX. Em 1865, em plena construção do novo reino, Florença foi escolhida capital do Reino da Itália, papel que cumpriu até 1871, quando a capital foi transferida definitivamente para Roma após a incorporação da Cidade Eterna. Durante esse breve período como capital, a cidade passou por reformas urbanas importantes que modernizaram seu traçado.
O século XX trouxe episódios dramáticos. Durante a Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1944, as tropas alemãs em retirada explodiram quase todas as pontes sobre o Arno; a Ponte Vecchio foi a única que se salvou, segundo a tradição por ordem expressa de não destruí-la. E em novembro de 1966, uma enchente catastrófica do Arno inundou o centro histórico, danificando milhares de obras de arte e livros; a resposta solidária de voluntários do mundo todo —os célebres 'angeli del fango', os anjos da lama— para resgatar o patrimônio virou um símbolo.
Em 1982, o centro histórico de Florença foi inscrito pela Unesco na lista do Patrimônio Mundial, em reconhecimento ao seu valor excepcional como conjunto artístico nascido do gênio criativo de seis séculos e como núcleo do Renascimento. Hoje Florença é a capital da região da Toscana e um dos grandes destinos culturais do planeta: uma cidade relativamente pequena que concentra uma densidade de arte, arquitetura e história sem paralelo, e que todo ano recebe milhões de visitantes que vêm caminhar pelas ruas onde nasceu o mundo moderno.