Capri é uma rocha luminosa cravada no golfo de Nápoles e, há mais de dois mil anos, exerce o mesmo fascínio: o imperador Tibério governou o Império Romano daqui, os românticos do século XIX a transformaram em mito e o jet set dos anos cinquenta e sessenta a tornou sinônimo de glamour. Falésias que caem no mar, águas de um azul impossível, os Faraglioni surgindo da água, ruelas brancas cobertas de buganvílias e a mítica Piazzetta, onde o mundo se senta para ver e ser visto: Capri é puro cartão-postal.
Mas vale chegar com as ideias claras. É uma ilha pequena, caríssima e muito lotada no verão, invadida toda manhã por milhares de visitantes que chegam de balsa, tiram a foto e vão embora. Sua atração mais famosa, a Gruta Azul, funciona de um jeito peculiar (fila, pagamento duplo, barquinhos a remo e fechamento quando o mar está agitado) que decepciona quem não sabe como é. E entrar de carro, nem tente na temporada: é proibido para quem não é residente.
Este guia explica como chegar e se locomover (tudo por mar e depois a pé, de funicular, ônibus ou teleférico de cadeirinha), como a Gruta Azul funciona de verdade, quanto custam a Villa San Michele, o Monte Solaro ou a Villa Jovis, e por que dormir uma noite na ilha —para vivê-la quando os visitantes de um dia vão embora— muda completamente a experiência. Com estratégia, Capri continua sendo um dos lugares mais bonitos do Mediterrâneo.
Habitada desde tempos remotos e ligada, segundo a lenda, ao povo grego dos Teleboi, Capri entrou na grande história com Roma: o imperador Augusto se apaixonou por ela e a incorporou ao seu patrimônio pessoal trocando-a com Nápoles pela ilha de Ischia; chamou-a de 'Apragopolis', a cidade do doce ócio. Seu sucessor, Tibério, deu o passo decisivo: retirou-se para Capri no ano 27 d.C. e governou o Império Romano da ilha até sua morte, em 37, a partir da Villa Jovis. Os historiadores antigos Suetônio e Tácito construíram sobre esses anos uma lenda negra de excessos que a crítica moderna considera muito exagerada. Depois de séculos de esquecimento e ataques piratas, Capri foi 'redescoberta' pelos românticos: em 1826 os pintores alemães August Kopisch e Ernst Fries apresentaram a Gruta Azul ao mundo, e a ilha se encheu de artistas, escritores e excêntricos, do médico sueco Axel Munthe (que construiu a Villa San Michele) ao industrial Krupp, e de hóspedes ilustres como Máximo Górki e Lênin. No século XX virou o berço do conceito de 'jet set'. A história completa, com Tibério e a redescoberta romântica, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The south of Magna Graecia and Vesuvius: Naples, capital of the Kingdom of the Two Sicilies; Pompeii, buried by the volcano; Amalfi, a maritime republic; Capri and a legendary coast, in the region marked by the southern question.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser um luxo, Capri foi um mistério grego. Habitada já na pré-história, a ilha aparece envolta em lenda: a tradição a liga aos Teleboi, um povo das costas da Acarnânia e das ilhas jônicas que, segundo Virgílio na Eneida, teria se estabelecido em Capri guiado pelo mítico rei Télon. O certo é que, em época histórica, a ilha tinha população e costumes gregos — dependia da vizinha Nápoles, que também era uma colônia grega —, e até o nome 'Capri' já foi atribuído tanto ao grego 'kapros' (javali) quanto ao latim 'capreae' (cabras).
A virada decisiva veio com Roma e com um homem em particular: Caio Otávio, o futuro imperador Augusto. Segundo conta Suetônio, Augusto ficou tão encantado com Capri que, por volta do ano 29 a.C., na volta do Oriente, 'comprou' a ilha da cidade de Nápoles, cedendo em troca a muito maior e mais rica ilha de Ischia. Foi uma troca desigual em tamanho, mas não em encanto: Augusto transformou Capri em seu refúgio pessoal, um lugar de descanso longe das obrigações de Roma.
O próprio imperador, sempre segundo as fontes antigas, a batizou carinhosamente de 'Apragopolis', que pode ser traduzido como 'a cidade do doce não fazer nada', do ócio sereno. Mandou construir vilas, embelezar a ilha e até colecionou ali ossos de animais pré-históricos — os chamados 'ossos de gigantes' — no que é considerado um dos primeiros gabinetes paleontológicos da história. Com Augusto, Capri entrava para sempre no imaginário do prazer e do repouso imperial.
Se Augusto colocou Capri no mapa, seu sucessor a amarrou para sempre à história. Tibério, segundo imperador de Roma, tomou uma decisão inédita: no ano 27 d.C. se retirou para Capri e nunca mais voltou a Roma. Da ilha, durante os últimos dez anos de sua vida — até sua morte em 37 d.C. —, governou o Império Romano inteiro, um império que se estendia da Britânia até o Eufrates. Nunca antes nem depois o poder do mundo mediterrâneo tinha sido exercido a partir de um lugar tão pequeno e isolado.
Os motivos do retiro foram, sobretudo, políticos e pessoais: Tibério era um homem reservado e desconfiado, cansado das intrigas da corte romana e obcecado pelo medo de ser assassinado. Capri, cercada de mar e de penhascos, praticamente inexpugnável, lhe oferecia segurança e isolamento. De lá, por meio de mensageiros e de sinais, mantinha o controle do Estado, enquanto em Roma seu temido prefeito Sejano concentrava um poder perigoso, até que o próprio Tibério ordenou sua queda em 31.
O imperador encheu a ilha de residências: Tácito menciona doze vilas espalhadas por Capri, talvez dedicadas aos deuses ou a usos diferentes. A maior e mais importante foi a Villa Jovis, a 'Vila de Júpiter', um enorme complexo de quase 7.000 metros quadrados empoleirado no extremo nordeste, debruçado sobre um precipício de mais de 300 metros acima do mar, com cisternas monumentais, aposentos imperiais e salões de recepção. Suas ruínas, ainda impressionantes, podem ser visitadas hoje depois de uma caminhada a partir da Piazzetta, e continuam sendo o testemunho mais eloquente daqueles anos em que Capri foi, literalmente, a capital do mundo.
Daqueles dez anos nasceu uma das lendas negras mais famosas da Antiguidade. Os historiadores romanos Suetônio, em sua obra 'A vida dos doze Césares', e Tácito, em seus 'Anais', pintaram os anos de Tibério em Capri como uma descida à depravação: descreveram orgias, crueldades e perversões de todo tipo nas vilas da ilha, apresentando o imperador como um velho monstruoso entregue aos piores excessos. A essa lenda pertence o 'Salto de Tibério', o penhasco ao lado da Villa Jovis de onde, segundo o relato, inimigos e criados caídos em desgraça eram jogados ao mar.
Vale, no entanto, separar o fato histórico do mito. A maioria dos historiadores modernos considera esses relatos muito exagerados e, em boa parte, propaganda hostil. Nem Suetônio nem Tácito testemunharam nada: escreveram décadas depois, num clima político que desprezava a memória de Tibério, e reuniram boatos, fofocas da corte e anedotas destinadas a difamar um imperador impopular, sombrio e pouco querido pela aristocracia. O Tibério real foi um governante competente e austero, um administrador cuidadoso das finanças do Estado, mais do que o degenerado das crônicas.
Isso não quer dizer que ele fosse um homem gentil: era duro, desconfiado e capaz de crueldade política, e seu reinado teve processos e execuções. Mas a Capri das orgias é, sobretudo, literatura. Distinguir entre o imperador histórico — aquele que governou com eficiência a partir de uma ilha — e o personagem sinistro da lenda faz parte do interesse de visitar hoje a Villa Jovis: você pisa num lugar real carregado de um mito que a historiografia moderna se encarregou de desmontar.
Depois da morte de Tibério, Capri perdeu seu papel imperial e entrou num longo declínio. Com a queda do Império Romano do Ocidente, a ilha seguiu o destino do sul da Itália: passou por mãos bizantinas, ficou na órbita do ducado de Nápoles e da abadia de Montecassino, e sofreu as idas e vindas de normandos, suábios, angevinos e aragoneses que disputaram o reino.
Durante toda a Idade Média e boa parte da Idade Moderna, a principal preocupação dos habitantes de Capri não foi a política, e sim a sobrevivência. As costas do Tirreno eram devastadas pelas incursões de piratas sarracenos e berberes do norte da África. Capri, exposta e difícil de defender, foi atacada e saqueada várias vezes; corsários de triste fama, como Barba Ruiva e Dragut, assaltaram a ilha no século XVI. Para se proteger, a população se refugiou no interior, longe das marinas, e foram erguidas torres de vigia e fortificações, algumas ainda visíveis.
A vida ficou humilde e camponesa: vinhedos, oliveiras, pesca e pouco mais. A antiga ilha imperial foi reduzida a um canto pobre e esquecido do reino de Nápoles, com dois pequenos municípios — Capri e Anacapri — ligados por uma escadaria talhada na rocha, a 'Scala Fenicia'. Durante as guerras napoleônicas, no início do século XIX, Capri chegou a trocar de mãos entre britânicos e franceses, que reconheceram seu valor estratégico. Mas, em geral, foram séculos de silêncio. Ninguém imaginava que aquela rocha esquecida estava prestes a voltar a deslumbrar o mundo.
O renascimento de Capri tem data e lugar precisos: 1826, a Gruta Azul. Naquele ano, o pintor e escritor alemão August Kopisch, ao lado do amigo e artista Ernst Fries e com a ajuda de um pescador local, entrou numa caverna marinha que os moradores conheciam e até temiam, e ficou deslumbrado com o prodígio de luz azul que a preenchia. Kopisch publicou anos depois, em 1838, um relato daquela 'descoberta' que correu toda a Europa e acendeu a imaginação dos românticos, sobretudo na Alemanha. A ilha esquecida virou, da noite para o dia, um destino dos sonhos.
A partir de então, Capri se encheu de artistas, escritores, músicos e excêntricos de todo tipo, atraídos por sua beleza, sua luz e seu ambiente livre e tolerante. Um dos personagens mais singulares foi o médico e escritor sueco Axel Munthe, que no fim do século XIX construiu em Anacapri, sobre ruínas romanas, a Villa San Michele, um sonho de colunas, jardins e esculturas antigas que ele imortalizou no livro 'O livro de San Michele', um dos grandes sucessos editoriais do século XX.
Outros deixaram marca e escândalo. O industrial alemão do aço Friedrich Alfred Krupp, um dos homens mais ricos da Europa, se apaixonou pela ilha, financiou escavações e obras — entre elas o célebre caminho em zigue-zague da Via Krupp —, mas deixou Capri em meio a um escândalo por acusações sobre sua vida privada. E no campo político, a ilha acolheu exilados ilustres: o escritor russo Máximo Górki viveu em Capri por vários anos e ali recebeu, em 1908, a visita de Vladimir Lênin, que passou o verão na ilha e até jogou xadrez com Górki numa fotografia hoje famosa. Capri tinha se tornado uma encruzilhada da cultura europeia.
O século XX consagrou Capri como um dos grandes símbolos do glamour mundial. Depois da Segunda Guerra Mundial, e sobretudo nos anos 1950 e 1960, a ilha virou o destino da moda da alta sociedade internacional, das estrelas de cinema e da aristocracia europeia. Diz-se, inclusive, que foi em Capri que nasceu o próprio conceito de 'jet set': aquela elite que viajava de avião de um ponto glamouroso do planeta a outro tinha na ilha uma de suas paradas obrigatórias.
A Piazzetta, aquele minúsculo retângulo com quatro cafés, se transformou no 'salão do mundo', o palco onde atrizes, magnatas, estilistas e músicos se viam e se deixavam ver. A moda deve ícones à ilha: as 'pantaloni capri' (as calças capri, na altura da canela) ganharam o nome da ilha, e as sandálias feitas à mão de Capri viraram objeto de desejo. O cinema, a fotografia de moda e as revistas de celebridades espalharam pelo mundo todo a imagem de uma ilha de luxo, sol e liberdade.
Hoje Capri continua sendo um dos destinos mais elegantes e caros da Itália, e essa mesma fama é seu maior desafio. No verão, a ilha fica lotada com milhares de visitantes de bate-volta que chegam toda manhã de ferry, saturam a Piazzetta e a Gruta Azul e vão embora ao entardecer; os preços disparam e o equilíbrio entre o turismo e a vida local fica tenso. E mesmo assim, quando a tarde cai e os barcos levam a multidão embora, quando a luz doura os Faraglioni e a Piazzetta se esvazia, Capri recupera intacta a magia que encantou Augusto, Tibério, os românticos e o jet set: a de uma rocha luminosa no meio do mar que, há dois mil anos, continua parecendo um lugar bonito demais para ser verdade.