Bolonha é uma daquelas cidades italianas que conquistam devagar e sem truques: não tem um ícone único como a Torre de Pisa ou o Coliseu, mas um clima que impregna tudo. É a cidade dos pórticos —mais de 60 quilômetros de galerias cobertas, hoje Patrimônio da Unesco, sob as quais dá para atravessar meia cidade sem se molhar—, dos telhados e tijolos vermelhos, das torres medievais inclinadas e de uma praça principal imponente. E é, acima de tudo, uma cidade jovem e vibrante, porque abriga a universidade mais antiga do mundo ocidental, fundada em 1088, que enche suas ruas de estudantes de toda a Europa.
Também é, com razão, a capital gastronômica da Itália. Na Emília-Romanha nasceram o tagliatelle al ragù, o tortellini in brodo, a mortadela, o parmesão e o vinagre balsâmico da vizinha Modena. Aqui se come maravilhosamente bem e sem frescura, em trattorias e osterias onde a massa ainda é aberta à mão. Um detalhe que os bolonheses adoram esclarecer: o 'spaghetti bolognese' servido em meio mundo não existe em Bolonha; o ragù vai com tagliatelle, nunca com espaguete.
Este guia percorre Bolonha com um olhar prático e de quem gosta de aproveitar: como chegar de trem ou do aeroporto com o Marconi Express, o que ver no centro histórico —da Piazza Maggiore às Duas Torres e aos pórticos de San Luca—, a situação real das visitas (como a subida às torres), onde e o que comer sem errar e como usá-la de base para conhecer o resto da Emília-Romanha. Uma cidade para caminhar, comer e ficar com vontade de voltar.
Antes de ser italiana ou romana, Bolonha foi etrusca: chamava-se Felsina e foi uma das cidades mais importantes da Etrúria do norte. Os gauleses boios a ocuparam no século IV a.C. e, em 189 a.C., Roma fundou ali a colônia de Bononia, sobre a Via Emília. Na Idade Média tornou-se uma próspera comuna livre e, em 1088, nasceu sua universidade, a mais antiga do mundo ocidental, que atraiu estudantes de toda a Europa. Do poder de suas famílias nobres restam as torres medievais, entre elas as célebres Duas Torres, a Asinelli e a Garisenda. Após as lutas entre guelfos e gibelinos, a cidade foi caindo sob o poder da Igreja e ficou integrada durante séculos aos Estados Pontifícios, até a unificação da Itália no século XIX. No século XX, Bolonha foi um bastião da Resistência antifascista e, no pós-guerra, a 'Bolonha vermelha' governada pela esquerda. Em 2 de agosto de 1980 sofreu o pior atentado terrorista da Itália republicana. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Italy of trade and industry: Venice and its thousand-year maritime republic, the Milan of the Visconti and the Sforza, the Genoa of the navigators, learned Bologna and the economic engine that turned Italy into an industrial power.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de suas torres e seus pórticos, Bolonha já era uma cidade importante, ainda que com outro nome e outra língua. No primeiro milênio antes de Cristo, o lugar era ocupado por populações da chamada cultura vilanoviana, e por volta dos séculos VI-V a.C. se tornou Felsina, uma das principais cidades dos etruscos ao norte dos Apeninos. Os etruscos transformaram o local: ergueram construções de tijolo, drenaram áreas pantanosas e abriram canais que ligavam a cidade ao Adriático. Daquela Felsina próspera restam ricas necrópoles com estelas funerárias esculpidas que hoje estão no Museo Civico Archeologico.
Por volta do século IV a.C., a cidade foi conquistada pelos gauleses boios, uma tribo celta que dominou a região (a 'Gália Cisalpina') durante quase dois séculos. Mas o destino de Bolonha, como o de quase toda a Itália, acabou sendo decidido em Roma. Depois de vencer os boios, o Senado romano fundou ali, em 189 a.C., a colônia de Bononia, no mesmo lugar da antiga Felsina. A nova cidade foi organizada segundo o traçado em grade típico romano — ainda reconhecível no xadrez de ruas do centro — e passou a ser atravessada pela Via Emilia, a grande estrada que cruzava o norte da Itália e que deu nome a toda a região, a Emília. Sob Roma, Bononia foi uma cidade rica e populosa, um entroncamento de caminhos na fértil planície do Pó, até que a crise do Império e as invasões da Antiguidade tardia a mergulharam, como tantas outras, na decadência.
Depois de séculos sombrios, Bolonha renasceu com força na Baixa Idade Média. Entre os séculos XI e XII, organizou-se como comuna livre, uma cidade-Estado governada pelos próprios cidadãos que foi ganhando autonomia diante do Sacro Império; costuma-se apontar 1116, com um diploma do imperador Henrique V, como uma data-chave dessas liberdades. Foi uma das comunas mais poderosas do norte da Itália, com território próprio, exército e uma economia florescente baseada no comércio, no artesanato e nos canais de água que moviam moinhos e oficinas de seda.
Mas o maior legado da Bolonha medieval não é militar nem comercial, e sim intelectual. Em 1088 — por convenção, já que na verdade ela surgiu de forma gradual — nasceu ali a Universidade de Bolonha, considerada a mais antiga do mundo ocidental, a 'Alma Mater Studiorum'. Nenhum rei ou papa a fundou: ela nasceu do encontro entre mestres e estudantes, sobretudo em torno do estudo do direito romano, que atraiu jovens de toda a Europa. Bolonha se tornou assim 'la Dotta', a Douta, um farol do saber jurídico onde se formaram gerações de juristas e por onde passariam, ao longo dos séculos, figuras como Dante, Petrarca, Copérnico e Erasmo de Roterdã. Essa universidade, ainda viva e lotada de estudantes, é a que continua dando à cidade seu caráter jovem e cosmopolita: um fio de quase mil anos que liga os estudantes de hoje aos primeiros que chegaram para estudar leis no século XI.
A Bolonha medieval também foi uma cidade de torres. Entre os séculos XI e XIII, as famílias nobres competiam erguendo torres cada vez mais altas, símbolos de poder e prestígio (e, se fosse preciso, refúgios defensivos). A cidade se encheu dessas construções: a lenda fala em quase duzentas, embora o número real certamente tenha sido menor; hoje sobrevivem umas vinte. As duas mais famosas ficam juntas, bem no centro: a Torre degli Asinelli, a mais alta, e a Garisenda, célebre pela inclinação acentuada, que já no século XIV impressionou Dante o bastante para que ele a mencionasse na 'Divina Comédia'. Essas torres inclinadas são, até hoje, o símbolo de Bolonha.
O século XIII foi de esplendor, mas também de conflito. Como toda a Itália comunal, Bolonha se dilacerou nas lutas entre guelfos (partidários do Papa) e gibelinos (partidários do imperador); em 1249 chegou a capturar e manter prisioneiro pelo resto da vida Enzo, filho do imperador Frederico II, no palácio que hoje leva seu nome. Com o tempo, o triunfo da facção guelfa e as divisões internas foram aproximando a cidade da órbita da Igreja. Depois de períodos de senhoria — como o da família Bentivoglio, que dominou Bolonha no século XV numa fase de brilho renascentista —, a cidade acabou plenamente integrada aos Estados Pontifícios. Durante séculos, Bolonha foi a segunda cidade mais importante do Estado da Igreja, depois de Roma, governada por um legado papal. Esse longo domínio pontifício, que durou até a unificação da Itália em meados do século XIX, deixou uma marca profunda em suas igrejas, palácios e no próprio tecido da cidade.
Em 1860, no processo de unificação da Itália (o Risorgimento), Bolonha e as Legações pontifícias foram incorporadas por plebiscito ao novo Reino da Itália, pondo fim a séculos de governo papal. A cidade entrou na era moderna como capital da Emília, se industrializou, cresceu além de suas muralhas medievais (que em boa parte foram derrubadas no início do século XX) e desenvolveu uma forte tradição associativa, cooperativa e operária que marcaria sua identidade política.
Essa identidade foi posta à prova no século XX. Bolonha foi palco da violência do fascismo desde seus primórdios, nos anos 1920, e, durante a Segunda Guerra Mundial, um dos grandes focos da Resistência antifascista italiana. A cidade e suas montanhas foram território de partisans, e pagaram um preço altíssimo: bombardeios aliados que destruíram parte do centro, a ocupação alemã e episódios atrozes como o massacre de Marzabotto, nos Apeninos bolonheses, onde em 1944 as SS assassinaram centenas de civis. Bolonha foi libertada em 21 de abril de 1945.
Dessa experiência nasceu a 'Bolonha vermelha' do pós-guerra: durante décadas, a cidade foi governada pela esquerda (o Partido Comunista e seus herdeiros) e se tornou uma espécie de vitrine do 'bom governo' local, com serviços públicos, urbanismo cuidadoso e políticas sociais citadas como modelo dentro e fora da Itália. Esse perfil progressista, somado à universidade, fez de Bolonha um centro de efervescência cultural e política, especialmente intensa nos movimentos estudantis e contraculturais dos anos 1970.
A história recente de Bolonha é marcada por uma ferida profunda. Em 2 de agosto de 1980, às 10h25 da manhã, uma bomba escondida numa mala explodiu na sala de espera da segunda classe da estação Bologna Centrale, lotada de viajantes bem no começo das férias de verão. A explosão fez desabar a ala oeste do prédio. Morreram 85 pessoas e mais de 200 ficaram feridas: foi o atentado terrorista mais grave da história da República Italiana.
O massacre (a 'strage di Bologna') foi atribuído desde o início ao terrorismo neofascista e se insere no que ficou conhecido como 'estratégia da tensão', uma série de atentados que ensanguentaram a Itália nos anos 1970 e 1980. As investigações e os processos judiciais, longuíssimos e complexos, condenaram como executores militantes da extrema direita e, com os anos, apontaram também mandantes e acobertadores ligados à loja maçônica secreta P2 e a setores dos serviços de inteligência. A Justiça continuou se pronunciando por décadas: em 2025, a Corte de Cassação confirmou em definitivo uma condenação à prisão perpétua para um dos responsáveis. Todo 2 de agosto, Bolonha para: às 10h25 faz-se silêncio em memória das vítimas, cujos nomes estão gravados na estação, e o relógio da fachada permanece parado para sempre na hora da explosão.
Hoje Bolonha é uma cidade próspera, culta e que sabe aproveitar a vida, orgulhosa de seus três apelidos — a Douta, a Gorda e a Vermelha —, de seus pórticos declarados Patrimônio da Humanidade em 2021 e de uma universidade que já passou dos nove séculos. Mas guarda também, com sobriedade e sem esquecimento, a memória daquele dia de 1980, como parte inseparável do que a cidade é.