Washington é a cidade onde a história dos Estados Unidos aparece em pedra e mármore, e quase tudo se visita de graça. Numa mesma caminhada pelo National Mall você passa do Capitólio ao obelisco de 169 metros do Monumento a Washington, e de lá ao Lincoln Memorial, com os museus do Smithsonian dos dois lados. Para quem chega com orçamento apertado é um alívio: dá para encher uma semana inteira de museus de primeira linha sem pagar um único ingresso, com a única condição de reservar alguns passes com horário marcado.
Mas nem tudo é política e monumentos. Georgetown conserva casas de tijolo do século XVIII e ruas de paralelepípedo junto ao Potomac. U Street e Shaw contam a história negra da cidade, com seu jazz, seus restaurantes etíopes e o half-smoke do Ben's Chili Bowl. The Wharf e a orla ficam cheios de gente ao entardecer. E é fácil se locomover pela cidade: o Metrô liga os dois aeroportos da Virgínia ao centro, e para quase todo o resto bastam as pernas ou uma bicicleta compartilhada.
Vale a pena chegar com um pouco de planejamento. Muitas das visitas que valem a pena (subir no Monumento, entrar no Museu do Ar e do Espaço ou no de História Afro-Americana, conhecer a Biblioteca do Congresso) exigem passes gratuitos com horário que se esgotam. As visitas ao interior da Casa Branca são quase impossíveis para um estrangeiro sem intermediação da embaixada do seu país. Se você reservar com antecedência e deixar tempo para caminhar sem pressa, Washington devolve muito mais do que custa.
Antes da chegada dos europeus, as margens do Potomac e do Anacostia eram território de povos algonquinos como os nacotchtank. Em 1790, após um acordo político entre os estados do norte e do sul, o Congresso aprovou a Lei de Residência (16 de julho de 1790), que situou a nova capital às margens do Potomac em terras cedidas por Maryland e Virgínia. George Washington escolheu o local e o engenheiro francês Pierre Charles L'Enfant desenhou em 1791 o plano da cidade, com avenidas diagonais e grandes perspectivas. Em 1800 o governo federal se mudou para a nova capital. Em 24 de agosto de 1814, durante a guerra com a Grã-Bretanha, tropas britânicas incendiaram o Capitólio e a Casa Branca. Em 1846 a parte ao sul do Potomac, com Alexandria, voltou para a Virgínia. Nesse mesmo ano o Congresso criou o Smithsonian com a herança do cientista britânico James Smithson. A Guerra Civil (1861-1865) transformou Washington numa cidade fortificada e cheia de soldados e de pessoas que fugiam da escravidão, abolida no distrito em 1862. O Monumento a Washington foi concluído em 1884. Em 1901 o Plano McMillan redesenhou o Mall como o grande parque monumental que se conhece hoje, e em 1922 o Lincoln Memorial foi concluído. Em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King fez o discurso 'I Have a Dream' diante desse memorial durante a Marcha sobre Washington. Em 1961 a 23ª Emenda deu aos moradores o direito de votar para presidente e em 1973 a lei de autogoverno (Home Rule) permitiu que elegessem prefeito e câmara municipal. Hoje a cidade continua reivindicando representação plena no Congresso e em 2026 celebrou os 250 anos da independência com inaugurações de museus e monumentos.
Ler a história completa ↓The capital of the United States: a city designed from scratch on the banks of the Potomac to house the federal government, burned by the British in 1814, the setting of Martin Luther King's 'I Have a Dream', with the Capitol, the White House and the nation's great museums.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Nenhuma outra grande capital do mundo começou como esta: um traçado desenhado sobre campos e pântanos à beira de um rio, num terreno que não pertencia a nenhum estado, escolhido de propósito para que ninguém pudesse dizer que a capital era sua. Washington não cresceu organicamente ao longo dos séculos como Londres ou Paris: foi inventada, negociada num jantar político e traçada com régua e compasso para ser o centro do poder de uma nação que ainda não sabia que chegaria a ser a mais poderosa do planeta. Depois da independência de 1776 e da adoção da Constituição, os Estados Unidos precisavam de uma sede permanente para o seu governo federal. Até então, o Congresso tinha se reunido em cidades diferentes (Filadélfia, Nova York), mas nenhuma parecia neutra: dar a capital a um estado específico despertava desconfiança entre os demais.
A solução veio com um dos grandes acordos políticos da história americana, o chamado 'Compromisso de 1790'. Numa negociação em que Alexander Hamilton, Thomas Jefferson e James Madison tiveram papel central, ficou combinado que o governo federal assumiria as dívidas de guerra dos estados (o que beneficiava o norte industrial) em troca de instalar a capital permanente no sul, às margens do rio Potomac. Para que ela não pertencesse a nenhum estado, foi criado um distrito federal independente, o Distrito de Colúmbia, em terras cedidas por Maryland e Virgínia.
A nova capital recebeu o nome de Washington em homenagem a George Washington, herói da independência e primeiro presidente, enquanto o distrito foi chamado de Colúmbia, uma personificação poética da América derivada do nome de Cristóvão Colombo. Nascia assim, num terreno então pouco povoado de campos e pântanos à beira do Potomac, a cidade destinada a se tornar o centro do poder da futura maior potência do mundo.
Para projetar a nova capital, George Washington recorreu a Pierre Charles L'Enfant, um engenheiro e arquiteto francês que tinha servido no exército revolucionário. Em 1791, L'Enfant concebeu um plano urbano ambicioso e monumental, muito diferente das sóbrias quadrículas de outras cidades americanas: uma malha de ruas em xadrez cortada por grandes avenidas diagonais que se cruzavam em praças e rotatórias, pensadas para criar perspectivas grandiosas e conectar os edifícios do poder.
No seu projeto, os dois polos do governo ocupavam lugares de destaque e se conectavam visualmente: a 'Casa do Congresso' (o futuro Capitólio), numa colina, e a 'Casa do Presidente' (a futura Casa Branca), unidas pela Pennsylvania Avenue. Entre o Capitólio e o rio se estendia uma grande esplanada aberta, uma avenida 'grandiosa' que com o tempo se tornaria o National Mall, o coração cerimonial da nação. L'Enfant imaginou uma cidade de inspiração barroca europeia, à altura da jovem república.
O temperamento difícil de L'Enfant fez com que ele fosse afastado do projeto pouco tempo depois, mas o seu plano, retomado e completado por outros (entre eles o agrimensor Andrew Ellicott e o astrônomo afro-americano Benjamin Banneker, que participou das medições iniciais), marcou para sempre a fisionomia da cidade. Em 1800, o governo federal se mudou oficialmente da Filadélfia para a nova e ainda inacabada Washington, e o presidente John Adams se tornou o primeiro mandatário a ocupar a Casa Branca.
A jovem capital viveu um dos seus episódios mais dramáticos apenas catorze anos depois da sua fundação. Durante a Guerra de 1812, um conflito entre os Estados Unidos e o Reino Unido, as tropas britânicas avançaram sobre Washington e, em 24 de agosto de 1814, depois de derrotar as milícias americanas na batalha de Bladensburg, entraram na cidade e atearam fogo nela em represália ao incêndio da capital canadense (York, atual Toronto) pelas forças americanas.
Os britânicos incendiaram os principais edifícios públicos, entre eles o Capitólio (ainda em construção) e a Casa do Presidente. A primeira-dama Dolley Madison conseguiu salvar das chamas objetos valiosos, entre eles um famoso retrato de George Washington, antes de fugir. A residência presidencial ficou enegrecida pelo fogo e pela fumaça; segundo uma tradição muito difundida, foi ao pintá-la de branco para cobrir as marcas do incêndio que o nome 'Casa Branca' começou a se popularizar (embora a origem exata do apelido seja motivo de debate).
Uma forte tempestade — que alguns relatos descrevem quase como um furacão ou tornado — ajudou a apagar os incêndios e obrigou os britânicos a se retirar pouco tempo depois. A cidade, longe de ser abandonada, foi reconstruída: o Capitólio e a Casa Branca foram erguidos de novo nos anos seguintes, e Washington seguiu em frente com o seu destino de capital. Aquele episódio ficou como uma ferida precoce, mas também como uma prova da resiliência da nova nação.
Durante o século XIX, Washington foi crescendo lentamente até se tornar uma capital de verdade. O momento mais decisivo chegou com a Guerra de Secessão (1861-1865), o conflito entre o Norte (a União) e o Sul (a Confederação) pela questão da escravidão e da unidade do país. Situada bem na fronteira entre os dois lados, Washington se transformou numa cidade militarizada, cercada de fortificações, hospitais de campanha e acampamentos, e no centro de comando da União sob o presidente Abraham Lincoln.
A cidade foi testemunha de marcos fundamentais: em 1862 a escravidão foi abolida no próprio Distrito de Colúmbia, antes do resto do país, e muitos afro-americanos libertos se estabeleceram ali. A guerra terminou com a vitória da União em 1865, mas poucos dias depois, em 14 de abril, Lincoln foi assassinado no Teatro Ford de Washington, um magnicídio que comoveu a nação e marcou para sempre a memória da capital.
Nas décadas seguintes, Washington foi ganhando seu caráter de cidade monumental. O Washington Monument, o grande obelisco de mármore dedicado ao primeiro presidente, foi finalmente concluído em 1884, depois de décadas de obras interrompidas, e durante um tempo foi a estrutura mais alta do mundo. No começo do século XX, o Plano McMillan reorganizou o National Mall de acordo com a visão monumental original, liberando a grande esplanada e lançando as bases para os grandes memoriais que viriam: o Lincoln Memorial (1922) e o Jefferson Memorial (1943), que completariam o eixo cerimonial que conhecemos hoje.
O século XX consolidou Washington como o centro de poder de uma superpotência mundial. Ao longo das duas guerras mundiais, da Grande Depressão e da Guerra Fria, o governo federal cresceu enormemente, e com ele a cidade: foram erguidos grandes prédios de escritórios, sedes de agências e monumentos, e a capital se tornou o lugar de onde saíam decisões que afetavam o planeta inteiro. O Pentágono, do outro lado do Potomac, se firmou como símbolo do poder militar americano.
Mas Washington também foi palco de algumas das páginas mais luminosas da história social do país. Em 28 de agosto de 1963, durante a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, mais de 200.000 pessoas se reuniram em frente ao Lincoln Memorial, e ali o reverendo Martin Luther King fez o seu histórico discurso 'I have a dream' ('Eu tenho um sonho'), uma defesa da igualdade racial que se tornou um dos momentos mais memoráveis do movimento pelos direitos civis. O próprio cenário — as escadarias do templo a Lincoln, o emancipador — enchia aquela reivindicação de simbolismo.
A capital, no entanto, também viveu as contradições do país: durante boa parte do século foi uma cidade segregada, com uma maioria de população afro-americana que durante décadas não teve plena representação política (um debate, o da falta de voto pleno do Distrito no Congresso, que continua em aberto). Em 2016 foi inaugurado no Mall o National Museum of African American History and Culture, dedicado a essa história. Hoje Washington combina o papel de capital política da maior potência mundial com o de uma das cidades culturais mais ricas e visitadas do planeta, um enorme museu a céu aberto a serviço de todos.