O Parque Nacional Acadia é um dos cantos mais bonitos da costa leste dos Estados Unidos: um lugar onde as montanhas de granito rosado mergulham direto no oceano Atlântico, as florestas de coníferas contornam lagos cristalinos e a costa rochosa explode em espuma a cada onda. Situado no recortado litoral do Maine, sobretudo na Mount Desert Island, é o único parque nacional da Nova Inglaterra e um dos mais queridos e visitados do país, famoso por seus nasceres do sol, suas estradas cênicas e sua mistura única de montanha e mar.
Acadia tem uma história particular: boa parte de suas paisagens foi preservada e moldada graças à filantropia de grandes famílias ricas que passavam o verão na região no início do século XX. John D. Rockefeller Jr. financiou e projetou as famosas 'carriage roads', uma rede de caminhos de terra para carruagens — sem carros — com elegantes pontes de pedra, que hoje são um paraíso para caminhar, pedalar ou andar a cavalo. Já a Park Loop Road leva os motoristas pelos pontos mais espetaculares: o topo da Cadillac Mountain, a primeira terra dos Estados Unidos a receber o sol em certas épocas do ano, o estrondoso Thunder Hole e o sereno Jordan Pond.
Este guia percorre Acadia com um olhar prático e acolhedor: como chegar e se locomover (inclusive o shuttle gratuito Island Explorer), quais mirantes, praias e trilhas não perder, como aproveitar as carriage roads de bike, onde ver o nascer do sol e onde comer uma boa lagosta do Maine. Acadia se aproveita com calçado confortável, disposição para madrugar pelos nasceres do sol e tempo para se deixar surpreender por esse encontro de floresta, granito e oceano.
Muito antes da chegada dos europeus, a região da Mount Desert Island era território do povo wabanaki, em especial os penobscot e outros povos da confederação, que a frequentavam sazonalmente para pescar, coletar mariscos e caçar, e que chamavam a ilha por seus próprios nomes. Em 1604, o explorador francês Samuel de Champlain navegou pela região e batizou a ilha de 'Isle des Monts Déserts' (Ilha das Montanhas Desertas), por causa de seus cumes de granito nu, nome que deu origem a 'Mount Desert'. A região fez parte da disputada Acádia francesa, de onde o parque tira seu nome. Ao longo do século XIX, a beleza da ilha atraiu pintores da Escola do Rio Hudson e depois veranistas ricos (os 'rusticators'), que construíram grandes mansões de verão ('cottages') em Bar Harbor. Preocupados em proteger a paisagem do desmatamento e da urbanização, filantropos como George B. Dorr (considerado o 'pai de Acadia'), Charles W. Eliot e John D. Rockefeller Jr. doaram terras e recursos. Em 1916 foi criado o Sieur de Monts National Monument, em 1919 ele se tornou o Lafayette National Park (o primeiro parque nacional a leste do Mississippi) e em 1929 adotou o nome de Acadia National Park. Rockefeller financiou ainda as carriage roads. Um grande incêndio em 1947 devastou boa parte da ilha, transformando a floresta. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The state of the pine and the lobster: Wabanaki land in the far northeast of the country, of rocky shores dotted with lighthouses, of immense forests and of Acadia National Park, the first east of the Mississippi.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Todas as manhãs, os Estados Unidos amanhecem primeiro aqui. Antes de Nova York, antes de Boston, a luz do sol toca o cume de granito do Cadillac Mountain, no litoral do Maine. E há uma coincidência bonita nisso: muito antes de existir um parque nacional, a região de Mount Desert Island era território dos povos wabanaki — uma confederação que reúne nações como os penobscot, passamaquoddy, maliseet e mi'kmaq —, cujo nome significa, justamente, 'povo do amanhecer'. A história de Acadia começa com eles. O nome faz referência à sua localização no extremo nordeste do continente, onde o sol nasce primeiro — uma imagem que combina com a fama atual do Cadillac Mountain como um dos primeiros lugares dos Estados Unidos continentais a receber a luz do dia.
Os wabanaki frequentavam a ilha e o litoral de forma sazonal, sobretudo nos meses quentes, para aproveitar a abundância do mar: pescavam, coletavam mariscos e outros frutos do mar, caçavam aves e mamíferos e reuniam recursos ao longo da costa rochosa e das baías. Os enormes montes de conchas (shell middens) que deixaram ao longo de milhares de anos são o testemunho arqueológico dessa presença prolongada. Para eles, a ilha de cumes pelados e a costa de granito faziam parte de uma paisagem conhecida e valorizada.
A colonização europeia trouxe, como em toda a região, doenças, conflitos e a perda progressiva de terras e autonomia. Apesar disso, os povos wabanaki não desapareceram: mantêm até hoje suas nações, sua cultura e sua presença no Maine, e o Parque Nacional Acadia reconhece cada vez mais essa herança indígena como parte fundamental da história do lugar, lembrando que a relação humana com essas paisagens começou milênios antes da chegada dos exploradores europeus.
O primeiro europeu cuja passagem pela ilha ficou documentada em detalhe foi o explorador francês Samuel de Champlain, que em setembro de 1604 navegou por esse litoral durante as expedições francesas pelo Atlântico Norte. Ao observar a ilha, com seus cumes de granito nu e pelado, sem árvores no alto, Champlain a batizou de 'l'Isle des Monts Déserts': a 'Ilha das Montanhas Desertas'. Desse nome francês vem o atual 'Mount Desert Island'.
A região passou então a fazer parte do território que os franceses chamaram de Acádia (Acadie), uma vasta e disputada área do nordeste da América do Norte que abrangia partes das atuais províncias marítimas do Canadá e o norte da Nova Inglaterra. É daí que vem, séculos depois, o nome do parque nacional: Acadia evoca aquela presença e aquele topônimo francês. Em 1613, os jesuítas franceses tentaram estabelecer uma missão na ilha (Saint-Sauveur), mas ela foi rapidamente destruída por uma expedição inglesa, numa amostra das longas disputas entre França e Inglaterra pelo controle da região.
Por muito tempo, Mount Desert Island foi uma terra de fronteira entre o domínio francês e o inglês, pouco povoada por colonos europeus e ainda frequentada pelos wabanaki. Só depois da vitória britânica nas guerras coloniais do século XVIII se consolidou o assentamento permanente de colonos de língua inglesa, que se dedicaram à pesca, à agricultura e à exploração de madeira, lançando as bases das cidadezinhas que existem hoje.
Em meados do século XIX, Mount Desert Island foi 'descoberta' pela arte e pelo turismo. Pintores da escola do rio Hudson, como Thomas Cole e Frederic Church, visitaram a ilha e retrataram em suas telas as paisagens dramáticas de montanhas, florestas e mar. Essas pinturas, expostas nas cidades, despertaram no público um fascínio pela beleza selvagem do Maine e atraíram os primeiros viajantes.
Chegaram então os chamados 'rusticators': visitantes de classe abastada que buscavam um contato simples e rústico com a natureza, hospedando-se em casas de campo e pousadas modestas. Mas, conforme o século avançava, esse turismo modesto deu lugar a algo muito mais opulento. As famílias mais ricas dos Estados Unidos — Rockefeller, Vanderbilt, Morgan, Astor, Ford e muitas outras — escolheram Bar Harbor como destino de veraneio de elite e construíram enormes e luxuosas mansões de verão que, com curiosa modéstia, chamavam de 'cottages' (chalés). Bar Harbor se tornou assim um dos balneários de verão mais exclusivos do país, comparável a Newport.
Essa era de ouro deixou uma marca decisiva no futuro do parque: foram esses veranistas endinheirados, apaixonados pela paisagem, que — ao ver a ilha ameaçada pela extração industrial de madeira e pelo avanço dos loteamentos — deram início ao esforço de conservação que acabaria criando o parque nacional. A fortuna e a influência dessas famílias foram direcionadas, em boa parte, para proteger as montanhas e o litoral que tinham transformado Mount Desert Island em seu refúgio de verão.
No início do século XX, a ameaça da extração industrial de madeira — especialmente depois da chegada de serrarias portáteis capazes de devastar florestas rapidamente — e da especulação imobiliária fez temer que a beleza de Mount Desert Island se perdesse para sempre. Um grupo de veranistas e conservacionistas decidiu agir. As figuras-chave foram George B. Dorr, um homem de fortuna que dedicou a vida e boa parte de seu patrimônio a comprar e doar terras para protegê-las — e que é conhecido como o 'pai de Acadia' —, e Charles W. Eliot, presidente da Universidade de Harvard, que ajudou a organizar o esforço por meio de uma entidade criada para receber doações de terras.
O trabalho de Dorr e Eliot foi dando frutos institucionais. Em 1916, o presidente Woodrow Wilson declarou o Sieur de Monts National Monument, protegendo as primeiras terras doadas. Em 1919, a área foi elevada à categoria de parque nacional com o nome de Lafayette National Park, tornando-se o primeiro parque nacional a leste do rio Mississippi. Por fim, em 1929, o parque adotou o nome que tem até hoje: Acadia National Park, em homenagem à antiga Acádia francesa.
A esse esforço se somou de forma decisiva John D. Rockefeller Jr., um dos grandes filantropos de sua época, que doou milhares de hectares e, sobretudo, financiou e projetou pessoalmente, entre 1913 e 1940, a famosa rede de 'carriage roads': caminhos de terra sem carros, com elegantes pontes de pedra, pensados para percorrer a paisagem de carruagem. Essa combinação de filantropia, visão conservacionista e paisagismo fez de Acadia um caso pioneiro: um parque nacional nascido quase inteiramente de terras doadas por particulares.
Um dos legados mais originais e duradouros da criação de Acadia são os 'carriage roads', a rede de caminhos para carruagens que John D. Rockefeller Jr. mandou construir entre 1913 e 1940. Rockefeller, grande apaixonado por passeios em carruagem puxada por cavalos, queria uma forma de percorrer as paisagens do interior da ilha sem ter que dividir o caminho com os automóveis, que começavam a tomar conta de tudo. Para isso, financiou e supervisionou pessoalmente, com enorme cuidado com os detalhes, a construção de cerca de 72 quilômetros de caminhos de terra batida.
Longe de serem simples trilhas, os carriage roads foram concebidos como obras de paisagismo. Seus traçados seguem curvas suaves que se integram ao relevo, abrem vistas estudadas sobre lagos e montanhas e foram construídos com técnicas que garantem boa drenagem e uma superfície firme. Seu traço mais admirado são as dezessete pontes de pedra, cada uma com design próprio, erguidas com maestria artesanal para atravessar riachos, desfiladeiros e quedas d'água. Essas pontes se tornaram marcos arquitetônicos e alguns dos cantinhos mais fotografados do parque.
Hoje, aqueles caminhos pensados para carruagens são uma das maiores atrações de Acadia para os visitantes: por eles circulam ciclistas, caminhantes, corredores, cavaleiros e, no inverno, praticantes de esqui cross-country, todos curtindo um ambiente natural sem tráfego motorizado. O legado de Rockefeller permitiu que Acadia preservasse um espaço único onde a paisagem e o prazer de percorrê-la devagar se impõem sobre a pressa do automóvel, fiel ao espírito com que foram criados.
Em outubro de 1947, depois de um verão e um outono excepcionalmente secos, um grande incêndio florestal começou em Mount Desert Island e ardeu durante dias, alimentado pelos ventos. O fogo devastou milhares de hectares de floresta dentro e fora do parque e destruiu inúmeras mansões de veraneio da era de ouro na região de Bar Harbor, encerrando de forma abrupta uma época. Foi um dos episódios mais dramáticos da história da ilha.
Paradoxalmente, o incêndio também trouxe renovação. Antes do fogo, boa parte das florestas da ilha era de coníferas escuras (abetos e píceas). Depois do incêndio, nas áreas queimadas cresceu uma nova vegetação com maior proporção de árvores caducifólias — bétulas, álamos, bordos —, que são as que hoje oferecem as espetaculares cores da folhagem de outono pelas quais Acadia é famosa. Assim, o desastre transformou a paisagem e, sem querer, contribuiu para uma de suas maiores atrações atuais.
Desde então, Acadia se consolidou como um dos parques nacionais mais visitados dos Estados Unidos, recebendo milhões de pessoas por ano atraídas pelos amanheceres no Cadillac Mountain, pelo litoral de granito, pelos lagos, pelos carriage roads e pela folhagem de outono. Hoje o parque enfrenta os desafios do turismo de massa — daí medidas como o shuttle gratuito Island Explorer e a reserva com horário marcado para subir o Cadillac —, buscando equilibrar o acesso do público com a proteção dessa paisagem única de montanha e mar que tantas pessoas, ao longo da história, se empenharam em preservar.