Newport é uma daquelas cidades onde se respira história em cada esquina: das ruas coloniais do século XVII às suntuosas mansões da Era Dourada debruçadas sobre o Atlântico. Localizada na ilha de Aquidneck, às margens da baía de Narragansett, no minúsculo estado de Rhode Island, Newport foi durante séculos um porto próspero e, no fim do século XIX, o balneário de verão mais exclusivo dos Estados Unidos, onde os Vanderbilt, os Astor e outras famílias riquíssimas ergueram palácios de verão que chamavam, com falsa modéstia, de 'cottages'.
A grande atração de Newport são justamente essas mansões da Gilded Age, verdadeiros palácios inspirados nos castelos e vilas da Europa, com interiores de mármore, ouro e obras de arte, que hoje podem ser visitados como museus. A mais famosa é The Breakers, a residência de verão dos Vanderbilt. Ligando várias dessas mansões à beira do oceano corre o Cliff Walk, uma trilha de uns cinco quilômetros entre as falésias e os jardins das mansões, um dos passeios litorâneos mais bonitos do país. Some-se a isso a forte tradição náutica de Newport, capital da vela e sede histórica da Copa América de iatismo.
Este guia percorre Newport com um olhar prático e acolhedor: quais mansões visitar, como fazer o Cliff Walk e a Ocean Drive, o que ver no centro histórico colonial, onde ficam as praias, como sair para velejar pela baía e onde comer. Newport se aproveita a pé, com tempo para admirar a opulência do seu passado dourado, sentir a brisa do Atlântico nas falésias e se deixar levar pelo clima marinheiro do porto.
A região da baía de Narragansett era território do povo narragansett muito antes da chegada dos europeus. Newport foi fundada em 1639 por colonos ingleses em busca de liberdade religiosa, no âmbito da colônia de Rhode Island, célebre por sua tolerância: aqui conviveram desde cedo quakers, batistas e judeus. A sinagoga Touro, de 1763, é a mais antiga preservada dos Estados Unidos. No século XVIII, Newport foi um dos portos mais prósperos das colônias, com intenso comércio marítimo (incluindo, tragicamente, seu envolvimento no tráfico de escravizados e no chamado comércio triangular). Durante a Revolução, a cidade foi ocupada pelos britânicos e depois serviu de base às forças francesas aliadas. No século XIX, Newport se transformou no balneário de verão preferido da elite americana: as famílias mais ricas do país (Vanderbilt, Astor e outras) construíram as opulentas mansões da Era Dourada que hoje são sua grande atração. Newport é também a histórica capital da vela e foi durante décadas sede da Copa América de iatismo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The smallest state in the country: founded as a refuge of religious tolerance by Roger Williams, cradle of the American Industrial Revolution, of the gilded summers of the Newport mansions and of Narragansett Bay.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes da chegada dos europeus, a região da baía de Narragansett e da ilha de Aquidneck era território do povo narragansett, uma das nações de língua algonquina mais poderosas do sul da Nova Inglaterra. Os narragansett viviam da pesca, da coleta de mariscos, da caça e da agricultura, e tinham uma vida cultural e comercial muito rica. Foram eles que deram nome à grande baía que define a geografia de Rhode Island.
A colonização inglesa da região esteve ligada à busca por liberdade religiosa. Rhode Island nasceu como um refúgio de tolerância, fundado por dissidentes como Roger Williams e Anne Hutchinson, expulsos da rígida colônia puritana de Massachusetts por causa de suas ideias. Nesse espírito, Newport foi fundada em 1639 por um grupo de colonos, entre eles William Coddington e Nicholas Easton, no extremo sul da ilha de Aquidneck. Desde o início, a nova cidade adotou uma política de notável tolerância religiosa, pouco comum na época.
Essa liberdade de consciência atraiu para Newport comunidades que em outros lugares eram perseguidas ou malvistas: quakers, batistas e, com destaque, uma comunidade judaica que se estabeleceu na cidade e prosperou. Essa abertura seria um dos traços que definiriam Newport e Rhode Island, e deixaria marcos como a sinagoga Touro. Assim, desde a fundação, Newport se destacou por uma mistura de atividade portuária e pluralismo religioso que a diferenciou de outras colônias da Nova Inglaterra.
Durante o século XVIII, Newport viveu uma primeira era de ouro como um dos portos comerciais mais importantes e prósperos das Treze Colônias, rivalizando com Boston, Nova York e Filadélfia. Seu excelente porto natural e sua tradição marítima fizeram dela um centro de comércio marítimo internacional, com navios indo e vindo carregados de mercadorias por todo o Atlântico. A cidade se encheu de comerciantes, artesãos e profissionais, e construiu prédios e igrejas que ainda estão preservados.
No entanto, essa prosperidade teve um lado sombrio e trágico: Newport esteve profundamente envolvida no comércio de pessoas escravizadas e no chamado 'comércio triangular'. Mercadores da cidade financiavam viagens que levavam rum da Nova Inglaterra para a África, onde era trocado por pessoas escravizadas que eram transportadas para o Caribe, e de lá se trazia melaço para fabricar mais rum. Newport foi um dos principais portos desse comércio nas colônias do norte. Reconhecer essa história faz parte de entender a verdadeira origem de boa parte da riqueza colonial da cidade.
Dessa época próspera vem um dos símbolos da tolerância de Newport: a Touro Synagogue, inaugurada em 1763, considerada a sinagoga mais antiga preservada nos Estados Unidos, erguida pela comunidade judaica da cidade. Sua existência, ao lado de igrejas de diferentes confissões, reflete o pluralismo religioso que caracterizava Newport em pleno auge comercial, um legado que convive com as páginas mais sombrias de sua história.
A Guerra de Independência dos Estados Unidos atingiu Newport em cheio e encerrou de forma abrupta sua primeira era de ouro. Por causa da importância estratégica de seu porto, a cidade foi ocupada pelas forças britânicas a partir de 1776 e ficou sob seu controle durante vários anos. A ocupação foi devastadora: muitos moradores fugiram, o comércio parou, prédios foram destruídos ou usados como quartéis, e a população e a economia da cidade sofreram um golpe do qual levariam muito tempo para se recuperar.
Depois da retirada britânica, Newport se tornou uma base fundamental das forças francesas que tinham vindo ajudar os revolucionários norte-americanos. O exército francês comandado pelo conde de Rochambeau se instalou na cidade, que virou um importante ponto de apoio para a aliança franco-americana. De Newport e da região partiram operações que seriam decisivas para a vitória final da independência. A presença francesa deixou marcas na memória local.
Apesar da independência conquistada, Newport não conseguiu recuperar plenamente o antigo esplendor comercial do século XVIII. A liderança portuária da região passou para outras cidades, como a vizinha Providence, e Newport entrou em um período de relativa decadência econômica. Mas essa pausa, paradoxalmente, ajudou a preservar seu patrimônio colonial — já que nada foi demolido para construir coisas novas — e preparou o terreno para uma segunda e muito diferente era de ouro, que chegaria no século XIX, dessa vez não como porto comercial, mas como balneário da elite.
No século XIX, Newport viveu sua segunda e mais famosa transformação: de antigo porto decadente, passou a ser o balneário de verão mais exclusivo dos Estados Unidos. O processo começou em meados do século, quando famílias abastadas do sul do país e, principalmente, das grandes cidades do nordeste começaram a passar os verões em Newport, atraídas pelo clima fresco, pela brisa do mar e pelo ambiente refinado. O que começou como um destino de descanso virou o palco onde a alta sociedade norte-americana exibia sua riqueza.
O auge chegou durante a chamada Era Dourada (Gilded Age), nas últimas décadas do século XIX, quando as famílias mais ricas do país — os Vanderbilt, os Astor, os Belmont e outras dinastias enriquecidas com as ferrovias, as finanças e a indústria — escolheram Newport para construir suntuosas residências de verão. Com uma mistura de ostentação e falsa modéstia, chamavam de 'cottages' (chalés) verdadeiros palácios inspirados nos châteaux franceses e nas villas renascentistas italianas, erguidos pelos arquitetos mais célebres da época, como Richard Morris Hunt, com interiores de mármore, ouro e obras de arte trazidas da Europa.
Durante a curta 'temporada' de verão, Newport virava o centro da vida social da elite norte-americana, com um calendário frenético de bailes, festas, regatas e eventos em que as grandes famílias competiam em luxo. Mansões como The Breakers (dos Vanderbilt), Marble House, The Elms e Rosecliff são o testemunho mais espetacular daquele mundo de privilégios e excessos. Hoje, preservadas como museus, são a maior atração turística da cidade.
Paralelamente à fama de balneário da elite, Newport construiu outra identidade que a tornou célebre no mundo todo: a de capital da vela. A paixão pela navegação esportiva, ligada ao lazer das classes altas que veraneavam na cidade, transformou Newport em um dos grandes centros da náutica de recreio e das regatas nos Estados Unidos. Seu porto, na baía de Narragansett, oferecia condições ideais e uma longa tradição marítima.
O grande símbolo dessa vocação foi a America's Cup, a competição de iates à vela mais antiga e prestigiosa do mundo. Durante décadas, ao longo do século XX, Newport foi a sede das regatas de defesa da America's Cup, disputadas diante de sua costa, que atraíam os melhores velejadores e um enorme interesse internacional. A cidade viveu no ritmo dessas competições, que reforçaram seu prestígio náutico e sua economia, até que, em 1983, o troféu mudou de mãos e a sede foi transferida.
Ainda hoje, Newport mantém sua condição de meca da vela: o porto continua cheio de veleiros e iates, recebe regatas e eventos náuticos durante toda a temporada, e dos seus píeres saem passeios de barco que permitem aos visitantes curtir a baía. A náutica é parte inseparável da identidade da cidade, junto com suas mansões e sua história colonial.
Com o declínio da Era Dourada — abalada pelo imposto de renda, pelas guerras mundiais e pelas mudanças sociais do século XX —, muitas das suntuosas mansões de Newport ficaram sem uso, custavam fortunas para manter e corriam risco de demolição. A cidade e um grupo de pessoas engajadas perceberam o valor daquele patrimônio único. Em 1945 foi fundada a Preservation Society of Newport County, que comprou e restaurou várias das grandes mansões e as abriu ao público como museus, salvando-as para as gerações futuras e transformando-as no motor do turismo da cidade.
Ao longo do século XX, Newport também se consolidou como um centro cultural e musical de destaque. A cidade é famosa por seus festivais de música ao ar livre, especialmente o Newport Jazz Festival e o Newport Folk Festival, criados nos anos 1950, que se tornaram eventos lendários da história da música norte-americana (no Newport Folk Festival, por exemplo, Bob Dylan protagonizou episódios míticos). Todo verão, esses festivais atraem multidões e reafirmam o papel de Newport na cultura.
Hoje, Newport reúne todas as suas camadas históricas em um destino fascinante: o centro colonial do século XVII, os ecos da Revolução, o esplendor das mansões da Gilded Age, a tradição da vela e a vida cultural dos seus festivais. É um dos destinos turísticos mais visitados da Nova Inglaterra, onde o visitante pode passar de admirar um palácio dos Vanderbilt a caminhar entre falésias, velejar pela baía ou curtir um show, em uma cidade que soube preservar e reinventar sua extraordinária herança.