Nova Orleans não se parece com nenhuma outra cidade dos Estados Unidos: é um pedaço da Europa, da África e do Caribe plantado às margens do Mississippi, com uma alma própria que se sente em cada esquina. Aqui, no Bairro Francês, as casas com sacadas de ferro forjado, os pátios escondidos e as ruas de pedra evocam a França e a Espanha; no ar flutua a música — porque esta é, nada mais nada menos, o berço do jazz —; e nos pratos pulsa uma das gastronomias mais saborosas e singulares do país, a cozinha crioula e cajun. É uma cidade para os sentidos, onde a festa, a música e a comida são um modo de vida.
Ela é chamada de 'The Big Easy' por seu ritmo descontraído e sua filosofia do 'laissez les bons temps rouler' ('deixe os bons tempos rolarem'). É a cidade do Mardi Gras, o Carnaval mais famoso do país, com seus desfiles, seus carros alegóricos e seus colares coloridos; a cidade das bandas de jazz tocando na rua, dos clubes de música ao vivo, do vodu e das lendas, dos cemitérios de túmulos brancos acima do solo (porque a cidade fica abaixo do nível do mar). Uma cidade alegre e melancólica ao mesmo tempo, resiliente, que soube se reerguer até da devastação do furacão Katrina.
Este guia percorre o essencial de Nova Orleans com um olhar prático e caloroso: como aproveitar o Bairro Francês, onde ouvir a melhor música ao vivo, o que comer (do gumbo aos beignets), como passear pelo Garden District de bonde, como visitar os cemitérios e os pântanos, e como se deixar levar pelo ritmo único da cidade. Nova Orleans conquista quem a visita: é diferente, saborosa, musical e profundamente humana.
A região era habitada por povos indígenas quando os franceses fundaram a cidade. Nova Orleans (La Nouvelle-Orléans) foi fundada em 1718 pela Companhia Francesa das Índias, sob a direção de Jean-Baptiste Le Moyne de Bienville, em homenagem ao duque de Orléans, regente da França. Sua localização estratégica junto ao Mississippi, perto do golfo, transformou-a em um porto-chave, embora seu entorno pantanoso e sujeito a inundações sempre tenha sido um desafio. Em 1762-1763, a França cedeu a Luisiana à Espanha, que a governou durante quatro décadas (daí a forte marca arquitetônica espanhola do atual Bairro Francês, reconstruído após os incêndios do final do século XVIII). Em 1800 voltou brevemente à França e, em 1803, Napoleão vendeu todo o imenso território da Luisiana aos Estados Unidos (a 'Compra da Luisiana'). Sob domínio americano, Nova Orleans prosperou como grande porto e como uma sociedade multicultural única: franceses, espanhóis, crioulos, africanos escravizados e livres (os 'gens de couleur libres'), acadianos (cajuns) e, mais tarde, imigrantes do mundo todo. Dessa mistura extraordinária nasceram sua cultura crioula, o Mardi Gras, a cozinha cajun-crioula e, no início do século XX, o jazz. Em 2005, o furacão Katrina e o rompimento dos diques inundaram grande parte da cidade em uma catástrofe histórica; Nova Orleans se reconstruiu com notável resiliência. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Nova Orleans nasceu como um empreendimento colonial francês no coração do vasto território da Louisiana, que a França reivindicava ao longo de toda a bacia do rio Mississippi. Em 1718, o explorador e colonizador francês Jean-Baptiste Le Moyne, senhor de Bienville, fundou o povoado de La Nouvelle-Orléans em nome da Companhia Francesa das Índias. O nome homenageava Filipe, duque de Orléans, que na época era regente da França durante a menoridade do rei Luís XV.
A escolha do lugar seguia uma lógica estratégica impecável: ficava às margens do rio Mississippi, perto da foz no golfo do México, no ponto que controlava o acesso a toda a imensa bacia fluvial do interior do continente. Quem dominasse aquele local dominaria o comércio de meio continente. Mas o lugar também tinha um grande inconveniente, que marcaria toda a história da cidade: era um terreno baixo, pantanoso e sujeito a inundações, espremido entre o rio e o lago Pontchartrain, com boa parte do solo no nível da água ou abaixo dele. Domar essa geografia hostil seria um desafio permanente.
Os primeiros anos foram duros, marcados por inundações, doenças tropicais e pelas dificuldades da colonização. Mas a cidade foi traçada com um plano ordenado em quadrícula — o atual Bairro Francês, ou Vieux Carré —, em torno de uma praça central (a Place d'Armes, hoje Jackson Square) e de uma igreja. Em 1722, Nova Orleans se tornou a capital da Louisiana francesa, consolidando seu papel central na região.
A história colonial de Nova Orleans deu uma guinada inesperada em meados do século XVIII. Depois da derrota da França na Guerra dos Sete Anos, e por meio de tratados secretos, a França cedeu a Louisiana (incluindo Nova Orleans) à Espanha em 1762-1763. Durante cerca de quatro décadas, a cidade foi governada pela Coroa espanhola, um período que deixou uma marca surpreendentemente profunda em sua fisionomia.
Acontece que o visual do atual Bairro Francês — com seus pátios internos, suas sacadas de ferro forjado, seus telhados e sua disposição — é em grande parte herança espanhola, e não francesa, apesar do nome. O motivo é que, durante o domínio espanhol, dois grandes incêndios, em 1788 e 1794, destruíram a maior parte da cidade colonial de madeira da época francesa. A reconstrução foi feita sob normas espanholas e com técnicas resistentes ao fogo (tijolo, estuque, telhas), o que deu ao bairro o estilo mediterrâneo-colonial que hoje o caracteriza e lhe dá tanto charme.
Sob a administração espanhola, a cidade continuou crescendo como porto e como uma sociedade cada vez mais diversa. Desenvolveu-se a peculiar sociedade crioula de Nova Orleans, e prosperou uma comunidade notável: a dos 'gens de couleur libres' (as pessoas de cor livres), afrodescendentes que tinham certa liberdade e direitos e que desempenharam um papel econômico e cultural importante, algo característico da Louisiana colonial em comparação com outras regiões escravistas do Sul.
No começo do século XIX, Nova Orleans trocou de bandeira mais uma vez, no que seria a virada decisiva de sua história. Em 1800, por meio de um tratado secreto, a Espanha devolveu a Louisiana à França, agora sob o poder de Napoleão Bonaparte. Mas Napoleão, envolvido em guerras na Europa e após o fracasso de seus planos no Caribe (a revolução do Haiti), concluiu que não conseguiria sustentar nem defender aquele enorme e distante território americano.
Assim, em 1803, Napoleão vendeu toda a Louisiana aos jovens Estados Unidos na célebre 'Compra da Louisiana' (Louisiana Purchase). Por uma quantia relativamente modesta, os Estados Unidos adquiriram de uma só vez um território imenso — que ia muito além do atual estado da Louisiana, estendendo-se por grande parte do centro do continente —, praticamente dobrando o tamanho do país. A cerimônia formal de transferência foi realizada no Cabildo, ao lado da Place d'Armes de Nova Orleans. Foi um dos acontecimentos mais importantes da história americana.
Nova Orleans passou então a ser americana, mas manteve intacta sua alma francesa, espanhola, crioula e caribenha, o que a transformou em uma cidade única dentro dos Estados Unidos. A chegada de americanos anglo-saxões, que se instalaram rio acima (no que viria a ser o Garden District), criou inclusive uma tensão e uma convivência entre dois mundos: o velho Bairro Francês crioulo e a nova cidade 'americana'. Dessa mistura continuaria se alimentando sua personalidade inconfundível. Em 1815, além disso, a cidade foi palco da famosa batalha de Nova Orleans, na qual o general Andrew Jackson (hoje na estátua da praça) derrotou os britânicos.
O que torna Nova Orleans realmente única é a extraordinária mistura de povos que se encontraram nela, um caldeirão como poucos no mundo. À base francesa e espanhola somaram-se os crioulos (descendentes de europeus nascidos na colônia), os africanos escravizados e os afrodescendentes livres, os acadianos (os 'cajuns', francófonos expulsos do Canadá que se instalaram na região), os caribenhos (sobretudo refugiados da revolução do Haiti), os irlandeses, alemães, italianos e, mais tarde, gente do mundo inteiro. Dessa fusão nasceram uma língua, uma culinária, uma música e uma cultura próprias e inigualáveis.
O fruto mais universal dessa mestiçagem foi o jazz. No começo do século XX, nos bairros afro-americanos e crioulos de Nova Orleans, a mistura de tradições musicais africanas, spirituals, blues, marchas das bandas e herança europeia deu origem a um gênero novo e revolucionário. Lugares como a lendária Congo Square, onde os escravizados se reuniam para tocar tambores aos domingos, plantaram as raízes rítmicas. Daqui saiu Louis Armstrong, um dos músicos mais influentes da história, e o jazz se espalhou a partir de Nova Orleans para conquistar o mundo inteiro.
A outra grande instituição cultural da cidade é o Mardi Gras (Carnaval), herdado da tradição católica francesa e espanhola, que em Nova Orleans ganhou uma dimensão espetacular. Com suas 'krewes' (sociedades carnavalescas), seus desfiles de carros alegóricos, suas fantasias, sua música e seus colares de contas em roxo, verde e dourado, o Mardi Gras se tornou o Carnaval mais famoso dos Estados Unidos e uma das grandes marcas de identidade da cidade. Para o brasileiro, acostumado ao seu próprio Carnaval, é uma festa com um sabor bem diferente e que vale conhecer. Junto com a culinária crioula e cajun (o gumbo, a jambalaya), formam o coração da cultura única de Nova Orleans.
A vulnerabilidade geográfica que marcava Nova Orleans desde a sua fundação — uma cidade em boa parte abaixo do nível do mar, protegida por um sistema de diques — virou tragédia em 29 de agosto de 2005, com o furacão Katrina. A tempestade, uma das mais devastadoras da história dos Estados Unidos, atingiu a região, mas o desastre maior não foi causado diretamente pelo vento, e sim pelo rompimento do sistema de diques que protegia a cidade: quando ele falhou, a água inundou cerca de 80% de Nova Orleans, deixando bairros inteiros debaixo de metros de água durante dias.
A catástrofe foi imensa: centenas de milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas ou ficaram presas, houve mais de mil mortos e bairros inteiros foram destruídos. O desastre também expôs profundas desigualdades sociais e falhas na resposta das autoridades, e atingiu com especial dureza as comunidades mais pobres, em sua maioria afro-americanas. Muitos moradores nunca voltaram, e a cidade perdeu uma parte significativa de sua população.
Mas Nova Orleans deu uma notável demonstração de resiliência. Nos anos seguintes, a cidade se reconstruiu: os diques foram reforçados e redesenhados, muitos moradores voltaram, e a cultura — a música, o Mardi Gras, a culinária, o espírito festivo — ressurgiu com força, como uma afirmação da vontade de seguir em frente. O turismo voltou e a cidade recuperou boa parte de sua vitalidade. Hoje Nova Orleans continua sendo uma das cidades mais singulares, culturalmente ricas e queridas dos Estados Unidos: um lugar que, apesar das feridas, mantém intactos sua música, seu sabor e sua filosofia do 'laissez les bons temps rouler' ('deixe os bons tempos rolarem').