Asheville é uma cidade boêmia e artística encravada nas montanhas Blue Ridge dos Apalaches, no oeste da Carolina do Norte. Cercada de florestas, rios e cumes ondulados, ganhou fama de refúgio criativo e progressista, com uma das cenas de cerveja artesanal mais importantes do país, galerias de arte, música ao vivo, gastronomia da fazenda à mesa e um espírito descontraído e alternativo que a diferencia do resto do Sul.
Seu grande ícone é a Biltmore Estate, a maior mansão particular dos Estados Unidos, um palacete em estilo château francês construído pela família Vanderbilt no fim do século XIX, cercado de jardins, vinhedos e milhares de hectares de floresta. Mas Asheville é muito mais: seu centro art déco cheio de lojas, cafés e bares; o histórico distrito artístico River Arts District; e, sobretudo, sua localização privilegiada como porta de entrada para a Blue Ridge Parkway e para o Parque Nacional Great Smoky Mountains.
Este guia percorre o essencial de Asheville: a imponente Biltmore, o clima boêmio do downtown, as cervejarias e a gastronomia, os ateliês de artistas do River Arts District e os passeios pela natureza dos Apalaches na Blue Ridge Parkway, com seus mirantes, cachoeiras e florestas que explodem em cores a cada outono.
Situada no vale do rio French Broad, em território historicamente cherokee, Asheville foi fundada no fim do século XVIII e prosperou como centro de montanha após a chegada da ferrovia em 1880. No fim do século XIX, o magnata George Washington Vanderbilt II escolheu estas montanhas para construir a Biltmore, sua colossal residência, que acabou definindo a identidade da cidade. No século XX, Asheville se reinventou como destino boêmio, artístico e cervejeiro.
Ler a história completa ↓The state of the first flight: Cherokee land and home of the 'lost colony' of Roanoke, of the Appalachian Mountains and the Great Smoky Mountains, of the Outer Banks beaches where the Wright brothers flew and of the thriving Research Triangle.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
No censo de 1800, Asheville — registrada na época como 'Ashville' — tinha apenas 38 habitantes. É difícil imaginar que esse vilarejo perdido entre os picos dos Apalaches se tornaria, dois séculos depois, a capital boêmia das montanhas do sul, com a maior mansão particular do país a seus pés. A história de como ela passou de povoado de fronteira a refúgio de artistas, magnatas e cervejeiros é uma das mais curiosas do Sul dos Estados Unidos.
Muito antes desses 38 moradores, a região das montanhas Blue Ridge foi, durante séculos, território do povo cherokee, que habitava os vales férteis do rio French Broad e as encostas dos Apalaches do sul. Os cherokee desenvolveram aqui uma cultura rica, com aldeias, agricultura e rotas comerciais pelas montanhas, muito antes da chegada dos colonos europeus.
Os primeiros moradores de origem europeia chegaram na segunda metade do século XVIII. Por volta de 1793, o colono John Burton fundou um povoado que batizou de Morristown; em 1797 ele foi oficializado como município e rebatizado de Asheville em homenagem a Samuel Ashe, então governador da Carolina do Norte. Nas primeiras décadas, foi uma pequena cidade de montanha, isolada e de difícil acesso entre os picos dos Apalaches.
A expansão dos Estados Unidos rumo ao oeste teve um capítulo trágico nesta região: na década de 1830, a maioria dos cherokee foi expulsa à força de suas terras e deportada para Oklahoma na chamada 'Trilha das Lágrimas' (Trail of Tears). Uma parte conseguiu permanecer nas montanhas e forma hoje a Eastern Band of Cherokee, cuja reserva (Qualla Boundary) fica perto dali, ao lado do Parque Nacional Great Smoky Mountains.
A grande virada na história de Asheville foi a chegada da ferrovia, em 1880. A ligação ferroviária acabou com o isolamento da cidade de montanha e a transformou rapidamente: chegaram turistas, investimentos e novos moradores atraídos pelo clima fresco e pelo ar puro dos Apalaches, que na época eram vendidos como remédio para doenças respiratórias. Asheville virou um destino próspero de saúde e veraneio para a elite do leste do país.
Entre os que se encantaram por essas montanhas estava George Washington Vanderbilt II, herdeiro de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos. No fim da década de 1880, ele comprou milhares de hectares nos arredores de Asheville e encomendou a construção da Biltmore, uma residência colossal no estilo château francês projetada por Richard Morris Hunt, com jardins do famoso paisagista Frederick Law Olmsted. Inaugurada em 1895, com 250 cômodos, é a maior casa particular do país.
A Biltmore não só definiu a imagem de Asheville como também impulsionou sua economia e seu desenvolvimento, trazendo empregos, técnicas agrícolas e florestais pioneiras (a propriedade foi o berço da silvicultura científica nos EUA) e uma atração turística que dura até hoje. A residência continua nas mãos dos descendentes dos Vanderbilt e é a principal atração da cidade.
As primeiras décadas do século XX foram de grande prosperidade para Asheville, com um boom imobiliário e a construção de vários prédios em estilo art déco no centro, muitos dos quais ainda estão de pé e dão à cidade seu caráter arquitetônico. Mas a Grande Depressão de 1929 atingiu a cidade com força especial: Asheville ficou muito endividada e, ao contrário de outras cidades, decidiu pagar a dívida integralmente ao longo de décadas em vez de declarar falência.
Essa decisão teve um efeito inesperado e feliz para o patrimônio: durante meio século, com pouco dinheiro para novas construções ou demolições, o centro de Asheville ficou praticamente congelado no tempo, o que preservou seu valioso conjunto de prédios art déco, que em outras cidades foi varrido pelo desenvolvimento. A cidade só terminou de pagar a dívida na década de 1970.
A partir do fim do século XX, Asheville passou por uma reinvenção notável. Seu patrimônio arquitetônico intacto, a natureza ao redor e o clima atraíram artistas, artesãos, empreendedores e um espírito progressista e alternativo que contrastava com o resto da região. Floresceu uma cena artística (o River Arts District), gastronômica (da fazenda à mesa) e, acima de tudo, cervejeira, que lhe rendeu o apelido de 'Beer City'. Hoje Asheville é um dos destinos mais singulares do Sul: uma cidade de montanha, criativa e verde.
Asheville tem um lugar próprio na história da literatura norte-americana graças a Thomas Wolfe, um dos grandes romancistas do país, nascido aqui em 1900. Seu romance autobiográfico 'Look Homeward, Angel' (1929) retrata sem disfarces a vida da cidade no início do século — Wolfe a chamou de 'Altamont' — por meio da pensão que sua mãe administrava, hoje transformada no Thomas Wolfe Memorial. O livro escandalizou muitos moradores, que se reconheceram nas páginas, mas colocou Asheville no mapa literário. Outros escritores, como F. Scott Fitzgerald, passaram temporadas na cidade (Fitzgerald se hospedou no Grove Park Inn enquanto sua esposa, Zelda, se tratava em um sanatório próximo).
Além da literatura, a região mantém uma forte identidade cultural apalache: a música tradicional de banjo, fiddle e bluegrass, o artesanato das montanhas (cerâmica, tecelagem, entalhe em madeira) e uma cozinha com raízes sulistas e de montanha. Instituições como o Folk Art Center, na Blue Ridge Parkway, mantêm viva essa herança artesanal, e festivais de música tradicional continuam animando toda a região.
A Asheville contemporânea combina esse legado com sua reinvenção criativa: é uma cidade universitária, turística e voltada para a vida ao ar livre, com forte consciência ambiental. Em 2024, as chuvas catastróficas do furacão Helene causaram enchentes graves na região e atingiram duramente bairros como o River Arts District, num episódio que pôs a comunidade à prova e que já faz parte de sua história recente. Mesmo assim, Asheville continua sendo um dos destinos de montanha mais queridos do leste dos Estados Unidos, fiel à sua mistura de natureza, arte e espírito independente.