As Mil Ilhas são uma das paisagens mais singulares e serenas do Canadá: um arquipélago com mais de mil e oitocentas ilhas e ilhotas espalhadas pelo rio São Lourenço, bem onde o lago Ontário começa sua longa viagem rumo ao Atlântico. Há ilhas de todos os tamanhos imagináveis: desde pequenas rochas com um único pinheiro agarrado à pedra até ilhas grandes com bosques, faróis, casas de campo e até castelos. Entre elas serpenteia, caprichosa, a fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos.
No fim do século XIX e começo do XX, as Mil Ilhas viraram moda entre os milionários da América do Norte, que construíram ali mansões de veraneio e residências de sonho, incluindo o famoso Boldt Castle, erguido por um magnata da hotelaria como presente — tragicamente inacabado — para sua esposa. Essa mistura de natureza, água e história romântica dá à região um encanto especial. Hoje, parte das ilhas é protegida pelo Thousand Islands National Park, o parque nacional menor e mais oriental de Ontário, administrado pela Parks Canada.
Este guia percorre as Mil Ilhas com um olhar prático: como e de onde pegar um cruzeiro, quais castelos e mirantes visitar, como percorrer a região de carro, de caiaque ou a pé, e como combiná-la com as cidades de Kingston e Brockville. É um destino ideal para quem procura paisagens de água, passeios de barco, natureza tranquila e um toque de história, em um dos cantos mais fotogênicos do leste de Ontário.
As Mil Ilhas foram, durante milhares de anos, território dos povos originários da região, sobretudo nações de língua iroquesa (haudenosaunee) e, mais tarde, também algonquina, que pescavam e navegavam entre as ilhas do São Lourenço. Um relato tradicional ligado a esses povos dá uma das explicações poéticas para a origem das ilhas. Com a chegada dos europeus, o São Lourenço se tornou a grande rota de penetração para o interior do continente: primeiro os franceses da Nova França e depois os britânicos cruzaram essas águas. Após a independência dos Estados Unidos, a fronteira foi traçada pelo meio do rio, deixando ilhas de cada lado. No fim do século XIX, com a expansão das ferrovias e do turismo, as Mil Ilhas se transformaram em um destino da moda para a alta sociedade de Nova York, Filadélfia e outras cidades, que construiu mansões e hotéis de veraneio nas ilhas. Dessa época de ouro datam os grandes castelos: o Boldt Castle, iniciado em 1900 pelo magnata da hotelaria George Boldt como presente para sua esposa Louise e abandonado após a morte dela em 1904; e o Singer Castle, em Dark Island. A região também deu origem, segundo a tradição, ao popular molho 'Thousand Island dressing'. Em 1904 foi criado, do lado canadense, o parque que com o tempo se tornaria o Thousand Islands National Park (originalmente St. Lawrence Islands National Park), um dos mais antigos e menores do Canadá, dedicado a proteger várias ilhas e sua rica biodiversidade. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Canada's economic and demographic heart: land of the Iroquoian and Algonquian nations, refuge of the Loyalists, cradle of Upper Canada and the country's industrial engine, home to Toronto, to the national capital Ottawa and to Niagara Falls.
Ler a história de Ontario →Se você tem um único dia, faça um passeio guiado no primeiro: organiza o resto da viagem e evita caminhar à toa. Nós buscamos na Civitatis: com guia em espanhol e reserva online sem complicação. Em Ottawa eles têm 4 passeios. E aqui tem free tours: você reserva sem pagar nada e no final dá ao guia o que achar justo, então experimentar não custa nada. Veja as de baixo: toque em qualquer uma para ver todas.
Saem de Ottawa, a 122 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes da chegada dos europeus, as águas do rio São Lourenço e seu labirinto de ilhas eram território dos povos originários da região. Nações de língua iroquesa (haudenosaunee) e, em diferentes épocas, também algonquina navegavam entre as ilhas, pescavam em suas águas e se deslocavam pelo grande rio, uma das principais artérias de comunicação do nordeste do continente. Para esses povos, as ilhas não eram uma paisagem vazia, mas um território conhecido e cheio de significado.
Uma das explicações tradicionais mais bonitas para a origem das ilhas vem do acervo de relatos indígenas. Segundo uma versão popularizada, o Grande Espírito havia prometido um paraíso aos povos que vivessem em paz; ao ver que as nações voltavam a se enfrentar, recolheu o jardim celestial que tinha oferecido e, ao levá-lo embora, deixou cair fragmentos sobre o rio, que se transformaram nas mil ilhas. Daí o nome poético de 'Jardim do Grande Espírito' (Manitouana, em algumas versões) com que a região passou a ser chamada.
Para além do relato, o fato é que essas ilhas faziam parte de um mundo indígena rico e dinâmico, atravessado por rotas de comércio, alianças e conflitos, sobre o qual mais tarde se sobreporia a presença europeia. O nome da cidade de Gananoque, de origem indígena, lembra essa herança.
Com a chegada dos europeus, o rio São Lourenço se transformou na grande rota de entrada para o interior da América do Norte. Os franceses da Nova França foram os primeiros a navegar por essas águas em busca de peles e rotas comerciais, seguidos por exploradores, missionários e comerciantes. A região das Mil Ilhas, na transição entre o lago Ontário e o São Lourenço, era passagem obrigatória nesse corredor estratégico.
Depois da queda da Nova França e do domínio britânico, e mais tarde da independência dos Estados Unidos, a região ganhou uma característica que a define até hoje: a fronteira internacional entre o Canadá e os Estados Unidos foi traçada pelo meio do rio São Lourenço, serpenteando literalmente entre as ilhas. Assim, algumas ilhas ficaram em território canadense (Ontário) e outras em território americano (estado de Nova York), às vezes a pouquíssimos metros umas das outras.
Essa fronteira fluvial, uma das mais pitorescas do mundo, convive com uma longa tradição de intercâmbio entre as duas margens. Com o tempo, pontes internacionais — como o conjunto da Thousand Islands Bridge — passariam a unir os dois países através das ilhas, e a região se tornaria um símbolo da relação entre o Canadá e os Estados Unidos.
No fim do século XIX, as Mil Ilhas viveram sua fase mais glamorosa. A expansão das ferrovias e dos barcos a vapor aproximou a região das grandes cidades do nordeste dos Estados Unidos, e a alta sociedade de Nova York, Filadélfia e outras metrópoles descobriu nessas ilhas um destino de veraneio da moda. Começaram a surgir grandes hotéis, clubes náuticos e, principalmente, luxuosas casas de verão nas ilhas, que viraram símbolo de status para os magnatas da era de ouro do capitalismo norte-americano (a 'Gilded Age').
Desse entusiasmo nasceram os célebres castelos das ilhas. O mais famoso é o Boldt Castle, em Heart Island: em 1900, o magnata da hotelaria George Boldt, dono do Waldorf-Astoria de Nova York, mandou construir um suntuoso castelo de seis andares no estilo dos castelos do Reno como presente para sua esposa, Louise. Centenas de operários trabalhavam na obra quando, em 1904, Louise morreu de repente. Arrasado, Boldt mandou parar todas as obras imediatamente e nunca mais voltou à ilha; o castelo ficou inacabado, transformado em um melancólico monumento ao amor interrompido. Outro castelo notável é o Singer Castle, em Dark Island.
Dessa era de ouro também vem, segundo a tradição, o popular molho 'Thousand Island dressing' (conhecido no Brasil como molho rosé), cuja origem é associada à região e a seus hotéis e residências de luxo. Embora o esplendor daqueles anos tenha se apagado com o tempo, deixou nas ilhas um legado de mansões, histórias românticas e uma aura de elegância que continua atraindo visitantes.
Enquanto a região vivia seu auge turístico, também começou a tomar forma uma ideia de conservação. Em 1904 foi criado, do lado canadense, um parque nacional para proteger várias ilhas do São Lourenço: o St. Lawrence Islands National Park, um dos parques nacionais mais antigos do Canadá e o primeiro a leste das Montanhas Rochosas. Com o tempo, passou a se chamar Thousand Islands National Park, nome pelo qual é conhecido hoje.
Administrado pela Parks Canada, o parque é o menor e o mais oriental de Ontário. Protege mais de vinte ilhas e um trecho da costa continental, em uma área de grande valor ecológico: as ilhas ficam sobre o chamado 'arco de Frontenac', uma ponte natural de granito que liga o Escudo Canadense aos montes Apalaches e que permite a convivência de uma biodiversidade incomum, com espécies de répteis, anfíbios, aves e plantas raras no resto da província.
Ao longo dos séculos XX e XXI, o parque desenvolveu seu centro de visitantes em Mallorytown Landing e uma rede de ilhas com píeres, trilhas e áreas de camping, pensada sobretudo para quem percorre a região de caiaque e canoa. A criação e a consolidação desse parque refletiram uma mudança de olhar sobre as Mil Ilhas: de paisagem de veraneio de luxo a patrimônio natural digno de proteção para as gerações futuras.
O século XX transformou aos poucos o caráter das Mil Ilhas. O esplendor da 'Gilded Age' se apagou com a Grande Depressão, as guerras e as mudanças sociais, e muitas das grandes mansões de verão trocaram de dono, se deterioraram ou desapareceram. Mas a região não perdeu seu encanto: o glamour de outra época deu lugar a um turismo mais democrático e familiar, focado nos passeios de barco pelo rio, na pesca esportiva, no caiaque, na náutica e no prazer da paisagem. Gananoque, do lado canadense, se firmou como a capital turística das ilhas, com seus píeres, seu teatro de verão e seu clima tranquilo.
Em 2002, o valor natural da região ganhou reconhecimento internacional: a Unesco declarou a área das Mil Ilhas e do arco de Frontenac como Reserva da Biosfera (Frontenac Arch Biosphere), uma das áreas com maior biodiversidade de todo o Canadá. O motivo é geológico e ecológico ao mesmo tempo: o arco de Frontenac é uma antiga crista de granito que cruza o São Lourenço e forma uma ponte natural entre o Escudo Canadense e os montes Adirondack, um corredor onde se encontram até cinco regiões florestais diferentes. Esse cruzamento explica a surpreendente riqueza de espécies — muitas delas raras ou no limite de sua área de distribuição — que vivem nas ilhas e em suas margens.
Hoje as Mil Ilhas vivem um equilíbrio delicado: de um lado, um destino turístico consolidado que atrai visitantes do Canadá, dos Estados Unidos e do mundo todo para seus passeios de barco, castelos e mirantes; de outro, um território de grande valor natural que se busca preservar por meio do Thousand Islands National Park, da reserva da biosfera e das iniciativas de conservação. Esse caráter duplo — paisagem romântica cheia de história e santuário de biodiversidade — é o que faz das Mil Ilhas um lugar único no leste de Ontário.