London é uma daquelas cidades canadenses de porte médio que surpreendem pela qualidade de vida tranquila, pelo verde abundante e pelo clima universitário. Localizada no coração do sudoeste de Ontário, a meio caminho entre Toronto e a fronteira com os Estados Unidos, deve seu nome — assim como o do seu rio, o Tâmisa (Thames) — a uma homenagem proposital a Londres, na Inglaterra, decidida pelos colonos britânicos que sonhavam em transformá-la num centro da região. É chamada carinhosamente de 'The Forest City', a Cidade da Floresta, pela enorme quantidade de árvores, parques e trilhas que a atravessam.
Não é uma cidade de grandes ícones turísticos, e sim de prazeres mais tranquilos: caminhar à beira do rio, percorrer o Covent Garden Market, passear pelos bairros arborizados, aproveitar a cena gastronômica e cervejeira em alta e respirar o ar jovem que vem da Western University, uma das universidades mais prestigiadas do Canadá. London também guarda um capítulo importante da história da medicina mundial: foi aqui, na Banting House, que o médico Frederick Banting teve a ideia que levaria à descoberta da insulina, um dos grandes avanços do século XX.
Este guia percorre London com olhar prático: o que ver no centro e nos parques, como se locomover, onde comer e dormir, e como usá-la como base ou parada num roteiro pelo sudoeste de Ontário, entre Toronto, as Cataratas do Niágara e a fronteira americana. É uma cidade ideal para quem quer conhecer o lado mais cotidiano, verde e acolhedor do Canadá de Ontário, longe da agitação das grandes metrópoles.
London foi concebida quase como um projeto de prancheta. Em 1793, John Graves Simcoe, primeiro vice-governador do Alto Canadá (hoje Ontário), percorreu a região e propôs fundar ali a capital da nova província, atraído pela localização central e pelo rio que batizou de Thames (Tâmisa), em homenagem a Londres, na Inglaterra. A ideia de torná-la capital não vingou — essa honra ficou primeiro com Newark e depois com York (a futura Toronto) —, mas o nome e o plano permaneceram. O povoamento de fato só se estabeleceu em 1826, e London cresceu rapidamente como centro administrativo e comercial do sudoeste de Ontário. Em 1845, um grande incêndio destruiu boa parte do povoado, que foi reconstruído. Ao longo do século XIX, consolidou-se como sede judicial do distrito, entroncamento ferroviário e centro de uma próspera região agrícola. Seu caráter britânico se refletiu nos nomes das ruas e bairros, muitos copiados de Londres (Oxford Street, Piccadilly, Covent Garden Market). Na madrugada de 31 de outubro de 1920, numa casa da cidade — hoje a Banting House National Historic Site —, o médico Frederick Banting anotou às pressas a ideia que levaria à descoberta da insulina em Toronto em 1921-1922, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel e transformou London num lugar-chave da história da medicina. No século XX, a fundação e o crescimento da Western University (1878) e de um grande polo hospitalar deram à cidade seu perfil atual de cidade universitária, de saúde e de serviços, sem perder a fama de 'Forest City' por seus parques e arvoredos. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de London começa, curiosamente, como um projeto no papel antes de ser um povoado de verdade. Em 1793, John Graves Simcoe, primeiro vice-governador do recém-criado Alto Canadá (a província que com o tempo viria a ser Ontário), percorreu o sudoeste da colônia em busca de um lugar central, defensável e afastado da fronteira com os Estados Unidos para instalar a capital da província. A região da atual London, na confluência de dois braços de um rio, pareceu ideal para ele.
Simcoe, movido por um forte sentimento britânico, batizou o local de 'London' em homenagem à capital da Inglaterra e chamou de 'Thames' (Tâmisa) o rio que o atravessava, em referência ao Tâmisa londrino. A ideia era reproduzir, no coração do Alto Canadá, uma nova London às margens de um novo Tâmisa. Ele chegou até a imaginar o traçado da futura capital.
No entanto, o plano de fazer de London a capital não foi adiante. As autoridades superiores preferiram primeiro Newark (Niagara-on-the-Lake) e depois, por razões estratégicas, a atual Toronto (então York). Assim, London ficou durante décadas como um nome e um projeto sem povoamento. Mas o topônimo britânico — e o do rio — criaram raízes e marcariam para sempre a identidade da futura cidade.
O povoamento permanente de London só foi estabelecido em 1826, mais de três décadas depois de Simcoe ter imaginado a cidade. Naquele ano, o povoado foi fundado como sede administrativa do Distrito de London, uma vasta região do sudoeste do Alto Canadá. A escolha como centro judicial e de governo do distrito deu a ele um impulso decisivo: logo foram erguidos tribunais, uma cadeia e os prédios da administração, e ao redor deles o povoado cresceu.
London prosperou como centro de serviços de uma região agrícola em expansão, ocupada por colonos britânicos e de outras origens que derrubavam as florestas e abriam campos de cultivo. O povoado cresceu rapidamente ao longo do século XIX, organizando seu traçado com ruas que, fiéis ao espírito da fundação, recebiam nomes tirados de Londres, na Inglaterra: Oxford Street, Piccadilly, Pall Mall e o mercado de Covent Garden, entre outros.
Em 1845, um grande incêndio devastou boa parte do povoado de madeira, uma catástrofe comum nas cidades da época. London foi reconstruída, desta vez com mais prédios de tijolo e pedra, e continuou crescendo. A chegada da ferrovia em meados do século XIX consolidou seu papel como entroncamento de comunicações e centro comercial do sudoeste de Ontário, e em 1855 ela recebeu oficialmente o status de cidade (city).
Uma das características mais singulares de London é a forma como ela reproduziu, quase como um eco, a geografia e os nomes da capital britânica. Além do nome da cidade e do rio Tâmisa, colonos e planejadores foram espalhando referências a Londres, na Inglaterra, por todo o mapa urbano. O centro tem seu Covent Garden Market, ruas como Oxford Street, Pall Mall, Piccadilly e Cheapside, e bairros e pontes que lembram os da Londres original.
Esse caráter deliberadamente britânico refletia a identidade dos colonos do Alto Canadá, em sua maioria leais à Coroa, muitos deles descendentes dos United Empire Loyalists que tinham emigrado após a independência dos Estados Unidos, e de imigrantes vindos das Ilhas Britânicas ao longo do século XIX. Assim, London se tornou uma das cidades mais 'inglesas' do Canadá nos nomes e no espírito.
Ao longo do século XIX e no começo do XX, a cidade foi construindo as instituições típicas de um centro regional: tribunais, escolas, igrejas de diversas confissões, jornais, bancos, uma próspera atividade comercial ligada ao campo e as primeiras indústrias. Seu perfil de cidade organizada, arborizada e de forte marca britânica foi se firmando, e com ele a fama de 'Forest City' pela abundância de árvores que a caracterizava.
O capítulo mais importante da história de London não é político nem militar, e sim científico, e aconteceu numa modesta casa de tijolos. No começo dos anos 1920, o jovem médico e cirurgião Frederick Banting, veterano da Primeira Guerra Mundial, se instalou em London para exercer a medicina e, ao mesmo tempo, dar aulas na Western University. O consultório particular não ia bem, o que lhe deixava tempo para refletir sobre problemas médicos.
Na madrugada de 31 de outubro de 1920, enquanto preparava uma aula sobre o pâncreas, Banting acordou com uma ideia que anotou às pressas: uma hipótese sobre como isolar a secreção interna do pâncreas, ligada ao diabetes. Essa ideia, nascida no seu quarto em London, foi a faísca que o levou no ano seguinte à Universidade de Toronto, onde, junto com o estudante Charles Best e sob a direção de John Macleod — e com a colaboração do bioquímico James Collip —, conseguiu isolar a insulina em 1921 e aplicá-la com sucesso em pacientes em 1922.
A descoberta da insulina foi um dos grandes marcos da medicina do século XX: transformou o diabetes, até então uma sentença de morte, em uma doença tratável, salvando milhões de vidas no mundo todo. Banting e Macleod receberam o Prêmio Nobel de Medicina em 1923. A casa de London onde Banting teve a ideia é hoje o Banting House National Historic Site, um museu dedicado à sua figura e à história da insulina. No jardim arde a 'Chama da Esperança', acesa pela rainha Elizabeth II em 1989, que só será apagada quando for encontrada uma cura para o diabetes.
Ao longo do século XX, London consolidou o perfil que a define hoje: uma cidade de porte médio voltada para educação, saúde, serviços e administração, mais do que para a grande indústria pesada. A fundação da Western University (oficialmente University of Western Ontario) em 1878 foi fundamental: com o tempo, ela se tornou uma das universidades mais prestigiadas do Canadá, atraindo milhares de estudantes e dando à cidade seu característico clima jovem e sua vida cultural.
À universidade somou-se o desenvolvimento de um grande polo de saúde, com hospitais e centros de pesquisa médica de primeira linha (hoje reunidos no London Health Sciences Centre e em outras instituições), que transformaram a cidade em um importante centro de saúde para todo o sudoeste de Ontário. London também abrigou indústrias e empresas de seguros, alimentos e tecnologia, diversificando sua economia.
A cidade cresceu incorporando localidades vizinhas e se estendendo pelo vale do Tâmisa, sempre fiel à fama de 'Forest City', com grandes parques como o Springbank e uma extensa rede de trilhas à beira do rio. Sem grandes ícones turísticos, mas com uma sólida qualidade de vida, London se firmou como uma cidade tranquila, verde e culta, representativa do dia a dia do Canadá de Ontário, e como uma parada lógica nas rotas que cruzam o sudoeste da província entre Toronto e a fronteira com os Estados Unidos.