Charlottetown é uma daquelas pequenas capitais que encantam pela escala humana e pela carga histórica. Capital da Ilha do Príncipe Eduardo — a menor província do Canadá —, é uma cidade de ruas arborizadas, casas vitorianas coloridas, igrejas com torres pontiagudas e uma orla animada à beira de um porto natural. Mas seu maior título de glória é histórico: aqui, em 1864, aconteceu a Conferência de Charlottetown, o encontro que deu início ao processo que levou à criação do Canadá. Por isso ela é chamada de 'Berço da Confederação'.
A cidade combina esse peso fundador com um clima descontraído e acolhedor, bem típico das províncias marítimas. O centro histórico pode ser percorrido a pé, entre edifícios históricos como a Province House e o Confederation Centre of the Arts, lojas, cafés e restaurantes onde a estrela absoluta é a gastronomia do mar: ostras da ilha, mexilhões, lagosta e batatas (a Ilha do Príncipe Eduardo é famosa por suas batatas e por sua terra de uma característica cor vermelha).
Charlottetown também é a porta de entrada para o universo de Anne de Green Gables, o querido romance de Lucy Maud Montgomery ambientado na ilha, que atrai visitantes do mundo todo, especialmente do Japão. Este guia percorre o essencial da cidade e dos arredores com um olhar prático e acolhedor: o que ver no centro histórico, como conhecer a história da Confederação, onde comer frutos do mar e como usar Charlottetown como base para descobrir as praias de areia vermelha, os faróis e a natureza de toda a ilha.
A região da Ilha do Príncipe Eduardo era território ancestral do povo mi'kmaq, que a chamava de Epekwitk (de onde deriva 'Abegweit'). Os franceses a colonizaram no século XVIII como parte da Acádia, com o nome de Île Saint-Jean, até que ela passou para as mãos britânicas após as guerras coloniais de meados daquele século. Charlottetown foi fundada pelos britânicos por volta de 1764-1768 como capital da colônia e recebeu esse nome em homenagem à rainha Carlota (Charlotte), esposa do rei Jorge III. A cidade foi planejada com um traçado em grade e praças, típico das fundações coloniais britânicas. Seu momento histórico decisivo chegou em setembro de 1864, quando sediou a Conferência de Charlottetown: representantes de várias colônias britânicas da América do Norte se reuniram na Province House para discutir a união, no que seria o primeiro passo rumo à criação do Domínio do Canadá em 1867. Daí o título de 'Berço da Confederação'. A ilha, paradoxalmente, só se uniu ao Canadá em 1873. Ao longo do século XX, Charlottetown cresceu como capital provincial e centro cultural, e a fama mundial do romance 'Anne de Green Gables' (publicado em 1908 pela ilhéu Lucy Maud Montgomery) transformou a ilha em um destino turístico internacional. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Canada's smallest province: a Mi'kmaq island of red earth and green fields, 'Birthplace of Confederation' thanks to the Charlottetown conference of 1864 and the setting of the novel Anne of Green Gables.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes da chegada dos europeus, a Ilha do Príncipe Eduardo era território do povo mi'kmaq, que a chamava de Epekwitk, palavra que costuma ser traduzida como 'descansando sobre as ondas' ou 'berço sobre as ondas', de onde derivou a forma 'Abegweit'. Para os mi'kmaq, a ilha fazia parte de seu vasto território ancestral de Mi'kma'ki, que abrangia boa parte das atuais províncias marítimas do Canadá.
Os mi'kmaq aproveitavam a riqueza da ilha e de suas águas: pescavam, caçavam e coletavam frutos do mar, deslocando-se de forma sazonal por suas costas e florestas. A abundância de recursos do estreito de Northumberland e do golfo de São Lourenço fazia de Epekwitk um lugar valioso dentro do seu mundo. A relação deles com a terra e o mar era profunda e se refletia no nome poético que deram à ilha.
A colonização europeia, primeiro francesa e depois britânica, transformou radicalmente a vida dos mi'kmaq, mas sua presença na ilha nunca foi totalmente interrompida: a nação continua presente na Ilha do Príncipe Eduardo, e sua história e seu vínculo originário com esta terra formam a primeira camada de qualquer relato sobre Charlottetown e a província.
Os primeiros europeus a colonizar a ilha de forma estável foram os franceses, no século XVIII, como parte da Acádia. Eles a batizaram de Île Saint-Jean (Ilha de São João) e estabeleceram nela assentamentos agrícolas e pesqueiros povoados por colonos acadianos. Durante décadas, a ilha fez parte do mundo francês do Atlântico Norte, ligada à vizinha fortaleza de Louisbourg, na Ilha do Cabo Bretão.
As guerras coloniais entre a França e a Grã-Bretanha em meados do século XVIII mudaram o destino da ilha. Após a queda das possessões francesas, a Île Saint-Jean passou ao controle britânico, e muitos de seus habitantes acadianos sofreram a deportação que atingiu toda a Acádia. A ilha foi rebatizada em inglês como St. John's Island e, mais tarde, em 1799, recebeu o nome de Prince Edward Island, em homenagem ao príncipe Eduardo, duque de Kent (filho do rei Jorge III e pai da futura rainha Vitória).
Foi nesse novo contexto britânico que Charlottetown foi fundada, por volta da década de 1760, escolhida como capital da colônia. A cidade recebeu esse nome em homenagem à rainha Carlota (Charlotte), esposa do rei Jorge III, e foi traçada seguindo um plano em quadrícula com praças, típico das fundações coloniais britânicas da época. Assim nasceu a pequena capital que, um século depois, teria um papel decisivo na história do Canadá.
O acontecimento que deu a Charlottetown seu lugar na história ocorreu em setembro de 1864. As colônias marítimas britânicas (Nova Escócia, Nova Brunswick e a Ilha do Príncipe Eduardo) tinham convocado uma reunião em Charlottetown para discutir uma possível união entre elas. Mas a essa conferência se juntaram, como convidados, delegados da Província do Canadá (os atuais Ontário e Quebec), liderados por figuras como John A. Macdonald e George-Étienne Cartier, que chegaram com uma ideia muito mais ambiciosa: a união de todas as colônias britânicas da América do Norte.
As conversas aconteceram na Province House de Charlottetown e, embora não tenham resultado em um acordo definitivo, foram decisivas: ali foi plantada a ideia de uma grande federação. A conferência foi acompanhada de banquetes e bailes que criaram um clima de entendimento entre os delegados, os futuros 'Pais da Confederação'. O processo continuou poucas semanas depois na Conferência de Quebec e culminou com a criação do Domínio do Canadá em 1º de julho de 1867.
Por ter sediado aquela reunião embrionária, Charlottetown ganhou para sempre o título de 'Birthplace of Confederation' (Berço da Confederação). É um dos lugares mais simbólicos da história política canadense, e a Province House, onde tudo aconteceu, é preservada como Sítio Histórico Nacional, enquanto o Confederation Centre of the Arts foi erguido em 1964 como monumento nacional ao centenário daquele acontecimento.
Um dos grandes paradoxos da história de Charlottetown é que, apesar de ter sido o berço da Confederação, a Ilha do Príncipe Eduardo não se uniu ao Canadá em 1867, quando nasceu o novo Domínio. Os ilhéus, receosos de perder autonomia e pouco convencidos dos benefícios da união, optaram no início por ficar fora da federação que eles mesmos tinham ajudado a gestar.
A situação mudou poucos anos depois, sobretudo por motivos econômicos. A pequena província tinha embarcado na construção de uma ferrovia que a deixou em uma situação financeira difícil, e a promessa do Canadá de assumir essas dívidas, garantir uma conexão permanente com o continente e outras condições favoráveis fez a balança pender. Finalmente, em 1873, a Ilha do Príncipe Eduardo foi incorporada ao Domínio do Canadá como sua sétima província.
Desde então, Charlottetown é a capital da menor província do país, tanto em área quanto em população. Seu tamanho modesto não lhe tirou identidade: a cidade soube cultivar seu caráter de pequena capital histórica, orgulhosa de seu papel fundador na criação do Canadá, papel que celebra e homenageia de muitas formas ao longo do ano.
No início do século XX, a ilha ganhou uma fama bem diferente da política, graças à literatura. Em 1908, a escritora da ilha Lucy Maud Montgomery publicou 'Anne of Green Gables' (Anne de Green Gables), a cativante história de uma menina órfã, ruiva e cheia de imaginação, adotada por engano por um casal de irmãos mais velhos em um vilarejo da Ilha do Príncipe Eduardo. O romance, ambientado nas paisagens rurais da ilha, virou um sucesso mundial e um clássico da literatura juvenil.
O fenômeno de Anne transformou a ilha em um destino turístico internacional. Leitores do mundo todo — com um carinho especial no Japão, onde o romance é extremamente popular — fazem peregrinação à região de Cavendish para conhecer Green Gables, a casa e o entorno que inspiraram Montgomery. Charlottetown, como capital e porta de entrada, se beneficiou desse fluxo de visitantes, e o Confederation Centre of the Arts consagrou o vínculo ao estrear e manter em cartaz por décadas o musical 'Anne of Green Gables'.
Hoje Charlottetown combina suas três almas: a pequena capital histórica orgulhosa de ser o berço do Canadá, a animada cidade marítima de gastronomia e festivais, e a porta de entrada para o mundo de Anne e para as praias de areia vermelha da ilha. Com seu centro histórico bem preservado, sua orla cheia de vida e sua escala humana, continua sendo uma das capitais provinciais mais encantadoras do Canadá.