Há lugares no Brasil que parecem pertencer a outro continente, e Gramado é o mais famoso de todos. No alto da Serra Gaúcha, no extremo sul do país, esta pequena cidade de ruas arborizadas, casas de telhado de duas águas e ar de vilarejo alpino surpreende quem chega esperando praia e calor. Aqui o clima é fresco, no inverno às vezes cai chuva congelada ou até neve, e o ambiente — com sua arquitetura de inspiração bávara e alemã, suas chocolaterias e seus cafés — transporta para um cantinho europeu no meio do sul brasileiro.
Gramado é, antes de tudo, uma cidade para os sentidos e para curtir com calma. É o aroma do chocolate artesanal que sai de dezenas de fábricas, o calor de um fondue dividido numa noite fria, o passeio pela Rua Coberta e pela Avenida Borges de Medeiros entre lojas e flores, o reflexo das árvores no Lago Negro e a magia em miniatura do Mini Mundo. E, acima de tudo, é o Natal Luz, o espetáculo natalino mais célebre do Brasil, quando a cidade inteira se acende de luzes e se enche de shows, desfiles e emoção durante semanas.
Este guia percorre o essencial de Gramado com um olhar prático e acolhedor: o que ver na cidade e na vizinha Canela, quando ir de acordo com o frio, a floração ou o Natal Luz, como chegar a partir de Porto Alegre, como se locomover, onde comer fondue e chocolate e como organizar os dias para não perder nada. Gramado é um destino para desacelerar, se agasalhar e se deixar encantar: ideal para casais, famílias e para quem quer descobrir uma face inesperada e deliciosa do Brasil.
A região da Serra Gaúcha onde hoje fica Gramado foi, até o século XIX, território de passagem e de matas de araucária, percorrido por tropeiros que levavam gado pelos caminhos da serra; aliás, o nome 'Gramado' faz referência a um campo coberto de grama onde essas tropas descansavam. A grande mudança veio com a imigração europeia: a partir de meados do século XIX, o sul do Brasil recebeu levas de colonos alemães e, mais tarde, italianos, que se estabeleceram nessas serras e deixaram uma marca decisiva na arquitetura, na língua, na gastronomia e nos costumes da região. Gramado se desenvolveu como colônia agrícola e, com a chegada da ferrovia no começo do século XX, passou a atrair veranistas em busca do clima fresco e saudável. Emancipou-se como município em 1954. Ao longo da segunda metade do século XX, a cidade apostou deliberadamente no turismo e numa identidade de 'vilarejo europeu de montanha', impulsionando sua arquitetura alpina, seus festivais — como o célebre Festival de Cinema de Gramado, criado em 1973 — e, sobretudo, o Natal Luz, criado em 1986, que a transformou em um dos grandes destinos turísticos do Brasil. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Brazil's southernmost state: a disputed frontier of the Pampa and of the Guaraní Jesuit missions, cradle of the gaúcho of mate and churrasco. Land of the Farroupilha Revolution and of Garibaldi, of the German and Italian immigration of the Serra Gaúcha, of wine and of the spectacular canyons of Cambará do Sul.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome de Gramado tem uma origem simples e muito ligada à história dos caminhos do sul do Brasil. 'Gramado' é um terreno coberto de grama, ou seja, de pasto. A tradição conta que o lugar deve seu nome a um campo de boas pastagens no alto da serra, onde os tropeiros —os condutores que levavam tropas de gado e mulas pelos caminhos do sul— faziam uma parada para que seus animais descansassem e se alimentassem antes de seguir viagem.
Durante os séculos XVIII e XIX, esses caminhos de tropas atravessavam a Serra Gaúcha ligando as regiões pecuaristas do sul aos mercados e às feiras do interior e do Sudeste do Brasil. O planalto onde hoje fica Gramado, com seu clima ameno e seus campos, era um ponto de passagem natural nessas rotas, muito antes de a cidade existir. Assim, o nome ficou associado para sempre àquele lugar de pastagens onde as tropas paravam.
A região, coberta por matas de araucária (o pinheiro-do-paraná) e por campos de altitude, fazia parte de um território relativamente pouco povoado até que, ao longo do século XIX, a imigração europeia começou a transformar por completo a paisagem humana da Serra Gaúcha. Desse encontro entre a geografia serrana, a tradição dos caminhos e a chegada dos colonos nasceria, com o tempo, a Gramado que conhecemos hoje.
A identidade de Gramado e de toda a Serra Gaúcha é, antes de tudo, fruto da grande imigração europeia que transformou o sul do Brasil no século XIX. A partir de 1824, o governo brasileiro passou a incentivar a vinda de colonos alemães para povoar e desenvolver as terras do sul; as primeiras colônias se estabeleceram em torno de São Leopoldo, no vale do rio dos Sinos, e dali a colonização foi avançando em direção à serra. Décadas depois, a partir de 1875, chegaram grandes contingentes de imigrantes italianos, que se fixaram sobretudo na região de Caxias do Sul, Bento Gonçalves e do Vale dos Vinhedos.
Esses colonos europeus trouxeram consigo sua língua, sua religião, suas técnicas agrícolas, sua gastronomia e seu jeito de construir. Na região de Gramado se estabeleceram principalmente famílias de origem alemã (e também italiana), que abriram clareiras na mata, cultivaram a terra e ergueram casas, capelas e povoados com a marca de suas regiões de origem. O clima ameno da serra, parecido com o europeu, favoreceu cultivos e costumes que hoje são marcas registradas: a produção de frutas, o gosto pelos embutidos e pelos doces, o café colonial e, com o tempo, o chocolate.
Dessa colonização vem boa parte da alma de Gramado: a arquitetura de inspiração germânica com estruturas de madeira aparente (o estilo enxaimel), a herança gastronômica alemã e italiana, os sobrenomes europeus de muitas famílias e um cuidado com a ordem, os jardins e a limpeza que marcaria o caráter da cidade. Sobre essa base cultural se construiria, já no século XX, a imagem de 'vilarejo europeu de montanha' que Gramado transformaria em seu grande atrativo turístico.
No começo do século XX, Gramado deu um passo decisivo que marcaria seu futuro: a chegada da ferrovia. Em 1921 foi inaugurado um ramal que ligou a região à malha ferroviária do estado, facilitando o transporte de pessoas e mercadorias e aproximando a serra das cidades. Com o trem começaram a chegar também os primeiros veranistas, atraídos pelo clima ameno e saudável do planalto, muito diferente do calor do resto do Brasil.
Numa época em que os climas de altitude eram muito valorizados por seus supostos benefícios à saúde, Gramado foi ganhando fama como lugar de repouso e veraneio, especialmente entre famílias abastadas de Porto Alegre e de outras cidades. Começaram a surgir casas de veraneio, hotéis e pensões, e a localidade foi desenvolvendo uma vocação turística incipiente, que se somava à sua base agrícola e colonial. O ar puro, os pinheirais, os jardins e a tranquilidade da serra viraram seu cartão de visita.
Durante boa parte de sua história, Gramado dependeu administrativamente de municípios vizinhos (esteve ligada a Taquara e depois a Canela). O crescimento da localidade e sua importância cada vez maior levaram à emancipação: em 15 de dezembro de 1954, Gramado se tornou município independente. A partir daí, a cidade pôde traçar o próprio rumo, e esse rumo apontaria, cada vez com mais força, para o turismo como motor principal de sua economia e de sua identidade.
Ao longo da segunda metade do século XX, Gramado tomou uma decisão que definiria seu destino: apostar de forma deliberada e consciente numa identidade turística de 'vilarejo europeu de montanha'. Aproveitando a herança da imigração alemã e italiana e seu clima ameno, a cidade foi moldando sua paisagem urbana em torno de uma estética alpina e germânica: arquitetura com telhados de duas águas e madeira aparente, jardins floridos, hortênsias, ruas bem cuidadas e uma atmosfera que lembrava a Europa Central. Essa imagem, metade herança genuína, metade construção turística, virou sua grande marca.
Um marco fundamental nessa projeção foi a criação, em 1973, do Festival de Cinema de Gramado, um dos festivais de cinema mais importantes e prestigiados do Brasil e da América Latina. Todo ano, o evento reúne estrelas, diretores e filmes do cinema brasileiro e latino-americano, entrega seus prêmios (os famosos 'Kikitos') e atrai a imprensa e o público de todo o país. O festival colocou Gramado no mapa cultural do Brasil e reforçou sua imagem de cidade sofisticada e turística.
A esses atrativos se somaram, com os anos, uma oferta crescente de hotéis, restaurantes, fábricas de chocolate, parques temáticos e eventos durante o ano inteiro. Gramado foi se firmando como um dos destinos preferidos do turismo nacional, especialmente para casais e famílias em busca de um clima diferente, de um ambiente caprichado e de experiências gastronômicas e culturais. A cidade mostrou que, com planejamento e uma identidade bem definida, um pequeno município da serra podia se tornar um fenômeno turístico em escala nacional.
Se houve um acontecimento que consagrou de vez Gramado como destino turístico de primeira linha, foi a criação do Natal Luz. Inaugurado em 1986, o evento natalino nasceu com a ideia de iluminar e animar a cidade no período de fim de ano, aproveitando seu clima ameno e sua estética europeia, tão próximos do imaginário de um 'Natal de conto de fadas'. Com o tempo, o Natal Luz cresceu até se tornar um dos espetáculos de Natal mais famosos do Brasil e da América Latina.
Durante semanas —geralmente do fim de outubro ou de novembro até janeiro—, Gramado se transforma por completo: ruas, praças, lagos e prédios se cobrem de milhões de luzes, árvores iluminadas e decorações gigantes, enquanto uma programação lotada de desfiles, corais e grandes espetáculos preenche cada dia. Alguns shows são produções de grande porte, com música, dança, acrobacias e efeitos, que atraem multidões e para os quais vale a pena comprar ingresso com bastante antecedência. O Natal Luz transformou a temporada natalina no período de maior movimento turístico da cidade.
Graças ao Natal Luz e ao conjunto de seus atrativos, Gramado se consolidou como uma das principais 'capitais' do turismo no Brasil e como sinônimo de Natal para milhões de brasileiros. Hoje a cidade combina sua herança colonial europeia, sua gastronomia (fondue, chocolate, café colonial), seus parques temáticos, seu festival de cinema e seu espetáculo natalino numa oferta turística o ano todo, em estreita parceria com a vizinha Canela. Daquele campo de pastagens onde as tropas paravam à deslumbrante 'cidade do Natal', Gramado percorreu um longo caminho até se tornar um dos destinos mais queridos e visitados do sul do continente.