Curitiba é a grande surpresa do Sul do Brasil: uma cidade que quebra todos os clichês tropicais e se mostra fresca, organizada, verde e profundamente europeia. Capital do Paraná, instalada a quase 900 metros de altitude no planalto, é famosa no mundo todo pelo seu urbanismo: aqui nasceram ideias pioneiras de transporte público, calçadões e parques urbanos que fizeram dela uma 'cidade modelo' estudada por planejadores do mundo inteiro. Caminhar por Curitiba é descobrir um Brasil diferente, de praças bem cuidadas, ruas arborizadas, ipês floridos e um ritmo mais tranquilo.
Mas Curitiba não é só planejamento: é também cultura, arte e identidade imigrante. Pelas suas ruas desfila o legado de italianos, alemães, poloneses e ucranianos que chegaram nos séculos XIX e XX, visível nos bosques temáticos, nas igrejas, na comida e no espírito trabalhador do seu povo. A cidade exibe ícones arquitetônicos ousados, como o Museu Oscar Niemeyer (o famoso 'Museu do Olho', com seu olho gigante suspenso) e a etérea Ópera de Arame, um teatro de estrutura tubular no meio de uma antiga pedreira alagada. E conserva um centro histórico encantador em torno do Largo da Ordem, com seus paralelepípedos, sua feira de domingo e sua boemia.
Este guia percorre o essencial de Curitiba com um olhar prático e acolhedor: quais parques e museus não perder, como aproveitar a Linha Turismo, onde sentir o pulso das colônias de imigrantes e, acima de tudo, como viver uma das experiências mais bonitas do Brasil: a descida de trem pela Serra do Mar até Morretes, atravessando a Mata Atlântica entre pontes, túneis e cachoeiras. Curitiba é uma cidade para curtir com calma, bem agasalhado, e se deixar encantar por um Brasil que pouca gente espera.
O nome Curitiba vem do tupi-guarani e costuma ser traduzido como 'grande quantidade de pinheiros' ou 'pinheiral', em referência às araucárias (o pinheiro-do-paraná) que cobriam a região. Antes dos europeus, a área era habitada por povos de língua tupi-guarani. A ocupação portuguesa chegou pelo interesse no ouro: no fim do século XVII, faiscadores e vaqueiros se instalaram no planalto, e em 29 de março de 1693 a vila foi oficialmente fundada com o nome de Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, que com o tempo passaria a se chamar Curitiba. Nos séculos XVIII e XIX, a vila cresceu ligada ao 'caminho das tropas', a rota pela qual o gado do Sul era conduzido até as feiras de Sorocaba, o que deu a Curitiba um papel de passagem estratégica. Em 1853, o Paraná se separou de São Paulo e virou província, com Curitiba como capital. A partir da segunda metade do século XIX, a cidade recebeu grandes ondas de imigrantes europeus (alemães, italianos, poloneses, ucranianos) que transformaram sua economia, sua paisagem e sua cultura, dando-lhe esse ar europeu que a distingue. O século XX trouxe o grande salto: a industrialização e, sobretudo, uma revolução urbanística iniciada nos anos 1960 e 1970 com o Plano Diretor e a gestão do urbanista e prefeito Jaime Lerner, que deu à cidade sua rede de transporte, seus grandes parques e sua fama mundial de 'capital ecológica' e modelo de planejamento. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The southern state of araucaria pine forests and great waters: from the Jesuit missions of Guairá razed by the bandeirantes to the gold of Paranaguá, from yerba mate and the tropeiros to European immigration and the coffee of the north. Home to the Iguazú Falls, to Itaipú and to Curitiba, a world benchmark in urban planning.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser a 'cidade modelo' estudada por urbanistas de meio mundo, Curitiba foi um mar de araucárias: um planalto a 900 metros de altitude coberto por florestas de pinheiros de copa achatada, tão dominantes na paisagem que acabaram batizando a cidade. Porque é isso que o nome significa: a explicação mais difundida é que 'Curitiba' vem do tupi-guarani e se traduz como 'grande quantidade de pinheiros' ou 'pinheiral', em alusão à araucária — o famoso pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia) —, a árvore que até hoje é símbolo do estado do Paraná.
A relação com a araucária combina com a paisagem original da região: o Primeiro Planalto Paranaense, onde a cidade fica a cerca de 900 metros de altitude, era ocupado por extensas florestas de pinheiros, cujas sementes — o pinhão — eram um alimento importante para os povos originários. O próprio brasão e a identidade de Curitiba estão associados a essa árvore, e a semente continua sendo uma delícia típica da cozinha local no inverno.
Antes da fundação portuguesa, o planalto era habitado por povos de língua tupi-guarani. A toponímia indígena da região — Curitiba, Iguaçu, Paraná, Barigui — é testemunho dessa presença originária, que ficou gravada nos nomes da geografia ocupada depois por colonos e faiscadores europeus.
A ocupação portuguesa do planalto de Curitiba esteve ligada, como em boa parte do Brasil colonial do Centro-Sul, à busca de ouro. No fim do século XVII, garimpeiros de ouro de aluvião (os faiscadores), vaqueiros e aventureiros que subiam do litoral — principalmente da região de Paranaguá — se embrenharam no planalto atrás dos metais preciosos dos rios e começaram a se fixar em torno dos primeiros veios e da criação de gado.
Desse povoamento disperso nasceu a vila. O ato de fundação costuma ser datado de 29 de março de 1693, quando foi instalada oficialmente a câmara (o governo municipal) e criada a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em torno de uma capela. Com o tempo, o nome longo e devocional foi cedendo lugar ao topônimo indígena, e a vila passou a ser conhecida simplesmente como Curitiba, em alusão aos pinheirais que a cercavam.
Ao longo do século XVIII, o ouro da região se esgotou rápido e a economia local se voltou para a pecuária e, sobretudo, para a sua posição nas rotas terrestres. Curitiba se firmou como ponto de passagem do 'caminho das tropas' (ou caminho de Viamão a Sorocaba), a grande rota pela qual as tropas de gado e mulas do extremo sul eram tocadas pelo planalto até as feiras de Sorocaba, em São Paulo. Esse papel de vila de pouso e comércio no caminho do gado foi fundamental para o seu crescimento ao longo do século XVIII e no começo do XIX.
Durante boa parte dos períodos colonial e imperial, o território que hoje é o estado do Paraná fazia parte da Capitania — e depois província — de São Paulo, como a sua 'comarca de Curitiba'. A região tinha interesses próprios, uma economia ligada à pecuária, à erva-mate e ao comércio de tropas, e uma crescente reivindicação de autonomia em relação ao governo paulista.
Essa reivindicação se concretizou em 1853. Por uma lei do Império, a comarca de Curitiba se separou de São Paulo e se tornou uma província independente: a Província do Paraná. Curitiba, que já era o principal centro do planalto, foi escolhida capital da nova província. A emancipação deu à cidade um novo impulso administrativo e político e marcou o início da sua transformação de vila de tropeiros em capital provincial em pleno crescimento.
A partir daí, Curitiba começou a ganhar instituições, prédios públicos e melhorias urbanas típicas de uma capital. A economia provincial se diversificou com o auge da erva-mate — exportada pelo porto de Paranaguá — e, mais tarde, da madeira. Esse novo status lançou as bases para a grande mudança que viria com a chegada em massa de imigrantes europeus nas décadas seguintes, que transformariam para sempre a cara da cidade.
Se existe um fenômeno que define a identidade de Curitiba, é a imigração europeia que chegou a partir da segunda metade do século XIX. Com o incentivo dos governos imperial e provincial, que queriam povoar e desenvolver o Sul do Brasil, milhares de famílias europeias se instalaram em Curitiba e arredores, fundando colônias agrícolas e bairros que mudaram completamente o cenário humano, econômico e cultural da cidade.
Vieram alemães — que deixaram sua marca na arquitetura, na indústria e em comunidades como as do Bosque do Alemão —; italianos, que povoaram bairros como Santa Felicidade, hoje meca gastronômica da cozinha italiana no Brasil; poloneses, uma das imigrações mais numerosas, lembrada no Bosque do Papa e seu memorial de casinhas de tronco; e ucranianos, que deixaram igrejas de rito oriental e tradições como a pintura de ovos (pêssankas). A eles se somaram japoneses, sírio-libaneses e outros povos, num mosaico que fez de Curitiba uma das cidades mais 'europeias' e diversas do Brasil.
Essas comunidades transformaram a economia com a agricultura, o artesanato, o comércio e a pequena indústria, e trouxeram sua gastronomia, suas festas, suas religiões e sua ética de trabalho. Curitiba homenageia esse legado com seus 'bosques' e memoriais temáticos dedicados a cada colônia — o Bosque do Alemão, o Bosque do Papa (polonês), o Memorial Ucraniano, a Praça do Japão —, que hoje são parte fundamental do roteiro turístico e da autoimagem da cidade como caldeirão de povos.
Um dos marcos que conectaram Curitiba ao resto do país e ao mundo foi a construção da ferrovia que liga o planalto ao litoral. A Estrada de Ferro Paranaguá–Curitiba, inaugurada em 1885, foi uma das grandes obras de engenharia do Brasil do século XIX: para vencer o desnível de cerca de 900 metros entre Curitiba e o nível do mar, os engenheiros traçaram uma linha ousada através da Serra do Mar, com dezenas de túneis, pontes e viadutos suspensos sobre abismos, abrindo caminho entre paredões de rocha e a densa Mata Atlântica.
A ferrovia resolveu um problema histórico: até então, a produção do planalto — a erva-mate, a madeira e os produtos agrícolas das colônias — tinha que descer até o porto de Paranaguá por caminhos difíceis como a Estrada da Graciosa. Com o trem, o transporte ficou mais rápido e barato, integrando a economia paranaense ao comércio nacional e internacional e consolidando Curitiba como centro da província.
Mais de um século depois, essa conquista da engenharia ganhou uma segunda vida como atração turística. O trecho entre Curitiba e Morretes virou uma das viagens de trem mais bonitas do Brasil: uma descida panorâmica pela Serra do Mar que permite contemplar a Mata Atlântica, as cachoeiras e os abismos das mesmas pontes e túneis construídos no século XIX. O passeio, que termina nas cidadezinhas coloniais de Morretes e Antonina, é hoje uma das experiências mais recomendadas da região.
O grande salto que tornou Curitiba famosa no mundo inteiro veio na segunda metade do século XX, com uma revolução urbanística que a transformaria em caso de estudo internacional. Depois de um forte crescimento populacional e industrial — impulsionado pela criação da Cidade Industrial de Curitiba —, a cidade precisava de um plano para crescer de forma ordenada. A resposta foi o Plano Diretor de 1965 e, sobretudo, sua implantação a partir de 1971 pelas mãos do urbanista e arquiteto Jaime Lerner, que foi três vezes prefeito da cidade e depois governador do Paraná.
Lerner e sua equipe do IPPUC (o instituto de planejamento urbano) puseram em prática ideias pioneiras que seriam copiadas no planeta inteiro. A mais famosa é o sistema de transporte rápido por ônibus (BRT): ônibus biarticulados circulando em faixas exclusivas ao longo de eixos estruturais, com as características 'estações-tubo' de embarque em nível que agilizam a subida dos passageiros, um modelo de transporte de massa eficiente e econômico que inspirou cidades dos cinco continentes. Em 1972, Curitiba criou ainda a primeira rua exclusivamente para pedestres do Brasil (a Rua das Flores).
A essa visão se somou uma política ambiental à frente do seu tempo: uma enorme rede de parques que, além de dar qualidade de vida, ajudam a controlar as enchentes; programas de reciclagem pioneiros (como a 'troca de lixo por alimentos'); e uma identidade de 'capital ecológica' que a cidade cultiva com orgulho. Muitos de seus ícones — o Jardim Botânico, a Ópera de Arame, o Parque Tanguá, a Universidade Livre do Meio Ambiente, os bosques dos imigrantes — nasceram desse espírito. Embora enfrente os desafios de qualquer metrópole, Curitiba continua sendo citada como referência mundial de planejamento urbano e sustentabilidade.