Fernando de Noronha é, para muita gente, o destino de praia mais espetacular do Brasil: um arquipélago vulcânico perdido no Atlântico, a cerca de 545 km do Recife, formado por 21 ilhas e ilhotas, das quais só a maior é habitada. Quando Américo Vespúcio o avistou em 1503, segundo a tradição, exclamou 'O Paraíso é aqui', e a frase continua descrevendo bem o lugar: águas de um turquesa impossível, falésias verdes, uma vida marinha riquíssima — golfinhos-rotadores, tartarugas, tubarões, raias e cardumes de peixes coloridos — e um perfil inconfundível, o Morro Dois Irmãos despontando sobre a Baía dos Porcos. Administrativamente é um Distrito Estadual de Pernambuco; na prática, é um santuário de natureza.
O que torna Noronha diferente de qualquer outra praia brasileira é que ela é protegida e controlada de verdade. Cerca de 70% do arquipélago é Parque Nacional Marinho desde 1988, e todo o conjunto é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2001 (declarado junto com o Atol das Rocas). Para preservá-lo existe um limite de visitantes e duas taxas obrigatórias que todo turista paga: a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), cobrada por dia de estadia, e o ingresso do Parque Nacional Marinho (PARNAMAR, administrado pelo ICMBio), um ticket válido por vários dias que dá acesso às praias e atrativos protegidos, como Sancho, Atalaia, Leão e Sueste. Não é detalhe: é preciso considerá-las no orçamento e, no caso do parque, pagar antes para não perder tempo.
Chegar tem sua mística: só há voos a partir de duas capitais do Nordeste, Recife (REC) e Natal (NAT), de pouco mais de uma hora, até o único aeroporto da ilha (FEN). Lá, a vida corre devagar, no ritmo das marés: amanheceres no Mirante dos Golfinhos vendo os golfinhos-rotadores entrarem na baía, dias de barco contornando ilhotas, snorkel com tartarugas no Sueste, a trilha guiada até as piscinas naturais do Atalaia (com limite de vagas e tempo controlado), mergulho de nível mundial com visibilidade de dezenas de metros e pores do sol no Forte dos Remédios com o Morro do Pico recortado contra o céu. Caro, exigente na logística e com regras rígidas, sim; mas poucos lugares retribuem tanto.
O arquipélago de Fernando de Noronha é de origem vulcânica e emergiu do Atlântico há milhões de anos; seu ponto mais alto, o Morro do Pico (321 m), é o resto erodido dessa formação. Foi avistado por uma expedição portuguesa em 10 de agosto de 1503 — comandada por Gonçalo Coelho, financiada pelo comerciante lisboeta Fernão de Loronha (de quem a ilha herdou o nome) e com o navegador Américo Vespúcio a bordo, a quem se atribui a frase 'O Paraíso é aqui'. Em 1504 a Coroa portuguesa doou a ilha a Fernão de Loronha, tornando-a a primeira capitania hereditária do Brasil. Durante os séculos XVII e XVIII foi cobiçada e ocupada por holandeses, ingleses e franceses; depois de uma colonização francesa, Portugal enviou tropas do Recife em 1737, que expulsaram os franceses e, para garantir a posse, ergueram o Forte dos Remédios e um sistema de fortins espalhados pela costa. Por mais de dois séculos (de 1737 até meados do século XX) Noronha funcionou como presídio: primeiro penal comum e depois, entre 1938 e 1945, prisão de presos políticos (mais tarde o governador Miguel Arraes também ficou preso lá, em 1964). Na Segunda Guerra Mundial, por sua posição estratégica no Atlântico Sul, abrigou uma base aérea operada com apoio norte-americano (1942), peça da rota para a África. Charles Darwin, em sua célebre viagem no HMS Beagle, havia passado pela ilha em fevereiro de 1832 e registrou sua natureza vulcânica. Em 1988 foi criado o Parque Nacional Marinho e, em 2001, a UNESCO declarou o arquipélago Patrimônio Mundial Natural junto com o Atol das Rocas. Hoje é Distrito Estadual de Pernambuco e um modelo de turismo sustentável com limite de visitantes. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of the sugar-growing Northeast: the richest captaincy of the colony, stage of Nassau's Dutch Brazil and of the Guararapes battles, hotbed of the greatest republican rebellions of the Empire. Land of frevo and maracatu, of the handsome pair Recife and Olinda, and of the ocean jewel of Fernando de Noronha.
Ler a história de Pernambuco →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Fernando de Noronha não é uma ilha 'continental' que se desprendeu da terra firme, e sim um arquipélago oceânico de origem vulcânica: ele emergiu do fundo do Atlântico Sul pela atividade de um ponto quente magmático, e o que hoje vemos acima da água é apenas o topo erodido de uma enorme formação vulcânica cuja base afunda centenas de metros abaixo da superfície. O conjunto é formado por 21 ilhas, ilhotas e rochedos, dos quais só o maior, a ilha principal, é habitado.
O símbolo geológico do arquipélago é o Morro do Pico, um morro cônico de 321 metros que se ergue atrás da área habitada e é o ponto mais alto de Noronha. É um 'neck' vulcânico: o resto endurecido e erodido do antigo conduto do vulcão, que ficou de pé quando o material mais mole ao redor foi se desgastando com milhões de anos de ondas, vento e chuva. As falésias, os morros gêmeos (Dois Irmãos) e as rochas que afloram do mar entre as praias são todos testemunhas desse passado ígneo.
Essa natureza vulcânica não é um detalhe qualquer na história do lugar: ela explica o relevo acidentado, as poças e piscinas naturais entre as rochas, os fundos marinhos cheios de estrutura (paredões e arcos) que fazem do mergulho algo extraordinário, e a fragilidade de um ecossistema isolado no meio do oceano. Foi também a primeira coisa que um de seus visitantes mais célebres registrou por escrito: o jovem naturalista Charles Darwin, ao passar pela ilha em 1832, anotou de imediato que sua constituição era vulcânica e descreveu aquele morro cônico que dominava a paisagem.
O arquipélago foi avistado pelos europeus em 10 de agosto de 1503, durante uma expedição portuguesa que explorava a costa do recém-'descoberto' Brasil. A frota era comandada pelo capitão Gonçalo Coelho, tinha sido financiada por um consórcio comercial privado liderado pelo comerciante lisboeta Fernão de Loronha (também escrito Fernão de Noronha) e levava a bordo, como observador e cronista, o navegador italiano Américo Vespúcio. Segundo a tradição, foi Vespúcio quem, ao se aproximar daquela ilha deserta e exuberante (pouco depois do naufrágio de um dos navios da expedição), teria exclamado 'O Paraíso é aqui'. No começo, ela foi batizada de ilha de São Lourenço, por causa do santo do dia.
Pouco depois, em janeiro de 1504, o rei D. Manuel I de Portugal doou a ilha a Fernão de Loronha como recompensa por ter financiado a expedição, transformando-a na primeira capitania hereditária do Brasil: ou seja, o primeiro pedaço do novo território entregue pela Coroa a um particular no sistema de capitanias donatárias, que pouco depois seria aplicado em grande escala no litoral do continente. Com o tempo, o nome do arquipélago derivou do de seu primeiro donatário, e a ilha passou a se chamar Fernando de Noronha.
Durante o século XVI, a ilha teve pouca ocupação efetiva e serviu sobretudo como referência e refúgio nas rotas atlânticas. Seu valor era mais estratégico que produtivo: uma posição avançada no meio do oceano, no caminho entre a Europa, a África e o restante do Brasil. Essa mesma posição faria dela, nos séculos seguintes, objeto de disputa entre as potências coloniais.
Por sua posição estratégica no Atlântico, durante os séculos XVII e XVIII Fernando de Noronha foi cobiçada e ocupada de forma intermitente por várias potências rivais de Portugal. No contexto das invasões holandesas no Nordeste brasileiro, os holandeses controlaram a ilha em diferentes momentos do século XVII, integrando-a a seus domínios na região. Ingleses e, principalmente, franceses também estavam de olho nela: a Companhia Francesa das Índias chegou a colonizar a ilha por volta de 1736.
A resposta portuguesa foi enérgica. Em outubro de 1737, a Coroa enviou de Recife uma expedição militar comandada pelo coronel João Lobo de Lacerda, com cerca de 250 soldados, que expulsou os franceses (praticamente sem resistência) e tomou posse efetiva do arquipélago. Para garantir essa posse de forma permanente, os portugueses começaram logo a fortificar a ilha: ergueram o Forte de Nossa Senhora dos Remédios, em posição dominante sobre a baía de Santo Antônio e o ancoradouro, como principal estrutura defensiva do arquipélago, e o complementaram com todo um sistema de pequenos fortes e baterias (fortins) espalhados pela costa para cobrir os diferentes pontos de desembarque.
Esse sistema defensivo do século XVIII é a raiz do patrimônio histórico que hoje se visita na ilha: as ruínas do Forte dos Remédios, hoje um dos melhores mirantes de Noronha para ver o pôr do sol, e os vestígios dos outros fortins são a memória construída daquela época em que o arquipélago era, antes de tudo, uma chave militar do Atlântico Sul que Portugal não estava disposto a perder.
Durante boa parte de sua história moderna, Fernando de Noronha não foi um paraíso turístico, e sim, literalmente, uma prisão. A partir da consolidação do domínio português no século XVIII, e ao longo do XIX e de parte do XX, o arquipélago funcionou como colônia penal e presídio de segurança máxima: seu isolamento no meio do oceano, sem chance de fuga, o tornava ideal para confinar prisioneiros. A própria Vila dos Remédios foi concebida e adaptada como uma praça-fortaleza-prisão: uma vila murada, planejada por engenheiros militares, onde os presos viviam e trabalhavam sob vigilância.
Por suas celas passaram presos comuns durante gerações, e também presos políticos em diferentes momentos. Entre 1938 e 1945, a ilha funcionou especificamente como prisão política, na época do Estado Novo de Getúlio Vargas. Décadas depois, após o golpe militar de 1964, o governador de Pernambuco Miguel Arraes ficou confinado ali, em um dos episódios que melhor mostram como o arquipélago continuou sendo usado como lugar de desterro de opositores.
Esse passado carcerário, que se estendeu por mais de dois séculos, deixou uma marca profunda: grande parte do patrimônio edificado da ilha (muralhas, dependências, o próprio traçado da Vila dos Remédios) vem dessa época de presídio, e o desmatamento histórico do arquipélago (boa parte da mata foi derrubada para impedir que os presos construíssem jangadas e fugissem) explica parte da paisagem atual. Ir 'do presídio ao paraíso' é, aliás, uma das formas mais repetidas de contar a história de Noronha.
A posição de Fernando de Noronha no meio do Atlântico Sul, na 'cintura' mais estreita do oceano entre a América e a África, voltou a ser decisiva durante a Segunda Guerra Mundial. O Brasil se alinhou aos Aliados, e o arquipélago ganhou um valor militar enorme: era uma peça da rota aérea e de vigilância que ligava o Nordeste brasileiro (sobretudo Natal, o 'Trampolim da Vitória') ao continente africano (a rota Natal-Dakar), por onde passavam aviões, suprimentos e tropas a caminho das frentes da Europa e da África.
Em janeiro de 1942 foi criado o Destacamento Misto de Fernando de Noronha, uma força militar que reunia infantaria e artilharia (de campanha, de costa e antiaérea) para defender a ilha. No mesmo ano, no âmbito dos acordos de cooperação militar entre o Brasil e os Estados Unidos, foi construído na ilha um aeródromo operado com apoio norte-americano, integrado ao esforço aliado de controle do Atlântico Sul contra os submarinos do Eixo. Durante a guerra, o arquipélago ficou fechado, militarizado e sob controle rigoroso.
Essa infraestrutura aeronáutica dos anos 40 é, além disso, a antecessora direta do atual aeroporto da ilha: a pista que hoje recebe os voos de turistas vindos de Recife e Natal tem suas raízes naquele esforço de guerra. Terminado o conflito, a importância militar foi diminuindo, mas a condição estratégica de Noronha (e a presença de instalações de defesa e rastreamento) continuou marcando sua história durante boa parte do século XX, antes de sua transformação definitiva em santuário ecológico e destino turístico.
A grande transformação de Fernando de Noronha chegou nas últimas décadas do século XX, quando a ilha deixou de ser prisão e baluarte militar para virar um modelo de conservação. Em 1988 foi criado o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, que protege cerca de 70% do arquipélago (tanto a parte terrestre quanto as águas ao redor) e ficou sob gestão federal (hoje a cargo do ICMBio). Com o parque vieram as regras que definem o destino atual: controle de acesso, áreas restritas, trilhas regulamentadas e a ideia de que o turismo só é viável se for limitado.
O reconhecimento internacional veio em 2001, quando a UNESCO declarou Patrimônio Mundial Natural o conjunto formado por Fernando de Noronha e o vizinho Atol das Rocas, por seu valor excepcional como refúgio de biodiversidade marinha do Atlântico Sul: área de alimentação, reprodução e criação de tartarugas, golfinhos, aves e peixes. Esse título consolidou a vocação conservacionista da ilha e reforçou a necessidade de protegê-la.
Na parte administrativa, Fernando de Noronha é hoje um Distrito Estadual de Pernambuco, administrado diretamente pelo governo do estado, apesar de estar geograficamente mais perto do Rio Grande do Norte. E no turismo é referência em gestão sustentável: para entrar, você paga duas taxas, a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), por dia de estadia, e o ingresso do Parque Nacional Marinho, e existe um limite de visitantes que restringe quantas pessoas podem estar na ilha. Atrações como a Trilha do Atalaia funcionam com agendamento e tempo de banho cronometrado. Assim, o arquipélago que foi prisão e base de guerra completou sua virada mais improvável: hoje ele se protege do próprio sucesso para continuar merecendo a frase que, segundo a lenda, Vespúcio disse em 1503: 'O Paraíso é aqui'.
Entre os visitantes ilustres do arquipélago, há um que passou quase incógnito mas deixou sua marca na história da ciência: Charles Darwin. Em 20 de fevereiro de 1832, o jovem naturalista, então com apenas 22 anos, fez uma breve escala em Fernando de Noronha durante a viagem do HMS Beagle, a expedição que daria a volta ao mundo e serviria de base para suas ideias sobre a evolução. O Beagle tinha zarpado da Inglaterra no fim de dezembro de 1831 e, antes de chegar a Salvador, na Bahia, no fim do mês, fez essa passagem rápida pela ilha.
Darwin ficou pouco tempo em terra, mas o suficiente para observar e anotar. Descreveu a ilha como uma floresta densa e, sobretudo, reconheceu na hora sua origem vulcânica: em seu diário escreveu que 'a constituição desta ilha é vulcânica, embora provavelmente não de data recente', e destacou como traço mais marcante um morro cônico muito alto e de encostas bem íngremes (o Morro do Pico), que até hoje é o símbolo geológico do arquipélago. Suas observações apareceriam depois em 'A Viagem do Beagle'.
O fato de um dos cientistas mais influentes da história ter pisado em Noronha e acertado de primeira sua natureza vulcânica é uma daquelas curiosidades que ligam a pequena ilha atlântica à grande história do pensamento. Para quem visita hoje, olhar o Morro do Pico da Praia da Conceição ou do Forte dos Remédios é, sem saber, repetir a mesma cena que Darwin anotou há quase dois séculos.