A Chapada Diamantina é o grande coração montanhoso da Bahia: um mar de serras de rocha antiquíssima no interior do estado, onde a paisagem semiárida da caatinga se rompe em cânions profundos, chapadas planas, paredões avermelhados e centenas de cachoeiras. É um dos destinos de natureza mais impressionantes do Brasil, comparável em fama ao Pantanal ou à Amazônia, mas com uma marca própria: rios de águas escuras tingidas pelas plantas, poços de um azul impossível iluminados por raios de sol, cavernas imensas de calcário e trilhas que estão entre as melhores do país. Boa parte disso é protegida pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina, criado em 1985.
O nome conta a história. Em meados do século XIX, foram descobertos diamantes nos rios da Serra do Sincorá e estourou uma febre que atraiu milhares de garimpeiros: nasceram cidades como Lençóis, Mucugê, Andaraí e Igatu, casarões coloniais foram erguidos com a riqueza do diamante e a região chegou a ser uma das maiores produtoras do mundo. Quando o preço do diamante despencou, as cidadezinhas ficaram suspensas no tempo, com a arquitetura do século XIX intacta. Hoje essas mesmas ruas de pedra são o ponto de partida para a aventura: Lençóis, a vila mais famosa, conserva o centro histórico tombado e vive do ecoturismo.
A graça da Chapada é que cada dia pode ser diferente: num dia você sobe o Morro do Pai Inácio para ver o pôr do sol dourado sobre as serras; no outro entra na imensa Gruta da Lapa Doce ou flutua com snorkel nas águas cristalinas da Pratinha; em outro faz a caminhada até o alto da Cachoeira da Fumaça, uma das cachoeiras mais altas do Brasil (uns 340 m); e, se tiver vários dias, encara a travessia do Vale do Pati, dormindo em casas de nativos no meio de um vale de paredões que muitos consideram o trekking mais bonito do país. O natural se mistura com o histórico, e tudo acontece no ritmo humano, com guia e mochila.
A história da Chapada Diamantina é, antes de tudo, a história do diamante. As serras que a formam são antiquíssimas (parte do Supergrupo Espinhaço, com rochas de mais de 1,7 bilhão de anos, depositadas quando um grande mar interior, o 'Mar Espinhaço', cobria a região), mas seu nome e suas cidades nasceram muito depois. Em meados do século XIX, por volta de 1844-1845, garimpeiros encontraram diamantes nos rios da Serra do Sincorá e começou uma corrida desenfreada: em poucos anos chegaram dezenas de milhares de pessoas. Assim foram fundadas Mucugê (a primeira lavra, 1844), Lençóis (1845), Andaraí e Igatu. Lençóis deve o nome às barracas brancas dos garimpeiros que, vistas do alto da serra, pareciam lençóis estendidos ao sol. Entre 1845 e 1871, a região foi uma das maiores produtoras de diamantes do mundo, e a riqueza ergueu casarões e um comércio que exportava pedras para a Europa (França, Inglaterra, Alemanha). A decadência começou por volta de 1865-1871, com a descoberta das minas da África do Sul e o esgotamento das jazidas baianas. As cidades ficaram congeladas no tempo, conservando a arquitetura do século XIX. Em Igatu, as casas, os muros e até a igreja foram construídos com blocos de pedra encaixados, muitos sem argamassa; hoje suas 'ruínas' de pedra lhe renderam o apelido de 'Machu Picchu baiana'. O centro de Lençóis foi tombado pelo IPHAN em 1973 e, em 1985, foi criado o Parque Nacional da Chapada Diamantina, o que marcou o renascimento da região como destino de ecoturismo e trekking. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The cradle of Brazil: this is where Cabral landed in 1500 and where Salvador was founded, the country's first capital for more than two centuries. The heart of Afro-Brazilian culture —candomblé, capoeira, axé— and of a coastline that runs from the Chapada Diamantina to the beaches of Porto Seguro.
Ler a história de Bahia →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes dos diamantes, antes dos garimpeiros e antes até da vida como a conhecemos, a Chapada Diamantina já existia como rocha. As serras que hoje formam a paisagem —a Serra do Sincorá, a Serra do Espinhaço, da qual a região faz parte— estão entre as formações mais antigas do Brasil. Suas rochas pertencem ao Supergrupo Espinhaço, um conjunto que começou a se formar durante o Paleoproterozoico, há cerca de 1.700 milhões de anos, num processo de fratura da crosta terrestre (riftes) que se estendeu até o Neoproterozoico.
O mais fascinante é que boa parte do que hoje são montanhas foi, há 1.700 milhões de anos, o fundo de um grande mar interior que os geólogos chamam de 'Mar Espinhaço', que cobria a região e durou uns 200 milhões de anos. Nesse mar, e depois nos rios e geleiras, foram se depositando, camada sobre camada, areias, cascalhos e sedimentos que, com o tempo e a pressão, se transformaram nos arenitos, quartzitos e conglomerados que hoje vemos nos paredões. Perto de Lençóis e Andaraí aparecem também rochas de origem química marinha, como calcários e dolomitos, que a água foi dissolvendo ao longo dos milênios: daí nascem as grandes cavernas da Chapada, como a Lapa Doce.
Mais tarde, movimentos da crosta dobraram e ergueram todas essas camadas, formando as serras e os planaltos (as 'chapadas' que dão nome à região). A erosão da água e do vento, ao longo de centenas de milhões de anos, esculpiu os cânions, os morros de topo plano como o Pai Inácio (a cerca de 1.120 m) e os cumes da Serra do Sincorá, que chegam aos 1.620 metros; no extremo sudoeste da região, já fora do parque, o Pico do Barbado alcança 2.033 metros e é o ponto mais alto da Bahia e de todo o Nordeste brasileiro. E foi essa mesma história geológica que, ao desgastar rochas antigas que continham diamantes e ouro, deixou as pedras preciosas no cascalho dos rios, à espera dos garimpeiros do século XIX.
Muito antes de a região ter nome europeu, as serras e os vales da atual Chapada Diamantina eram território de povos indígenas. O interior baiano —o sertão— era habitado por grupos que percorriam a caatinga e as serras, caçavam, coletavam e deixavam marcas de sua passagem em pinturas rupestres e abrigos de pedra que ainda hoje se encontram em cavernas e paredões da região. A toponímia conserva essa raiz: nomes como Caeté-Açú (o nome oficial do Vale do Capão, de origem tupi, 'grande mata verdadeira') ou Sincorá lembram a presença e a língua dos povos originários.
Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa, o interior da Bahia ficou à margem dos grandes centros do litoral. Era terra de passagem de bandeirantes e de criadores de gado que empurravam a fronteira para o oeste, seguindo os rios. A região era remota, de acesso difícil, sem motivos fortes para que a Coroa a povoasse: um sertão duro, de caatinga e serras, distante e pouco conhecido. Esse isolamento explica por que a verdadeira transformação só chegou em meados do século XIX, e de repente, quando se descobriu o que as rochas guardavam: o diamante.
O acontecimento que deu nome e forma à Chapada Diamantina ocorreu em meados do século XIX. Por volta de 1844-1845, garimpeiros encontraram diamantes no cascalho dos rios da Serra do Sincorá, e a notícia se espalhou como rastilho de pólvora. A primeira lavra foi em Mucugê: em 1844 um garimpeiro achou as primeiras pedras no rio Mucugê, e em poucos anos o lugar passou do nada a mais de 30.000 habitantes. Quase em seguida foram descobertas jazidas em outros rios e nasceram as demais vilas: Lençóis (fundada em 1845), Andaraí e Igatu.
A corrida foi desenfreada. Milhares de pessoas —garimpeiros, comerciantes, aventureiros— chegaram ao sertão baiano em busca de fortuna. A região se transformou num próspero entreposto comercial: comerciantes de Salvador e do Recôncavo Baiano financiavam as escavações e exportavam os diamantes para a Europa, especialmente para a França, a Inglaterra e a Alemanha. Entre 1845 e 1871, a Chapada chegou a ser uma das maiores produtoras de diamantes do mundo, e Lençóis, sua vila mais rica, foi por um tempo uma das cidades mais importantes da Bahia.
Essa riqueza se materializou em pedra e arquitetura. Em Lençóis foram erguidos casarões coloridos, casas comerciais onde as pedras eram pesadas e vendidas, praças e igrejas que até hoje formam seu centro histórico. Em Mucugê floresceu uma vila inteira ao pé da Serra do Sincorá. E em Igatu, distrito de Andaraí, os garimpeiros construíram casas, muros e até a igreja com blocos de pedra encaixados, muitos sem argamassa, erguendo um povoado que parece esculpido na própria rocha da serra. Era o auge do ciclo do diamante, uma época de fortuna rápida, trabalho duríssimo nos rios e um mundo inteiro girando em torno das pedras preciosas.
O nome Lençóis guarda uma das imagens mais poéticas de toda a história da Chapada. Conta a tradição que, nos primeiros tempos do garimpo, os milhares de mineiros que trabalhavam nos rios ao pé da serra acampavam em barracas de pano branco. Vistas do alto das serras, essas barracas brancas espalhadas pelo vale pareciam lençóis estendidos ao sol. Dessa imagem nasceu o nome da vila que se tornaria a capital do diamante.
O apogeu, porém, não durou para sempre. A decadência começou por volta de 1865-1871, por dois golpes combinados: a descoberta das grandes minas de diamantes na África do Sul, que inundaram o mercado mundial e derrubaram os preços, e o esgotamento progressivo das jazidas baianas, cada vez mais difíceis e pobres. À medida que o diamante deixava de dar fortuna, a população foi embora, o comércio se apagou e as vilas entraram num longo declínio. Igatu, que no auge teve milhares de habitantes, ficou reduzida com o tempo a poucas centenas, transformada quase numa cidade fantasma de casas de pedra abandonadas.
Paradoxalmente, foi essa decadência que preservou o patrimônio. Sem dinheiro para demolir e construir de novo, as vilas ficaram congeladas no tempo, conservando sua arquitetura do século XIX quase intacta. Lençóis manteve seu centro histórico de casarões e ruas de pedra; Mucugê, seu traçado e seu célebre Cemitério de Santa Isabel, o 'cemitério bizantino', com mausoléus brancos de arcos e pináculos construídos entre 1854 e 1886; e Igatu, suas ruínas de pedra no meio da vegetação, que hoje lhe rendem o apelido de 'Machu Picchu baiana'. O reconhecimento oficial veio depois: o centro de Lençóis foi protegido pelo IPHAN em 1973, Mucugê foi declarada patrimônio em 1980 e o conjunto de Igatu foi tombado pelo IPHAN no ano 2000.
Depois de quase um século de declínio, a Chapada Diamantina encontrou uma segunda vida, desta vez não no subsolo, mas na paisagem. O passo decisivo foi a criação, em 1985, do Parque Nacional da Chapada Diamantina, uma vasta área protegida que abrange serras, cânions, rios, cachoeiras e cavernas da Serra do Sincorá, hoje administrada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). A proteção oficial reconheceu o que os moradores já sabiam: que a verdadeira riqueza duradoura da região não eram os diamantes esgotados, mas a natureza extraordinária que os havia produzido.
A partir daí, as mesmas vilas que tinham nascido do garimpo se reinventaram como bases de ecoturismo. Lençóis, com seu centro histórico protegido desde 1973, virou a porta de entrada e o acampamento-base de viajantes que chegam para fazer trilhas, tomar banho em cachoeiras e poços, explorar cavernas e subir a mirantes. O Vale do Capão atraiu uma comunidade alternativa que acrescentou à oferta um perfil mais esotérico, saudável e artesanal. Mucugê, Andaraí e Igatu passaram de vilas do diamante a destinos histórico-culturais, onde as ruínas do garimpo são visitadas como patrimônio.
Hoje a Chapada Diamantina é um dos grandes destinos de natureza e trekking do Brasil. Travessias como a do Vale do Pati estão entre as mais bonitas do país; o Morro do Pai Inácio, a Cachoeira da Fumaça, os poços Azul e Encantado e as grutas de Iraquara são ícones reconhecidos no mundo todo. A ironia histórica é eloquente: a região que o diamante tornou famosa e depois abandonou acabou encontrando seu tesouro definitivo no que sempre esteve à vista —suas serras antiquíssimas, suas águas cor de chá e suas cachoeiras— e na memória de pedra que o garimpo deixou em suas vilas.