Chapada dos Guimarães é a resposta de Mato Grosso à pergunta sobre o que ver além do Pantanal: um planalto de arenito vermelho que se ergue de forma abrupta sobre a planície, a apenas 65 km de Cuiabá, com cânions de paredões verticais tingidos de ocre, cachoeiras que despencam no vazio — como o Véu de Noiva e seus 86 metros de queda livre — e um cerrado biodiverso onde vivem o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e centenas de espécies de aves. Boa parte dessa paisagem é protegida pelo Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, criado em 1989 em cerca de 32.600 hectares.
Além da beleza natural, a Chapada ocupa um lugar especial no imaginário brasileiro: a lenda do centro geodésico da América do Sul a transformou, desde os anos 1980, em ímã de comunidades espiritualistas, artistas e buscadores de energias. Hoje convivem na cidade restaurantes naturais, ateliês de cristais e artesanato, pousadas familiares e agências de turismo de aventura. O centro urbano preserva seu charme colonial em torno da Igreja de Nossa Senhora de Santana, erguida em 1779, e da Praça Dom Wunibaldo, coração social da cidade.
Visitar a Chapada significa abraçar a natureza de forma ativa: caminhadas por trilhas de terra vermelha, banhos em poços naturais, traslados de 4x4 e mirantes à beira do abismo. As atrações se dividem entre o Parque Nacional (Véu de Noiva, circuito de cachoeiras), os arredores da cidade (Mirante do Centro Geodésico, Portal da Chapada) e fazendas particulares como a da Caverna Aroe Jari, a maior caverna de arenito do Brasil. A infraestrutura é simples, mas funcional, com guias locais que conhecem cada canto do planalto.
Habitada pelos povos indígenas Bororo e Paresí antes da chegada dos europeus, a região foi colonizada no século XVIII durante a corrida do ouro que transformou Mato Grosso. O núcleo da cidade nasceu em 1751 como missão jesuítica de Sant'Ana da Chapada; após a expulsão dos jesuítas, a Igreja de Nossa Senhora de Santana foi reconstruída e benzida em 1779, e em 1782 o povoado adotou o nome de Guimarães. Cresceu como celeiro agrícola dos garimpos de Cuiabá e centro religioso do planalto. A história completa está na página de história.
Ler a história completa ↓The Centro-Oeste state where three great biomes meet —the Amazon, the Cerrado and the Pantanal—: land of bandeirantes and of the gold of Cuiabá, today a world agribusiness power and a paradise of the wildlife of the Northern Pantanal.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Vistos da planície escaldante de Cuiabá, os paredões vermelhos da Chapada dos Guimarães parecem a muralha de outro mundo: um planalto de arenito que se ergue centenas de metros acima do vale e que, muito antes dos mirantes e das cachoeiras famosas, foi fronteira, refúgio e território sagrado de povos indígenas. Quando os primeiros europeus subiram a serra, o planalto já tinha donos havia séculos: os Bororo e os Paresí.
Os Bororo, que chamam a si mesmos de Boe, ocupavam extensas áreas do centro-leste de Mato Grosso e desenvolveram uma das culturas mais sofisticadas do interior sul-americano, com rituais funerários complexos que duravam semanas, uma elaborada arte plumária e cestaria, e uma cosmologia que ligava o mundo dos vivos ao dos espíritos. Para os Bororo, os planaltos, cavernas e vales do interior tinham uma dimensão sagrada que ia muito além da utilidade econômica. Os Paresí, por sua vez, habitavam as áreas mais ocidentais do planalto e eram reconhecidos por suas habilidades agrícolas e comerciais, com redes de troca que alcançavam a Amazônia e o Chaco.
Quando as expedições bandeirantes começaram a penetrar o interior do Brasil em busca de ouro e de indígenas para escravizar —a de Pascoal Moreira Cabral subiu o rio Coxipó em 1718-1719—, tanto Bororo quanto Paresí resistiram à invasão. Os conflitos foram sangrentos, e o que as armas não conseguiram as epidemias fizeram: a varíola, o sarampo e a gripe trazidos pelos colonos dizimaram as populações originárias com uma velocidade devastadora. As missões religiosas tentaram concentrar os sobreviventes em aldeamentos, mas esses espaços também foram focos de contágio e de aculturação forçada. No fim do século XVIII, a presença indígena na Chapada havia sido drasticamente reduzida, embora os Bororo tenham mantido territórios importantes em outras áreas de Mato Grosso, onde vivem até hoje.
O grande impulso colonizador veio com o ouro. Em 1718-1719, a expedição de Pascoal Moreira Cabral encontrou as primeiras pepitas nas margens do rio Coxipó, e a febre do ouro que se seguiu transformou todo o Mato Grosso: a vila de Cuiabá foi fundada formalmente em 1727 e se tornou o centro administrativo da região. O planalto da Chapada, com seu clima mais fresco e suas águas abundantes, começou a ser povoado quase imediatamente: já em 1720 o paulista Antônio de Almeida Lara subiu a serra para estabelecer uma fazenda, e os campos do alto viraram o celeiro que abastecia de alimentos, cana e gado os garimpos quentes do vale.
O núcleo que deu origem à cidade atual nasceu em 1751, quando chegou a Cuiabá o primeiro governador da capitania, D. Antônio Rolim de Moura, acompanhado pelos padres jesuítas Estevão de Castro e Agostinho Lourenço. O padre Estevão fundou no planalto a missão de Sant'Ana da Chapada, uma aldeia que reuniu os indígenas dispersos da região em torno de uma capela de palha com as imagens de Santa Ana, Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier. A missão durou pouco: em 1759, a expulsão dos jesuítas de todos os domínios portugueses, ordenada pelo Marquês de Pombal, deixou a aldeia abandonada e seus habitantes dispersos.
Vinte anos depois veio o segundo ato fundador. Em 1778, o juiz José Carlos Pereira, de Cuiabá, encontrou a velha capela da missão em condições deploráveis e reuniu recursos para erguer, a meia légua do local original, uma nova igreja de taipa de pilão. A Igreja de Nossa Senhora de Santana foi benzida com toda a solenidade em 31 de julho de 1779, e naquela tarde uma procissão levou da capela jesuítica as três imagens sagradas, únicos objetos que se salvaram da antiga missão. A igreja —hoje joia do barroco rústico mato-grossense e monumento tombado— tornou-se o coração do povoado, que em 1782 deixou de se chamar Chapada de Santana e passou a se chamar Guimarães. As fazendas do entorno, dedicadas à cana, ao açúcar e ao gado, usavam mão de obra africana escravizada em escala considerável: os registros paroquiais de Santana documentam batismos e óbitos de pessoas escravizadas ao longo de todo o período colonial.
Com o esgotamento progressivo das jazidas de ouro nas primeiras décadas do século XIX, a economia da Chapada dos Guimarães entrou numa fase de retração. A pecuária, a cana e a agricultura de subsistência substituíram a mineração, e a cidade manteve sua importância como centro religioso e de abastecimento do planalto, ainda que com uma dinâmica bem mais modesta. A população, que tinha crescido rapidamente durante o boom da mineração, se estabilizou e, em alguns períodos, diminuiu.
A Guerra do Paraguai (1864-1870) atingiu em cheio o Mato Grosso. Em dezembro de 1864, as tropas paraguaias invadiram o sul da província, avançando pelo rio Paraguai e tomando vilas e fortes. Embora os invasores nunca tenham chegado ao planalto, o conflito exigiu uma mobilização maciça de homens e recursos: os registros documentam o recrutamento forçado de jovens da região, incluindo escravizados libertados com a condição de servir no exército. E o golpe mais duro veio com a paz: nos anos seguintes à guerra, uma epidemia de varíola —trazida pelas tropas que voltavam— matou cerca de um terço da população da Chapada, uma catástrofe demográfica da qual a região levou décadas para se recuperar.
O fim do século trouxe outra transformação profunda: a abolição da escravidão, em 1888, desmontou a estrutura de trabalho das fazendas e engenhos do planalto, que entraram numa longa decadência econômica. Muitos ex-escravizados e seus descendentes formaram comunidades rurais próprias no entorno da Chapada, cuja marca cultural —na música, nas festas religiosas e nos sobrenomes— segue viva no município.
Durante as primeiras décadas do século XX, a Chapada dos Guimarães foi um município isolado do Centro-Oeste brasileiro, ligado a Cuiabá por estradas de terra que ficavam intransitáveis na época das chuvas. Esse isolamento preservou, paradoxalmente, tanto seu patrimônio colonial quanto sua natureza. Marcos como a Escola Evangélica do Buriti (1923), pioneira na formação agrícola, foram modernizando aos poucos a vida rural; a mecanização do campo nos anos 1960 abriu os cerrados ao cultivo, e a expansão agropecuária dos anos 1970 impulsionou a pavimentação da rodovia Cuiabá–Chapada (a atual MT-251), que rompeu de vez o isolamento e aproximou o planalto da capital, a apenas 65 km.
O marco ambiental veio em 12 de abril de 1989, quando o Decreto Federal 97.656, assinado durante o governo de José Sarney, criou o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães: cerca de 32.630 hectares de cerrado, matas de galeria e formações de arenito esculpidas pela erosão, que protegem ícones como a cachoeira Véu de Noiva (86 metros de queda livre), o circuito das cachoeiras, a Cidade de Pedra e os mirantes da borda do planalto. A criação do parque, hoje administrado pelo ICMBio, envolveu negociações com proprietários rurais e gerou tensões com setores do agronegócio, mas lançou as bases do principal motor econômico atual do município: o turismo de natureza. No fim de 2022, a gestão da visitação do parque foi concedida à iniciativa privada, com a promessa de investimentos em trilhas, centros de visitantes e infraestrutura.
Em paralelo, nos anos 1980 e 1990 a Chapada se tornou um ímã para grupos espiritualistas, artistas e comunidades alternativas atraídos pela suposta energia do lugar e pela lenda do centro geodésico do continente. Esse fenômeno deu à cidade —emancipada de Cuiabá como município próprio em meados do século XX— um caráter eclético que contrasta com seu tamanho: hoje convivem o turismo de aventura, o ecoturismo, o turismo esotérico e a vida rural mato-grossense, e o planalto recebe todo ano mais de cem mil visitantes que chegam em busca de cachoeiras, mirantes infinitos e aquele ar de mundo à parte que sempre teve.