Cidade de Goiás, carinhosamente conhecida como Goiás Velho, é a antiga capital colonial do estado de Goiás e um dos conjuntos urbanos coloniais mais bem conservados do centro do Brasil. Fundada como Vila Boa em pleno ciclo do ouro do século XVIII, conserva ruas de pedra, casas brancas de telhados vermelhos, igrejas barrocas e um centro histórico que em 2001 foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
A cidade se acomoda às margens do rio Vermelho, ao pé da Serra Dourada, numa paisagem de cerrado que no inverno fica seca e dourada. O clima tranquilo, a rica tradição artesanal e literária — foi berço da poeta Cora Coralina — e a gastronomia goiana fazem de Goiás um destino encantador, bem diferente da agitação das grandes capitais.
Este guia percorre o essencial de Cidade de Goiás: o centro histórico e suas igrejas, a casa-museu de Cora Coralina, as famosas festas religiosas como a Procissão do Fogaréu, a cozinha goiana e como chegar a partir de Goiânia. É um passeio ideal para quem busca história, arte e a calma de uma cidade colonial parada no tempo.
Fundada por volta de 1727 como Arraial de Sant'Ana durante a corrida do ouro liderada pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (o Anhanguera), tornou-se Vila Boa e depois capital da capitania e da província de Goiás. Manteve esse posto até 1937, quando a capital foi transferida para a planejada Goiânia. Seu excepcional conjunto colonial lhe rendeu em 2001 o título de Patrimônio da Humanidade da Unesco. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The state of the Central-West and the Cerrado: land of the colonial gold of Goiás Velho, of the hot springs of Caldas Novas and of the landscapes of the Chapada dos Veadeiros, one of Brazil's great natural sanctuaries.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Conta a lenda que Bartolomeu Bueno da Silva ameaçou os indígenas Goiá de pôr fogo em um rio: pegou aguardente, ateou fogo nela diante deles e disse que faria o mesmo com as águas se não lhe revelassem onde estava o ouro. Apavorados, os Goiá lhe mostraram as lavras de ouro do rio Vermelho. Daí vem seu apelido, Anhanguera — 'diabo velho' em língua indígena —, e dessa lenda fundadora, verdadeira ou não, nasce a cidade que hoje é a Cidade de Goiás.
A história da Cidade de Goiás nasce no ritmo da corrida do ouro que sacudiu o interior do Brasil no começo do século XVIII. Depois das descobertas de ouro em Minas Gerais, as expedições de bandeirantes paulistas avançaram cada vez mais para o oeste em busca de novas jazidas. Uma dessas expedições, liderada por Bartolomeu Bueno da Silva — o mesmo Anhanguera da lenda —, chegou por volta de 1722 às terras do atual Goiás e descobriu ouro às margens do rio Vermelho.
Em torno dessas lavras surgiu, por volta de 1727, um povoado conhecido como Arraial de Sant'Ana, que rapidamente se encheu de mineradores, comerciantes, africanos escravizados e aventureiros atraídos pela riqueza. A exploração do ouro, baseada em boa parte no trabalho escravo, deu origem a uma sociedade colonial hierárquica e à construção das primeiras igrejas e casas que até hoje definem o centro histórico.
Em 1739 o arraial foi elevado à categoria de vila com o nome de Vila Boa de Goiás, tornando-se o centro administrativo da região. A prosperidade do ouro, porém, seria relativamente breve: os veios mais ricos se esgotaram ao longo do século XVIII, mas a essa altura a vila já tinha se consolidado como o coração político e urbano de Goiás.
Com a criação da capitania de Goiás em 1748, separada de São Paulo, Vila Boa passou a ser sua capital, sede do governador e da administração colonial. A essa altura o ouro já estava em declínio, e a economia da região foi se voltando para a pecuária e a agricultura de subsistência, num longo período de relativo isolamento e estagnação que, paradoxalmente, ajudou a manter intacta a arquitetura colonial da cidade.
Ao longo do século XIX, já no Brasil independente, a vila adotou o nome de Cidade de Goiás e continuou sendo a capital da província (e depois do estado) de Goiás. Foram construídos palácios de governo, como o Palácio Conde dos Arcos — residência dos governadores desde o século XVIII, hoje museu com mobiliário de época e uma coleção de peças que contam a vida administrativa da capitania —, e a cidade manteve sua vida administrativa, religiosa e cultural como centro da região.
Esse mesmo século XIX viu florescer uma das expressões artísticas mais notáveis do interior do Brasil: a arte sacra de José Joaquim da Veiga Valle (1806-1874), escultor autodidata nascido na própria Vila Boa, que esculpiu em madeira policromada dezenas de imagens religiosas para as igrejas goianas. Suas obras, de um estilo barroco tardio muito pessoal, hoje estão guardadas no Museu de Arte Sacra da Boa Morte e são consideradas um dos pontos altos da arte colonial do Centro-Oeste brasileiro, comparáveis em importância regional ao que o Aleijadinho representou para Minas Gerais.
A cidade manteve por quase dois séculos seu papel de capital, o que reforçou sua identidade histórica e seu rico patrimônio de igrejas, casarões e edifícios públicos. Essa continuidade institucional deixou uma marca profunda: a Cidade de Goiás não foi só uma vila mineradora, mas o centro do poder de toda uma vasta região do interior brasileiro, com câmara municipal, cadeia, palácio de governo e uma intensa vida religiosa organizada em torno de várias igrejas e irmandades.
O século XX trouxe a mudança mais drástica na história da cidade. Na década de 1930, no contexto das políticas de modernização e interiorização promovidas pelo governo de Getúlio Vargas e pelas autoridades estaduais, decidiu-se construir uma nova capital planejada para Goiás. O argumento era que a antiga capital, espremida entre montanhas, não tinha espaço para crescer nem boas comunicações.
Assim nasceu Goiânia, uma cidade projetada do zero, inaugurada oficialmente como nova capital do estado em 1937 (com a transferência consolidada nos anos seguintes). A Cidade de Goiás perdeu então a condição de capital que havia mantido por quase dois séculos e passou a ser conhecida popularmente como 'Goiás Velho', para se diferenciar da moderna Goiânia.
Longe de ser uma sentença de morte, a transferência da capital teve um efeito inesperado: ao ficar à margem do desenvolvimento urbano acelerado, a cidade conservou quase intacto seu conjunto colonial. Essa preservação seria, décadas depois, a base de seu reconhecimento como patrimônio. A perda do poder político se transformou, com o tempo, no ganho de um legado histórico excepcional.
O reconhecimento internacional chegou em 2001, quando a Unesco inscreveu o centro histórico da Cidade de Goiás na lista do Patrimônio Mundial. A organização valorizou o conjunto urbano colonial como um testemunho excepcional da ocupação e colonização do centro da América do Sul durante os séculos XVIII e XIX, destacando a harmonia entre a arquitetura, o traçado das ruas e a paisagem da Serra Dourada ao redor. Diferente de Ouro Preto ou de outras vilas mineradoras mais monumentais, Goiás impressiona pela escala modesta e doméstica: casas baixas, ruas estreitas e uma relação íntima com a paisagem de cerrado que a cerca.
A identidade cultural de Goiás está intimamente ligada à figura de Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), poeta e doceira nascida na cidade, no mesmo casarão à beira do rio Vermelho que hoje é museu. Cora viveu boa parte da vida fora de Goiás, dedicada a criar os filhos e a fazer doces para ganhar a vida, e só publicou seu primeiro livro, 'Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais', em 1965, quando já tinha 75 anos. Essa estreia tardia não a impediu de se tornar uma das vozes mais queridas da literatura brasileira: sua poesia, simples e profunda, retrata a vida cotidiana, as mulheres humildes, os ofícios populares e a memória dos becos de sua cidade natal. Morreu em 1985, pouco depois de receber o título de doutora honoris causa pela Universidade Federal de Goiás.
A cultura viva de Goiás também se expressa em suas tradições religiosas, entre as quais se destaca a Procissão do Fogaréu da Semana Santa. Ela acontece na madrugada da Quarta-feira Santa e encena a busca e a prisão de Cristo: dezenas de 'farricocos' — figuras encapuzadas, com túnicas vermelhas ou pretas e capuzes pontudos que escondem totalmente o rosto — percorrem as ruas do centro histórico carregando tochas acesas, enquanto as luzes elétricas da cidade são apagadas para intensificar o efeito dramático do fogo. A tradição, de raízes ibéricas e coloniais, passa de geração em geração entre famílias goianas e hoje é reconhecida como patrimônio cultural imaterial, atraindo milhares de visitantes todos os anos. Somadas à gastronomia goiana — o empadão, a galinhada, o arroz com pequi —, ao artesanato e ao clima tranquilo, essas tradições fazem da Cidade de Goiás um lugar onde o passado colonial não é só pedra, mas uma cultura ainda pulsante que se renova a cada Semana Santa.