O Pantanal é a maior planície alagável do mundo: cerca de 195.000 km² de áreas úmidas no coração da América do Sul, dos quais perto de 150.000 km² estão no Brasil (divididos entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e o restante na Bolívia e no Paraguai. Diferente da floresta amazônica, aqui a vegetação é aberta e a vida pulsa no ritmo da água: todo ano o rio Paraguai e seus afluentes transbordam e transformam a planície em um imenso espelho d'água (a cheia), para depois recuar e deixar lagoas, campos e bancos de areia (a seca). É esse pulso de inundação que faz do Pantanal o melhor lugar da América do Sul para ver fauna em liberdade.
Se a Amazônia esconde seus animais sob o dossel da floresta, o Pantanal os exibe: jacarés na beira de cada lagoa, capivaras (o maior roedor do mundo) pastando em família, bandos de tuiuiús — a cegonha gigante símbolo da região —, araras-azuis, ariranhas pescando nos rios e, a estrela absoluta, a onça-pintada, que aqui atinge a maior concentração do planeta. Por isso o Pantanal é, antes de tudo, um destino de safári fotográfico: sai-se em busca da fauna de 4x4, a cavalo, a pé e, sobretudo, de barco pelos rios.
Há duas grandes formas de vivê-lo. O Pantanal Norte (Mato Grosso) é percorrido pela Estrada Transpantaneira, uma estrada de terra com mais de cem pontes de madeira que avança de Poconé até Porto Jofre, a 'terra das onças'. O Pantanal Sul (Mato Grosso do Sul), com base em Campo Grande, Miranda e Aquidauana, gira em torno das fazendas-pousada: fazendas de gado centenárias transformadas em lodges de natureza com pensão completa, onde também se conhece a cultura do pantaneiro, o peão a cavalo destas terras. Seja qual for a porta de entrada, o Pantanal é natureza em estado puro.
O Pantanal é uma área úmida milenar habitada por povos originários há milhares de anos: os Guató — considerados 'o povo do Pantanal' por excelência, canoeiros que percorriam os rios da planície — e os Bororo no norte da bacia, entre outros, que chamavam estas terras de 'Guadakan'. O nome 'Pantanal' vem de 'pântano': foi assim que os colonizadores batizaram essa imensa planície que alaga todo ano. Após o contato com expedições espanholas e portuguesas a partir do século XVI e, sobretudo, com a expansão da pecuária entre os séculos XVIII e XX, surgiu a figura do pantaneiro: o peão a cavalo que aprendeu a criar gado no compasso da cheia e da seca, conduzindo as boiadas em longas comitivas. As grandes fazendas de gado dominaram a economia durante séculos, até que, nas últimas décadas, muitas se transformaram em fazendas-pousada de ecoturismo. Em 1981 foi criado o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e, em 2000, a UNESCO declarou o Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. Os incêndios recordes de 2020, alimentados por uma seca extrema, marcaram a região a ferro e fogo e colocaram a conservação no centro da agenda. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The young state of the Pantanal and the crystal-clear waters: split off from Mato Grosso in 1977, it brings together the largest wetland on the planet and the ecotourism paradise of Bonito, with rivers of astonishing transparency and the third largest Indigenous population in Brazil.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Todo ano, uma área maior que metade da Inglaterra desaparece debaixo d'água e volta a emergir: essa é a respiração do Pantanal, a maior planície alagável do mundo. O nome vem direto da palavra 'pântano' (brejo, terreno alagadiço). Foi assim, de um jeito simples e descritivo, que os colonizadores portugueses batizaram essa imensa planície do interior da América do Sul, que todo ano se inunda e vira um gigantesco espelho d'água. Não é um nome poético nem indígena: é a palavra do dia a dia para 'terra que encharca', aplicada a uma das regiões naturais mais extraordinárias do planeta.
Mas os povos originários que viviam nessas terras muito antes da chegada dos europeus tinham seus próprios nomes. Os Guató, considerados 'o povo do Pantanal' por excelência, chamavam a região de 'Guadakan'. Outras línguas da área tinham suas próprias denominações. Para esses povos, a área úmida não era um 'pântano' a ser domado, mas um território de vida regido pela água, onde se navegava de canoa, se pescava e se caçava no ritmo das cheias.
O Pantanal é a maior planície alagável (ou área úmida contínua) do mundo: estima-se que tenha uns 195.000 km² de extensão, dos quais cerca de 150.000 km² ficam no Brasil —divididos entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, na Região Centro-Oeste— e o restante se estende pela Bolívia e pelo Paraguai. Toda essa imensidão faz parte da Bacia do Alto Paraguai, no coração geográfico da América do Sul.
O que torna o Pantanal único não é só o tamanho, mas o papel de encruzilhada de biomas: é um ponto de encontro e transição entre a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Chaco / Bosque Seco Chiquitano. Essa posição de cruzamento, somada ao pulso anual de inundação, explica sua biodiversidade impressionante e por que ele se tornou um dos grandes santuários de fauna do mundo.
Do ponto de vista geológico e geomorfológico, o Pantanal é definido como uma 'grande e relativamente complexa planície de coalescência detrítico-aluvial': ou seja, uma imensa planície formada pelo acúmulo, ao longo de milhões de anos, de sedimentos trazidos pelos rios desde as terras altas ao redor (os planaltos do Cerrado). Esses sedimentos se depositaram numa grande depressão tectônica, criando uma superfície extraordinariamente plana, com pouquíssima declividade, onde a água se move devagar.
Essa planura extrema é a chave de tudo. Como o terreno é quase horizontal, quando as chuvas chegam a água não escoa rápido para o mar: ela se espalha, se acumula e fica. O rio Paraguai e seus muitos afluentes (Cuiabá, Miranda, Taquari, São Lourenço e outros) recebem mais água do que seus leitos conseguem conter, transbordam e alagam a planície. Assim nasce a característica que define o Pantanal: o pulso de inundação, um ciclo anual entre duas estações bem marcadas.
A estação da cheia (águas altas) começa com as primeiras chuvas, por volta de novembro, e vai até março. Nesses meses a água avança do norte para o sul com a lentidão típica da planície, transformando campos em lagoas e convertendo boa parte do Pantanal num imenso mar interior pontilhado de 'cordilheiras' (ilhotas de terra mais alta onde os animais e o gado se abrigam). A paisagem fica verde, exuberante e, em grande parte, navegável.
Depois, lá por abril, começa a estação da seca (águas baixas), que se estende até outubro. A água recua aos poucos e deixa à mostra pastagens, bancos de areia e lagoas que vão encolhendo (as 'baías' e 'salinas'). É quando a fauna se concentra em volta dos corpos d'água que restam, e por isso a seca é a melhor época para avistamentos. Esse vaivém eterno entre inundação e seca é o motor ecológico do Pantanal: o que parece um obstáculo —tudo alagar e depois secar— é justamente o que sustenta sua riqueza de vida.
O Pantanal é habitado por seres humanos há milhares de anos: há registros de ocupação de cerca de 8.000 anos atrás, com povos indígenas que formaram ao longo do tempo um verdadeiro mosaico cultural às margens dos grandes rios. Quando chegaram as primeiras expedições europeias, no século XVI, a planície era uma trama complexa de muitos povos, com comunidades estabelecidas ao longo dos rios, registradas pelos cronistas espanhóis a partir de 1540.
Entre todos esses povos, os Guató são os mais emblemáticos: são considerados 'o povo do Pantanal' por excelência. Eram canoeiros, perfeitamente adaptados à vida anfíbia da planície alagável, e ocupavam praticamente toda a região sudoeste do atual Mato Grosso, estendendo-se rumo a Mato Grosso do Sul e à Bolívia. A vida deles girava em torno da água: pescavam, caçavam e se deslocavam de canoa pelo labirinto de rios e lagoas. No norte da bacia viviam os Bororo, com presença registrada há pelo menos sete mil anos, e em outras áreas povos como os Terena, os Kadiwéu e outros.
A colonização europeia, primeiro por meio de expedições e depois com o avanço da fronteira portuguesa, foi transformando lentamente a região. O grande golpe para os povos originários, porém, veio muito depois: com a expansão da pecuária. Entre as décadas de 1940 e 1950 se intensificou a expulsão dos Guató de seus territórios tradicionais, quando o gado dos fazendeiros invadia suas roças e os comerciantes de peles dificultavam sua permanência em lugares como a Ilha Ínsua. Durante décadas chegou-se a acreditar que os Guató estavam extintos, até que a comunidade conseguiu se reorganizar e reivindicar sua identidade e seu território.
Essa história —a de uma área úmida habitada por povos canoeiros desde tempos remotos, depois expulsos pelo avanço da pecuária— é fundamental para entender o Pantanal. A paisagem 'natural' que o turista admira hoje é também um território humano milenar, com culturas que aprenderam, muito antes de qualquer um, a viver no ritmo da água.
Com a expansão da pecuária entre os séculos XVIII e XX, o Pantanal foi se enchendo de grandes fazendas de criação de gado, e dessa cultura do campo nasceu uma figura central da identidade regional: o pantaneiro. O pantaneiro é o peão a cavalo da planície, um personagem que aprendeu a criar gado em um dos ambientes mais difíceis do mundo, onde todo ano metade do território alaga e a outra metade seca.
A vida do pantaneiro é marcada por esse pulso da água. Durante a cheia, quando os campos alagam, o gado precisa ser levado para as 'cordilheiras' e áreas altas para não se afogar; durante a seca, é conduzido para os pastos que voltam a verdejar. Esse manejo exige um conhecimento profundo do terreno, uma relação íntima com o cavalo e uma capacidade de adaptação passada de geração em geração. O cavalo pantaneiro, uma raça adaptada a se mover na água e na lama, é o companheiro inseparável desse trabalho.
Uma das imagens mais características dessa cultura é a comitiva: as longas travessias em que os peões conduziam o gado, a pé e a cavalo, por centenas de quilômetros de planície, dormindo ao relento, cozinhando no campo e atravessando rios com a boiada. Essas comitivas, hoje em boa parte substituídas pelo transporte em caminhão, deixaram uma marca enorme na música, nas histórias e no imaginário do Pantanal e de todo o Centro-Oeste brasileiro.
Durante séculos, a pecuária extensiva foi a base econômica do Pantanal e, paradoxalmente, uma das razões de sua conservação: por ser uma atividade de baixa intensidade, que aproveitava as pastagens naturais sem precisar desmatar em grande escala, conviveu por muito tempo com a fauna silvestre sem destruir o ecossistema. O pantaneiro, longe de ser um mero explorador da paisagem, virou parte dela: um guardião prático de um equilíbrio frágil, cuja cultura é hoje um dos atrativos do turismo nas fazendas.
Nas últimas décadas do século XX, o Pantanal passou por uma transformação que mudaria sua relação com o mundo: o surgimento do turismo de natureza. O que durante séculos tinha sido uma região remota, conhecida sobretudo pela pecuária e pela pesca, começou a ser valorizado por algo novo: ser o melhor lugar da América do Sul para ver fauna em liberdade. A vegetação aberta e a concentração de animais perto da água —tão diferente da floresta amazônica, que esconde seus bichos— transformaram o Pantanal num destino dos sonhos para o safári fotográfico e a observação de aves.
A construção da Estrada Transpantaneira, iniciada nos anos 70, foi um marco nessa história. O projeto original era ambicioso: uma rodovia que cruzasse todo o Pantanal, com quase 400 km de extensão, para integrar a região à economia agrícola do país. Mas o plano fracassou diante da força da área úmida: a obra parou em Porto Jofre, às margens do rio Cuiabá, deixando uma estrada de terra de uns 145 km com mais de cem pontes de madeira. O que seria uma rodovia produtiva acabou virando, sem querer, uma das melhores rotas de observação de fauna do planeta.
Muitas fazendas de gado, sobretudo no Pantanal Sul (Miranda, Aquidauana, Corumbá), encontraram no turismo uma nova vocação. Várias fazendas centenárias se reinventaram como fazendas-pousada: lodges de ecoturismo que oferecem hospedagem com pensão completa e um cardápio de atividades —safáris de 4x4, passeios de barco, cavalgadas, focagem noturna e observação de aves— guiadas por gente da região que conhece cada lagoa. Essa reconversão permitiu a muitas famílias pantaneiras diversificar a renda e, ao mesmo tempo, deu ao ecossistema um valor econômico vivo: uma onça vale mais viva, atraindo turistas, do que morta.
O caso de Porto Jofre é o exemplo mais claro. De ponto final de uma estrada frustrada, passou a ser a 'capital mundial' da observação de onça-pintada, onde safáris de barco pelo rio Cuiabá oferecem uma das experiências de fauna mais garantidas do mundo. O turismo de observação de onças gera receitas milionárias para as comunidades locais e se tornou um argumento poderoso a favor da conservação, mostrando que proteger o Pantanal e sua fauna também é um bom negócio.
O valor excepcional do Pantanal foi reconhecido oficialmente com a criação de áreas protegidas e títulos internacionais. Em 1981 foi criado o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, que abrange cerca de 135.000 hectares no extremo sudoeste de Mato Grosso, na confluência dos rios Cuiabá e Paraguai, uma das áreas mais preservadas do bioma. É um parque remoto, sem acesso por estrada, onde só se chega por via fluvial ou aérea.
Em 2000, a UNESCO deu ao Pantanal seu maior reconhecimento internacional: declarou o 'Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal' —que inclui o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) Acurizal, Penha e Dorochê— Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. Com isso, o Pantanal entrou para o seleto grupo de lugares cujo valor natural é considerado patrimônio de toda a humanidade. Sua biodiversidade justifica o título: estima-se em torno de 4.700 espécies catalogadas, com centenas de aves, dezenas de mamíferos, répteis, anfíbios e peixes, numa das concentrações de vida selvagem mais espetaculares do planeta.
Mas o Pantanal também enfrenta ameaças sérias, e nenhuma o marcou tanto nos últimos tempos quanto os incêndios de 2020. Naquele ano, alimentados por uma seca extrema de vários anos, os incêndios atingiram uma dimensão recorde: queimaram enormes extensões do bioma. Um estudo científico estimou que o fogo de 2020 matou diretamente cerca de 17 milhões de vertebrados, um número que dá a medida do desastre ecológico. As imagens de onças, ariranhas e outros animais feridos ou resgatados rodaram o mundo e colocaram o Pantanal no centro da conversa ambiental global.
Os incêndios de 2020 escancararam os grandes desafios do Pantanal: o avanço do desmatamento e da agricultura nas terras altas ao redor da bacia (que alteram o ciclo da água), a construção de barragens e hidrelétricas, a contaminação por agrotóxicos, as mudanças climáticas e as secas cada vez mais intensas, e a pressão sobre os recursos. A conservação da área úmida depende de equilibrar a atividade humana —pecuária, pesca, turismo— com a proteção de um ecossistema tão vasto quanto frágil. O turismo de natureza responsável, que dá valor econômico à fauna viva, e o trabalho de organizações de conservação são hoje parte central da aposta para manter vivo o maior pantanal do mundo.