Belo Horizonte, BH para os íntimos, é a capital de Minas Gerais e uma das grandes metrópoles do Sudeste brasileiro. Ao contrário das cidades coloniais ao redor, BH nasceu de uma planta: foi projetada do zero no fim do século XIX para substituir Ouro Preto como capital do estado e foi inaugurada em 1897, com avenidas largas, quarteirões em xadrez e diagonais inspiradas em Paris e Washington. Essa condição de cidade planejada ainda aparece quando você caminha pela Avenida Afonso Pena ou chega à Praça da Liberdade.
Mas o que coloca BH no mapa do viajante não é só o urbanismo: é o Conjunto Moderno da Pampulha, declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2016. Ali, ao redor de uma lagoa artificial, o jovem Oscar Niemeyer reinventou a arquitetura brasileira nos anos 40 com curvas de concreto armado que pareciam impossíveis: a Igreja São Francisco de Assis, o Museu de Arte da Pampulha (o antigo cassino), a Casa do Baile e o Iate Clube. Foi aqui, e não em Brasília, que Niemeyer e Juscelino Kubitschek começaram a sonhar o Brasil moderno.
E depois tem o outro lado de BH, o mais saboroso: é a autoproclamada capital dos botecos, reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia. Aqui a comida mineira (feijão tropeiro, frango com quiabo, queijos artesanais, pão de queijo, cachaça) se vive no Mercado Central, nos bares da Savassi e de Santa Tereza e no festival Comida di Buteco, que todo outono toma conta da cidade. Some a isso parques enormes aos pés da Serra do Curral e passeios de primeira (Inhotim, Ouro Preto) e você tem um destino que rende muito mais do que a fama sugere.
Belo Horizonte foi a primeira cidade planejada do Brasil: nasceu em 1897 sobre o antigo arraial de Curral del Rei para substituir Ouro Preto como capital de Minas Gerais e, meio século depois, virou berço da arquitetura moderna brasileira graças à Pampulha de Niemeyer e Kubitschek. Contamos toda essa história (do fazendeiro João Leite à metrópole atual) na página de história de Belo Horizonte.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Belo Horizonte nasceu duas vezes: primeiro no papel, quando uma comissão de engenheiros a desenhou inteira — avenidas, diagonais, praças — antes que existisse um único prédio; e depois no barro das obras, quando em apenas quatro anos se ergueu uma capital completa sobre um povoado colonial que foi apagado do mapa. Mas muito antes de existir a cidade planejada, já havia vida no vale ao pé da Serra do Curral. No século XVIII, durante o ciclo do ouro de Minas Gerais, formou-se ali um pequeno povoado ligado à passagem de tropas e ao abastecimento das zonas mineradoras. O lugar ficou conhecido como 'Curral del Rei' (Curral d'El-Rei), nome que fazia referência aos currais de gado da região e à presença da Coroa ('el-rei') nessas terras. A tradição liga as origens do povoamento a um fazendeiro pioneiro, João Leite da Silva Ortiz, que se estabeleceu na região e impulsionou a ocupação do vale.
Diferente das vilas mineradoras do ouro, espremidas entre montanhas, Curral del Rei ocupava um terreno mais aberto e suave, com clima bom, água abundante e um horizonte amplo recortado pela silhueta da Serra do Curral. Por mais de um século foi um arraial tranquilo, agrícola e pecuário, sem o esplendor barroco de Ouro Preto nem sua densa história colonial, mas com uma geografia que, com o passar do tempo, acabaria sendo decisiva.
Essa amplitude do terreno e o clima agradável seriam justamente os argumentos que, no fim do século XIX, fariam os planejadores republicanos voltarem os olhos para este canto de Minas. Onde antes pastava o gado do rei se ergueria, em poucos anos, a primeira grande cidade projetada do Brasil. O velho arraial de Curral del Rei desapareceria quase por completo sob o traçado da nova capital, deixando apenas a lembrança no nome da serra que continua vigiando o horizonte da cidade.
O nascimento de Belo Horizonte é filho direto da República. Depois da proclamação de 1889, o novo Brasil republicano queria romper com os símbolos do Império e modernizar o país. Em Minas Gerais, os dirigentes consideravam que Ouro Preto, a velha capital do ciclo do ouro, já não servia para esse projeto: espremida entre montanhas, com ruas estreitas e íngremes, sem espaço para crescer, representava o passado colonial que se queria deixar para trás. A ideia de mudar a capital para um lugar mais amplo e moderno vinha sendo discutida desde os tempos do Império, mas foi a República que a tornou realidade.
Depois de avaliar várias localidades, escolheu-se o arraial de Curral del Rei pelo clima, pela topografia suave e pela disponibilidade de terra e água. A construção ficou a cargo de uma comissão técnica chefiada pelo engenheiro Aarão Reis, que desenhou um plano urbano completamente novo. Reis se inspirou nos modelos urbanísticos mais modernos da época: a Paris remodelada por Haussmann e, sobretudo, cidades planejadas como Washington D.C. e La Plata, na Argentina. O resultado foi um traçado racional e geométrico, pensado do zero para uma capital do século XX.
O plano organizava a cidade sobre uma malha ortogonal cortada por amplas avenidas diagonais, com a grande Avenida Afonso Pena como eixo e espaços reservados para os prédios do governo ao redor da futura Praça da Liberdade. Tudo ficava contido dentro de uma avenida perimetral, a Avenida do Contorno, que marcava o limite da cidade planejada. Era uma aposta ambiciosa: erguer em poucos anos, sobre um campo quase vazio, uma metrópole ordenada e moderna que encarnasse o espírito de progresso da nova era.
As obras avançaram num ritmo vertiginoso. Em apenas quatro anos, sobre o terreno do velho arraial, milhares de trabalhadores ergueram avenidas, praças, prédios públicos, redes de água e esgoto e as primeiras moradias da nova capital. Em 12 de dezembro de 1897, Belo Horizonte foi oficialmente inaugurada como capital do estado de Minas Gerais, substituindo Ouro Preto. Durante um tempo ela também foi chamada de 'Cidade de Minas', até que se consolidou o nome Belo Horizonte, que evoca a vista da Serra do Curral emoldurando a cidade.
Foi a primeira cidade planejada do Brasil, um marco na história do urbanismo do país. Pela primeira vez uma capital brasileira não crescia de forma espontânea a partir de um povoado colonial, mas era traçada inteira no papel antes de existir. Essa condição pioneira a transformou num laboratório do urbanismo moderno e num antecedente direto de um empreendimento ainda mais ambicioso que viria meio século depois: a construção de Brasília, a capital do país, também projetada do zero.
Os primeiros anos não foram fáceis. A cidade planejada para um futuro de progresso demorou a se povoar e a preencher o ambicioso traçado de Aarão Reis; muitos dos trabalhadores que a construíram, aliás, se instalaram fora do perímetro da Avenida do Contorno, em bairros não previstos pelo plano. Mas, ao longo do século XX, impulsionada pela industrialização, pela mineração de ferro da região e pelo papel de capital, Belo Horizonte cresceu até extrapolar de longe seus limites originais e se tornar uma das grandes metrópoles do Sudeste brasileiro, sem perder de todo a marca daquele plano fundador que ainda se reconhece ao caminhar pela Avenida Afonso Pena ou ao chegar à Praça da Liberdade.
Se a fundação de 1897 colocou Belo Horizonte no mapa do urbanismo, foi meio século depois que a cidade escreveu seu capítulo mais célebre na história da arte e da arquitetura. No começo da década de 1940, o então prefeito da cidade, Juscelino Kubitschek — o futuro presidente que anos depois construiria Brasília —, impulsionou a criação de um novo bairro de lazer em torno de uma lagoa artificial recém-represada ao norte da cidade: a Pampulha.
Para conceber os prédios desse conjunto, Kubitschek chamou um arquiteto jovem e ainda pouco conhecido: Oscar Niemeyer. Foi ali, na Pampulha, que Niemeyer deu asas pela primeira vez à sua linguagem própria, feita de curvas livres e ousadas em concreto armado, rompendo com a rigidez da arquitetura moderna ortodoxa. As obras, iniciadas em 1941 e em boa parte inauguradas em 1943, incluíram um cassino (hoje Museu de Arte da Pampulha), um salão de baile (a Casa do Baile), um clube náutico (Iate Clube) e, sobretudo, a Igreja São Francisco de Assis, com suas inconfundíveis abóbadas parabólicas. O conjunto foi uma obra coletiva: os jardins levam a assinatura do paisagista Roberto Burle Marx e os murais e azulejos, a do pintor Cândido Portinari.
A modernidade da igreja foi tão radical que a Igreja Católica se recusou durante anos a consagrá-la, por considerá-la inadequada para um templo; ela só foi benzida oficialmente em 1959. Para além dessa polêmica, a Pampulha marcou um antes e um depois: foi o laboratório onde Niemeyer e Kubitschek testaram as ideias e as formas que, anos mais tarde, levariam à construção de Brasília. De certa forma, o Brasil moderno começou a ser sonhado aqui, às margens de uma lagoa de Belo Horizonte.
Com o passar das décadas, o valor do conjunto da Pampulha foi crescendo aos olhos do mundo. O que nos anos 40 tinha sido um experimento ousado — e até um escândalo para a Igreja — passou a ser reconhecido como uma das obras fundadoras do modernismo arquitetônico do século XX, não só no Brasil, mas em escala mundial. O conjunto foi tombado pelo IPHAN, o órgão de patrimônio brasileiro, e restaurado, em reconhecimento à sua importância histórica e artística.
A consagração internacional veio em 17 de julho de 2016, quando a Unesco inscreveu o 'Conjunto Moderno da Pampulha' na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade, na categoria de paisagem cultural. A distinção valoriza a integração pioneira entre arquitetura, artes plásticas, paisagismo e ambiente natural em torno da lagoa: a união do gênio de Niemeyer, dos jardins de Burle Marx e dos murais de Portinari como uma obra de arte total que sintetiza o espírito do movimento moderno brasileiro.
Hoje, a Pampulha é o grande motivo arquitetônico para visitar Belo Horizonte e um dos poucos lugares do país onde dá para percorrer, a céu aberto, o momento exato em que nasceu a arquitetura moderna brasileira. A cidade que tinha começado sua história como a primeira metrópole planejada do Brasil somava assim um segundo marco mundial: o de ter sido berço de uma linguagem arquitetônica que, da lagoa da Pampulha, se projetaria para Brasília e para o resto do planeta. Capital planejada e berço do modernismo, Belo Horizonte guarda em seu traçado e em suas curvas de concreto dois capítulos decisivos da história urbana do Brasil.