Brasília não se parece com nenhuma outra capital do Brasil, nem com quase nenhuma outra cidade do mundo. Erguida do nada em apenas quatro anos, em pleno Cerrado do planalto central, é uma cidade inteiramente planejada: um experimento de modernismo tropical transformado em capital nacional. Onde antes havia mato e terra vermelha, hoje há um Eixo Monumental ladeado por ministérios, palácios de governo de linhas brancas e curvas, uma catedral em forma de coroa de espinhos e um lago artificial enorme. Para o viajante, é um destino diferente: aqui não se vem pela praia nem pela floresta, mas para ler em pedra e concreto a utopia de um país que quis se reinventar.
A cidade é, antes de tudo, a obra-prima de dois homens: o urbanista Lúcio Costa, que desenhou o Plano Piloto com sua célebre forma de avião, e o arquiteto Oscar Niemeyer, que projetou as dezenas de prédios públicos que dão a Brasília sua identidade inconfundível. As curvas sensuais do Palácio da Alvorada, as cúpulas opostas do Congresso Nacional, os arcos do Itamaraty refletidos na água: cada construção é uma peça de uma mesma linguagem. Por isso a UNESCO a declarou Patrimônio da Humanidade em 1987, o primeiro conjunto urbano do século XX a receber esse reconhecimento.
Mas Brasília também é uma cidade para ser vivida de dia. Além dos monumentos, há parques imensos como o Parque da Cidade Sarah Kubitschek, a orla do Lago Paranoá com seus pontões e pores do sol, uma cena gastronômica que mistura sabores de todo o Brasil (porque ela foi erguida por trabalhadores de todo o país, os candangos) e uma vida cultural surpreendente. É um destino para curiosos por arquitetura, história e desenho urbano, que se descobre melhor com calma, sabendo que as distâncias são grandes e que vale a pena se deslocar de carro, táxi ou aplicativo entre um ponto e outro.
A ideia de transferir a capital do Brasil para o interior é antiga: já aparecia entre os inconfidentes mineiros do século XVIII, com Tiradentes entre seus defensores, e antes até em projetos da coroa portuguesa para uma 'Nova Lisboa'. A Constituição republicana de 1891 foi mais concreta: determinou a demarcação, no planalto central, de uma área de cerca de 14.400 km² para a futura capital federal. Para cumpri-la, o governo enviou em 1892-1894 a Comissão Exploradora do Planalto Central, chefiada pelo astrônomo belga Luiz Cruls, a célebre Missão Cruls, que estudou o clima, a geologia e a água daquele quadrilátero, que passou a figurar nos mapas como 'Distrito Federal'. A ideia ficou adormecida por décadas até que o presidente Juscelino Kubitschek, eleito em 1955 com o lema '50 anos em 5', a transformou em sua grande bandeira. Foi aberto um concurso para o plano urbanístico, vencido pelo projeto de Lúcio Costa, que imaginou a cidade em forma de avião (ou de cruz), enquanto Oscar Niemeyer cuidava da arquitetura dos prédios. A construção começou em 1956 e atraiu dezenas de milhares de trabalhadores de todo o país, sobretudo do Nordeste, os candangos, que ergueram a cidade trabalhando dia e noite e lhe deram sua alma popular. Brasília foi inaugurada, ainda incompleta, à meia-noite de 21 de abril de 1960, e a partir daí começou a transferência dos órgãos federais do Rio de Janeiro. Em 1987 a UNESCO a declarou Patrimônio Cultural da Humanidade, reconhecendo seu valor como a maior expressão construída do urbanismo e da arquitetura modernistas. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The territory that holds Brasília, Brazil's modernist capital: a city designed from scratch by Lúcio Costa and Oscar Niemeyer on the Cerrado plateau, built in barely four years and inaugurated in 1960, today a World Heritage Site.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Brasília foi construída em apenas quatro anos, mas foi sonhada por quase dois séculos. Quando os tratores começaram a revirar a terra vermelha do Cerrado em 1956, não estavam inaugurando uma ideia nova: estavam cumprindo uma promessa que o Brasil vinha fazendo a si mesmo desde a época colonial. A ideia de transferir a capital do litoral para o interior tem raízes no século XVIII. Já naquela época, algumas mentes ilustradas defendiam que uma capital terra adentro estaria mais protegida de ataques marítimos e ajudaria a integrar e povoar o vasto interior do país. Entre os defensores dessa ideia estavam os inconfidentes mineiros, o movimento de independência de Minas Gerais cuja figura mais célebre foi Tiradentes; eles chegavam a imaginar a transferência da sede do poder para uma cidade do interior, como São João del-Rei. A noção de uma 'Nova Lisboa' ou de uma capital no centro do território já circulava em projetos ligados à coroa portuguesa.
Com a independência e, sobretudo, com a proclamação da República em 1889, a ideia ganhou força legal. O estadista José Bonifácio já havia sugerido, tempos antes, o nome 'Brasília' para essa futura capital no interior. A grande novidade veio com a primeira Constituição republicana, em 1891, que deu à utopia um marco concreto e um lugar no mapa.
Durante mais de um século, porém, o projeto foi basicamente isso: um sonho recorrente, uma promessa que aparecia em discursos e leis, mas que nenhum governo conseguia tirar do papel. Seria preciso esperar até meados do século XX, e a vontade de um presidente determinado, para que a velha ideia finalmente virasse cidade.
A Constituição de 1891, a primeira da República, foi a que deu o passo decisivo. Seu artigo terceiro determinou que fosse reservada no planalto central do país uma área de cerca de 14.400 km² destinada à futura capital federal. Pela primeira vez, a transferência da capital deixava de ser uma aspiração vaga para se tornar um mandato constitucional, com uma área e uma região definidas.
Para cumprir esse mandato era preciso saber, antes de tudo, como era de fato aquele território do interior, quase desconhecido para o poder central. Por isso o governo organizou, em 1892, a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, uma expedição científica multidisciplinar chefiada pelo astrônomo belga Luiz Cruls, diretor do Observatório Nacional. Ela entrou para a história como Missão Cruls.
Entre 1892 e 1894, a comissão percorreu e estudou a região com rigor científico: levantou dados sobre clima, geologia, flora, fauna, recursos hídricos e condições para assentar uma grande cidade, e demarcou no terreno aquele quadrilátero de 14.400 km². A equipe trabalhou a partir de bases como Pirenópolis, em Goiás. O resultado da expedição, conhecido como 'Quadrilátero Cruls', foi registrado nos mapas oficiais com a designação de 'Distrito Federal', fixando a área onde, mais de meio século depois, seria erguida Brasília.
Foi um trabalho pioneiro e visionário, mas a ideia voltou a ficar em suspenso. Passariam décadas de projetos engavetados, comissões e novos estudos antes que o plano fosse retomado com determinação.
Quem transformou a velha utopia em realidade foi Juscelino Kubitschek, o JK, presidente do Brasil a partir de 1956. Durante a campanha, ele havia prometido ao país 'cinquenta anos de progresso em cinco' e fez da construção da nova capital a grande bandeira do seu Plano de Metas, uma obra que deveria simbolizar a modernização e a integração do território brasileiro. Decidido a inaugurá-la dentro do seu mandato, imprimiu ao projeto uma velocidade inédita.
Para definir como seria a cidade, o governo lançou em 1956-1957 um concurso nacional para escolher o plano urbanístico. O projeto vencedor foi o do urbanista carioca Lúcio Costa, uma proposta de simplicidade e força conceitual impressionantes. Costa imaginou a cidade a partir de dois eixos que se cruzam: um eixo monumental, reto, destinado aos edifícios públicos e administrativos, e um eixo residencial, curvo, com as moradias organizadas em 'superquadras'. Vista de cima, essa traçado lembra um avião ou uma grande cruz, uma imagem que ficou famosa no mundo inteiro.
O Plano Piloto trouxe ideias urbanísticas radicais para a época: separação de funções (zonas para governo, moradia, comércio, lazer), grandes espaços abertos e verdes, prioridade para o automóvel com vias expressas sem cruzamentos em nível e um sistema de quadras residenciais pensado para uma vida comunitária moderna. Era, em essência, a tradução para o solo brasileiro dos princípios do urbanismo modernista.
A escolha do projeto de Costa definiu o esqueleto da cidade. Faltava agora vestir esse esqueleto com edifícios à altura do sonho, e para isso JK já tinha seu arquiteto de confiança.
Se Lúcio Costa desenhou o plano da cidade, foi Oscar Niemeyer quem lhe deu um rosto. JK já o conhecia e admirava desde os tempos em que foi prefeito de Belo Horizonte, onde o arquiteto havia assinado o célebre conjunto da Pampulha. Em Brasília, Niemeyer ficou responsável pelo projeto dos principais edifícios públicos e desenhou dezenas de obras monumentais que definiram de uma vez por todas a identidade visual da capital.
A linguagem de Niemeyer rompeu com a rigidez das linhas retas do modernismo mais ortodoxo. Ele fez do concreto armado um material quase líquido, capaz de se curvar em formas livres e sensuais que, em suas próprias palavras, se inspiravam nas montanhas do Rio, nas ondas do mar e nas curvas do corpo feminino e da natureza brasileira. O resultado foram edifícios que parecem flutuar, colunas finíssimas que mal tocam o chão e volumes de uma elegância inconfundível.
De suas mãos saíram as obras mais emblemáticas da cidade: o Palácio da Alvorada (residência presidencial), o Palácio do Planalto (sede do Executivo), o Congresso Nacional com suas duas cúpulas opostas e suas torres gêmeas, o Supremo Tribunal Federal, o Palácio do Itamaraty com seus arcos sobre a água, a Catedral em forma de coroa, o Teatro Nacional e, anos depois, o Memorial JK. Mais de duas dezenas de edifícios governamentais levam sua assinatura.
Essa parceria entre o urbanismo de Costa e a arquitetura de Niemeyer fez de Brasília o maior conjunto construído do movimento moderno no mundo, uma cidade pensada como obra de arte total. Niemeyer, militante comunista e figura central da cultura brasileira do século XX, continuou criando até sua morte, em 2012, aos 104 anos.
Erguer uma cidade inteira no meio do Cerrado, longe de tudo e em apenas quatro anos, foi uma empreitada colossal. As obras começaram em 1956, numa região sem estradas asfaltadas, sem água encanada nem energia em larga escala, onde tudo, do cimento aos alimentos, precisava ser transportado de muito longe. A primeira residência oficial de JK foi o Catetinho, uma modesta casa de madeira levantada em apenas dez dias, de onde o presidente acompanhava de perto o avanço dos trabalhos.
O grande motor humano da construção foram os operários que chegaram de todos os cantos do país atraídos pela promessa de trabalho. Vieram às dezenas de milhares, principalmente do Nordeste, uma das regiões mais castigadas pela pobreza e pela seca. Esses trabalhadores ficaram conhecidos como candangos. Eles ergueram a cidade em jornadas exaustivas, muitas vezes dia e noite sem pausa, para cumprir o cronograma impossível exigido por JK.
Os candangos viviam em acampamentos e núcleos provisórios ao redor da obra, em condições muito duras. Desses assentamentos surgiriam depois várias das cidades-satélites que hoje cercam o Plano Piloto, como o Núcleo Bandeirante e Taguatinga. A diversidade de origens desses trabalhadores, vindos de todas as regiões do Brasil, deixou uma marca profunda na cultura, nos costumes e, muito especialmente, na gastronomia da futura capital.
O ritmo de trabalho teve uma intensidade lendária. Em questão de meses foram erguidos os palácios, os ministérios, as superquadras e a infraestrutura básica de uma metrópole. A epopeia dos candangos é uma parte essencial, e muitas vezes pouco lembrada, da história de Brasília: a cidade da utopia modernista foi, na prática, obra das mãos de milhares de trabalhadores humildes de todo o país.
Ainda incompleta em muitos aspectos, Brasília foi inaugurada à meia-noite de 21 de abril de 1960, numa grande cerimônia que incluiu uma missa solene. A data não foi por acaso: 21 de abril é também o dia de Tiradentes, o herói inconfidente que dois séculos antes havia sonhado com uma capital no interior, uma piscadela histórica que fechava um ciclo de longo prazo. A partir desse momento começou a transferência gradual dos principais órgãos da administração federal do Rio de Janeiro, a antiga capital, para a nova.
A mudança não aconteceu sem resistência. Muitos funcionários e políticos relutavam em trocar a vida no Rio por uma cidade nova, isolada e ainda em obras no meio do planalto. A transferência dos poderes e da burocracia levou anos para se consolidar, mas a decisão já era irreversível: o coração político do Brasil havia se deslocado definitivamente para o centro do país.
Com o passar das décadas, Brasília não só se firmou como capital, como também seu valor como obra urbanística e arquitetônica foi ganhando reconhecimento mundial. O marco veio em 1987, quando a UNESCO a declarou Patrimônio Cultural da Humanidade. Foi o primeiro conjunto urbano do século XX, e o primeiro bem cultural contemporâneo, a entrar nessa lista, colocando-se no mesmo patamar de importância de lugares como as pirâmides do Egito ou o centro histórico de Roma.
O reconhecimento da UNESCO consagrou sobretudo o conjunto do Plano Piloto: a genialidade do projeto urbanístico de Lúcio Costa e o extraordinário patrimônio arquitetônico de Oscar Niemeyer, entendidos como uma unidade indivisível. Brasília ficou assim para a história como a expressão construída mais ambiciosa do urbanismo e da arquitetura modernos: uma cidade nascida de uma ideia, erguida do nada e transformada em monumento vivo de toda uma época.