Ouro Preto é o cartão-postal do Brasil colonial: um mar de telhados de telha, campanários barrocos e igrejas douradas subindo e descendo as encostas íngremes da Serra do Espinhaço. Fundada como Vila Rica no fim do século XVII, foi durante um século o coração do ciclo do ouro e, no seu auge, uma das cidades mais populosas de toda a América Latina. Hoje é Patrimônio da Humanidade pela UNESCO (o primeiro bem cultural brasileiro a entrar na lista, em 1980) e o conjunto barroco mais bem conservado do país.
O que a torna única não é uma só atração, mas o conjunto: ruelas de pedra (o famoso calçamento 'pé de moleque'), casarões do século XVIII, a Praça Tiradentes presidida pela estátua do mártir da independência e uma constelação de igrejas que são obras-primas do barroco mineiro. Aqui trabalharam os dois grandes nomes da arte colonial brasileira: o escultor e arquiteto Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa) e o pintor Mestre Ataíde. Caminhar por Ouro Preto é, literalmente, caminhar por um museu a céu aberto.
Fique atento a uma coisa: Ouro Preto se percorre subindo e descendo ladeiras, muitas delas bem íngremes e de pedra. Venha de calçado confortável, vá com calma e monte um roteiro por regiões para não ficar atravessando a cidade de ponta a ponta. A recompensa é enorme: em poucos quarteirões você tem o barroco de Aleijadinho, a história da Inconfidência Mineira, minas de ouro que dá para visitar por dentro, comida mineira de panela de pedra e uma atmosfera que mistura cidade universitária viva (é sede da UFOP) com cidade histórica parada no tempo.
Vila Rica nasceu do ouro que os bandeirantes encontraram nestas montanhas no fim do século XVII, virou capital de Minas Gerais e palco da Inconfidência Mineira de 1789, a primeira grande tentativa de independência do Brasil. Com o ouro esgotado e a capital transferida para Belo Horizonte em 1897, a cidade ficou 'congelada' em seu esplendor barroco. Toda essa trama do ciclo do ouro, de Aleijadinho, de Tiradentes e do caminho até o título de Patrimônio da UNESCO, a gente conta em detalhes na página de história.
Ler a história completa ↓The state of gold and the baroque: cradle of the Inconfidência and of Tiradentes, of historic towns such as Ouro Preto and Tiradentes, of pão de queijo and of an artistic heritage —that of Aleijadinho— without equal in Brazil.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Ouro Preto começa com o brilho de um metal na lama das montanhas. No fim do século XVII, expedições de bandeirantes —exploradores e caçadores de escravizados que saíam da região de São Paulo rumo ao interior— encontraram ouro nos rios e encostas da Serra do Espinhaço, no atual estado de Minas Gerais. Segundo a tradição, as primeiras pepitas encontradas estavam cobertas por uma película escura de óxido de ferro, o que lhes dava a aparência de 'ouro negro': daí vem o nome 'Ouro Preto'.
A notícia desencadeou a primeira grande corrida do ouro da história da América. De todas as regiões da colônia, e do próprio Portugal, milhares de pessoas se lançaram às montanhas em busca de fortuna. Ao redor das jazidas surgiram acampamentos desordenados que logo se transformaram em povoados. Um deles, fundado no começo do século XVIII, recebeu em 1711 o título de vila com o nome de Vila Rica de Ouro Preto: a 'vila rica', um nome que dizia tudo sobre as expectativas e a riqueza que ali se concentravam.
O crescimento foi vertiginoso. Em seu auge, por volta de meados do século XVIII, Vila Rica chegou a ser uma das cidades mais populosas de toda a América, com uma população que algumas fontes estimam na casa das dezenas de milhares de habitantes, superando até cidades como Nova York ou o Rio de Janeiro da mesma época. Era o coração do 'ciclo do ouro', o período em que a extração aurífera de Minas Gerais movimentou a economia do Império português e deslocou para essa região montanhosa o eixo da colônia.
O ouro de Vila Rica não era livre: pertencia, em grande parte, à Coroa portuguesa. Para garantir sua parte, Portugal impôs o 'quinto', um imposto equivalente à quinta parte (20%) de todo o ouro extraído, que devia ser entregue ao Estado. O ouro só podia circular legalmente depois de fundido em barras e selado pelas autoridades, já com o quinto descontado. Para administrar esse sistema fiscal foram criadas instituições como as casas de fundição e de contadoria —das quais a Casa dos Contos de Ouro Preto é o testemunho mais bonito—, e montou-se uma pesada máquina de controle e arrecadação.
A riqueza transformou a paisagem e a sociedade. Sobre as encostas íngremes da vila foi construído um conjunto urbano único: ruazinhas de pedra que sobem e descem, casarões, chafarizes, pontes e, sobretudo, igrejas suntuosas, financiadas pelas irmandades e pela devoção —e pela ostentação— de uma sociedade enriquecida. Toda essa atividade se apoiava no trabalho de milhares de africanos escravizados, que extraíam o ouro em condições brutais nas minas e nos rios. A memória desse custo humano sobrevive em lugares como a Mina do Chico Rei ou a igreja de Santa Efigênia, ligada à irmandade dos negros.
A importância de Vila Rica foi tanta que, em 1720, quando a Capitania de Minas Gerais foi criada, separada de São Paulo, a vila se tornou sua capital. Durante todo o século XVIII foi o centro político, econômico e cultural da região mais rica da colônia. Mas o ouro não era infinito: no fim do século, as jazidas começaram a se esgotar, a produção caiu e a pressão fiscal da Coroa —que exigia o quinto mesmo quando já não havia ouro suficiente— ficou cada vez mais sufocante, semeando o descontentamento que logo explodiria.
No fim do século XVIII, enquanto o ouro escasseava e os impostos continuavam pesando, em Vila Rica foi gestado o primeiro grande movimento pela independência do Brasil: a Inconfidência Mineira de 1789. Um grupo de intelectuais, poetas, padres, militares e homens ricos da região —muitos deles formados na Europa e alimentados pelas ideias do Iluminismo e pelo exemplo da independência dos Estados Unidos— começou a conspirar para libertar Minas Gerais do domínio português e proclamar uma república.
Entre os conjurados (os 'inconfidentes') havia nomes notáveis, como os poetas Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa. Mas o estopim imediato do movimento foi o anúncio da 'derrama': a cobrança forçada e violenta de todos os impostos atrasados do ouro, que ameaçava arruinar boa parte da população. A figura que a história guardou como símbolo do movimento foi Joaquim José da Silva Xavier, um alferes (oficial de baixa patente) que também trabalhava arrancando dentes: por causa desse ofício ganhou o apelido de 'Tiradentes'.
A conspiração foi delatada antes de estourar e a Coroa reagiu com dureza. Os inconfidentes foram presos e julgados em um longo processo (os 'Autos da Devassa'). A maioria recebeu penas de degredo, mas alguém tinha que pagar como exemplo: Tiradentes, que assumiu a responsabilidade pelo movimento, foi condenado à morte. Em 21 de abril de 1792 foi enforcado no Rio de Janeiro; seu corpo foi esquartejado e partes dele, incluindo a cabeça, foram expostas em Vila Rica como advertência, na praça que hoje leva seu nome. Com o tempo, aquele mártir se tornaria herói nacional: 21 de abril é feriado no Brasil em sua memória, e Tiradentes é o patrono cívico do país.
Toda a riqueza do ouro encontrou sua expressão artística mais sublime nas igrejas de Vila Rica. Durante o século XVIII floresceu na região um estilo próprio, o 'barroco mineiro' (e sua evolução para o rococó), que combinou a exuberância do barroco português com a criatividade dos artistas locais e os materiais da terra, como a pedra-sabão (esteatita) e a madeira entalhada e dourada. O resultado foi um conjunto de templos que estão entre as obras-primas da arte colonial de toda a América.
A figura central dessa arte é Antônio Francisco Lisboa, conhecido como 'Aleijadinho', apelido que alude à doença degenerativa que foi mutilando seu corpo na maturidade, sem que ele deixasse de trabalhar, amarrando as ferramentas às mãos. Escultor e arquiteto genial, filho de um mestre de obras português e de uma mulher escravizada, Aleijadinho projetou fachadas, esculpiu púlpitos, portadas e altares, e deixou sua marca maior na Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, considerada uma obra-prima do barroco brasileiro. Seus restos repousam na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição da cidade.
Seu complemento perfeito foi Manuel da Costa Ataíde, o 'Mestre Ataíde', o maior pintor do período colonial brasileiro. Ataíde dominou a técnica da pintura ilusionista de tetos, que parece abrir o céu sobre a cabeça do fiel: sua obra mais célebre é o forro da nave de São Francisco de Assis, uma glorificação da Virgem cercada de anjos músicos em que muitos dos rostos têm traços afro-brasileiros e mestiços, reflexo da sociedade que os cercava. Ao lado de igrejas deslumbrantes pelos seus quilos de ouro, como a Basílica de Nossa Senhora do Pilar, essas obras fazem de Ouro Preto um museu do barroco a céu aberto.
O destino de Ouro Preto sempre esteve ligado ao do ouro, e quando o metal se esgotou, a cidade entrou num longo declínio. Desde o fim do século XVIII a produção aurífera vinha caindo, e ao longo do XIX a antiga Vila Rica —rebatizada oficialmente 'Ouro Preto' em 1823, quando recebeu o título de cidade e de 'Imperial Cidade'— foi perdendo população, riqueza e influência. Os casarões se esvaziavam, as grandes obras paravam e a cidade ficava como que suspensa no tempo, conservando quase intacto o conjunto urbano do esplendor barroco simplesmente porque já não havia dinheiro para transformá-lo.
No fim do século XIX, com a Proclamação da República em 1889 e um Brasil que olhava para a modernização, as autoridades de Minas Gerais consideraram que Ouro Preto já não servia como capital do estado. Suas ruas estreitas e íngremes, espremidas entre montanhas, a tornavam inadequada para uma capital moderna que precisava crescer e ganhar avenidas largas, serviços e prédios de governo. Decidiu-se então construir uma capital nova, planejada do zero, num lugar mais aberto: o antigo arraial de Curral del-Rei, que se tornaria Belo Horizonte.
A transferência se concretizou em 12 de dezembro de 1897, quando Belo Horizonte foi inaugurada como nova capital de Minas Gerais. Para Ouro Preto foi um golpe duro: perdia não só o posto de capital, mas também boa parte de sua razão de ser administrativa. No entanto, essa mesma perda selou, paradoxalmente, sua salvação. Privada do impulso de modernização que teria arrasado seu patrimônio, a cidade ficou 'congelada' em sua forma colonial, preservando esse conjunto barroco único que, décadas depois, lhe devolveria um protagonismo de outra natureza.
O que durante um século pareceu uma desgraça —ficar de fora do progresso— revelou-se com o tempo um tesouro único. No começo do século XX, intelectuais, artistas e autoridades passaram a valorizar o extraordinário conjunto colonial que Ouro Preto havia conservado. Em 1933 a cidade foi declarada Monumento Nacional, e em 1938 seu centro histórico foi tombado pelo recém-criado serviço de patrimônio brasileiro, o SPHAN (hoje IPHAN), uma das primeiras grandes ações de preservação do país.
O reconhecimento culminou no plano internacional. Em 5 de setembro de 1980, a Unesco inscreveu Ouro Preto na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade, tornando-a o primeiro bem cultural brasileiro a entrar nessa lista (o primeiro do Brasil em qualquer categoria). A Unesco destacou o valor excepcional de seu conjunto urbano do século XVIII —fruto do ciclo do ouro—, a harmonia entre a arquitetura, o relevo e o traçado, e a riqueza artística de suas igrejas barrocas, em especial as obras de Aleijadinho.
Desde então, Ouro Preto vive de sua história e de sua beleza. É ao mesmo tempo uma cidade universitária cheia de vida, sede da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP, herdeira da antiga Escola de Minas), e um destino turístico e cultural de primeira linha. Suas celebrações de Semana Santa, com os famosos tapetes de serragem que cobrem as ruas, e seu Festival de Inverno são momentos altos do calendário. Caminhar hoje pela Praça Tiradentes, entrar em São Francisco de Assis ou dar uma espiada na Casa dos Contos é percorrer, em poucos quarteirões, todo o arco da história brasileira: o ouro, a escravidão, a arte sublime, o primeiro grito de independência e a memória de um país que aprendeu a cuidar do seu passado.