Villa General Belgrano é um daqueles lugares onde, por um tempo, parece que você atravessou o oceano sem perceber. Em pleno Valle de Calamuchita, nas serras de Córdoba, esta cidadezinha de origem alemã e centro-europeia exibe uma arquitetura alpina de telhados de duas águas, madeira, placas pintadas e jardins floridos, com cheiro de chocolate e de pão saindo do forno no ar. Fundada nos anos 30 por imigrantes alemães que buscavam uma paisagem que lembrasse a sua terra, hoje é a maior colônia alemã da Argentina e o coração da tradição germânica no país.
A fama dela ultrapassou as serras graças às festas. Toda primavera, a Villa se transforma na sede da Fiesta Nacional de la Cerveza —a Oktoberfest argentina, um dos maiores festivais de cerveja do mundo—, com desfiles, música, danças, gastronomia centro-europeia e o indispensável espiche, a cerimônia de abertura do barril. Mas não é a única: na Semana Santa chega a Fiesta Nacional de la Masa Vienesa, com strudel, floresta negra e confeitaria vienense, e nas férias de inverno a Fiesta Nacional del Chocolate Alpino enche as ruas de fondues e chocolate artesanal.
Além das festas, a Villa convida a caminhar sem pressa: provar cervejas artesanais em alguma das suas muitas fábricas, comer goulash com spätzle ou costelinha de porco com chucrute, visitar o museu que conta a história dos pioneiros e dos marinheiros do encouraçado Graf Spee que se estabeleceram aqui depois da Batalha do Rio da Prata, e subir o Cerro de la Virgen para ver o vale lá de cima. E, como cereja do bolo, é a base ideal para conhecer La Cumbrecita, a vila só para pedestres escondida a uns 35 km. História, natureza e boa mesa, tudo com sabor de Europa Central.
Villa General Belgrano nasceu pelas mãos da imigração alemã. Em 1929, Paul Friedrich Heintze chegou à região com a ideia de fundar uma colônia agrícola ao estilo alemão e, junto com Jorge Kappuhn, comprou e loteou terras no local chamado 'El Sauce', oferecendo-as quase exclusivamente a famílias germânicas. Em 1931 chegaram as primeiras famílias, atraídas por um clima e uma paisagem que lembravam a sua pátria, e o dia 11 de outubro de 1932 foi fixado como data de fundação. O povoado se chamou primeiro El Sauce, depois Villa Calamuchita (1938, por motivos postais) e finalmente Villa General Belgrano (no início dos anos 40), em homenagem ao criador da bandeira argentina, para cicatrizar feridas após um incidente confuso entre criollos e alemães. A essa colônia se somaram, a partir de 1940, marinheiros do encouraçado alemão Admiral Graf Spee, afundado na Batalha do Rio da Prata, que trouxeram seus ofícios e se estabeleceram na região. Famílias alemãs, suíças, austríacas e italianas terminaram de moldar a identidade centro-europeia que hoje define a cidade. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The landlocked province of sierras and rivers: Comechingón land founded by Cabrera in 1573, seat of the oldest university in the country and of the great Jesuit legacy, cradle of the University Reform and of the Cordobazo, capital of sierra tourism and of cuarteto.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Villa General Belgrano começa com uma ideia: transplantar para as serras de Córdoba uma colônia agrícola no estilo alemão. Em 1929, Paul Friedrich Heintze chegou à região com esse sonho e, em sociedade com Jorge Kappuhn —que entrou com o capital—, comprou cerca de dois mil hectares em um lugarejo do Vale de Calamuchita chamado 'El Sauce'. Eles lotearam as terras e as ofereceram quase exclusivamente a famílias de origem alemã, com anúncios nos jornais da comunidade germânica de Buenos Aires que diziam mais ou menos assim: 'Alemães, se vocês sentem saudade, podem vir para El Sauce'.
O chamado funcionou. Em 1931 chegaram as primeiras quinze famílias, atraídas pelo clima ameno e por uma paisagem de serras e riachos que lembrava a terra natal. Esses pioneiros se juntaram a um punhado de famílias criollas, de raízes locais, que já viviam na região e se dedicavam à agropecuária. O dia 11 de outubro de 1932 foi definido como data de fundação da cidade e, aos poucos, foi tomando forma uma comunidade com identidade própria: casas em estilo centro-europeu, hortas, ofícios e costumes trazidos do outro lado do Atlântico.
Já o nome demorou a se firmar. O povoado se chamou primeiro El Sauce e, em 1938, por razões postais —para não ser confundido com outras localidades de mesmo nome—, passou a se chamar Villa Calamuchita. Desde meados dos anos 30, estudantes e professores das escolas alemãs de Buenos Aires começaram a passar o verão ali, plantando, sem saber, a semente do que se tornaria um dos grandes destinos turísticos da Argentina.
Para entender um capítulo-chave da Villa, é preciso olhar primeiro para o Rio da Prata. Em 13 de dezembro de 1939, nas primeiras semanas da Segunda Guerra Mundial, o encouraçado de bolso alemão Admiral Graf Spee —sob o comando do capitão Hans Langsdorff— enfrentou três navios britânicos na Batalha do Rio da Prata. Avariado, buscou refúgio no porto de Montevidéu. Encurralado pela diplomacia e pela ameaça de uma frota maior, Langsdorff ordenou afundar o próprio navio em 17 de dezembro, diante de milhares de espectadores, e poucos dias depois tirou a própria vida. Mais de mil tripulantes ficaram internados, primeiro no Uruguai e depois na Argentina.
O governo argentino distribuiu esses marinheiros por diferentes pontos do país. A partir de 1940, cerca de 125 tripulantes do Graf Spee foram instalados na região de Villa General Belgrano, onde já existia uma sólida colônia alemã que os recebeu como se fossem da casa. A maioria fazia parte da equipe técnica do navio e dominava uma ampla gama de ofícios —carpinteiros, mecânicos, eletricistas, construtores—, o que deu um impulso notável à pequena cidade serrana. Eles ficaram internados sob controle da Justiça federal e, segundo os relatos da época, foram alojados em localidades vizinhas como Capilla Vieja.
Muitos desses homens nunca voltaram à Alemanha: ficaram, formaram família, construíram casas e negócios e deixaram sua marca na fisionomia e na cultura da Villa. Terminada a guerra, a comunidade germano-argentina da cidade se consolidou, e a história do Graf Spee passou a fazer parte da identidade do lugar, presente hoje no museu local e na memória de várias famílias descendentes daqueles marinheiros.
O nome atual da cidade nasceu de uma ferida e de um gesto de reconciliação. Em 1941, em pleno clima de tensão pela guerra que sacudia a Europa, aconteceu em Villa Calamuchita um incidente confuso: a queima de uma bandeira argentina. Três marinheiros alemães foram acusados, mas o episódio nunca chegou a ser totalmente esclarecido. O caso azedou a convivência entre os moradores locais e os alemães e colocou a cidade no centro das suspeitas.
Para cicatrizar essas feridas e dar um sinal de pertencimento à Argentina, a Assembleia Legislativa da Província de Córdoba decidiu, no começo dos anos 40, rebatizar a cidade como Villa General Belgrano, em homenagem a Manuel Belgrano, criador da bandeira nacional. A mudança de nome foi muito mais do que uma formalidade: simbolizou a vontade de uma comunidade de raízes europeias de se integrar plenamente à sua nova pátria, sem abrir mão de sua herança cultural.
Com o tempo, às famílias alemãs se somaram suíças, austríacas e italianas, até formar a maior colônia de origem alemã da Argentina —contam-se mais de uma centena de famílias germânicas entre os primeiros moradores, ao lado de dezenas de famílias suíças, italianas e austríacas—. Essa mistura centro-europeia foi moldando a arquitetura alpina, a gastronomia e os costumes que hoje distinguem a Villa. O turismo, que tinha começado timidamente nos anos 30 com os veranistas das escolas alemãs, foi crescendo junto com o asfalto, os serviços e, sobretudo, as festas, até transformar a cidade em um dos destinos mais visitados do país.
Se tem uma coisa que acabou de colocar Villa General Belgrano no mapa, foi a cerveja. No fim dos anos 50 e começo dos 60, a comunidade germânica da cidade começou a recriar o espírito da Oktoberfest de Munique, compartilhando com os visitantes suas tradições, sua música e sua gastronomia. Em 1963 foi celebrada pela primeira vez a Fiesta de la Cerveza; a villa queria fazer sua, em plenas serras de Córdoba, aquela antiga celebração alemã da colheita da cevada.
O reconhecimento veio por etapas: declarada de interesse provincial em 1967 e de caráter nacional em 1970, em 1980 Villa General Belgrano foi designada sede permanente da Fiesta Nacional de la Cerveza. Tradicionalmente realizada na praça José Hernández, desde 2016 a festa tem seu próprio espaço —o Parque Cervecero, no Bosque de los Pioneros—, e, embora seu mês clássico seja outubro, as últimas edições foram mudando de data no calendário (a 63ª, em 2025, aconteceu em novembro). Já o ritual não muda: desfiles de delegações pela avenida principal, orquestras, grupos de dança, gastronomia centro-europeia e o espiche, a cerimônia de abertura do barril, que é o momento mais esperado do dia. A festa reúne mais de cem mil visitantes e está entre as maiores do mundo no gênero.
Mas a Oktoberfest é só a face mais conhecida de uma identidade que se vive o ano inteiro. Na Semana Santa, a Fiesta Nacional de la Masa Vienesa celebra a confeitaria —strudel, streusel, bolo floresta negra, docinhos e chocolates—; nas férias de inverno, a Fiesta Nacional del Chocolate Alpino enche as ruas de fondues e chocolate artesanal; e, no verão, a Sommerfest anima as noites. Enquanto isso, mais de uma dezena de cervejarias artesanais, as chocolaterias, as casas de chá e os restaurantes de cozinha alemã mantêm viva, prato a prato e caneca a caneca, a herança daqueles pioneiros que, há quase um século, vieram buscar nestas serras um pedacinho da Europa Central.