Puerto Iguazú é a porta argentina para uma das maravilhas naturais do planeta: as Cataratas do Iguaçu. Esta cidade tranquila do extremo nordeste de Misiones, encravada em plena floresta paranaense e às margens do rio Iguaçu, vive do encanto que despertam as quedas d'água que tem a poucos quilômetros, declaradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco e eleitas uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo.
Mas Iguaçu é mais do que sua atração principal. É também o vértice da Tríplice Fronteira, onde o rio Iguaçu deságua no Paraná e se encontram três países — Argentina, Brasil e Paraguai —, cada um com seu marco pintado nas cores da sua bandeira. É floresta subtropical exuberante, com sua fauna de tucanos, macacos, quatis e borboletas; é a cultura guarani e a história das missões jesuíticas; e é o ponto de partida para conhecer as ruínas de San Ignacio, as minas de pedras preciosas de Wanda e a imensa usina de Itaipu.
Este guia percorre o essencial de Puerto Iguazú com olhar prático e acolhedor, e com preços reais e verificados: como organizar a visita às Cataratas (lado argentino e lado brasileiro), o que fazer na cidade e nos arredores, como se deslocar na região de fronteira, onde se hospedar e comer, e que cuidados tomar. Iguaçu é, sem exagero, um dos destinos imperdíveis da Argentina e de toda a América do Sul.
A região do Iguaçu foi território dos povos guaranis, que conheciam as grandes quedas e lhes deram, segundo a tradição, o nome 'Iguaçu' (do guarani 'y', água, e 'guasú', grande: 'água grande'). As Cataratas foram avistadas pelo conquistador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca em 1542, durante sua travessia rumo a Assunção. A região ficou depois ligada à atividade das missões jesuíticas guaranis (séculos XVII e XVIII) e, mais tarde, à exploração da erva-mate e da madeira. Puerto Iguazú nasceu como porto sobre o rio no começo do século XX e cresceu com o desenvolvimento turístico das Cataratas, sobretudo após a criação do Parque Nacional Iguazú em 1934 e a declaração das Cataratas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1984. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province of the Paraná rainforest and the red earth: home to the famous Jesuit-Guaraní missions, today a World Heritage Site, to the yerba mate that peopled its forests, and to the Iguazú Falls, one of the Seven Natural Wonders of the World.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Quase todos os dias, quando o sol bate em cheio sobre a Garganta do Diabo, um arco-íris se acende sobre a nuvem de vapor. Para a ciência, é óptica elementar; para os guaranis, que viveram junto a estes saltos durante séculos antes que qualquer europeu os visse, era outra coisa: a prova de que dois amantes castigados por um deus continuavam se encontrando. Porque as Cataratas do Iguaçu, antes de serem Patrimônio da Humanidade e Maravilha Natural do Mundo, foram o cenário de uma história de amor e fúria divina.
Segundo a lenda, no rio habitava M'Boi, uma divindade em forma de serpente que exigia sacrifícios. Uma bela jovem, Naipí, estava destinada a lhe ser oferecida, mas fugiu numa canoa com seu amado, o guerreiro Tarobá. Furiosa, a divindade partiu o curso do rio, abrindo uma enorme fenda e um precipício —as Cataratas—, separando para sempre os amantes: ele transformado em uma árvore à beira do salto, ela em uma rocha açoitada pelas águas. O arco-íris que une a árvore à rocha seria a prova de que o amor deles sobrevive ao castigo.
Os donos originais desta paisagem eram os povos guaranis, que habitavam a floresta paranaense e conheciam bem os grandes saltos do rio. Da língua deles vem o nome do lugar: 'Iguaçu' (Iguazú, em espanhol), que se interpreta como 'água grande' (de 'y', água, e 'guasú', grande). Para os guaranis, a floresta não era um obstáculo, e sim o seu mundo: dela tiravam alimento, remédios, materiais e um universo simbólico que impregnava sua cosmovisão.
Essa herança guarani continua presente na região: na toponímia, nas comunidades indígenas que ainda habitam Misiones, na língua, na cultura e no profundo vínculo com a floresta. Entender Iguaçu começa por reconhecer que estes saltos tinham nome, histórias e donos muito antes de aparecerem nos mapas europeus.
O primeiro europeu a deixar registro das Cataratas foi o conquistador e explorador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca, que em 1542, em sua travessia da costa atlântica rumo a Assunção do Paraguai, deu de cara com os imponentes saltos. Batizou-os de 'Saltos de Santa María', mas o nome não vingou diante do de raiz guarani. Sua crônica foi a primeira menção escrita a uma das maravilhas naturais do continente, que durante séculos continuaria remota e pouco visitada.
Durante os séculos XVII e XVIII, a região ficou ligada ao extraordinário experimento das missões jesuíticas guaranis. A Companhia de Jesus estabeleceu na região do Alto Paraná e do rio Uruguai um conjunto de 'reduções', povoados onde milhares de guaranis viviam sob a organização dos missionários, dedicados à agricultura, às artes e aos ofícios, com conquistas culturais e arquitetônicas notáveis. As ruínas de San Ignacio Miní e de outras missões, hoje Patrimônio da Humanidade, são o legado mais visível daquela época, que terminou com a expulsão dos jesuítas em 1767 e a decadência dos povoados.
Depois da independência, Misiones foi durante muito tempo um território de fronteiras disputadas e floresta fechada, ligado à exploração da erva-mate (a 'caá' guarani) e da madeira, que atraiu obrageiros e trabalhadores em condições muitas vezes duríssimas. A região, na fronteira com o Brasil e o Paraguai, foi sendo povoada lentamente, e as Cataratas continuaram sendo um destino distante e de difícil acesso, conhecido por poucos viajantes e exploradores.
As Cataratas do Iguaçu são o resultado de um processo geológico que começou há mais de 130 milhões de anos. Durante o período Cretáceo, enormes derrames de lava basáltica cobriram boa parte do centro-sul da América do Sul, formando um espesso planalto de rocha vulcânica conhecido como basalto da Serra Geral. Essa rocha dura, fraturada em blocos, seria a responsável pelo formato atual dos saltos.
O rio Iguaçu nasce na Serra do Mar, no estado do Paraná, e percorre cerca de 1.300 quilômetros rumo ao oeste antes de desaguar no rio Paraná. Em seu trecho final, o rio atravessa o antigo planalto basáltico. Onde a correnteza encontrou uma grande falha ou degrau na rocha, a água começou a despencar, e a erosão foi esculpindo ao longo de milênios a espetacular ferradura que hoje conhecemos como Garganta do Diabo. O conjunto reúne entre 150 e 300 saltos —conforme a vazão—, distribuídos em uma frente de quase três quilômetros, com quedas de até cerca de 80 metros.
As Cataratas continuam 'vivas' do ponto de vista geológico: a erosão segue seu curso, e a borda dos saltos recua lentamente rio acima, ano após ano. A vazão varia enormemente conforme as chuvas na bacia: nas épocas de cheia o espetáculo é ensurdecedor e às vezes obriga a fechar passarelas, enquanto em secas extremas o fluxo pode diminuir drasticamente. Essa dinâmica natural, somada à biodiversidade da floresta paranaense que as cerca, foi o que levou a Unesco a reconhecer seu valor universal excepcional.
A fundação de Puerto Iguazú tem data, nome e uma protagonista inesperada: em 10 de setembro de 1901 chegou ao local a primeira excursão turística argentina às Cataratas, e uma de suas integrantes, a filantropa portenha Victoria Aguirre, doou nesse mesmo dia 3.000 pesos para abrir um caminho entre o porto sobre o rio Iguaçu e os saltos. Com a contribuição dela —somada à de outros doadores e ao trabalho do Batalhão 12—, o caminho de cerca de 20 quilômetros foi inaugurado em 1902, e o pequeno povoado foi batizado de Puerto Aguirre em sua homenagem (só décadas mais tarde adotaria o nome atual). É essa data de 1901 que a cidade comemora hoje como seu aniversário: poucas cidades do mundo podem dizer que foram fundadas, literalmente, pelo turismo. A localidade cresceu depois ligada à atividade fluvial, à madeira e à erva-mate, numa zona de fronteira e de floresta que só então começava a se integrar ao resto do país.
Um marco decisivo foi a criação do Parque Nacional Iguazú em 1934, que colocou sob proteção as Cataratas e a floresta ao redor, acompanhando a onda de criação de parques nacionais que a Argentina vivia. A proteção oficial lançou as bases para o desenvolvimento do turismo e para a conservação de uma das paisagens mais extraordinárias do país. Com o tempo, foram construídos acessos, passarelas e serviços que permitiram a cada vez mais visitantes contemplar os saltos de perto.
O reconhecimento internacional chegou em 1984, quando a Unesco declarou as Cataratas do Iguaçu (lado argentino) Patrimônio da Humanidade —o lado brasileiro recebeu a mesma distinção pouco depois—, e se consolidou em 2011, quando foram eleitas uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo em uma votação global. Esses marcos impulsionaram de vez o turismo, e Puerto Iguazú se transformou em uma cidade turística, com hotéis, restaurantes e serviços à disposição dos milhões de visitantes que chegam de todo o planeta. Hoje, a cidade vive do encantamento que as Cataratas provocam, protege a floresta que as cerca e mantém viva a herança guarani e missioneira que deu nome e alma a este cantinho do Litoral argentino.