Purmamarca é uma daquelas cidadezinhas que parecem pintadas à mão. Fica encaixada na Quebrada de Humahuaca, em plena puna de Jujuy, a uns 2.190-2.320 m de altitude (as fontes variam conforme o ponto do povoado), e vive à sombra do seu cartão-postal mais famoso: o Cerro de los Siete Colores, uma parede de rocha listrada em vermelhos, ocres, verdes e violetas que muda de tom conforme bate o sol. É pequena, de ruas de terra, casas de adobe e um ritmo lento que dá vontade de ficar.
O coração do povoado é a praça 9 de Julio, rodeada por uma feira de artesanato permanente onde dá para encontrar tecidos, ponchos, gorros de lã de lhama, cerâmica e produtos regionais como quinoa e doces andinos. Em frente à praça está a Igreja de Santa Rosa de Lima, uma joia colonial de meados do século XVII, e ao lado dela a algarobeira histórica, uma árvore centenária sob cuja sombra, segundo a tradição, descansaram as tropas do Exército do Norte de Belgrano.
Além das fotos, Purmamarca é a porta de entrada para a Cuesta de Lipán e para as Salinas Grandes, aquele deserto branco a mais de 4.000 metros de altitude. É cultura andina viva: música, teares, lhamas pastando nos morros e uma gastronomia de altitude com a quinoa, o milho e a lhama como protagonistas. Um destino para caminhar devagar, respirar fundo (a altitude se faz sentir) e se deixar surpreender pelas cores.
Antigo assentamento de povos originários da Quebrada (omaguacas e comunidades da região), Purmamarca ganhou forma colonial em torno da sua capela de Santa Rosa de Lima, erguida em 1648 e declarada Monumento Histórico Nacional. Seu nome, de raiz aimará e quíchua, tem várias traduções possíveis. Para entender a geologia do Cerro de los Siete Colores, a origem do nome e a história profunda do povoado, veja nossa página de história de Purmamarca.
Ler a história completa ↓The northernmost province, the Andean roof of Argentina: land of the Quebrada de Humahuaca and the Inca road, of the Omaguaca pucarás, of the heroic Jujuy Exodus of 1812 and of the sugar mills, with a living Andean culture of carnival, coplas and seven-colored hills.
Ler a história de Jujuy →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
O famoso Cerro de los Siete Colores não foi pintado: ele foi se formando ao longo de dezenas de milhões de anos. Sua origem remonta a um processo geológico complexo, ligado a antigos mares, lagos e rios que depositaram, camada sobre camada, diferentes sedimentos. Com o tempo, o soerguimento do terreno provocado pelo movimento das placas tectônicas que deram forma aos Andes inclinou e dobrou essas camadas, deixando-as à mostra como uma parede listrada. Por isso, ao olhar o morro, estamos lendo, de baixo para cima, diferentes eras geológicas, algumas com centenas de milhões de anos.
Cada cor corresponde a uma composição mineral diferente. Os vermelhos e avermelhados vêm de argilas e argilitos ricos em ferro; o esbranquiçado, de calcários e rochas calcárias; os verdes, de filitos e ardósias com óxido de cobre e minerais ferromagnesianos; o amarelo-mostarda, de arenitos calcários ricos em enxofre; os pardos e violetas, de margas arenosas com carbonato de cálcio e minerais como o manganês; e os tons rosados ou salmão, de argilas e lamitos mais recentes. A 'paleta' completa vai mudando conforme o ângulo do sol, por isso vale a pena observá-lo em diferentes momentos do dia.
O número 'sete' é mais simbólico do que literal: muitos visitantes contam mais ou menos tons dependendo da luz. O importante é entender que cada faixa é um capítulo diferente da história da Terra, exposto pela erosão bem no coração da Quebrada de Humahuaca.
O nome Purmamarca tem raízes nas línguas andinas, mas não existe uma única tradução aceita, e aí está parte do seu encanto. A explicação mais difundida o deriva do aimará: 'purma', que significa campo não semeado, deserto ou terra não tocada pela mão do homem, e 'marca', que significa povoado ou cidade. Dessa combinação nascem as interpretações mais conhecidas.
A tradução mais poética, e a que mais circula entre os moradores, é 'povoado da terra virgem', tomando 'purma' no sentido de terra inculta ou não civilizada. Uma versão mais literal seria simplesmente 'povoado do deserto' ou 'cidade do deserto'. Existe ainda uma leitura a partir do quíchua que associa o nome ao puma, resultando em 'povoado do puma'. Essas diferentes versões convivem na divulgação turística e na tradição oral da região.
Muito antes da chegada dos espanhóis, a Quebrada de Humahuaca era um corredor habitado e percorrido por povos originários. A região foi ocupada por comunidades ligadas ao mundo andino, entre elas os omaguacas, que deixaram sua marca na toponímia e na cultura local. A Quebrada funcionava como uma via natural de comunicação entre a puna, os vales e as terras baixas, e fez parte da área de influência do Império Inca antes da conquista.
Essa herança continua viva em Purmamarca: nos teares e tecidos de lã de lhama e alpaca, na música e nos instrumentos andinos, no cultivo da quinoa e do milho, na criação de lhamas e nas celebrações ligadas à Pachamama. O reconhecimento da Quebrada de Humahuaca como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2003 destacou justamente esse valor de paisagem cultural milenar, onde a presença humana e o ambiente natural se entrelaçam há milhares de anos.
Com a colonização espanhola, Purmamarca se organizou como 'pueblo de indios' em torno de sua capela. A Igreja de Santa Rosa de Lima, em frente à praça, foi construída em 1648 e é um dos templos coloniais mais valiosos do norte argentino. Foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1941. Sua arquitetura é tipicamente andina: paredes grossas de adobe, teto de madeira de cardón e torta de barro, um sino antigo e, no interior, pinturas da escola cusquenha do século XVIII, testemunho da arte religiosa colonial da região.
Ao lado da igreja ergue-se a algarobeira histórica, uma árvore centenária considerada a 'avó' de Purmamarca, de copa ampla e enorme valor simbólico para o povoado. A tradição conta que sob sua sombra descansaram tropas do Exército do Norte durante as guerras da Independência, o que a transformou em um emblema vivo da história local. Igreja, praça, algarobeira e o antigo cabildo formam o conjunto histórico que o povoado conserva até hoje e que faz parte da paisagem cultural reconhecida pela UNESCO.
Durante séculos, Purmamarca foi um povoado pequeno e um tanto isolado, dedicado ao pastoreio, aos cultivos andinos e ao artesanato. Sua grande transformação veio com o turismo: a declaração da Quebrada de Humahuaca como Patrimônio da Humanidade em 2003 e a fama crescente do Cerro de los Siete Colores o colocaram no mapa dos grandes destinos do norte argentino. A população cresceu de forma notável em poucas décadas, acompanhando esse impulso.
Hoje convivem em Purmamarca a vida comunitária tradicional e uma infraestrutura turística cada vez maior: hotéis boutique, pousadas familiares, restaurantes de cozinha andina e uma feira de artesanato permanente na praça. O povoado também é a base natural para subir a Cuesta de Lipán e chegar às Salinas Grandes. O desafio, como em toda a Quebrada, é manter o equilíbrio entre receber visitantes e preservar a identidade cultural, a paisagem e o ritmo tranquilo que fazem de Purmamarca um lugar único.
Purmamarca não termina no Cerro de los Siete Colores. Atrás do povoado começa uma das estradas mais espetaculares do norte argentino: a Cuesta de Lipán, um trecho da Ruta Nacional 52 que sobe em curvas fechadas desde os 2.192 m de altitude do povoado até o Abra de Potrerillos, a 4.170 m, antes de descer rumo às Salinas Grandes. Em apenas 60 quilômetros a paisagem muda completamente: dos morros multicoloridos da Quebrada passa-se à puna árida, com vicunhas e lhamas pastando entre os capinzais, e finalmente a um mar branco de sal que se estende até o horizonte.
As Salinas Grandes são um dos maiores desertos de sal da América do Sul, depois do Uyuni, na Bolívia, e do Atacama, no Chile: cerca de 212 quilômetros quadrados divididos entre as províncias de Jujuy e Salta, resto de um antigo lago que secou há milhares de anos, deixando uma crosta de sal de vários metros de espessura. As comunidades originárias da região, reunidas na Cooperativa El Aguilar e em outras organizações locais, exploram o sal há gerações por meio de tanques de evaporação, e hoje também administram o acesso turístico: é obrigatório contratar um guia comunitário para chegar aos 'ojos de agua', as piscinas de um turquesa intenso que contrastam com o branco do sal.
A melhor forma de visitar o salar a partir de Purmamarca é em um passeio de meio dia ou dia inteiro, seja com agências que saem do próprio povoado, de Tilcara ou de San Salvador de Jujuy, seja em van comunitária compartilhada. Não há postos de gasolina entre Purmamarca e o salar, então é bom abastecer antes de subir. O mal da altitude (que os locais chamam de apunamiento) é real acima dos 4.000 metros: beber bastante água, evitar álcool e comidas pesadas e se movimentar devagar são as recomendações mais repetidas pelos guias locais. Muitos viajantes combinam a visita com uma parada no Abra de Potrerillos, o ponto mais alto do trajeto, onde há barracas de artesanato e uma vista panorâmica da puna que se estende em direção à Bolívia e ao Chile.
O calendário de Purmamarca continua marcado pelas celebrações andinas que chegaram com os primeiros habitantes da Quebrada e que a colonização nunca conseguiu apagar por completo. A mais importante é o Ritual à Pachamama, celebrado todo dia 1° de agosto e ao longo de todo esse mês: as famílias abrem um buraco na terra, a 'boca' da Pachamama, e oferecem comida, bebida, folhas de coca e fumaça de cigarro em agradecimento pelas colheitas e pedindo proteção para o ano seguinte. É uma cerimônia comunitária, íntima e ao mesmo tempo aberta a quem quiser participar com respeito.
Outra data importante é o Carnaval, que na Quebrada de Humahuaca tem identidade própria: comparsas, coplas cantadas ao som da caja, chicha e o 'desentierro' (desenterro) do diabo do carnaval marcam vários dias de música e dança na praça e nas ruas de terra. A Semana Santa também reúne celebrações locais, com procissões que percorrem o povoado. A isso se somam as festas do padroeiro e a feira de artesanato, que funciona todos os dias do ano na plaza 9 de Julio e é, por si só, uma janela para a vida cotidiana do povoado: tecelãs trabalhando no tear à vista dos turistas, produtores de quinoa e milho vendendo diretamente sua colheita e músicos tocando sikus e quenas entre as barracas.
Há décadas a economia de Purmamarca combina a criação de lhamas e ovelhas, o cultivo em pequenas parcelas de altitude e, cada vez mais, o turismo. Essa transição não foi isenta de tensões: o crescimento acelerado da atividade turística a partir dos anos 2000 trouxe mais renda, mas também mais pressão sobre a água, a infraestrutura e a paisagem. Hoje o povoado tenta sustentar um turismo que conviva com a vida de seus pouco mais de três mil habitantes, muitos dos quais continuam falando de 'a comunidade' como a unidade organizativa central, herdeira direta das antigas formas de organização coletiva andina.