Gjirokastra é a 'cidade de pedra' da Albânia: um conjunto otomano de casas-torre empoleiradas na encosta de uma montanha, com telhados de lajes cinzentas que, vistos de cima, parecem escamas. Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é um dos exemplos mais bem conservados de arquitetura otomana balcânica, com suas casas senhoriais fortificadas, suas ruas íngremes de pedra e um enorme castelo que domina o vale do rio Drino.
A cidade tem também uma forte carga histórica do século XX: foi o berço de Enver Hoxha, o ditador que governou a Albânia por mais de quatro décadas, e também do escritor Ismail Kadaré, o mais universal dos albaneses, que a imortalizou em seus romances. No castelo, um túnel-bunker da Guerra Fria e uma exposição de armas lembram aquele passado de isolamento e medo, que este guia trata com a sobriedade que ele merece.
Vamos ver o que fazer em Gjirokastra em um ou dois dias — o castelo e seu túnel, as casas-museu otomanas como a Zekate e a Skenduli, o velho bazar —, quanto custam os ingressos, como chegar a partir de Tirana ou de Sarandë e como combinar a visita com o Olho Azul e a Riviera. Uma cidade de pedra onde a beleza da arquitetura otomana e a memória do século XX andam de mãos dadas.
Gjirokastra tem origens antigas — houve um assentamento fortificado na Antiguidade —, mas seu castelo e sua fama datam da Idade Média e, sobretudo, do período otomano. Já mencionada no século XIII, desenvolveu-se sob domínio otomano a partir do século XV como cidade de casas-torre de pedra e bazar, e no século XIX foi um centro do despertar nacional albanês. No século XX viu nascer o ditador Enver Hoxha e o escritor Ismail Kadaré, e viveu a dureza do regime comunista. Sua excepcional arquitetura de pedra lhe rendeu o reconhecimento da Unesco. Contamos tudo em detalhes na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Two World Heritage stone towns and ancient Apollonia: the Ottoman and classical heart of Albania, among Byzantine icons and fortified tower houses.
Ler a história de The historic south (Berat, Gjirokastra) →Um guia que mora no lugar conta em meia hora o que nenhuma placa explica. Nós buscamos na Civitatis: com guia em espanhol e reserva online sem complicação. Em Gjirokastra não são muitas, mas as que há valem. E aqui tem free tours: você reserva sem pagar nada e no final dá ao guia o que achar justo, então experimentar não custa nada. Toque nos cartões abaixo e veja.
Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
A região de Gjirokastra é habitada desde a Antiguidade. Nas colinas próximas ficam os restos de Antigoneia, uma cidade fundada na época helenística, e houve assentamentos fortificados que aproveitavam a posição estratégica do vale do rio Drino, um corredor natural entre o interior do Épiro e a costa jônica. A montanha onde hoje se ergue o castelo oferecia uma posição defensiva de primeira, e por isso foi fortificada desde muito cedo.
A cidade medieval propriamente dita aparece nas fontes a partir dos séculos XII e XIII. Seu nome, Gjirokastër, costuma ser relacionado ao grego 'Argyrokastron', geralmente traduzido como 'castelo de prata' ou 'castelo argênteo', embora a etimologia exata seja discutida. Em 1417, depois de um período sob senhores locais e na órbita dos despotados da região, Gjirokastra passou para as mãos do Império Otomano, que a transformou em centro administrativo da área. O castelo foi ampliado e reforçado ao longo dos séculos até se tornar um dos maiores dos Bálcãs.
Sob o domínio otomano, a cidade cresceu na encosta abaixo da fortaleza, com seus bairros de casas de pedra organizados em torno do bazar. A combinação de um castelo imponente com uma cidade de casas-torre defensivas reflete a natureza da região: um território de montanha, de clãs e de uma cultura em que a casa fortificada era, além de moradia, símbolo de status e refúgio. Essa marca ainda define hoje a fisionomia de Gjirokastra.
Foi durante o período otomano, e sobretudo entre os séculos XVII e XIX, que Gjirokastra ganhou sua forma característica de 'cidade de pedra'. As famílias abastadas — comerciantes, funcionários otomanos, proprietários de terras — construíram grandes casas-torre de pedra de vários andares, com paredes grossas, poucas janelas na parte de baixo por motivos defensivos e, no alto, amplos salões de recepção ricamente decorados com afrescos, madeira entalhada e lareiras. Os telhados, cobertos de lajes cinzentas de pedra, dão à cidade, vista do castelo, seu aspecto inconfundível de escamas.
A cidade prosperou como centro comercial e administrativo do sul da Albânia otomana. Seu bazar, no cruzamento das principais ruas de pedra, concentrava oficinas e lojas de artesãos, e a cidade era conhecida por sua produção e seu comércio. No começo do século XIX, Gjirokastra ficou sob o domínio de Ali Paxá de Tepelena, o poderoso e quase independente governador otomano da região, que reforçou o castelo e dotou a cidade de infraestruturas como o aqueduto.
Gjirokastra também foi um importante centro cultural e do despertar nacional albanês no século XIX. Na cidade e em sua região conviviam comunidades muçulmanas e ortodoxas, e daqui saíram figuras do movimento pela língua e pela identidade albanesas. Quando a Albânia declarou sua independência em 1912, Gjirokastra e todo o sul ficaram no centro das disputas de fronteira com a Grécia, que reivindicava a região do norte do Épiro, um conflito que marcaria as primeiras décadas do século XX.
O século XX ligou Gjirokastra a dois dos nomes mais influentes da Albânia moderna, em planos muito diferentes. Nesta cidade de pedra nasceu, em 1908, Enver Hoxha, o homem que governaria a Albânia como líder comunista por mais de quatro décadas, do fim da Segunda Guerra Mundial até sua morte em 1985. O fato de o berço do ditador estar aqui deu a Gjirokastra um status particular durante o regime, com investimentos e uma atenção especial, mas também com o peso de uma figura hoje associada a um dos sistemas mais repressivos da Europa.
Na mesma cidade nasceu, em 1936, Ismail Kadaré, o escritor albanês mais universal, candidato frequente ao Nobel e autor de romances traduzidos para dezenas de idiomas. Kadaré retratou Gjirokastra em obras como 'Crônica na pedra', em que a cidade das casas cinzentas, vista pelos olhos de uma criança durante a guerra, vira mais um personagem. Sua literatura, escrita sob a ditadura e cheia de alegorias, é uma das grandes janelas para a história e a alma da Albânia.
A coincidência de o ditador e o grande escritor dissidente terem nascido na mesma pequena cidade de pedra resume, de certa forma, as tensões do século XX albanês. Hoje, a casa natal de Hoxha — reconstruída depois de um incêndio — abriga o Museu Etnográfico, e a relação da cidade com seu filho mais incômodo é tratada com a distância histórica que as décadas trazem. Já a figura de Kadaré é motivo de orgulho local e nacional.
Durante as quatro décadas do regime comunista de Enver Hoxha (1944-1991), Gjirokastra viveu, como toda a Albânia, sob um sistema de partido único, economia planificada e controle rígido da população. A condição de cidade natal do líder lhe rendeu certa atenção, e em 1961 ela foi declarada 'cidade-museu', o que ajudou a preservar sua excepcional arquitetura de pedra diante da modernização que transformou outros lugares. No castelo foi instalado um museu de armas e exibiram-se, com fins de propaganda, os restos de um avião apresentado como aeronave espiã americana.
O isolamento internacional do regime — que rompeu sucessivamente com a Iugoslávia, a União Soviética e a China — e sua obsessão com uma possível invasão também deixaram sua marca subterrânea em Gjirokastra: sob a cidade foi escavado em segredo um grande túnel-bunker antiaéreo e antinuclear, destinado a abrigar as autoridades locais do Partido e do Estado em caso de guerra. Aquele labirinto de salas, hoje aberto à visitação, é um testemunho eloquente do medo e do controle que marcaram aqueles anos.
A repressão política, a vigilância da polícia secreta, a proibição da religião decretada em 1967 e as privações econômicas fizeram parte do dia a dia também em Gjirokastra, como no resto do país. A cidade de pedra, com sua beleza intacta, guarda assim sob a superfície a memória de uma das fases mais duras da história albanesa, que seus museus e seu túnel ajudam hoje a entender e a não esquecer.
Depois da queda do comunismo em 1991, Gjirokastra atravessou, como todo o país, os difíceis anos 1990, incluindo os graves distúrbios de 1997 após o colapso das pirâmides financeiras, que atingiram com especial força o sul da Albânia. Superada essa fase, a cidade de pedra começou a ser reconhecida por seu valor patrimonial. Em 2005, a Unesco inscreveu seu centro histórico na lista do Patrimônio Mundial, ampliada em 2008 para incluir também Berat, como exemplos excepcionais de cidade otomana bem conservada.
Hoje, Gjirokastra vive em boa parte do turismo cultural. Os viajantes sobem ao grande castelo, percorrem o túnel da Guerra Fria, visitam as magníficas casas-torre, como a Zekate e a Skenduli, passeiam pelo velho bazar e contemplam o mar de telhados de pedra lá do alto. A cidade também recebe, de tempos em tempos, o Festival Folclórico Nacional, um dos eventos culturais mais importantes do país, que enche o castelo de música e trajes tradicionais de toda a Albânia.
Combinar a beleza serena da cidade de pedra com a memória de seu século XX — o berço do ditador e do grande escritor, o túnel do medo, os casarões senhoriais otomanos — faz de Gjirokastra uma visita especialmente rica. Situada ainda a um passo do Olho Azul e da Riviera do sul, ela virou parada quase obrigatória de qualquer viagem pelo sul da Albânia, um lugar onde a pedra guarda, camada após camada, toda a história do país.