Kazan é uma das cidades mais fascinantes da Rússia porque é duas cidades ao mesmo tempo. É russa e é tártara; é ortodoxa e é muçulmana; olha para Moscou e olha para o Oriente. No coração do seu kremlin branco, Patrimônio da Humanidade, a grande mesquita Qolşärif — com suas cúpulas turquesa e seus minaretes — ergue-se a poucos metros de uma catedral ortodoxa de cúpulas douradas, e ninguém vê nisso contradição alguma. Essa convivência de séculos entre o mundo eslavo e o mundo túrquico é a essência de Kazan e o que a torna única.
Capital da República do Tartaristão, às margens do Volga, Kazan foi durante a Idade Média a capital de um poderoso canato tártaro herdeiro da Horda de Ouro, até que Ivan, o Terrível, a conquistou em 1552. Desse choque e da longa história posterior nasceu uma cidade mestiça, rica e orgulhosa, que hoje é uma das mais prósperas e dinâmicas da Rússia: universitária (aqui estudou o jovem Lenin e lecionou o matemático Lobachevsky), esportiva e com uma gastronomia tártara deliciosa.
Este guia percorre Kazan com um olhar prático e caloroso: o que ver no kremlin e no antigo bairro tártaro, como se locomover no metrô, onde provar o echpochmak e o chak-chak, e como fazer um bate-volta à ilha-mosteiro de Sviyazhsk ou à antiga cidade de Bolgar. Antes de tudo, um aviso sóbrio: viajar para a Rússia hoje, em plena guerra e com sanções, tem restrições reais (avisos oficiais, sem voos diretos, cartões estrangeiros que não funcionam). Encare este guia pelo que ele é: uma leitura informativa e cultural sobre um lugar extraordinário.
Kazan nasceu como praça-forte da Bulgária do Volga, um Estado túrquico e muçulmano medieval, e a tradição situa sua fundação por volta do ano 1005. Após a invasão mongol, a região foi integrada à Horda de Ouro, e da desintegração desta surgiu, no século XV, o Canato de Kazan, um poderoso Estado tártaro cuja capital era esta cidade. Em 1552, após um célebre cerco, o czar russo Ivan IV, 'o Terrível', conquistou Kazan, incorporando-a à Rússia; em memória dessa vitória, mandou erguer em Moscou a Catedral de São Basílio. A conquista foi seguida de uma dura política de cristianização, mas a identidade tártara e muçulmana sobreviveu. Sob Catarina, a Grande, no século XVIII, voltou a ser autorizada a construção de mesquitas e a cidade floresceu como centro comercial e cultural entre a Europa e a Ásia. No século XIX, Kazan tornou-se uma grande cidade universitária (sua universidade, fundada em 1804, é uma das mais antigas da Rússia). No século XX foi capital da república autônoma tártara dentro da URSS e, depois de 1991, da República do Tartaristão dentro da Federação Russa, com um status de ampla autonomia. No ano 2000, o kremlin de Kazan foi declarado Patrimônio da Humanidade, e em 2005 a cidade comemorou seu milênio com a inauguração da grande mesquita Qolşärif, reconstruída no lugar daquela que Ivan, o Terrível, havia destruído. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Russia's great mother river and the mixed south: Tatar Kazan, the Stalingrad that turned a world war, and the subtropical balcony on the Black Sea.
Ler a história de The Volga and the south →Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de Moscou existir como potência, nas terras do médio Volga florescia um Estado próspero e surpreendente: a Bulgária do Volga. Era um reino de povos túrquicos (aparentados com os búlgaros que deram nome à atual Bulgária, nos Bálcãs) que por volta do ano 922 adotou oficialmente o islã, séculos antes de a Rússia se cristianizar por completo. Aquela Bulgária do Volga era um cruzamento de rotas comerciais entre o mundo islâmico, o Báltico e as estepes. Foi no seu território, num ponto estratégico à beira do rio, que nasceu Kazan.
A tradição situa a fundação da cidade por volta do ano 1005. Em 2005, Kazan comemorou oficialmente seu milênio com grandes festas e a inauguração da mesquita Qolşärif. O nome 'Kazan' (Qazan em tártaro) costuma ser associado à palavra túrquica que designa um caldeirão ou panela grande, e existem várias lendas sobre sua origem, entre elas a de um caldeirão de ouro que caiu no rio.
No século XIII, a Bulgária do Volga foi arrasada pela grande invasão mongol de Batu Khan, neto de Gengis Khan. As terras do Volga passaram a fazer parte do vasto império mongol e, mais precisamente, do canato conhecido como Horda de Ouro, que por mais de dois séculos dominou os principados russos e cobrou tributos deles. Kazan sobreviveu à catástrofe e, pouco a pouco, foi ganhando importância como centro da região.
Ao longo do século XV, a Horda de Ouro, enfraquecida por disputas internas, se fragmentou em vários canatos independentes. Um deles, surgido por volta de 1438, tinha sua capital em Kazan: o Canato de Kazan. Foi um Estado túrquico e muçulmano, herdeiro da tradição da Bulgária do Volga e da Horda, que dominou o médio Volga e boa parte da região por pouco mais de um século.
Kazan se tornou então uma capital de verdade: um centro urbano murado, com sua fortaleza (o embrião do futuro kremlin), mesquitas, madraçais, mercados e palácios. A cidade era um entroncamento comercial de primeira linha, onde se encontravam mercadores da Rússia, da Ásia Central, da Pérsia e do mundo báltico. A cultura tártara (língua túrquica, religião islâmica, arte e ciência) alcançou ali um esplendor notável.
O canato manteve uma relação tensa e instável com o poder crescente de Moscóvia, o principado russo que se expandia para o leste. Houve períodos de aliança, de vassalagem e de guerra aberta. Para os czares de Moscou, Kazan era ao mesmo tempo uma ameaça militar (suas incursões iam longe) e um alvo cobiçado: quem controlasse Kazan dominaria o Volga e a rota para a Sibéria e o mar Cáspio. O choque se tornou inevitável.
O destino de Kazan foi selado em 1552. O jovem czar Ivan IV da Rússia, que a história lembraria como Ivan, 'o Terrível', decidido a acabar com o canato, organizou uma campanha militar de grande porte. Como base logística, mandou construir rio acima uma fortaleza de madeira desmontável, que foi levada pelo Volga e montada na ilha de Sviyazhsk, a poucos quilômetros de Kazan. Dali, um enorme exército russo, apoiado por artilharia e por sapadores que minaram as muralhas, sitiou a cidade.
O cerco terminou em outubro de 1552 com um ataque sangrento. A resistência tártara foi obstinada: entre os defensores se destacou o seid Qolşärif, líder religioso que morreu lutando ao lado de seus alunos e cujo nome hoje batiza a grande mesquita. A cidade foi tomada, saqueada e em grande parte destruída, inclusive suas mesquitas. A queda de Kazan marcou o fim do canato e a incorporação definitiva de todo o médio Volga à Rússia, um marco decisivo na expansão do Estado russo para o leste.
Para comemorar a vitória, Ivan, o Terrível, mandou erguer na Praça Vermelha de Moscou a Catedral de São Basílio, com suas inconfundíveis cúpulas coloridas, hoje imagem universal da Rússia. Depois da conquista, foi posta em prática uma política de cristianização e de assentamento de população russa, e por muito tempo os tártaros foram proibidos de morar dentro da cidade, o que os empurrou para bairros próprios como a Staro-Tatarskaya Sloboda. Mesmo assim, a identidade tártara e a fé muçulmana sobreviveram.
Depois da conquista, Kazan foi integrada por completo à Rússia dos czares como capital de uma vasta província (gubernia) do Volga. A cidade foi reconstruída em torno do novo kremlin de pedra branca, erguido por ordem de Ivan, o Terrível, com mestres vindos de Pskov, e se tornou um importante centro administrativo, militar e comercial da fronteira oriental do império.
Uma virada para a população tártara veio no século XVIII, com a imperatriz Catarina, a Grande. Sua política de maior tolerância religiosa voltou a permitir a construção de mesquitas de pedra: a primeira foi a mesquita Al-Marjani, no bairro tártaro, que ainda está de pé. Essa abertura impulsionou um renascimento cultural, religioso e econômico tártaro que se estenderia pelos séculos XVIII e XIX, com uma burguesia comercial próspera e uma vida intelectual intensa.
Kazan também se consolidou como uma grande cidade do saber. Sua universidade, fundada em 1804, é uma das mais antigas da Rússia e revelou figuras de projeção mundial: foi ali que o matemático Nikolai Lobachevski desenvolveu a geometria não euclidiana, e por suas salas passou, muito rapidamente e de forma tumultuada, o jovem Vladimir Ulianov, o futuro Lenin, expulso por participar de protestos estudantis. No século XIX floresceram também a literatura e a imprensa em língua tártara, e figuras como o poeta Ğabdulla Tuqay (Tukai) se tornaram símbolos nacionais.
A Revolução de 1917 e a guerra civil russa abalaram o Volga com força. Em 1918, Kazan foi palco de combates duros entre o Exército Vermelho e as forças antibolcheviques (os brancos e a Legião Tchecoslovaca), que chegaram a tomar a cidade por pouco tempo. Depois da vitória bolchevique, e dentro da política soviética de nacionalidades, foi criada em 1920 a República Socialista Soviética Autônoma Tártara, com capital em Kazan, que deu pela primeira vez um reconhecimento territorial formal à nação tártara dentro do novo Estado.
Nas décadas soviéticas, Kazan se transformou numa grande cidade industrial: ganhou fábricas de aviação, química e maquinário, e a população cresceu muito. Como várias cidades do interior, durante a Segunda Guerra Mundial recebeu indústrias, instituições e pessoas evacuadas das zonas ameaçadas pelo avanço alemão, contribuindo para o esforço de guerra soviético a partir da retaguarda.
A era soviética também teve seu lado sombrio para a cultura tártara: a língua tártara passou do alfabeto árabe para o latino e depois para o cirílico, mesquitas foram fechadas e a vida religiosa foi reprimida, como em todo o país. Mesmo assim, a identidade tártara resistiu, e Kazan manteve seu caráter bicultural, com russos e tártaros convivendo na mesma cidade.
Com a desintegração da União Soviética em 1991, a república tártara viveu um momento de forte afirmação identitária. Em 1990 foi proclamada a soberania da república e, depois de anos de negociações, em 1994 foi assinado com Moscou um tratado que deu ao Tartaristão um amplo grau de autonomia dentro da Federação Russa, com constituição e presidência próprias e duas línguas oficiais, o russo e o tártaro. Kazan virou assim a capital de uma república que se apresenta como ponte entre o mundo eslavo e o túrquico e como modelo de convivência entre cristãos ortodoxos e muçulmanos.
O símbolo desse renascimento foi a comemoração do milênio da cidade, em 2005: para a data, o kremlin foi restaurado, a primeira linha de metrô foi inaugurada e, principalmente, foi erguida a nova mesquita Qolşärif, reconstrução daquela que Ivan, o Terrível, havia destruído quatro séculos e meio antes. A Unesco já tinha inscrito o kremlin como Patrimônio da Humanidade em 2000, reconhecendo seu valor como testemunho único de coexistência cultural.
Desde então, Kazan vive uma fase de prosperidade e visibilidade. A cidade apostou no esporte e nos grandes eventos (foi uma das sedes da Copa do Mundo de 2018 e recebeu campeonatos mundiais de natação e universíadas), modernizou seu centro histórico e passou a valorizar a gastronomia e a cultura tártaras como atrativo turístico. Hoje é uma das cidades mais dinâmicas, seguras e agradáveis da Rússia. Vale lembrar, com sobriedade, que no contexto atual de guerra e sanções internacionais viajar ao país tem restrições reais; este guia tem caráter estritamente informativo e cultural e não ignora os alertas oficiais de viagem.