Chiclayo é a grande cidade do norte costeiro e a porta de entrada para uma das descobertas arqueológicas mais importantes das Américas: a tumba do Senhor de Sipán. Chamam a cidade de 'a Capital da Amizade' pela hospitalidade de sua gente e, embora a cidade em si seja moderna e comercial, o que a cerca é um tesouro: museus de classe mundial, pirâmides de barro e a herança das culturas moche e lambayeque, que dominaram o ouro como poucas.
A estrela é o Museo Tumbas Reales de Sipán, na vizinha Lambayeque, que guarda os mais de 600 objetos de ouro, prata, cobre e pedras preciosas encontrados na tumba intacta do Senhor de Sipán, um governante moche do século III. Somam-se a isso o complexo de Huaca Rajada (onde a tumba foi descoberta), o Vale das Pirâmides de Túcume (26 pirâmides de adobe da cultura lambayeque) e o Museo Nacional Sicán. Um roteiro arqueológico de primeiro nível.
Chiclayo tem aeroporto, então muita gente chega de avião desde Lima (pouco mais de uma hora) ou de ônibus pela Panamericana Norte (cerca de 12 horas). A cidade oferece ainda o animado Mercado Modelo - com o famoso 'mercado de bruxos' -, balneários como Pimentel (com o píer mais longo do Peru) e povoados de artesanato como Monsefú. Com dois ou três dias dá para aproveitar os museus, as pirâmides e um pouco de litoral. E a cozinha lambayecana, com seu arroz com pato e seu seco de cabrito, está entre as melhores do país.
Chiclayo foi elevada à categoria de cidade em 1835 (província criada em 18 de abril daquele ano), sem uma fundação espanhola formal: nasceu da união de antigas reduções indígenas (Cinto, Collique, San Miguel). A região foi o coração das culturas moche, lambayeque (sicán) e chimú. Em 1987, Walter Alva descobriu perto dali, em Sipán, a tumba intacta do Senhor de Sipán. Mais detalhes na página de história.
Ler a história completa ↓The heart of the Moche and Sicán cultures on the north coast: land of the dazzling Lord of Sipán, of the pyramids of Túcume, of Chiclayo and of a rich tradition of healers and carob groves.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser uma cidade moderna, a região de Lambayeque -onde fica Chiclayo- foi um dos grandes focos de civilização do antigo Peru. Por aqui passaram e se desenvolveram culturas extraordinárias: os mochicas ou moches (séculos I-VIII d.C.), mestres do ouro e da cerâmica; a cultura lambayeque ou sicán (aprox. séculos VIII-XIV), famosa por sua ourivesaria e por erguer enormes pirâmides de adobe; e, por fim, os chimus, que estenderam seu reino até esta zona antes da chegada dos incas.
A herança dessas culturas é o que faz de Chiclayo um destino arqueológico de primeira linha. Os lambayeque deixaram o Vale das Pirâmides de Túcume -um conjunto de 26 pirâmides de barro- e os tesouros que hoje o Museu Nacional Sicán guarda em Ferreñafe. Os mochicas, por sua vez, deixaram enterrado perto da cidade aquele que seria um dos achados mais impressionantes da arqueologia americana.
A tradição religiosa e mágica desses povos não desapareceu: sobrevive na forte cultura de curandeirismo e medicina tradicional da região, que ainda hoje se respira no 'mercado de bruxos' de Chiclayo, com suas ervas, amuletos e rituais. Passado e presente convivem nesta terra do norte.
Em 1987 aconteceu perto de Chiclayo uma das descobertas arqueológicas mais importantes da história do continente. No pequeno povoado de Sipán, uns huaqueros (saqueadores) tinham começado a esvaziar uma tumba no sítio conhecido como Huaca Rajada. Avisado pela polícia, o arqueólogo peruano Walter Alva, diretor do Museu Brüning de Lambayeque, interveio e, em fevereiro daquele ano, iniciou uma escavação de resgate.
O que encontrou foi excepcional: em 26 de julho de 1987, sua equipe deu com o sepultamento intacto de um governante mochica do século III d.C., que foi chamado de Senhor de Sipán. Era a primeira vez que se encontrava, sem saque, uma tumba real de uma civilização pré-colombiana do antigo Peru anterior aos incas. Por sua magnitude e riqueza, foi comparado à descoberta da tumba de Tutancâmon no Egito.
O Senhor de Sipán -um homem de cerca de 1,67 m que morreu por volta dos 40 anos, em torno do ano 278 d.C.- estava enterrado com um enxoval de umas 600 peças: uma máscara e narigueiras de ouro, dois olhos de ouro, um diadema, peitorais de conchas coloridas, braceletes com turquesas, um colar de esferas de ouro e um cetro arrematado em uma pirâmide, além de acompanhantes sacrificados. Tudo isso revelava o enorme poder e o refinamento da elite mochica.
Antes que a arqueologia moderna confirmasse a riqueza das culturas de Lambayeque, já existia um mito fundacional transmitido de geração em geração e registrado pelos cronistas coloniais: a lenda de Naylamp. Conta a tradição que, há muitos séculos, um misterioso senhor chamado Naylamp chegou pelo mar, vindo de terras distantes, em uma grande balsa, com o rosto pintado de cores e vestido com trajes de plumas, acompanhado de um numeroso séquito de concubinas, oficiais e servidores. Desembarcou na foz de um rio da costa norte, no que hoje é a região de Lambayeque, e ali fundou sua corte.
Naylamp trazia consigo um ídolo verde chamado Yampallec (ou Llampallec), que instalou em um templo -o Chot- construído especialmente para abrigá-lo. A partir desse ato fundacional iniciou-se uma dinastia de doze soberanos que governaram sucessivamente o vale. Segundo o mito, quando Naylamp finalmente morreu (ou, em outras versões, ergueu-se aos céus e voltou a seu lugar de origem transformado em ave), seus seguidores esconderam sua morte para que o povo acreditasse em sua imortalidade, reforçando assim o caráter sagrado da dinastia que ele havia fundado.
A lenda termina com a queda dessa linhagem de governantes: Fempallec, o último dos doze descendentes de Naylamp, tentou transferir o ídolo Yampallec de seu local original, um sacrilégio que -segundo o relato- desencadeou a ira divina, expressa em chuvas catastróficas seguidas de uma seca prolongada, até que o povo, enfurecido, matou o governante. Além de seu caráter mítico, os historiadores veem na lenda de Naylamp um relato que codifica em chave simbólica o surgimento real da cultura Lambayeque (ou Sicán) por volta do século IX d.C., e que hoje segue vivo na identidade cultural de toda a região: o próprio nome 'Lambayeque' deriva de 'Yampallec', o ídolo que Naylamp trouxe do mar.
Ao contrário de outras cidades coloniais do Peru, Chiclayo não teve uma fundação espanhola formal, com conquistador e ata. Nasceu do crescimento de um povoado surgido da união de antigas reduções indígenas -Cinto, Collique e San Miguel de Farcap- em torno de um convento franciscano. Seu nome seria associado a um personagem ou cacique local ('Chiclayalep'), e o lugar foi crescendo como ponto de encontro e comércio entre a costa, a serra e os vales.
A cidade foi elevada oficialmente à categoria de 'cidade' em 1835, e a província de Chiclayo foi criada em 18 de abril daquele mesmo ano, por decreto do então presidente Felipe Santiago Salaverry. Por sua posição estratégica, teve um papel relevante em diferentes momentos da história republicana e se consolidou como a grande metrópole comercial do norte peruano.
Hoje Chiclayo é conhecida como 'a Capital da Amizade', um apelido que alude ao calor humano e à hospitalidade de seu povo. É uma cidade movimentada e comercial, não monumental como Trujillo, mas seu valor está no que a rodeia: os museus do Senhor de Sipán e da cultura sicán, as pirâmides de Túcume, seus balneários como Pimentel, seus povoados artesanais como Monsefú e uma das gastronomias mais celebradas do país.