Cusco é uma dessas cidades que entram na gente. Foi o umbigo do mundo para os incas (Qosqo significa justamente 'umbigo' em quéchua) e a capital do Tahuantinsuyo, o maior império da América pré-hispânica. Hoje você caminha por suas ruas de pedra e vai lendo duas épocas ao mesmo tempo: muros incas de pedra perfeita sustentando sacadas e templos coloniais que os espanhóis levantaram por cima. Essa mistura, somada à altitude, ao ar frio e à luz andina, cria uma atmosfera que não se parece com nenhuma outra.
A cidade fica a cerca de 3.400 metros acima do nível do mar, então o primeiro passo é ir com calma: ande devagar no primeiro dia, beba água, experimente o chá de coca e deixe o corpo se aclimatar. Depois que você pega o ritmo, vai querer se perder pelo bairro de San Blas e seus ateliês de artesãos, sentar na Plaza de Armas para ver as catedrais iluminadas no fim da tarde e subir até Sacsayhuamán para ver a cidade inteira a seus pés.
Cusco é também o grande acampamento-base de todo o sudeste peruano: daqui saem os trens para Machu Picchu, os passeios pelo Vale Sagrado, as caminhadas até a Montanha das Sete Cores e a Laguna Humantay, e roteiros mais longos como a Trilha Inca ou a travessia até Choquequirao. Você pode usá-la como ponto de partida ou como destino em si: de qualquer forma, reserve pelo menos uns dois dias para curtir sem pressa.
Segundo a lenda, Cusco foi fundada por Manco Cápac e Mama Ocllo, que saíram do lago Titicaca para civilizar os povos andinos; com o tempo, tornou-se a capital do império inca e diz-se que foi traçada com a forma de um puma. Depois da conquista, os espanhóis a refundaram em 1534 sobre os alicerces incas. A história completa, com suas diferentes versões, está na página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Pare na Plaza de Armas de Cusco e você estará pisando, sem saber, o ponto exato que os incas consideravam o centro do universo. Foi deste lugar preciso que partiam os quatro caminhos que ordenavam todo um império: bastava seguir um deles para terminar, semanas depois, no sul da Colômbia ou no centro do Chile. Não era uma metáfora poética. Para o mundo andino, Cusco era literalmente o umbigo, o nó a partir do qual se tecia o mundo conhecido.
O nome diz tudo. Cusco vem do quéchua Qosqo, que costuma ser traduzido como 'umbigo' ou 'centro'. A cidade era a cabeça do Tahuantinsuyo, o 'império dos quatro suyos' ou regiões (Chinchaysuyo, Collasuyo, Antisuyo e Contisuyo), e esses quatro suyos se encontravam justamente aqui, na esplanada que hoje é ocupada pela Catedral e suas arcadas. Da Plaza de Armas partiam os quatro grandes eixos do Qhapaq Ñan, a rede viária que conectava cada extremo do território andino ao longo de milhares de quilômetros.
A cidade foi organizada com um planejamento deliberado, dividida em setores e cortada por canais de pedra que encaminhavam os rios Saphi e Tullumayo. Uma tradição muito difundida sustenta que o centro inca foi desenhado com a silhueta de um puma, animal sagrado do mundo andino: a cabeça estaria na fortaleza de Sacsayhuamán, o corpo na área da Plaza de Armas e a cauda em Pumaqchupan, o ponto onde dois rios se encontram, perto do Qorikancha. Essa leitura do 'puma' é muito citada, embora alguns pesquisadores a considerem mais um símbolo religioso do que um traçado urbano literal.
Quem fundou Cusco? Aqui a resposta se divide em duas, porque convivem o relato mítico que os próprios incas contavam sobre sua origem e a reconstrução histórica feita pelos estudiosos. Ambas fazem parte da identidade da cidade e vale a pena conhecer as duas.
Sob Pachacútec e seus sucessores, Cusco se tornou a cabeça do maior império da América pré-hispânica. A cidade concentrava os grandes templos, os palácios dos incas e os depósitos do Estado, e dela se administrava um território enorme, conectado pela rede de caminhos do Qhapaq Ñan. O Qorikancha, revestido de placas de ouro, era o centro religioso dedicado ao sol Inti; Sacsayhuamán, no alto, combinava função cerimonial e defensiva.
Era uma capital pensada para impressionar: muros de pedra lavrada com uma precisão que ainda hoje desconcerta, sem uso de argamassa nem da roda, encaixando blocos de várias toneladas que se ajustam à perfeição. Foi essa engenharia que permitiu que boa parte das fundações incas siga de pé cinco séculos depois, inclusive sob os edifícios coloniais.
Em 1533, as tropas de Francisco Pizarro tomaram Cusco e, em 23 de março de 1534, os espanhóis realizaram a 'fundação espanhola' da cidade, impondo um cabildo e um traçado europeu sobre o traçado inca. Longe de apagar o que havia antes, eles levantaram suas igrejas e casarões diretamente sobre os muros incas: por isso hoje a Catedral, o convento de Santo Domingo (sobre o Qorikancha) e tantas construções coloniais repousam sobre fundações pré-hispânicas. Essa sobreposição de dois mundos é, justamente, a marca visual do Cusco atual.
O período colonial deixou também uma enorme marca artística, como a Escola Cusquenha de pintura, que fundiu a iconografia cristã com a sensibilidade andina. Em 1983, o centro histórico de Cusco foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, reconhecendo justamente esse diálogo único entre o inca e o hispânico.
Em 31 de março de 1650, a terra tremeu com uma violência que Cusco não esqueceria por séculos. O terremoto, seguido de centenas de réplicas, reduziu a escombros boa parte da cidade colonial: caíram igrejas, casarões e conventos. Curiosamente, muitos dos muros incas da base ficaram de pé, enquanto as estruturas espanholas construídas por cima desabavam, uma lição de engenharia antissísmica que os cusquenhos ainda contam com orgulho.
Daquela catástrofe nasceu, paradoxalmente, uma época de esplendor artístico. A reconstrução, impulsionada sobretudo pelo bispo Manuel de Mollinedo y Angulo no fim do século XVII, transformou Cusco num enorme ateliê: templos foram erguidos e decorados, retábulos e púlpitos foram entalhados, e floresceu a Escola Cusquenha de pintura, a primeira escola de arte da América. Pintores indígenas e mestiços como Diego Quispe Tito fundiram a iconografia católica com a sensibilidade andina, enchendo as telas de detalhes próprios: virgens em forma de montanha (a Pachamama disfarçada de manto), anjos arcabuzeiros e aquela célebre 'Última Ceia' da Catedral em que o prato central é um porquinho-da-índia (cuy). O terremoto que destruiu a cidade acabou lhe dando sua identidade artística mais reconhecível.
Um testemunho daquele dia sobrevive no chamado 'Quadro do Cabildo' ou 'tela do terremoto de 1650', que mostra os cusquenhos levando em procissão o Senhor dos Tremores para acalmar o sismo. Desde então, esse Cristo é o padroeiro da cidade, e a cada Segunda-feira Santa sua imagem percorre as ruas em uma das procissões mais multitudinárias do Peru.
A Plaza de Armas, que havia sido palco de festas incas e procissões coloniais, também foi testemunha de uma das páginas mais brutais da história peruana. Em 4 de novembro de 1780, o curaca José Gabriel Condorcanqui, descendente da nobreza inca e conhecido como Túpac Amaru II, liderou a maior rebelião indígena contra o domínio espanhol em toda a América. O levante sacudiu os Andes durante meses, mas foi sufocado. Em 18 de maio de 1781, nessa mesma praça, os espanhóis executaram Túpac Amaru II junto com sua esposa Micaela Bastidas e vários de seus familiares: tentaram esquartejá-lo amarrando-o a quatro cavalos e, como não conseguiram, o decapitaram. Longe de apagar a reivindicação, sua figura se tornou símbolo eterno da resistência andina, e seu nome ainda ressoa em toda a América Latina.
O século XX reservava a Cusco outro golpe: em 21 de maio de 1950, um forte terremoto voltou a derrubar grande parte das casas e dos edifícios emblemáticos da cidade. A reconstrução posterior, em plena Guerra Fria e com assessoria internacional, foi uma oportunidade para que os arqueólogos redescobrissem muros incas escondidos sob o reboco colonial, e para que a cidade começasse a se olhar como o tesouro histórico que é.
Esse reconhecimento se tornou oficial em 1983, quando a Unesco declarou o centro histórico de Cusco Patrimônio da Humanidade, valorizando justamente o diálogo único entre o inca e o hispânico. Hoje Cusco é a porta de entrada para Machu Picchu e uma das cidades mais visitadas da América do Sul, mas sua alma continua sendo a daquele umbigo do mundo: a cada 24 de junho, em Sacsayhuamán, milhares de pessoas celebram o Inti Raymi, a festa do sol que os incas honravam há mais de quinhentos anos, prova de que a história aqui não é um museu, e sim algo que ainda se vive na rua.