Há um lago que o Paraguai inteiro carrega no coração, embora muita gente o conheça mais por uma canção do que por tê-lo visto: o lago Ypacaraí. Esse espelho de água doce que se estende entre Areguá e San Bernardino, a pouco mais de uma hora de Assunção, é o destino de veraneio mais tradicional do país e o protagonista de 'Recuerdos de Ypacaraí', a guarânia que deu a volta ao mundo e que tornou o lugar mítico antes mesmo de o viajante chegar.
O Ypacaraí não é um lago de águas cristalinas nem de montanhas imponentes: é um lago plano, largo e sereno, de margens suaves, cercado de povoados com história. Em sua costa oeste está Areguá, a capital de Central, um povoado de ruas de pedra, casarões antigos, ateliês de cerâmica e feiras de morango que ganhou fama de cidade de artistas. Na costa leste está San Bernardino, 'San Ber' para os paraguaios, fundada por colonos germano-suíços e transformada no balneário da moda, com suas praias, seus hotéis e sua agitação de verão.
Este guia percorre o lago Ypacaraí com um olhar prático e caloroso: como chegar desde Assunção, o que fazer em cada uma de suas duas costas, como combinar o passeio com Caacupé e Itauguá, e o que levar em conta — incluindo a situação ambiental do lago — para aproveitá-lo. Mais do que uma única atração, o Ypacaraí é uma experiência da identidade paraguaia: a do veraneio, da guarânia e do pôr do sol sobre a água.
O lago Ypacaraí é um lago natural de origem tectônica, formado numa depressão do terreno por onde escorrem riachos como o Pirayú; ele deságua ao norte pelo rio Salado, que o conecta ao rio Paraguai. Seu nome vem do guarani e está associado à ideia de 'água que se estende' ou 'lagoa'. Muito antes da chegada dos espanhóis, a região era habitada por povos guaranis. Durante a época colonial e depois da independência, suas margens foram terras de fazendas e pequenos povoados. Areguá, na costa oeste, foi por muito tempo local de descanso de verão das famílias abastadas de Assunção, que viajavam no trem da Ferrovia Central. San Bernardino, na costa leste, nasceu em 24 de agosto de 1881 como colônia de imigrantes germano-suíços liderados por Jakob Schaerer e, com o tempo, transformou-se no balneário por excelência do país. A fama internacional do lago veio pelas mãos da música: a guarânia 'Recuerdos de Ypacaraí', composta por volta de 1950 pelo argentino Demetrio Ortiz com letra atribuída a Zulema de Mirkin, converteu o lago num símbolo romântico do Paraguai, cantado em todo o mundo hispânico. Nas últimas décadas, o lago enfrenta sérios desafios ambientais por causa da poluição e da floração de algas, que motivam planos de recuperação. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Paraguay's smallest and most populated department, wrapped around Asunción: the heart of Greater Asunción, land of the ñandutí lace of Itauguá, the filigree and harps of Luque, the strawberries and ceramics of Areguá, on the shore of the legendary Ypacaraí lake.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O lago Ypacaraí é um lago natural de água doce situado no centro da Região Oriental do Paraguai, na divisa entre os departamentos de Central e Cordillera, a pouco mais de uma hora de Assunção. Tem uma superfície próxima de 90 km² e é notavelmente raso: sua profundidade média é de apenas alguns metros, o que o torna um espelho d'água largo e plano, mais do que um lago profundo. É alimentado por arroios como o Pirayú e outros cursos menores que descem da bacia ao redor, e deságua para o norte através do rio Salado, que o conecta ao rio Paraguai.
Sua formação está associada a processos geológicos antigos que criaram uma depressão no terreno, depois ocupada pelas águas. Essa pouca profundidade e seu caráter de bacia fechada com pouca renovação de água explicam, em boa medida, a fragilidade ambiental que hoje o afeta: o lago tem dificuldade para 'se limpar' sozinho, o que o torna vulnerável à contaminação e às florações de algas.
O nome 'Ypacaraí' vem do idioma guarani, língua que compartilha o status de oficial com o espanhol no Paraguai e que está presente na vida cotidiana de todo o país. As interpretações mais difundidas o relacionam com a raiz 'y' (água) e a ideia de 'água que se estende', 'lagoa' ou 'água do lago', em sintonia com a aparência larga e serena do espelho d'água. Como acontece com muitos topônimos guaranis, existem variantes de grafia (Ypacaraí, Ypacarai, Ypacará) e nuances na tradução, que convém tomar como aproximações.
Muito antes da chegada dos espanhóis, a região do lago era habitada por povos de língua guarani, que ocupavam grande parte do atual território paraguaio. Viviam da agricultura (mandioca, milho, batata-doce), da pesca, da caça e da coleta, e mantinham uma relação estreita com os rios, arroios e lagoas da região. O próprio nome do lago, em guarani, é testemunho dessa presença originária que persiste na língua e na cultura do país.
Com a conquista e a colonização espanhola, iniciada no século XVI a partir de Assunção —fundada em 1537 e considerada 'mãe de cidades' do Rio da Prata—, a região do lago ficou dentro da área de influência da capital. Durante a colônia, as margens e os arredores do Ypacaraí foram terras de estâncias, chácaras e pequenos povoados, numa zona de transição entre a capital e as serras da Cordillera.
A evangelização ficou em boa medida nas mãos das ordens religiosas (franciscanos e, mais ao sul, jesuítas), que organizaram povoados indígenas em diferentes pontos do país. A região central, próxima de Assunção, foi uma das primeiras a ser ocupada de forma estável pelos espanhóis e seus descendentes, o que a transformou em uma das áreas mais povoadas e trabalhadas do Paraguai colonial. As localidades que hoje cercam o lago, como Areguá, têm suas raízes nesse período de povoados e paróquias coloniais.
Na margem oeste do lago fica Areguá, uma localidade de raízes coloniais que com o tempo se tornou um dos lugares de veraneio mais tradicionais do Paraguai. Sua igreja paroquial, dedicada à Virgem da Candelária, e seu centro histórico de ruas de pedra e casarões dão conta de sua antiguidade e de sua importância na vida da região central.
Durante o fim do século XIX e boa parte do XX, Areguá foi o destino de descanso de verão das famílias abastadas de Assunção, que buscavam em suas alturas e junto ao lago um alívio para o calor da capital. O desenvolvimento da Ferrocarril Central del Paraguay —uma das primeiras ferrovias da América do Sul— facilitou esse fluxo: o trem conectava Assunção ao interior passando pela região, e permitia chegar com conforto aos povoados do lago. Areguá se encheu então de chácaras e casarões de veraneio, muitos dos quais ainda se conservam.
Com os anos, Areguá foi somando ao seu perfil de cidade de veraneio uma forte identidade cultural e artesanal. Consolidou-se como Cidade da Cerâmica, com uma tradição oleira que se expressa nas numerosas oficinas e barracas de venda de peças de barro, e como uma cidade de artistas, com museus, galerias e espaços culturais. Sua declaração como Patrimônio Cultural e sua designação como capital do departamento Central reforçaram esse papel. Hoje Areguá combina sua memória de balneário histórico com um clima boêmio que a distingue da outra grande margem do lago.
Na margem leste do lago, no departamento de Cordillera, está San Bernardino, fundada em 1881 como colônia de imigrantes alemães. Nas décadas posteriores à devastadora Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), que dizimou a população paraguaia, o país incentivou a chegada de colonos europeus para repovoar e desenvolver o território. Nesse contexto se estabeleceu San Bernardino, que recebeu famílias de origem alemã que deixaram uma marca visível em sua arquitetura, seu traçado organizado e seu clima de vila tranquila.
Ao longo do século XX, San Bernardino —'San Ber' para os paraguaios— se transformou no balneário por excelência do país. Sua localização junto ao lago, seu clima e seu ambiente a tornaram o destino de veraneio da moda, sobretudo para os moradores de Assunção. Foram construídos hotéis, clubes, residências de veraneio e, mais tarde, uma intensa vida noturna que a consolidou como polo do agito de verão paraguaio.
Junto com Areguá, na margem oposta, San Bernardino define a identidade turística do lago Ypacaraí: duas cidades de origens distintas —uma colonial e indígena, a outra de imigração alemã— que compartilham o mesmo espelho d'água e que, a cada verão, recebem milhares de visitantes em busca de descanso, sol e diversão. A história das duas cidades está intimamente ligada à do lago que as une.
Se o lago Ypacaraí é conhecido além das fronteiras do Paraguai, deve isso em grande parte a uma canção. 'Recuerdos de Ypacaraí' é uma guarania —o gênero musical lento e melancólico criado pelo compositor paraguaio José Asunción Flores na década de 1920— que transformou o lago em um símbolo romântico cantado em todo o mundo de língua espanhola.
A peça foi composta por volta de 1950 pelo músico argentino Demetrio Ortiz, com uma letra que evoca o reencontro e a lembrança de um amor às margens do lago, numa atmosfera nostálgica que tocou fundo o público. A autoria da letra costuma ser atribuída a Zulema de Mirkin, embora, como acontece com muitas canções populares da época, os detalhes sobre a composição e a letra apresentem algumas variações conforme as fontes. O indiscutível é o impacto: a canção foi gravada por inúmeros intérpretes em diferentes países e se transformou em um clássico do cancioneiro latino-americano, bem conhecido também no Brasil.
Graças a 'Recuerdos de Ypacaraí', o lago deixou de ser apenas um destino de veraneio nacional para se tornar uma imagem poética: a de um entardecer sereno sobre a água, associado ao amor e à melancolia. Muitos visitantes chegam ao lago com a melodia na cabeça, e a própria paisagem —larga, plana, dourada ao entardecer— parece confirmar o cartão-postal que a guarania fixou no imaginário coletivo. É um desses casos em que uma obra musical acaba definindo a identidade turística e emocional de um lugar.
Nas últimas décadas, o lago Ypacaraí enfrenta um sério problema de saúde ambiental que contrasta com sua imagem idílica. Sua pouca profundidade, sua condição de bacia com pouca renovação de água e, sobretudo, o crescimento urbano e a atividade humana no entorno provocaram uma forte deterioração da qualidade da água. O aporte de esgoto, efluentes e nutrientes favoreceu a eutrofização do lago, ou seja, o excesso de nutrientes que dispara o crescimento descontrolado de algas.
O sintoma mais visível são as florações de cianobactérias (as chamadas 'algas verde-azuladas'), que em alguns verões tingem a água e podem ser tóxicas, a ponto de obrigar a desaconselhar o banho. Esses episódios geraram preocupação pública e viraram notícia recorrente, já que afetam tanto a saúde quanto a economia turística das cidades do lago, que dependem do veraneio.
Diante desse cenário, diferentes autoridades, órgãos e organizações impulsionaram planos de saneamento e recuperação do lago e de sua bacia, que incluem o tratamento de esgoto, o reflorestamento, o controle de efluentes e a conscientização ambiental. A recuperação do Ypacaraí é vista como um desafio de longo prazo e de grande complexidade, dada a quantidade de população e de atividades envolvidas em sua bacia. Para o visitante, isso se traduz numa recomendação prática simples: consultar o estado da água antes de entrar nela e aproveitar o lago também em suas muitas outras formas —a orla, os passeios de barco, a cultura de suas cidades e, claro, seu inesquecível entardecer.