Soroca é uma daquelas cidades que parecem inventadas por um contador de histórias: na margem do Dniéster, de frente para a Ucrânia, guarda uma fortaleza medieval circular quase perfeita —uma raridade na Europa— e, ao mesmo tempo, uma colina coroada por mansões suntuosas da comunidade romani que lhe renderam o apelido de 'capital cigana' da Moldávia. Entre esses dois extremos, uma vela gigante de pedra se ergue sobre o rio em homenagem a quem preservou a língua e a cultura do país. Tudo isso numa cidade tranquila do norte, longe das rotas turísticas de massa, onde o viajante curioso encontra uma Moldávia autêntica e surpreendente.
A fortaleza de Soroca é o grande ímã: um anel de pedra com cinco bastiões, erguido por Estêvão, o Grande, em 1499 e reconstruído em pedra por seu filho Petru Rareș entre 1543 e 1546, com um desenho circular tão geométrico que costuma ser comparado às fortalezas do Renascimento italiano. Restaurada há poucos anos com apoio europeu, hoje dá para percorrer suas muralhas, torres e pátio interno por muito pouco dinheiro. A poucos minutos, a Vela da Gratidão (Lumânarea Recunoștinței) convida a subir suas centenas de degraus para ter a melhor vista do Dniéster.
Este guia percorre Soroca com um olhar prático e honesto: como chegar de Chișinău de rutiera ou de carro, quanto custa de verdade entrar na fortaleza (quase nada), o que esperar da famosa Colina dos Ciganos —e como visitá-la com respeito— e como juntar os três pontos principais num único dia. Um passeio diferente, barato e cheio de história, ideal para quem quer conhecer a Moldávia profunda e não só as vinícolas perto da capital.
Soroca nasceu em torno de um vau do Dniéster, ponto de passagem e de defesa desde a Antiguidade, onde alguns situam a antiga fortaleza genovesa de Olchionia. Em 1499, Estêvão, o Grande, da Moldávia mandou erguer aqui uma fortaleza de madeira para conter as incursões tártaras que atravessavam o rio; entre 1543 e 1546, seu filho Petru Rareș a reconstruiu em pedra com uma planta circular perfeita e cinco bastiões, obra de mestres influenciados pelo Renascimento italiano. A fortaleza defendeu durante séculos a fronteira oriental do principado. Com a anexação da Bessarábia pelo Império Russo em 1812, Soroca ficou do lado russo; no século XX passou pela Romênia (entreguerras), pela URSS e, desde 1991, pela Moldávia independente. Em 2004 foi inaugurada, numa colina próxima, a Vela da Gratidão, idealizada pelo escritor Ion Druță como homenagem a quem preservou a cultura moldava. A comunidade romani, estabelecida há séculos, construiu a partir dos anos noventa as mansões da Colina dos Ciganos. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The north brings together the country's most spectacular landscapes: monasteries carved into the rock above the Dniester, medieval fortresses and sacred valleys full of legends.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Soroca existe por um motivo bem concreto: o rio. Aqui, no norte da atual Moldávia, o Dniestre (Nistru para os moldávios) podia ser atravessado por um vau raso. Era uma das poucas passagens naturais de um rio largo e caudaloso, que nasce nos Cárpatos ucranianos e desce até o mar Negro. Quem controlava esse vau controlava o comércio, as migrações e, sobretudo, as invasões. Por isso o lugar foi habitado e disputado desde tempos muito antigos.
A tradição diz que neste ponto existiu um povoado fortificado ligado aos genoveses, que na Baixa Idade Média mantinham entrepostos comerciais no mar Negro e ao longo dos rios que desaguavam nele. Essa hipotética praça às vezes é chamada de Olchionia ou Alchiona. Lendas à parte, o certo é que a região fazia parte das terras que, no século XIV, se organizaram como o Principado da Moldávia. Era um Estado que se estendia entre os Cárpatos e o Dniestre e que precisou defender o tempo todo o seu flanco oriental.
O inimigo vinha do leste e do sul: as hordas tártaras do Canato da Crimeia e, atrás delas, o Império Otomano em expansão. Eles cruzavam o Dniestre pelos vaus, saqueavam aldeias e levavam prisioneiros. Fortificar as passagens do rio virou uma questão de sobrevivência para a Moldávia, e Soroca, por causa do seu vau, foi um dos pontos-chave dessa linha de defesa natural. A cidade nasceu, portanto, como praça de fronteira, uma função que, de um jeito ou de outro, nunca deixou de ter.
O grande nome da história de Soroca é Estêvão, o Grande (Ștefan cel Mare), voivoda da Moldávia entre 1457 e 1504 e uma das figuras mais veneradas da memória nacional. Estêvão resistiu durante décadas à pressão otomana, tártara, húngara e polonesa e, para isso, ergueu ou reforçou uma rede de fortalezas por todo o principado. Em 1499 mandou construir em Soroca uma fortaleza de madeira e terra sobre o vau do Dniestre, para frear as incursões que atravessavam o rio. Essa primeira praça cumpria sua função, mas era vulnerável.
A transformação definitiva veio com seu filho, Petru Rareș, que reinou em dois períodos (1527-1538 e 1541-1546). Entre 1543 e 1546, Petru Rareș reconstruiu a fortaleza em pedra e lhe deu a forma que hoje a torna única: um anel perfeitamente circular de cerca de 37,5 metros de diâmetro, com cinco bastiões a distâncias iguais. Quatro são redondos e um é quadrado, que serve também de torre de entrada. É uma geometria rara na arquitetura militar do Leste Europeu e muito mais comum nos projetos do Renascimento italiano.
Aliás, os especialistas destacam o parentesco de Soroca com as fortalezas circulares italianas do século XVI, e chegam a compará-la com castelos do norte da Itália. Não se sabe com certeza o nome do arquiteto, mas o desenho revela o contato da Moldávia com as correntes construtivas europeias da época. O resultado foi uma fortaleza compacta, elegante e funcional, pensada para a artilharia e para resistir a cercos. Ela protegeu a passagem do Dniestre durante séculos e hoje é uma das mais bem conservadas do país.
A história moderna de Soroca é a de uma terra que trocou de mãos várias vezes. O Principado da Moldávia acabou como vassalo do Império Otomano, pagando tributo em troca de manter certa autonomia. Mas a região ficou no meio do choque entre potências. Em 1812, depois de mais uma guerra russo-turca, o Império Russo anexou a metade oriental da Moldávia, entre o rio Prut e o Dniestre, território que passou a se chamar Bessarábia. Soroca ficou do lado russo e virou capital de distrito de uma província periférica do império czarista.
No século XIX, sob administração russa, Soroca cresceu como uma pequena cidade de mercado com uma população muito misturada: moldávios (romenos), russos, ucranianos, judeus e ciganos (roma). Os judeus chegaram a formar uma comunidade numerosa e ativa. Esse caráter multiétnico, típico da Bessarábia, marcou a vida da cidade e ainda aparece na convivência do romeno com o russo nas ruas.
O século XX trouxe reviravoltas brutais. Depois da Primeira Guerra Mundial e da queda do Império Russo, a Bessarábia se uniu à Romênia em 1918, e Soroca foi uma cidade romena por duas décadas. Em 1940, em virtude do pacto entre a Alemanha nazista e a União Soviética, a URSS ocupou a Bessarábia e criou a República Socialista Soviética da Moldávia. A Segunda Guerra Mundial voltou a mudar a fronteira várias vezes, com ocupação romeno-alemã e reconquista soviética. Foi também a época do Holocausto, que arrasou boa parte da comunidade judaica da região. De 1944 a 1991, Soroca foi uma cidade soviética, com sua indústria, seus colcoses e sua russificação. Em 1991, com a dissolução da URSS, passou a fazer parte da Moldávia independente.
Já na Moldávia independente, Soroca ganhou, além da fortaleza medieval, um monumento novo e carregado de simbolismo: a Vela da Gratidão (Lumânarea Recunoștinței). É uma torre-capela de cerca de 29,5 metros de altura, em forma de vela acesa, erguida no alto de uma colina rochosa que domina o Dniestre, nos arredores da cidade. A iniciativa foi de Ion Druță (1928-2023), o escritor moldávio mais importante do século XX e uma figura central da identidade cultural do país.
O monumento foi inaugurado em 27 de março de 2004, uma data simbólica: o aniversário da união da Bessarábia com a Romênia em 1918. Seu propósito é declaradamente de memória. Ele homenageia os heróis anônimos que, ao longo dos séculos e apesar das ocupações e das russificações, mantiveram vivas a língua, a cultura e a história da Moldávia. A 'chama' de pedra quer ser uma luz que arde por essa memória. Dizem que, à noite, sua iluminação pode ser vista ao longo do rio, de Otaci, ao norte, até Camenca, ao sul.
Para chegar à vela, é preciso subir uma longa escadaria de pedra que sobe pela encosta. É um pequeno esforço que muitos moldávios fazem quase como uma peregrinação cívica. Quando Ion Druță morreu, em 2023, suas cinzas foram enterradas ao lado do monumento que ele mesmo tinha sonhado, unindo para sempre o escritor ao seu símbolo. A Vela transformou uma colina de Soroca num dos lugares de memória nacional mais queridos do país, o complemento perfeito para a fortaleza que conta a história militar da cidade.
A outra grande marca da Soroca contemporânea é a chamada Colina dos Ciganos (Dealul Țiganilor), no bairro de Bujoreni. A comunidade cigana (roma) vive em Soroca há séculos, e muitos consideram a cidade uma espécie de 'capital' simbólica dos roma da Moldávia. Mas foi a partir dos anos 1990, depois da queda da URSS, que o bairro ganhou a cara que tem hoje. Famílias abastadas, muitas vezes com dinheiro ganho trabalhando no exterior, ergueram mansões de arquitetura exuberante e exagerada.
Essas casas imitam, do seu jeito, prédios famosos do mundo. Fala-se em fachadas inspiradas no Teatro Bolshoi de Moscou, no Capitólio de Washington ou em igrejas com cúpulas douradas. O resultado é um skyline surreal de torres, colunas, balaustradas e telhados que não se parece com nada na Europa. Muitas dessas mansões estão inacabadas por dentro ou só são ocupadas em ocasiões especiais. Funcionam mais como símbolo de prestígio e status dentro da comunidade do que como moradia do dia a dia.
Esse contraste faz de Soroca uma cidade única, impossível de resumir numa só imagem: lá embaixo, junto ao rio, uma fortaleza medieval; numa colina, uma vela da memória nacional; em outra, um bairro de palácios ciganos. Hoje é um lugar tranquilo do norte da Moldávia, longe do turismo de massa. A cidade vive da agricultura, do comércio de fronteira e de um turismo ainda incipiente, atraído pela fortaleza restaurada com fundos europeus. Para o viajante curioso, Soroca é uma aula sobre a Moldávia real: fronteiriça, mestiça, castigada pela história e, mesmo assim, orgulhosa da sua memória.