Gjakova (Đakovica em sérvio) é a cidade do bazar. Seu Çarshia e Madhe, ou Grande Bazar, é o mais longo do Kosovo e um dos mais antigos dos Bálcãs: um quilômetro de ruelas de pedra com umas 500 lojinhas de madeira em estilo otomano, onde ainda trabalham ourives de prata, alfaiates, chapeleiros de qeleshe e os célebres artesãos de berços de madeira (djepa) que deram fama a Gjakova no país inteiro. Passear por ali ao entardecer, entre o cheiro de café e o barulho das oficinas, é viajar ao Kosovo otomano que sobreviveu aos séculos.
Mas Gjakova também é uma cidade de memória dura. Em março de 1999, durante a guerra do Kosovo, as forças sérvias incendiaram boa parte do Grande Bazar e da mesquita Hadum, seu coração espiritual do século XVI. O que se vê hoje é em grande parte uma reconstrução cuidadosa, feita com as mesmas técnicas e materiais, que devolveu ao bazar a sua alma. Essa combinação de beleza otomana e resiliência recente dá à cidade uma atmosfera especial, melancólica e orgulhosa ao mesmo tempo.
Este guia percorre o essencial com um olhar prático: como visitar o Grande Bazar e seus artesãos, a mesquita Hadum e a Torre do Relógio, as pontes de pedra sobre o Erenik, o Museu Etnográfico e a colina Çabrat com suas vistas, além de onde provar a cozinha local (o tavë Gjakovare e a baklava em formato de linguiça) e como usar a cidade como base para explorar o oeste do Kosovo, com os mosteiros de Deçan e Peja e o cânion de Rugova logo ali.
Gjakova cresceu no século XVI em torno da mesquita Hadum e de seu Grande Bazar, que chegou a ter mais de 500 lojas e a figurar entre os bazares mais importantes da região otomana, ao lado dos de Istambul e Skopje. Durante séculos foi um centro de comércio e artesanato, com corporações de ourives, alfaiates e curtidores, e um importante polo cultural albanês. As guerras balcânicas de 1912-13 e, sobretudo, a guerra do Kosovo de 1998-99 atingiram a cidade com força: em março de 1999 as forças sérvias incendiaram grande parte do bazar e a mesquita Hadum, com sua valiosa biblioteca. Depois da guerra, o bazar foi reconstruído quase por completo, respeitando sua forma otomana. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Dukagjin at the foot of the Dinaric Alps: rebuilt Ottoman bazaars, the great monasteries of Peć and Dečani, and the spectacular Rugova Canyon.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucas cidades contam sua história já no nome. Gjakova —Đakovica para os sérvios— fica na planície de Dukagjini (Metohija em sérvio), no oeste do Kosovo, num ponto onde desde a Antiguidade se cruzavam as rotas que ligavam o interior dos Bálcãs à costa do Adriático e à Albânia. Por esse cruzamento passavam caravanas, mercadores e exércitos, e ali, junto ao rio, cresceu um mercado que com o tempo se tornaria cidade.
A origem do nome é discutida e faz parte do folclore local. Uma tradição popular o deriva das palavras albanesas 'gjak' (sangue) e 'va' (vau), ou seja, 'o vau de sangue', em referência a algum episódio violento ou às antigas rixas de sangue reguladas pelo direito consuetudinário das montanhas. Outra explicação, mais historiográfica, liga o nome a um certo Jakup ou à família que deu origem ao povoado. Seja qual for a etimologia real, o nome ficou associado para sempre a essa ideia de fronteira e de intensidade que marca a cidade.
O grande salto de Gjakova, de simples mercado a cidade importante, veio com os otomanos. Depois da conquista da região no século XV, o Império Otomano organizou o território e favoreceu o desenvolvimento de centros comerciais. No fim do século XVI, um notável local, Hadum Aga —Sylejman Efendi Vokshi—, financiou a construção de uma mesquita e da infraestrutura ao redor dela, e com elas nasceu o coração que definiria Gjakova pelos quatro séculos seguintes: seu Grande Bazar.
Em torno da mesquita Hadum, construída por volta de 1594-95, organizou-se o Çarshia e Madhe, o Grande Bazar, que virou o motor econômico e social de Gjakova. No auge, chegou a ter mais de 500 lojas, oficinas, hans (estalagens para caravanas) e fontes públicas, espalhando-se por quase um quilômetro de vielas de paralelepípedo ladeadas por casinhas baixas de madeira. Os cronistas da época o citavam entre os grandes bazares do mundo otomano, na mesma frase que o Grande Bazar de Istambul ou o de Skopje.
O bazar não era só um mercado: era uma cidade dentro da cidade, organizada por corporações de ofício. Cada ofício tinha sua rua ou sua área: os ourives, os alfaiates (terzinjtë), os curtidores de couro (tabakët), os caldeireiros, os fabricantes de qeleshe (o gorro de feltro branco albanês) e os carpinteiros que faziam as djepa, os berços de madeira pintados à mão que tornaram Gjakova famosa em toda a região. As corporações regulavam a qualidade, os preços e a formação de aprendizes, e sustentavam uma vida cívica e religiosa própria, com suas mesquitas, suas fontes e suas estalagens.
Durante os séculos XVII, XVIII e XIX, Gjakova também foi um importante polo cultural e político do mundo albanês. Sua população, majoritariamente muçulmana albanesa, mas com presença católica e ortodoxa, produziu comerciantes ricos, ulemás, poetas e ativistas. A cidade participou ativamente do despertar nacional albanês do século XIX: foi um dos centros ligados à Liga de Prizren (1878), o movimento que reivindicou a autonomia e a unidade dos territórios albaneses diante da partilha que as grandes potências planejavam após a crise do Império Otomano. Esse perfil combativo e consciente da própria identidade acompanharia Gjakova no século seguinte.
O século XX começou com violência para Gjakova. Com as guerras balcânicas de 1912-13, o Império Otomano perdeu seus territórios europeus e a região passou para o reino da Sérvia, dentro do que depois seria a Iugoslávia. A transição foi traumática: nesses anos houve combates, represálias e destruições que danificaram boa parte do patrimônio histórico da cidade e marcaram o início de um longo período de tensão entre a maioria albanesa e as autoridades sérvias e iugoslavas.
No período entreguerras e depois sob a Iugoslávia socialista de Tito, Gjakova continuou sendo uma cidade de maioria albanesa, com seu bazar ainda ativo, embora em declínio diante da industrialização e das novas formas de comércio. A região do Kosovo obteve um status de autonomia dentro da República da Sérvia, que chegou ao ponto mais alto com a Constituição iugoslava de 1974. Para os albaneses do Kosovo, aqueles anos trouxeram avanços na educação e no uso de sua língua, embora as tensões nunca tenham desaparecido por completo.
Tudo mudou no fim dos anos 1980. Em 1989, o líder sérvio Slobodan Milošević revogou a autonomia do Kosovo, impondo um controle direto a partir de Belgrado e afastando os albaneses da administração, das escolas e das empresas públicas. Os albaneses do Kosovo responderam primeiro com uma resistência pacífica e um sistema paralelo de instituições e, mais tarde, diante da falta de resultados, com o surgimento do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK). No fim dos anos 1990, a espiral de repressão e insurgência desembocou numa guerra aberta que atingiria Gjakova com uma dureza extrema.
A Guerra do Kosovo (1998-1999) foi especialmente cruel com Gjakova. A cidade e seu distrito, de esmagadora maioria albanesa e perto da fronteira com a Albânia —por onde entravam armas e refugiados—, viraram um dos cenários mais atingidos pela ofensiva das forças sérvias e iugoslavas. Quando a OTAN começou seus bombardeios em 24 de março de 1999 para conter os abusos contra a população civil albanesa, a repressão no terreno se intensificou.
Nos dias seguintes ao início dos bombardeios, as forças sérvias incendiaram deliberadamente grande parte do Çarshia e Madhe, o Grande Bazar. O fogo devorou centenas de lojas e oficinas de madeira e chegou à mesquita Hadum, danificando o edifício e destruindo por completo sua célebre biblioteca, com manuscritos e livros antigos: uma perda irreparável para o patrimônio cultural do Kosovo. Aquele incêndio foi um golpe simbólico e material no próprio coração da cidade.
Gjakova também viveu uma das páginas mais sombrias da guerra no plano humano: inúmeros massacres de civis, desaparecimentos forçados e expulsões em massa da população para a Albânia. Bairros inteiros foram esvaziados e muitas famílias perderam seus homens, alguns dos quais ainda constam entre os desaparecidos. Esses fatos foram documentados por organismos internacionais e fizeram parte dos processos judiciais posteriores sobre os crimes cometidos durante o conflito. A guerra terminou em junho de 1999 com a retirada das forças iugoslavas e a chegada da missão internacional, mas deixou a cidade marcada pelo luto e pelas cicatrizes visíveis da destruição.
A Gjakova de hoje é, em boa medida, uma cidade reconstruída. Depois do fim da guerra, um dos grandes esforços de recuperação foi justamente o do Grande Bazar: ele foi reerguido quase por completo respeitando o traçado otomano, com as mesmas técnicas tradicionais, a mesma madeira e o mesmo tipo de telhado, de modo que hoje volta a exibir seu aspecto histórico. A mesquita Hadum e a Torre do Relógio também foram restauradas. O fato de o bazar ter recuperado sua forma e voltado a se encher de artesãos é um dos símbolos mais fortes da resiliência da cidade.
O Kosovo declarou independência da Sérvia em 2008, um passo reconhecido por boa parte da comunidade internacional, mas não pela Sérvia nem por alguns países. Gjakova ficou plenamente dentro do novo Estado, com uma população hoje quase inteiramente albanesa; a pequena comunidade sérvia e católica que havia convivido na cidade diminuiu drasticamente durante e depois do conflito. A memória da guerra continua muito presente: há monumentos e cemitérios dedicados às vítimas e aos mortos em combate, e a questão dos desaparecidos segue em aberto.
Apesar de tudo, Gjakova olha para a frente. Seu bazar reconstruído, suas mesquitas, suas pontes de pedra sobre o Erenik e seu clima de cafés fazem dela um dos destinos mais atraentes do Kosovo, cada vez mais visitado por viajantes que descobrem sua beleza otomana e sua história intensa. A cidade mantém a fama de polo cultural e de gente orgulhosa, celebra seu carnaval, mantém vivos ofícios que em outros lugares desapareceram —como o dos berços de madeira— e funciona como porta de entrada para o oeste do Kosovo, com os mosteiros medievais de Deçan e Peja e as montanhas do cânion de Rugova logo ali. Gjakova é, no fim das contas, um lugar onde a beleza e a memória convivem em cada rua de paralelepípedo.