Paros é, para muita gente, a ilha que melhor resume o charme das Cíclades sem cair nos extremos. Não tem o glamour desenfreado e caríssimo de Mykonos nem a vertigem de Santorini, mas também não é um destino parado: é uma ilha vibrante e equilibrada, com vilarejos brancos de cartão-postal, algumas das melhores praias do Egeu, esportes de vento de nível mundial, boa gastronomia e uma vida noturna animada mas tranquila. Um lugar onde o pitoresco, o ativo e o sossegado convivem em harmonia.
Suas duas faces principais são Parikia e Naoussa. Parikia, a capital e porto, mistura o movimento das suas vielas comerciais com a joia bizantina da Panagia Ekatontapiliani, a 'igreja das Cem Portas', um dos templos paleocristãos mais importantes da Grécia. Naoussa, no norte, é uma antiga vila de pescadores que virou o coração chique da ilha: seu portinho veneziano, suas tavernas de peixe à beira d'água e seus bares da moda a enchem de charme de dia e de vida à noite. E por toda parte pulsa a herança do mármore de Paros, o mais puro e translúcido da Antiguidade, com o qual foi talhada nada menos que a Vênus de Milo.
Este guia percorre Paros com um olhar prático e caloroso: o que ver em Parikia e Naoussa, como chegar à linda vila de montanha de Lefkes, quais praias escolher conforme você busque calmaria ou vento (das tranquilas Kolymbithres à meca do windsurf de Golden Beach), como dar um pulo na vizinha Antiparos e sua famosa caverna, onde comer bem e como se locomover pela ilha. Porque Paros recompensa o viajante que busca um pouco de tudo: história, praia, esporte, boa mesa e aquele ar cicládico inconfundível, por um preço mais camarada que o das vizinhas mais famosas.
Paros deve sua fama milenar a uma pedra: seu mármore branco (o lychnites), o mais puro, fino e translúcido da Antiguidade, com o qual foram esculpidas obras-primas como a Vênus de Milo, a Niké de Delos e parte dos tesouros da Acrópole. Habitada desde o Neolítico e centro da cultura cicládica, na época arcaica foi uma potência próspera que fundou colônias como Tasos e deu ao mundo Arquíloco (século VII a.C.), um dos primeiros grandes poetas líricos gregos e pai do verso iâmbico. De Paros vem também a Crônica de Paros (o Marmor Parium), uma célebre inscrição em mármore que registra a cronologia da história grega. Em 490 a.C., por ter apoiado os persas, a ilha foi sitiada sem sucesso pelo general ateniense Milcíades. Depois de passar por Atenas, Roma e Bizâncio, em 1207 foi integrada ao Ducado veneziano de Naxos e, em 1537, caiu sob domínio otomano até a independência grega de 1821-1830. O turismo a descobriu no século XX, tornando-a uma das ilhas mais apreciadas do Egeu. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The white archipelago of the Aegean: cradle of the enigmatic Bronze Age Cycladic culture, with the sacred island of Delos where Apollo was born, the Santorini split apart by the greatest eruption of antiquity and the centuries of Venetian rule in the Duchy of Naxos.
Ler a história de Cyclades →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
No fundo, toda a história de Paros gira em torno de uma pedra. Esta ilha no centro das Cíclades deu ao mundo antigo aquele que foi considerado, por mais de mil anos, o melhor mármore já extraído: o mármore de Paros, e em especial sua variedade mais nobre, o lychnites. Era um mármore branco de pureza quase absoluta, de grão finíssimo e translucidez impressionante. A luz penetrava alguns milímetros na superfície, o que dava às esculturas talhadas nele um calor e uma suavidade quase de pele, impossíveis de conseguir com outras pedras. Os escultores gregos o valorizavam acima de qualquer outro material.
Com mármore de Paros foram esculpidas algumas das obras-primas da arte ocidental. A mais famosa é a Vênus de Milo, aquela Afrodite sem braços que hoje é uma das estrelas do Museu do Louvre. Também a majestosa Niké (Vitória) de Delos, o Hermes de Praxíteles e boa parte das esculturas e relevos de templos e santuários espalhados por todo o Mediterrâneo, incluindo elementos da própria Acrópole de Atenas. Paros exportava seu mármore para todo o mundo grego, e daí vem o nome 'parian', que em várias línguas passou a designar o mármore ou a porcelana da mais alta qualidade.
O curioso é a forma como se extraía o melhor mármore. O lychnites não era tirado a céu aberto: cavavam-se galerias e túneis sob a montanha, na região de Marathi, seguindo os veios mais finos à luz de lamparinas a óleo. Daí o nome, que vem de lychnos, 'lâmpada'. Essas minas subterrâneas, com túneis escavados à mão na rocha ao longo de séculos, ainda podem ser visitadas. Foram o motor da riqueza e da fama de Paros, e o motivo pelo qual uma pequena ilha do Egeu deixou sua marca em museus de meio mundo.
Paros é habitada desde o Neolítico e foi, como suas vizinhas, um dos centros da brilhante civilização cicládica do terceiro milênio a.C., a dos ídolos de mármore. Mas seu grande momento de esplendor chegou na época arcaica, entre os séculos VIII e VI a.C., quando se tornou uma potência próspera e expansionista. Graças ao mármore, à agricultura e à frota, a cidade de Paros acumulou riqueza e fundou colônias. A mais importante delas foi Tasos, no norte do Egeu, uma ilha rica em ouro e recursos que multiplicou seu poder.
Daquela Paros arcaica surgiu uma das figuras mais originais de toda a literatura grega: o poeta Arquíloco (Arquíloco de Paros), que viveu no século VII a.C. (por volta de 680-645 a.C.). Arquíloco foi um revolucionário, um dos primeiros poetas líricos gregos a escrever em primeira pessoa, falando de si mesmo, dos seus amores, ódios, medos e da vida de soldado mercenário. Foi o grande mestre do verso iâmbico, um metro que usou com liberdade, ironia e crueza inéditas. É célebre um fragmento em que ele confessa, sem nenhuma vergonha heroica, ter abandonado o escudo no campo de batalha para salvar a própria vida: 'depois compro outro tão bom quanto', diz, implodindo o ideal guerreiro da época. Essa voz pessoal, mordaz e humana fez dele um precursor de toda a poesia lírica posterior, admirado durante toda a Antiguidade.
Paros homenageou seu poeta por muito tempo. Na ilha existiu um Arquilóquio, santuário dedicado à sua memória, e é desse contexto que vem uma das peças mais valiosas que a ilha deixou para a história: a Crônica de Paros, ou Marmor Parium. É uma grande estela de mármore inscrita no século III a.C. que registra, ano a ano, uma cronologia da história e da mitologia gregas desde os tempos lendários até 264/263 a.C. É uma fonte histórica de enorme valor, hoje guardada em parte em Oxford e em parte no museu da própria ilha.
Como todas as ilhas do Egeu, Paros ficou presa no grande choque entre os gregos e o poderoso Império Persa, as chamadas Guerras Médicas. E nesse conflito tomou uma decisão que lhe custaria caro: apoiar os persas. Em 490 a.C., durante a primeira invasão persa da Grécia, Paros enviou uma trirreme (um navio de guerra) para lutar ao lado dos persas na famosa batalha de Maratona, onde, contra todas as expectativas, os atenienses conseguiram uma vitória histórica.
Depois desse triunfo, Atenas quis acertar as contas com as ilhas que tinham colaborado com o inimigo. O encarregado foi ninguém menos que Milcíades, o general ateniense herói de Maratona. Com uma frota, Milcíades cercou a cidade de Paros e exigiu dos ilhéus o pagamento de uma multa enorme de cem talentos, uma soma colossal. Mas os pários resistiram com firmeza e coragem: aguentaram o cerco por vinte e seis dias sem se render. No fim, os atenienses tiveram que se retirar sem tomar a cidade nem cobrar a multa. Para Milcíades foi um fracasso completo e até trágico: ele saiu ferido da operação (um ferimento que infeccionou) e, de volta a Atenas, foi julgado e condenado pelo fracasso, morrendo pouco depois. A resistência de Paros tinha derrotado, indiretamente, o vencedor de Maratona.
Apesar desse episódio, depois das Guerras Médicas Paros acabou entrando, como o resto das Cíclades, na órbita de Atenas e na Liga de Delos. Seguiu então o destino comum do mundo grego: a hegemonia de Esparta e depois da Macedônia, a época helenística dos grandes reinos surgidos após Alexandre, o Grande, e por fim a incorporação ao Império Romano. Ao longo de todos esses séculos, o mármore continuou sendo sua grande marca de identidade e sua fonte de riqueza, embora a ilha tenha ido perdendo o protagonismo político da época arcaica.
Com a divisão do Império Romano e a ascensão do cristianismo, Paros passou a fazer parte do Império Bizantino. Dessa longa época vem um dos seus monumentos mais veneráveis: a Panagia Ekatontapiliani de Parikia, a 'igreja das Cem Portas'. Suas origens remontam ao século IV d.C., e a tradição liga sua fundação a Santa Helena, mãe do imperador Constantino, o Grande. Conta-se que, a caminho da Terra Santa em busca da Vera Cruz, Helena fez escala em Paros e prometeu erguer ali um templo se cumprisse sua missão. O edifício que vemos hoje é em grande parte fruto de uma reconstrução monumental do século VI, no tempo do imperador Justiniano, o mesmo que construiu Santa Sofia em Constantinopla.
A Ekatontapiliani é um dos conjuntos paleocristãos e bizantinos mais importantes e mais bem conservados de toda a Grécia. Na verdade não é uma igreja, e sim um complexo de várias igrejas e capelas interligadas, com uma grande nave central e cúpula, e sobretudo com um batistério paleocristão excepcional, um dos mais completos que restam no Mediterrâneo oriental, com sua pia em forma de cruz para o antigo rito do batismo por imersão. O nome 'das Cem Portas' alimenta uma bela lenda: dizem que o templo tem noventa e nove portas visíveis e que a centésima, ainda escondida, só vai aparecer no dia em que Constantinopla — que caiu em 1453 — voltar a ser grega.
Durante o longo período bizantino, Paros foi uma ilha cristã relativamente próspera, mas cada vez mais exposta a um novo perigo: a pirataria. As incursões de piratas árabes e, mais tarde, de corsários de todo tipo tornaram esses mares inseguros. Essa ameaça constante levou, com o tempo, boa parte da população a abandonar o litoral e se refugiar no interior montanhoso da ilha, fundando ou fortalecendo vilarejos como Lefkes, protegidos pela distância do mar e por traçados labirínticos pensados para desorientar os atacantes.
A Quarta Cruzada, que em 1204 conquistou Constantinopla e desmembrou o Império Bizantino, mudou o destino de todo o Egeu. Na partilha, as Cíclades caíram nas mãos de aventureiros latinos, e Paros foi incorporada, por volta de 1207, ao Ducado do Egeu (ou Ducado de Naxos), fundado pelo veneziano Marco Sanudo, com capital na vizinha Naxos. Por mais de três séculos, Paros foi governada por senhores feudais venezianos, primeiro como parte do ducado dos Sanudo e seus sucessores, e depois nas mãos de famílias nobres como os Sommaripa e os Venier. Dessa época ficaram os castelos (kastra) que ainda se veem na ilha: o Kastro de Parikia, erguido sobre uma colina reaproveitando tambores de colunas e blocos de mármore de antigos templos gregos — uma impressionante 'reciclagem' da Antiguidade que hoje dá para ver encaixada nas muralhas —, e o pequeno e charmoso castelo circular de Antiparos.
O domínio veneziano terminou com o avanço do Império Otomano. Em 1537, o temido almirante turco Barba Ruiva arrasou e conquistou Paros, que passou ao domínio otomano e ali ficaria, com algum intervalo, por quase três séculos. Como em outras ilhas das Cíclades, o governo otomano foi relativamente indireto e se concentrou sobretudo na cobrança de impostos, deixando certa autonomia às comunidades locais e à Igreja Ortodoxa. Nessa época, com o litoral ainda ameaçado pela pirataria, Lefkes, nas montanhas do interior, funcionou como capital da ilha, protegida dos ataques vindos do mar.
A vida na Paros otomana seguiu o ritmo tranquilo e modesto de uma ilha agrícola e marinheira: vinhedos e vinho, oliveiras, pesca, gado e o eterno mármore, cuja exploração intensa da Antiguidade já tinha se apagado havia séculos. A ilha, como tantas do Egeu, esperava o momento da sua libertação, que chegaria com a grande revolução do século XIX.
Quando, em 1821, estourou a Guerra de Independência grega contra o Império Otomano, as Cíclades aderiram ao levante nacional. Paros deu sua contribuição à causa, e sua história se cruzou com a de uma figura lendária da revolução: Manto Mavrogenous, a heroína de Mykonos que tinha financiado navios e tropas com sua fortuna pessoal. Arruinada depois de entregar todo o seu patrimônio à luta, Mavrogenous passou seus últimos anos justamente em Paros, onde morreu em 1848. Hoje uma estátua e uma praça em Parikia lembram sua figura. Com o reconhecimento internacional da independência da Grécia, selado entre 1828 e 1830, Paros passou a fazer parte do novo Estado grego.
A independência não trouxe prosperidade imediata. Durante boa parte dos séculos XIX e XX, Paros foi uma ilha rural e modesta, que vivia da agricultura, da pesca, da viticultura e de uma breve retomada das pedreiras de mármore de Marathi, exploradas de novo com capital estrangeiro para obras como o túmulo de Napoleão. Como em tantas ilhas do Egeu, a falta de oportunidades levou muitos pários a emigrar para Atenas, os Estados Unidos ou a Austrália em busca de uma vida melhor. Por décadas, a ilha ficou à margem das grandes correntes do mundo.
Tudo mudou com o turismo, que descobriu Paros ao longo da segunda metade do século XX. A combinação de vilarejos brancos de cartão-postal (Parikia, Naoussa, Lefkes), praias magníficas, ventos ideais para windsurf e kitesurf, boa gastronomia e uma vida animada, mas sem os excessos nem os preços de Mykonos, fez dela uma das ilhas mais queridas e equilibradas das Cíclades. Hoje Paros vive sobretudo do turismo, mas soube manter boa parte do seu caráter: a igreja das Cem Portas está de pé há quinze séculos, as velhas galerias do mármore que esculpiu a Vênus de Milo ainda podem ser percorridas, e nas vielas de Lefkes ou no porto de Naoussa ainda pulsa a memória de uma ilha que, graças a uma pedra branca e translúcida, deixou sua marca na história da arte de toda a humanidade.