Abu Dhabi é a capital do país e isso se nota: avenidas largas, muito verde irrigado em pleno deserto e um ritmo mais tranquilo que o de Dubai. Quem chega pensando em arranha-céus encontra primeiro outra coisa: a Grande Mesquita Sheikh Zayed, branca e enorme, com entrada gratuita, e um calçadão à beira-mar de oito quilômetros, a Corniche, onde as famílias saem para caminhar quando o sol baixa. É uma cidade para ir sem pressa.
Nos últimos anos, Abu Dhabi montou na ilha de Saadiyat um dos distritos culturais mais ambiciosos do mundo árabe: o Louvre Abu Dhabi, o Museu Nacional Zayed, o Museu de História Natural, o teamLab Phenomena e, a partir de dezembro de 2026, o Guggenheim. Somam-se a isso o forte Qasr Al Hosn, onde a cidade começou, e o palácio presidencial Qasr Al Watan, que pode ser visitado por dentro e à noite se ilumina com um show de luzes.
Se você viaja com crianças ou curte adrenalina, a ilha Yas concentra Ferrari World, Warner Bros. World, Yas Waterworld e SeaWorld, com traslados internos gratuitos. E se quiser ver o país de antigamente, em uma hora e meia você está em Al Ain, com seu oásis de palmeiras irrigado por canais milenares. Atenção ao orçamento: não é um destino barato, mas menores de 18 anos entram de graça nos grandes museus e muitas das melhores coisas não custam nada.
A história de Abu Dhabi como cidade começa em 1761, quando um grupo de caça da tribo Bani Yas, que vivia no oásis de Liwa, encontrou água doce na ilha. Segundo o Departamento de Cultura e Turismo, por volta de 1790 foi erguida uma torre de vigia sobre esse poço, a primeira estrutura permanente da cidade, e em 1795 o xeque Shakhbut bin Dhiyab transferiu a sede do poder de Liwa para a ilha e construiu o forte que hoje conhecemos como Qasr Al Hosn. Durante o século XIX a economia viveu da pesca e, sobretudo, do mergulho em busca de pérolas; o longo governo de Zayed bin Khalifa (1855-1909), 'Zayed, o Primeiro', foi uma fase de estabilidade. Na década de 1930 o negócio das pérolas desmoronou por causa da crise mundial e da chegada das pérolas cultivadas japonesas. A saída veio pelo petróleo: em 1939 foi assinada uma concessão de 75 anos, em 1958 surgiu petróleo no campo marítimo de Umm Shaif e em 1959 em terra, em Murban. Em 6 de agosto de 1966 assumiu o xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan, que usou a renda do petróleo para construir a cidade moderna, e em 2 de dezembro de 1971 Abu Dhabi e outros cinco emirados fundaram os Emirados Árabes Unidos, com Zayed como primeiro presidente e Abu Dhabi como capital. Zayed morreu em 2004 e está enterrado ao lado da Grande Mesquita, inaugurada em 2007. Depois vieram a Fórmula 1 na ilha Yas (2009), o Ferrari World (2010), o Louvre Abu Dhabi (novembro de 2017), o Qasr Al Hosn como museu (2018), a Casa da Família Abraâmica (2023), o Museu de História Natural (novembro de 2025) e o Museu Nacional Zayed (dezembro de 2025). O Guggenheim Abu Dhabi abre em 11 de dezembro de 2026.
Ler a história completa ↓The capital and the country's richest emirate: from the Liwa oasis and the founding on the island to oil, the Grand Mosque, the Louvre on Saadiyat and Formula 1 on Yas.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome da capital dos Emirados guarda uma lenda. 'Abu Dhabi' significa em árabe 'pai da gazela', e a tradição conta que um grupo de caçadores beduínos seguiu o rastro de uma gazela pelo deserto até uma ilha diante da costa, onde o animal os levou, sem querer, a algo muito mais valioso que a presa: uma fonte de água doce. Numa terra árida e salgada como a do golfo Pérsico, encontrar água potável era um tesouro, e ao redor daquele poço nasceu o povoado.
Os fatos históricos coincidem com o espírito da lenda. Por volta de 1761, um grupo da tribo Bani Yas descobriu água doce naquela ilha plana e desértica, e pouco depois se estabeleceu ali um povoado permanente. A família Al Nahyan, ramo dos Bani Yas vindo do oásis de Liwa, no interior, transferiu sua base para Abu Dhabi por volta de 1793 e construiu uma torre e um forte junto ao poço: o embrião do que hoje é o Qasr Al Hosn, o edifício mais antigo da cidade. Os Al Nahyan governam Abu Dhabi desde então e hoje presidem todo o país.
Durante quase dois séculos, a vida naquela ilha foi dura e austera. Os habitantes viviam da pesca, da criação de camelos e, sobretudo, do mergulho em busca de pérolas nas águas do Golfo, enquanto o clã governante dividia seu tempo entre a costa e o oásis de Al Ain, no interior. Era um mundo beduíno e marinheiro, de subsistência, muito distante da cidade monumental de hoje.
Como toda a costa do golfo Pérsico, Abu Dhabi viveu durante gerações no ritmo das pérolas. Todo verão, as tripulações zarpavam em seus dhows durante meses rumo aos bancos de ostras; os mergulhadores desciam várias vezes ao fundo, sem outro equipamento além de um prendedor no nariz e uma pedra amarrada ao pé, num trabalho exaustivo e perigoso. A pérola era a principal fonte de riqueza e de comércio, e dela dependia quase toda a população.
Politicamente, Abu Dhabi era o maior dos pequenos emirados da costa e controlava um vasto território de deserto no interior que chegava até o oásis de Liwa, na borda do grande Rub al-Khali ('o Quarto Vazio'), e até Al Ain. Ao longo do século XIX, toda essa faixa costeira ficou sob a proteção do Império Britânico: os chamados Estados da Trégua ('Trucial States') assinaram tratados com Londres que punham fim aos conflitos marítimos e à pirataria e garantiam a rota para a Índia. Os britânicos cuidavam das relações exteriores; os xeques, dos assuntos internos.
O golpe veio, como em todo o Golfo, nas décadas de 1920 e 1930. O desenvolvimento da pérola cultivada japonesa, somado à Grande Depressão mundial, derrubou o preço das pérolas naturais e arruinou a economia da região. Abu Dhabi caiu numa pobreza profunda. Muitos emigraram; os que ficaram sobreviveram da pesca e da escassez. Parecia o fim de um mundo. Mas debaixo daquelas águas e daquelas areias se escondia algo que mudaria tudo.
Em 1958, depois de anos de prospecção, foi descoberto petróleo em quantidades enormes diante da costa de Abu Dhabi, no campo submarino de Umm Shaif, e pouco depois em jazidas em terra. As primeiras exportações de petróleo bruto começaram em 1962. Abu Dhabi se revelou, de longe, o emirado com mais petróleo de toda a região: sob seu solo e seu mar estava a maior parte das reservas do que viria a ser o futuro país. De repente, um dos cantos mais pobres do Golfo se tornava um dos mais ricos.
Mas a riqueza sozinha não basta se não houver quem saiba usá-la. Nos primeiros anos, o governante da época, o xeque Shakhbut bin Sultan, desconfiou do dinheiro do petróleo e o guardou sem investi-lo, freando o desenvolvimento. Em 1966, a família Al Nahyan o substituiu por seu irmão, o xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan, que já havia governado com sucesso o oásis de Al Ain e tinha uma visão bem diferente: usar o petróleo para transformar a vida de seu povo.
Zayed se lançou a construir um emirado moderno praticamente do zero: escolas, hospitais, estradas, moradias, água encanada, eletricidade. Incentivou a agricultura no deserto — uma de suas obsessões era 'reverdecer' a terra — e lançou as bases de uma cidade capital onde antes havia areia e umas poucas casas de barro. Em poucos anos, Abu Dhabi começou a se parecer com uma cidade. E Zayed, respeitado e querido, tornou-se a figura política mais importante de toda a costa.
No fim dos anos 60, o Reino Unido anunciou sua retirada do golfo Pérsico e o fim dos tratados de proteção. Os pequenos emirados da costa ficavam sozinhos numa região instável, cercados de vizinhos poderosos. O xeque Zayed percebeu com clareza que a única saída era a união e se dedicou a convencer os outros governantes a criar um Estado federal comum.
Seu empenho deu frutos. Em 2 de dezembro de 1971 nasceram os Emirados Árabes Unidos, uma federação que reuniu Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain e Fujairah; Ras al-Khaimah se juntou no início de 1972. Zayed foi eleito o primeiro presidente do país, cargo que ocuparia por mais de três décadas, até sua morte em 2004. E Abu Dhabi, o maior emirado e, de longe, o mais rico em petróleo, tornou-se a capital da nova nação.
Como capital e principal fonte de recursos, Abu Dhabi financiou boa parte do desenvolvimento do país e se tornou o centro do poder político. O petróleo passou a ser administrado por meio de fundos soberanos que hoje estão entre os maiores do mundo, investindo a riqueza para as gerações futuras. A cidade cresceu de forma planejada, com amplas avenidas arborizadas, jardins irrigados em pleno deserto e uma arquitetura cada vez mais ambiciosa. Zayed sempre insistiu numa ideia: o verdadeiro patrimônio não é o dinheiro, e sim as pessoas, a educação e o cuidado com a terra.
A Abu Dhabi do século XXI é uma capital próspera, moderna e surpreendentemente verde para quem está em pleno deserto. Ao contrário de Dubai, que apostou tudo no comércio, no turismo e no espetáculo, Abu Dhabi construiu sua imagem sobre a solidez do petróleo, o peso institucional e, nas últimas duas décadas, uma aposta ambiciosa na cultura e no conhecimento. Consciente de que o petróleo não é eterno, o emirado investe na diversificação da economia rumo às finanças, à indústria, às energias limpas e ao turismo cultural.
O símbolo dessa aposta é a ilha de Saadiyat, concebida como um grande distrito cultural. Ali foi inaugurado em 2017 o Louvre Abu Dhabi, o primeiro Louvre fora da França, sob uma espetacular cúpula perfurada projetada por Jean Nouvel; e ali se erguem outros grandes museus, como o futuro Guggenheim Abu Dhabi e o Museu Nacional Zayed, dedicado ao pai da nação. Somam-se a isso a deslumbrante Grande Mesquita Sheikh Zayed — onde o xeque está enterrado —, o palácio Qasr Al Watan aberto ao público e as universidades internacionais que se instalaram na cidade.
A figura do xeque Zayed continua presidindo, quase literalmente, a vida do país: seu retrato está em todo lugar, e o Founder's Memorial lhe presta homenagem no coração da capital. Como todo Estado do Golfo, Abu Dhabi convive com luzes e sombras — o enorme peso do trabalho migrante que sustenta a economia, os limites às liberdades políticas, os desafios da sustentabilidade. Mas sua história, a de uma ilha de pescadores de pérolas que, no espaço de uma única geração, se tornou a capital de um país rico e um farol cultural da região, é uma das transformações mais impressionantes do mundo contemporâneo. E tudo começou, diz a lenda, seguindo uma gazela até uma fonte.