Poucas cidades do Adriático recebem você com uma imagem tão marcante quanto Pula: ao dobrar uma esquina, de repente surge a Arena, um anfiteatro romano colossal e quase intacto que está de pé há dois mil anos e que continua lotando, agora para shows e festivais em vez de combates de gladiadores. Essa convivência entre a Antiguidade e a vida cotidiana define Pula, a maior cidade da Ístria e uma das mais antigas da Croácia.
Mas Pula é muito mais do que o seu anfiteatro. O centro histórico é um livro aberto de história: o Templo de Augusto e o Fórum romano, o Arco dos Sérgios, as muralhas e a fortaleza veneziana no alto da colina, e uma camada austro-húngara que lembra a época em que Pula foi o grande porto militar do Império (onde, aliás, o escritor irlandês James Joyce morou e deu aulas). Tudo isso se mistura a um porto vivo, mercados, terraços e, a poucos quilômetros, alguns dos litorais mais bonitos da Ístria.
Este guia percorre Pula com um olhar prático e acolhedor: como visitar a Arena e os monumentos romanos, o que ver no centro histórico, onde nadar nas enseadas do cabo Kamenjak, como dar uma escapada às ilhas Brijuni e como se deslocar e comer bem numa região onde o Adriático se encontra com a cozinha italiana, as trufas e o azeite de oliva. Uma porta de entrada perfeita para a Ístria.
Segundo a lenda, Pula foi fundada pelos colquídios que perseguiam Jasão e os argonautas, mas sua história real começa com os histros, o povo ilírio que deu nome à Ístria. Roma conquistou a região no século II a.C. e Pula (Pietas Iulia) floresceu como colônia romana, atingindo seu auge na época de Augusto: desse período são a Arena, o Templo de Augusto e o Arco dos Sérgios. Após a queda de Roma, passou por mãos bizantinas, ostrogodas e francas e, durante a Idade Média, foi disputada até cair na órbita da República de Veneza, que a dominou por séculos. Decadente e dizimada pelas pestes, Pula ressurgiu com força no século XIX, quando o Império Austro-Húngaro a escolheu como principal porto e base da sua Marinha (a k.u.k. Kriegsmarine): a cidade cresceu enormemente, encheu-se de estaleiros, fortificações e arquitetura imperial, e multiplicou sua população. Depois da Primeira Guerra Mundial passou para a Itália, o que reforçou seu caráter italiano; depois da Segunda Guerra Mundial foi brevemente administrada pelos Aliados e depois integrada à Iugoslávia socialista, o que provocou o êxodo de grande parte da população italiana da Ístria. Com a independência da Croácia em 1991, Pula ficou no novo país, mantendo seu status bilíngue croata-italiano e se reinventando como destino turístico e cultural. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Croatia's westernmost peninsula, Roman and Venetian, Italian for much of the 20th century and today officially bilingual: land of the Pula amphitheatre and the Poreč mosaics, marked by the painful exodus of its Italians after 1945.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
As origens de Pula se perdem entre a história e o mito. A lenda mais famosa liga a cidade ao ciclo grego de Jasão e os argonautas: segundo o relato, os colcos que perseguiam Jasão para recuperar o velo de ouro, como não conseguiram alcançá-lo, não tiveram coragem de voltar de mãos vazias diante do rei Eetes e fundaram uma cidade que chamaram de Polai, que na língua deles significaria 'cidade de refúgio' ou 'asilo'. É só uma lenda, mas dá uma ideia da antiguidade que os próprios moradores atribuíam à sua cidade.
A história documentada começa com os histros, o povo de origem ilíria que habitava a península e que lhe deu o nome: Ístria. Os histros tinham povoados fortificados (castellieri) nas colinas e viviam da agricultura, da criação de gado e, segundo as fontes romanas, também da pirataria no Adriático. A colina onde hoje fica o Kaštel de Pula já era habitada naquela época, numa posição estratégica sobre uma baía naturalmente protegida.
Essa baía, um dos melhores portos naturais do Adriático, seria a chave do destino de Pula nos séculos seguintes. Seu abrigo seguro fez dela primeiro uma praça cobiçada por Roma e, muito mais tarde, a base ideal para a frota de guerra do Império Austro-Húngaro. A geografia marcou, desde o início, a vocação marítima e militar da cidade.
Roma submeteu os histros no século II a.C., e a região passou a fazer parte do mundo romano. Pula virou colônia, provavelmente na época de Júlio César ou de Augusto, com o nome de Colonia Pietas Iulia Pola Pollentia Herculanea. Sob a paz romana, e especialmente durante o reinado do imperador Augusto, a cidade viveu sua primeira grande era de ouro: foi traçado um urbanismo regular em torno do Fórum e foram construídos templos, teatros, muralhas e, acima de tudo, o grande anfiteatro.
A Arena de Pula, erguida entre os séculos I a.C. e I d.C. e ampliada sob o imperador Vespasiano, é o testemunho mais espetacular dessa época: um anfiteatro para mais de 20.000 espectadores, onde aconteciam combates de gladiadores e caçadas de feras. Da mesma fase são o Templo de Augusto, dedicado à deusa Roma e ao imperador, e o Arco dos Sérgios, erguido por uma família local de destaque. A cidade chegou a ter vários milhares de habitantes e foi um porto comercial movimentado, que exportava vinho, azeite de oliva e pedra da Ístria.
O calcário da Ístria, branco e resistente, foi um dos grandes produtos da região: com ele foram construídos não só os monumentos de Pula, mas séculos depois ele também seria usado em Veneza. Depois da crise do Império, Pula passou para a órbita bizantina e depois para as mãos de diferentes poderes, mas a herança romana ficou marcada para sempre na sua paisagem urbana, a ponto de hoje ela ser uma das cidades com mais e melhores monumentos romanos do Adriático.
Depois da queda do Império Romano do Ocidente, Pula e toda a Ístria passaram por mãos sucessivas: os ostrogodos, o Império Bizantino (que deixou sua marca nos mosaicos e basílicas da região), os lombardos e os francos. Durante a Alta Idade Média, a cidade manteve certa importância como sede episcopal e porto, embora muito longe do seu esplendor romano. A instabilidade e as disputas de poder marcaram esses séculos.
A partir da Baixa Idade Média, a Ístria virou palco de disputa entre as grandes potências do norte do Adriático: de um lado, o Patriarcado de Aquileia e os senhores feudais; do outro, a poderosa República de Veneza, que precisava controlar a costa da Ístria para garantir suas rotas marítimas e se abastecer de pedra, madeira, sal, vinho e azeite. Pula caiu definitivamente sob domínio veneziano e ficou na órbita da Sereníssima durante séculos, até a queda da República em 1797.
O domínio veneziano, porém, não trouxe prosperidade a Pula. Pelo contrário: a cidade sofreu um longo declínio. As guerras, os saques (incluindo o dos genoveses, rivais de Veneza) e, sobretudo, as repetidas epidemias de peste e de malária dizimaram sua população, que chegou a se reduzir a uns poucos milhares de habitantes. Os venezianos chegaram até a desmontar blocos dos monumentos romanos para levá-los a Veneza. Daquela época resta, no entanto, a fortaleza do Kaštel, construída no século XVII para defender o porto. Pula entrou na era moderna como uma cidade empobrecida e meio vazia, à espera de um renascimento que chegaria pelas mãos de um novo império.
O renascimento de Pula chegou em 1856, quando o Império Austríaco (depois Austro-Húngaro) decidiu transformar seu excelente porto natural na principal base da sua Marinha de guerra, a k.u.k. Kriegsmarine. Essa decisão mudou a cidade por completo: em poucas décadas, Pula deixou de ser um povoado decadente de uns poucos milhares de habitantes para virar uma próspera cidade militar e industrial de dezenas de milhares de pessoas.
Foram construídos enormes estaleiros (o Arsenal), fortificações por toda a baía, quartéis, hospitais, um observatório naval, bairros inteiros para oficiais e operários e edifícios públicos de estilo imperial. A população se multiplicou e ficou cosmopolita, com croatas, italianos, austríacos, húngaros e gente de todo o império convivendo na cidade. Pula se tornou um dos grandes portos militares da Europa e o orgulho naval da Áustria-Hungria.
Dessa época cosmopolita vem um dos episódios mais curiosos da história da cidade: em 1904-1905, o jovem escritor irlandês James Joyce, futuro autor de 'Ulisses', morou alguns meses em Pula trabalhando como professor de inglês para os oficiais da marinha, antes de se mudar para Trieste. Hoje uma estátua dele, sentado num café com mesas na calçada no centro, lembra essa passagem. O esplendor austro-húngaro terminou de forma abrupta com a Primeira Guerra Mundial e a derrota do império: em 1918, a frota foi desmantelada e Pula mudou de mãos.
Depois da derrota da Áustria-Hungria na Primeira Guerra Mundial, Pula e toda a Ístria passaram a fazer parte do Reino da Itália, de acordo com os tratados do pós-guerra. Durante o período italiano, e sobretudo sob o fascismo, foi promovida uma política de italianização que afetou a população croata e eslovena da região. Pula perdeu sua função de grande porto militar austríaco, mas continuou sendo uma cidade importante da Ístria italiana.
A Segunda Guerra Mundial trouxe uma nova e dramática mudança. Com a queda do fascismo e o fim da guerra, a Ístria foi palco de violência e das foibe (massacres e desaparecimentos), e a região ficou em disputa entre a Itália e a nova Iugoslávia socialista de Tito. Pula ficou alguns anos sob administração aliada e, por fim, pelo Tratado de Paris de 1947, passou para a Iugoslávia. Essa mudança provocou o êxodo ístrio-dálmata: a grande maioria da população italiana de Pula e da Ístria abandonou suas casas e emigrou para a Itália, transformando profundamente a composição da cidade.
Sob a Iugoslávia socialista, Pula se reconstruiu como cidade croata, recuperou sua indústria (estaleiros, fábricas) e desenvolveu o turismo, aproveitando seu patrimônio romano e seu litoral. A Arena começou a ser usada para festivais, como o Festival de Cinema de Pula. Com a desintegração da Iugoslávia e a independência da Croácia em 1991, Pula passou a integrar o novo Estado, mantendo seu caráter bilíngue (croata e italiano) como reconhecimento à sua histórica comunidade italiana, que ainda sobrevive.
Hoje Pula é a maior cidade da Ístria e uma das principais portas de entrada turística da região. Seu grande trunfo é a combinação, pouco comum, de um patrimônio romano de primeira linha — a Arena, o Templo de Augusto, o Arco dos Sérgios, as portas e muralhas — com um litoral mediterrâneo de enseadas e águas cristalinas e uma rica cultura gastronômica da Ístria.
A Arena, esse anfiteatro milenar que sobreviveu a saques e guerras, virou o coração cultural da cidade: todo verão recebe o histórico Festival de Cinema de Pula (um dos mais antigos da Europa, realizado nesse cenário desde meados do século XX) e grandes shows de música clássica, ópera e rock, além de espetáculos de gladiadores. Assistir a um evento a céu aberto, dentro dos muros romanos, é uma das experiências mais memoráveis que a Croácia oferece.
Pula guarda, além disso, as marcas de todas as suas camadas históricas: o legado austro-húngaro nos edifícios e fortificações, a herança italiana na língua e na cozinha, o passado iugoslavo em alguns bairros. É uma cidade de trabalho e de mar, menos 'cartão-postal' que a vizinha Rovinj, mas mais autêntica e com mais história à vista. Para o viajante, é a base perfeita para explorar o sul da Ístria: as ilhas Brijuni, o selvagem cabo Kamenjak, os vilarejos do interior e os vinhedos e lagares de azeite que deixaram a região famosa. Uma cidade onde dois mil anos de história convivem com a vida cotidiana.